Pimenta JR _2007_ O Lugar do Passado - repositorium – Uminho

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Agradecimentos Gostaria de iniciar estes agradecimentos fazendo uma menção especial à Universidade do Minho. A disponibilidade da Unidade de Arqueologia, onde já tinha elaborado o meu projecto de Mestrado, veio demonstrar-me mais uma vez que este é um lugar de excelência – pelas pessoas, pelas ideias, pela liderança. Sei, por isso, que nunca deixarei de me sentir um universitário ‘minhoto’. Este trabalho contou também com o apoio financeiro da FCT, sob a forma de bolsa temporária. Umberto Eco afirma, no seu digest sobre o modo de fazer trabalhos de investigação, que não se deve agradecer aos Orientadores, por razões que são as mais logicamente respeitáveis. Porém, a vida de uma investigação nem sempre se governa pela lógica; se assim fosse, este trabalho nunca teria chegado ao fim. A minha dívida para com a Prof.ª Manuela Martins é imensa, e lamento não ter sabido nunca dizer-lho de uma forma conveniente. Regulamentos incompreensíveis da vida académica portuguesa obrigaram a que, num determinado momento, o Prof. João Carlos Garcia viesse a partilhar com a Prof.ª Manuela Martins a responsabilidade de orientação desta dissertação. Ambos aceitaram a situação com o fair-play que só a grandeza de espírito de um e de outro poderia demonstrar. Esse é um exemplo que guardarei de ambos. A minha relação com a Arqueologia, e com os arqueólogos, é a de um eterno forasteiro. Trabalhar na fronteira desta ciência com a minha própria terá decerto dado origem a equívocos e muitas imperfeições. Contudo, da minha viagem a este lugar, e do convívio com os investigadores que nele habitam, retirei um prazer inexcedível e exemplos que permanecerão para sempre. Com a Prof.ª Manuela Martins aprendi a insaciabilidade da procura do conhecimento, a dignidade plural dos diversos pontos de vista, e a recusa terminante em deixar cristalizar um modo de fazer ciência. Na Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho convivem arqueólogos, arquitectos, geógrafos, matemáticos aplicados, naturalistas. E desta vasta convocação assim definida nasce a riqueza dos modelos interpretativos, numa verdadeira produção transdisciplinar da Ciência do Passado. Gostaria também de fazer uma menção especial aos arqueólogos que me deram o prazer de comentar alguns dos trabalhos parcelares que fui produzindo no contexto da elaboração desta dissertação. Dos muitos arqueólogos a quem pedi uma crítica sobre o que ia escrevendo, poucos responderam, e por isso não me esquecerei nunca da honra que representou para mim, geógrafo intrometido em lugares da Arqueologia, ter recebido críticas atentas por parte do Prof. Jorge de Alarcão, do Prof. José d’Encarnação (de duríssima crítica), do Prof. Francisco Sande Lemos (o único arqueólogo, até hoje, creio eu, que faz uma referência bibliográfica aos meus trabalhos), da Prof.ª Raquel Vilaça, do Prof. Vítor O. Jorge, do Prof. Jorge de Oliveira, da Prof.ª Margarita Díazi

-Andreu, da Prof.ª Katina Lillios (com especial minúcia), do Dr. Jorge Ribeiro, e do Prof. Luís Raposo, que gentilmente me convidou a publicar, por duas vezes, n’O Arqueólogo Português (a revista de Leite de Vasconcelos!) o que, para um geógrafo, como facilmente se compreende, é um motivo de verdadeiro deslumbramento. Entre todos, não posso deixar de fazer referência ao modo como o Prof. Jorge de Alarcão exercia o seu exame crítico. Que um nome máximo da Arqueologia portuguesa se digne responder a um pedido de um investigador que está a dar os seus primeiros passos é já um facto de alguma raridade; que o faça com a solicitude, compreensão e extensão com que o fez, é para mim motivo de uma imperecível gratidão. São inúmeros os geógrafos que, a partir dos seus livros, me ensinaram a descobrir a terra incognita que é o mundo e nós nele, de como estão à nossa espera inúmeras cartografias por desenhar, e de como a existência se torna viável, e apetecível, na espessura da fronteira entre o lugar confortável do que está próximo e o espaço perturbador do que fica distante – nela se situa a verdadeira aventura. Como não me é possível nomeá-los a todos, gostaria de designar os que mais próximos estiveram de mim no tempo deste trabalho. Nos tempos que correm, em que se denunciam todas as formas de autoridade indevida, as formas de tratamento mais arcaicas deixam de ter contexto de utilização. Eu, porém, não encontro outra forma de designação que não seja a que se usava vulgarmente entre os ‘sábios’ oitocentistas – para mim, o Prof. João Carlos Garcia é o meu Mestre. Fui seu aluno há vinte anos atrás, hoje trabalhamos na mesma Escola, e durante todo este tempo vi nele tudo o que é verdadeiramente fundamental na vida universitária: a honestidade intelectual, o rigor científico, a rectidão de uma personalidade exemplar. Aprendi com o Prof. João Sarmento a mais importante qualidade de um trabalho actual em Geografia Cultural: a atenção tolerante do Outro, porque o rigor se exerce primeiramente no lugar de onde se avista, e não na paisagem que dele se tem. Com a Prof.ª Ana Francisca de Azevedo aprendi, feministamente, o significado mais profundo do dialogismo em Geografia, e de como se morde a ‘carne do mundo’. Finalmente, o esforço para levar a bom termo este trabalho dependeu de todas as pessoas da minha Família – que me são muito próximas e por isso guardo os seus nomes para mim. Como muitos antes, como tantos outros que virão, também eu sofri do mal-de-thèse. A eles, aproveito para dizer que este mal tem cura. Além do apoio institucional dos meus Orientadores, que sempre suportaram os sucessivos pedidos de prorrogação, existem dois seres alados sem os quais eu nunca teria tido a paz necessária para terminar este trabalho e que me ensinaram como vencer a vaidade – dedico a ambos este trabalho. Porto, Foz do Douro, 20 Maio de 2007 José Ramiro Pimenta

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Resumo O objectivo central deste trabalho é o de ‘localizar’ a História da Ciência. Normalmente a ciência é considerada como sendo constituída por conceitos de universalidade, sendo mesmo esta a sua principal característica que a opõe a, e diferencia de, outras expressões da actividade humana. Neste caso, porém, gostaríamos de mostrar de que modo o ‘lugar’ específico de uma investigação, o espaço-tempo de onde-e-quando um investigador tem origem, pode ter uma influência directa nas proposições científicas finais do trabalho teórico. Serão considerado três níveis através dos quais uma ‘Geografia Histórica de Ciência’ pode ser enunciada: ‘regionalização teórica’; ‘topografia social’ e ‘cronotope’. A ‘regionalização’ de uma teoria diz respeito aos esquemas alternativos regionais a que um mesmo conjunto de dados, ou de dados muito semelhantes, pode dar origem. Por exemplo, em meados do século dezanove europeu um mesmo argumento baseado no ‘reconhecimento inter-cultural’ foi usado por ‘celtistas’ e ‘germanistas’ para integrar tribos de filiação duvidosa em cada um dos dois universos étnicos referidos. Por ‘topografia social’ pretende-se significar o nível estrutural de formulação espacial das práticas sociais e vice versa. Tal diz respeito, especialmente, a designar e analisar os diferentes ‘espaços sociais’ em que a prática científica tem lugar. As linhas sociais de fractura pelas quais se organiza a produção e recepção das teorias científicas estão intimamente relacionadas com a expressão final das próprias proposições teóricas. Não é sem significado, cremos nós, por exemplo, que a Academia Portuguesa de História, criada sob o patrocínio do regime totalitário da ditadura de Salazar, obrigasse a que os membros dessa associação residissem na cidade capital do país (Lisboa), e a coincidência que, durante o mesmo período, a produção oficial do conhecimento teórico sobre a História invariavelmente favorecesse as teses e os temas ‘nacionais’. O último nível estrutural considerado é o ‘cronotope’, uma palavra e um conceito que derivam largamente da concepção bakhtiniana de ‘espaço-tempo’ no seio de uma narrativa. Por ‘cronotope’ pretende-se, muito simplesmente, designar os efeitos funcionais, no presente, de uma determinada narrativa no passado. Em poucas palavras, trata-se de responder à seguinte questão: ‘Qual o efeito que a passagem do tempo e a volução no espaço detêm na personagem principal de uma narrativa’? iii

Francisco Martins Sarmento nasceu em 1833, e viveu durante toda a sua vida em Guimarães (na cidade ou nas suas propriedades próximas). Dedicou a parte final da sua vida (pelo menos desde 1876 a 1899, ano da sua morte) a estabelecer os princípios de uma teoria etnogénica dos Lusitanos; neste contexto, foi ainda responsável pela escavação de dois povoados fortificados, Sabroso e Briteiros. Em 1887, Martins Sarmento apresentou um trabalho, obra muito polémica, no qual defendia que a lenda grega dos Argonautas era de facto uma narrativa das primeiras viagens dos Fenícios ao Ocidente, e especificamente às Ilhas Britânicas, onde tentariam adquirir o domínio do comércio do estanho. A partir de uma estratégia hermenêutica ‘ocidentalista’, o autor pôde demonstrar que sob a voz das narrativas épicas dos feitos de Jasão (e, do mesmo modo, de Ulisses e Hércules) corria uma ‘argonáutica fenícia’, de que o autor pretende restituir a geografia antiga correspondente. A característica mais notória das ‘geografias imaginárias’ presentes em Martins Sarmento é a filiação ‘ariana’ do território português. Para este autor, a ‘raça ariana’ teria vindo da sua pátria distante, a Ásia, atravessaria toda a Europa, cobrindo todo o continente com a sua indústria e arte, até que finalmente atingiria o extremo ocidental, onde se manteriam até o tempo da invasão romana. Quando singularmente considerado, este é o elemento mais importante das hipóteses do autor: a migração ‘ariana’ é a origem e, assim, a marca da pureza étnica dos Lusitanos, e por isso, dos Portugueses. Em íntima relação com as origens ‘arianas’ do povoamento pré-histórico da orla ocidental da Península Ibérica, Martins Sarmento tenta provar que esta mesma ‘pureza inicial’ não é nunca posta em questão pelos eventos políticos e militares subsequentes. Para o autor, nenhum dos inúmeros povos que posteriormente atingiram a Península Ibérica (Fenícios, Celtas, Cartagineses, Romanos, Germanos…) pôde perturbar ou ‘contaminar’ decisivamente a ‘pureza genealógica’ dos Lusitanos. Toda a armadura que estrutura as hipóteses históricas e etnogénicas liga-se com uma série de esferas concêntricas de identidade, desde o espaço continental da Europa até ao domínio da domesticidade do autor. De um modo simples, diremos que este trabalho pretende demonstrar que na narrativa histórica de Francisco Martins Sarmento ressoam as suas própria condições subjectivas de formação da identidade.

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Abstract The aim of this work is to bring ‘place’ into history of science. Usually, science is considered to display universal features, this being the main characteristic when compared to, and differentiated from, other expressions of human action. In this case, however, we would like to show how the specific setting of an investigation, how the space-time from where (and when) a researcher comes from, may have a direct influence in the final scientific propositions of his or her theoretical work. There shall be considered three structural levels, from which a ‘historical geography of science’ can be devised: ‘theoretical regionalisation’, ‘social topography’, and ‘chronotope’. The ‘regionalisation of theory’ refers to the alternative regional schemes in which the same, or closely related, sets of data may be organized. For instance, in mid-nineteenth century, ‘celtists’ and ‘germanists’ used alternatively the same argument, based on ‘cultural inter-recognition’, to subsume certain loosely defined tribes into each one’s respective universe. By ‘social topography’ we mean the structural level of spatial formulation of social practices, and vice-versa. This refers, specifically, to display and analyse the different ‘social spaces’ in which the social practice of science takes place. The social lines of fracture through which the production and reception of scientific theories ride are intimately connected to the final expression of theoretical propositions. It is not meaningless, I think, for instance, that the Portuguese Academy of History, created under the patronage of the totalitarian Salazar’s dictatorship, made obligatory for the members of that association to live in the city capital (Lisbon), and the coincidence that, during that same period, the official production of historical theoretical knowledge invariably favoured the ‘national’ themes. The last structural level of analysis I refer to it as ‘chronotope’, a term, and conceptualization, largely drawn upon the Bakhtinian conception of time-space in narrative. By ‘chronotope’ I refer specifically to the functional effects, at the present, of a certain narrative of the past. In short, it is a matter of responding a specific question: ‘What effect has the passing of time and wandering on space in the main character of the narrative?’

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Francisco Martins Sarmento was born in 1833, and lived through all his life in Guimarães (in the city or at his estate nearby) in northwest Portugal. He devoted the final part of his life (at least since 1876 till 1899, year of his death) to establish a theory dealing with the ethnogenesis of the Lusitanians; in this context, he also was responsible for digging out two pre-roman fortified settlements in Sabroso and Briteiros. In 1887, Martins Sarmento presented a work, a very polemical one, in which he defended that the Greek legend of the Argonauts were in fact an account of the Phoenicians first voyages to the West, and specifically to the British Isles, from where they were convinced they could gain control over the tin trade. Using ‘west’-oriented hermeneutical manoeuvres, the author sought to demonstrate that under the epic narrative of Jason’s deeds (the same with Ulysses and Heracles) laid a ‘Phoenician argonautic’, of which the author tries to re-establish the equivalent geography. The most striking feature of the ‘imaginative geographies’ displayed in Martins Sarmento’s work is the ‘Aryan’ affiliation of the Portuguese territory. To this author, the ‘Aryan race’ had come from its distant homeland, in Asia, and had traversed all Europe, covering the whole continent with its industry, art and spirituality, till they finally reached the most distant west, where they stayed till the times of Roman invasion. This is the most important singular element of Martins Sarmento’s historical hypotheses: the ‘Aryan’ migration is the origin, and the token of the ethnical purity of the Lusitanians, and therefore of the Portuguese. In intimate relation with the ‘Aryan’ origins of the pre-historic settlement of west fringe of the Iberian Peninsula, Martins Sarmento is eager to prove that that same ‘initial purity’ is not put into question by the subsequent military and political events. To him, none of the several people (Phoenicians, Celts, Carthaginians, Romans, Germans, etc…) that had come in later times to the Iberian Peninsula did disturb or ‘contaminate’ decisively the ‘genealogical tree’ of the Lusitanians. The whole structural armour of Martins Sarmento’s historical and ethnogenic hypotheses linger from a series of concentric spheres of identity, beginning with the broader space of Europe, and progressively narrowing down into the domestic domain of self. In short, this work aims to demonstrate that Francisco Martins Sarmento’s narrative of the Past resonates his own conditions of subject formation. vi

Índice de Conteúdos Agradecimentos ....................................................................................................................................i Resumo ................................................................................................................................................iii Abstract ................................................................................................................................................v Índice de Conteúdos ..........................................................................................................................vii Índice de Figuras ..............................................................................................................................viii I – Elementos de Geo-historiografia...................................................................................................1 I. 1. A afirmação do ponto de vista geográfico................................................................................. 2 I. 1.1. O Tempo.................................................................................................................................................................3 I. 1.2. O Lugar ................................................................................................................................................................35 I. 1.3. A Racionalidade ...................................................................................................................................................94

I. 2. A geografia do conhecimento científico ................................................................................ 132 II – O passado do Lugar..................................................................................................................157 II. 1. A leitura intertextual d’Os Argonautas ................................................................................ 159 II. 2. A hermenêutica ‘fenícia’ ...................................................................................................... 196 II. 2.1. Heracleia ...........................................................................................................................................................209 II. 2.2. Errores de Ulisses..............................................................................................................................................240 II. 2.3. Argonáutica.......................................................................................................................................................275 II. 2.4. A narrativa restituída.........................................................................................................................................324

II. 3. Escala e identidade .............................................................................................................. 358 II. 3.1. Europa: O ‘povo dos dólmens’..........................................................................................................................361 II. 3.2. Ocidente: os Lígures..........................................................................................................................................380 II. 3.3. Portugal: a “Ora maritima”................................................................................................................................391 II. 3.4. Entre-Douro-e-Minho: Lusitanos, Lígures e Celtas...........................................................................................426

III – O lugar do Passado .................................................................................................................471 III. 1. Espaço................................................................................................................................. 477 III. 1.1. A Ciência romântica do Passado......................................................................................................................477 III. 1.2. A Ciência positiva do Passado .........................................................................................................................484

III. 2. Lugar................................................................................................................................... 506 III. 2.1. A obra sarmentiana no contexto do seu tempo.................................................................................................506 III. 2.2. A obra sarmentiana como História e Romance ................................................................................................527

III. 3. Paisagem............................................................................................................................. 532 III. 3.1. O elemento metaparadigmático na historiografia de Martins Sarmento ...........................................................532 III. 3.2. O elemento cronotópico na narrativa histórica de Martins Sarmento ...............................................................542

Bibliografia.......................................................................................................................................553

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Índice de Figuras Figura 1 – A ‘regionalização geopolítica’ da Revue Celtique ..................................................................118 Figura 2 – ‘Lusitânia’ como construção geo-historiográfica....................................................................154 Figura 3 – A ‘genealogia cartográfica’ de Martins Sarmento...................................................................175 Figura 4 – Povoados fortificados (‘castros’) explorados por Martins Sarmento ......................................180 Figura 5 – ‘Geopolítica’ da estrutura citacional dos Argonautas .............................................................186 Figura 6 – O âmbito geográfico da Argonáutica de Apolónio..................................................................276 Figura 7 – A ‘geografia argonáutica’ restituída........................................................................................325 Figura 8 – Europa: o ‘Povo dos Dólmens’ ...............................................................................................363 Figura 9 – O Ocidente ‘lígure’, segundo Martins Sarmento.....................................................................385 Figura 10 – A polémica linguística entre Adolfo Coelho e Martins Sarmento.........................................389 Figura 11 – A ‘Ora maritima’, segundo Martins Sarmento ......................................................................394 Figura 12 – O Noroeste ‘lígure’ da Península Ibérica, segundo Martins Sarmento .................................431 Figura 13 – Os ‘Belgas’ na geo-historiografia de Martins Sarmento .......................................................436 Figura 14 – Identidade e Alteridade de Portugal: Os ‘ciclos da história’ segundo Martins Sarmento ....544 Figura 15 – Mapa ‘da aluvião celta’ (segundo Martins Sarmento)...........................................................546

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I – Elementos de Geo-historiografia

Este estudo pretende contribuir para trazer para a história da Ciência, e especialmente para a história da Arqueologia, uma visão associada a uma série de propostas que tomam em consideração o carácter constitutivo do ‘lugar’ na produção dos fenómenos sociais, neles incluindo a produção de conhecimento científico.1 Neste contexto serão delimitadas três instâncias de uma possível abordagem geográfica da história da Ciência: a ‘regionalização teórica’, a ‘topografia social’ e o ‘lugar da ciência’. A primeira destas instâncias diz respeito à variação de índole regional que acompanha a produção alternativa ou a difusão teórica de determinadas propostas de trabalho científico; a segunda incide a atenção sobre os mecanismos espaciais e sociais de difusão das propostas teóricas no seio das comunidades científicas; finalmente, a terceira considera especificamente os lugares materiais e sociais de produção, acumulação e reprodução do conhecimento científico. Deste modo, pretende-se vir a complementar a ‘história da ciência’, que tende a dar mais atenção às marcas temporais de evolução da ciência (McMullin 1974: 597), não apenas por uma ‘geografia histórica da Ciência’, que descrevesse aquela evolução como uma difusão diferencial de um conhecimento universal, mas por uma ‘geografia cultural da história da Ciência’, visão esta que consagra o papel relevante do lugar, da territorialidade e do corpo na produção, difusão e recepção do conhecimento científico, e que apresenta este como uma concreção têmporo-espacial específica. Ilustraremos, por fim, como exemplo concreto de aplicação deste modelo de descrição histórica do conhecimento científico,2 alguns exemplos retirados do estudo de caso do programa de investigação arqueológica de Francisco Martins Sarmento, nome que ficou historiograficamente conhecido em

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A inclusão da Ciência, actividade tradicionalmente considerada com neutra e objectiva, e por isso desligável

das condições concretas da sua produção, é desde há muito posta em questão e foi objecto teórico das preocupações da ‘escola de Edimburgo’ de sociologia da ciência (Barnes 1974; 1977; Kolakowski 1978; Barnes e Shapin 1979). 2

Este trabalho deve muito aos trabalhos de David N. Livingstone (1987a, 1987b, 1992a, 1992b, 1995, 1997,

2002, 2003, 2005), para a concepção estruturada de uma teoria da ‘geografia histórica do conhecimento’. A estrutura da introdução teórica deste nosso trabalho é, de resto, inspirada na estrutura do estudo de 1995.

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Portugal por ter dado início a uma tradição de investigação que tem como objecto a História e Arqueologia do I milénio a.C. do Noroeste da Península Ibérica. I. 1. A afirmação do ponto de vista geográfico O ponto de vista geográfico tem vindo a insinuar-se de uma forma progressivamente crescente no seio das Ciências Sociais. São tomados em conta conceitos associados à Geografia, como lugar, espaço ou paisagem, e o tipo de efeitos que produzem na estruturação, manutenção e reprodução das relações sociais. A área da história e filosofia da Ciência não escapou a esta voga e podem ver-se já em inúmeros trabalhos exemplos da consideração dos efeitos geográficos na história da produção e difusão do conhecimento científico. É porém necessário dizer que não pretendemos reduzir o discurso geográfico ao género científico produzido especialmente pela disciplina da Geografia. Como teremos oportunidade de mostrar, existem abordagens geográficas desenvolvidas em outros campos do saber que, em conjunto, possibilitam que se fale de um discurso geográfico que é muito mais extenso do que aquele que é produzido institucionalmente pela disciplina da Geografia. A inclusão de propostas ‘geográficas’ em ciência social é tão mais importante quanto a tradição do pensamento moderno ocidental sempre privilegiou o tempo em detrimento do espaço como factor de evolução dos fenómenos sociais: [All the leading exponents of classical tradition] have this in common: they prioritise time and history over space and geography and, where they treat the latter at all, they tend to view them unproblematically as the stable context or site for historical action [Harvey 1985: 141].3

Uma pista que permite de imediato considerar que a inclusão ‘geográfica’ na interpretação em Ciências Sociais não é exclusiva da disciplina onde naturalmente se sentiria mais à vontade é o facto de os historiadores da Geografia não usarem eles

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A partir desta ordem de contextualização ‘geográfica’ do trabalho historiográfico a que aqui nos propomos,

podemos reformular a conhecida asserção historicista de Collingwood: ‘No historical problem should be studied without studying (…) the history [AND GEOGRAPHY (JRP)] of historical thought about it’ (1946: 132).

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mesmos esse tipo de abordagem quando estudam a história da disciplina.4 Por outro lado, também na Geografia, e entre os seus historiadores, existe a tendência para isolar o objecto de estudo através de linhas divisórias que nada têm a ver com a realidade concreta sobre a qual se debruçam, mas sim com aquilo que, adaptando Geertz, poderíamos apelidar de ‘paisagens muradas’, que artificialmente, e activamente, separam o que deveria estar unido.5

Não esquecendo nunca a já referida distinção entre ‘geografia’ como discurso geral e a prática específica da disciplina da Geografia, e escolhendo o primeiro deles como o mais importante na caracterização de uma abordagem que incorpora os conceitos de lugar, de espaço e de paisagem na análise da história da Ciência, creio que podemos afirmar que estamos em presença de uma ‘inflexão geográfica’ nas Ciências Sociais. O que justamente tentaremos fazer é um levantamento, mais ilustrativo do que extensivo, de exemplos desta ‘inflexão’ em trabalhos de várias das ciências sociais. Naturalmente, daremos mais relevo aos trabalhos que digam respeito mais directamente à história da Arqueologia.6 I. 1.1. O Tempo 1) Dos trabalhos em que se pode constatar uma incorporação do espaço como factor explicativo da estrutura social do poder, os de Foucault não são decerto os menos

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Mas também a historiografia da Arqueologia nos adverte (Murray 1999: capítulo introdutório) que se sentiu,

por muito tempo, uma enorme resistência em considerar como activamente construída pelo sujeito a própria materialidade do registo, sobretudo pelo poder ‘concretizante’ do registo em si mesmo (Andrews, Barrett e Lewis 2000: 525-530). 5

No exemplo concreto da arqueologia do I milénio a.C. no noroeste da Península Ibérica, no contexto da

chamada ‘cultura castreja’, podem detectar-se inúmeras situações deste género, sendo a mais evidente a que procede ao estudo de uma realidade arqueológica de um vasto território segundo limites das fronteiras nacionais dos países ou das regiões que hoje constituem o território em que aquela cultura arqueológica se distribui. 6

As disciplinas da Arqueologia e da Geografia viveram fases de relação diferenciadas ao longo da sua história

como disciplinas científicas. Se é sempre possível detectar armaduras teóricas supra-disciplinares que conformaram uma epistemologia comum a ambas (Pimenta 1996), é possível também detectar momentos em que uma ou outra se aproximaram voluntariamente: é o caso dos trabalhos de Clarke que chegou a propor uma ‘paradigma geográfico’ para a Arqueologia e que sempre explicitou as influências da escola de Geografia de Cambridge (Chorley e Haggett, especialmente) no seu próprio trabalho (e.g.: 1968; 1979).

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importantes. Neles podemos ver o modo como o conceito de espaço e a consideração dos seus efeitos são tomados em consideração na análise histórica da sociedade. Foucault, ao contrário da maioria dos autores modernos, elege como ‘trope’ narrativo não a continuidade, a ‘história’ do conhecimento e do saber, mas, ao contrário, os momentos e os lugares de crise e de descontinuidade, os interfaces de conflito e repressão, configurando antes uma ‘arqueologia do saber’. Nesse contexto, parte do seu esforço interpretativo tem como objectivo demonstrar que a visão continuista e presentista da evolução do pensamento ocidental da Modernidade é mais uma ficção do que um facto, estando permeado de constantes relações de contingência, que só retrospectivamente se apresentam como uma unidade evolutiva. Ora, uma manifestação específica e esperada dessa relação de contingência é o carácter ‘situado’ do conhecimento, isto é, intimamente entretecido com as relações sociais de conflito e repressão que o tornam eficaz, ou pelo menos viável. É comum referir a noção que detém Foucault de que o ‘poder está inscrito no espaço, não no tempo’. E isso mesmo se pode constatar das suas palavras quando afirma: Once knowledge can be analysed in terms of region, domain, implantation, displacement, transposition, one is able to capture the processes by which knowledge functions as a form of power and disseminates the effects of power (…) [therefore] geography must necessarily lie at the heart of my concerns [Foucault 1980: 69 e 77].

Justamente porque para Foucault o carácter constitutivo do lugar e do espaço na definição e manutenção da relação de poder é incontornável é que quando apresenta exemplarmente a sua história fá-lo a partir de ‘espaços de poder’, lugares em que se organiza a concretização explícita e brutal do poder do conhecimento e do reconhecimento do poder, como sejam, a prisão, o hospício, etc.7

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O carácter espacial do ‘poder do conhecimento’ e a sua estruturação em lugares de ‘reconhecimento do poder’

tornou-se para mim bastante óbvia quando assisti ao IV Congresso de Arqueologia Peninsular (Faro, 14 a 19 de Setembro de 2004; ver epígrafe deste capítulo), onde apresentei um trabalho de preocupação ‘geo-historiográfica’ no contexto da arqueologia portuguesa, especificamente da chamada ‘cultura castreja’ (Pimenta 2004b). À entrada do

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Mas existe uma outra dimensão muito importante na caracterização que Foucault faz destes espaços, e que passa pela constatação da sua qualidade ‘heterogénea’ e ‘irredutível’. Porque estão imersos em relações sociais conflituantes e repressoras, e eventualmente com estratégias de des-identificação do sujeito humano, que tornam por isso mesmo a identidade, individual ou colectiva, numa luta constante contra a alienação, são espaços que escapam à visão ‘corológica’ clássica que supunha possível a ‘soma’, a contiguidade dos elementos neutros como definidora de regiões mais vastas. Não é pois de estranhar que Foucault os nomeie como ‘espaços de dispersão’, e os conceptualize como locais de onde ‘emanam discursos multiformes’. Nestes locais não é mais possível estabelecer o tipo de distinção analítica e dicotómica que o modo corográfico e estritamente geográfico, próprio da ciência geográfica moderna, com origem na ciência geográfica dos gregos e que se manteve, sob diversas formas até à fase histórica actual da disciplina que facilitadamente se veio a chamar pós-moderna. Neles não existem regras objectivas de definição da verdade, nem modos universais de a verificar. São locais em que co-habitam ou se opõem formulações múltiplas de verdade e de identidade, e em que estas se verificam e se aceitam sempre dentro de uma estrutura de poder desigual que a umas dá visibilidade e operatividade e a outras torna invisíveis e ineficazes.8 Alguns autores, porém, não deixaram de detectar alguma incoerência entre a descrição ‘opaca’ e absolutamente dependente das relações de poder dos lugares de Foucault e a pretensão de cientificamente os anatomizar para expor as suas regras de funcionamento. A serem lugares de imersão absoluta para quem os vivencia, não se vê como podem permitir que se exponham a um cientista social. Especificamente, E. Said incide a crítica no carácter totalizante das propostas de Foucault que, tendo origem em exemplos ‘locais’, são erigidos posteriormente como manifestações ‘universais’ das

anfiteatro principal em que iria decorrer a cerimónia de abertura, um dos organizadores do evento perguntou-me, amável mas significativamente, sobre o que ‘fazia ali um geógrafo!’ A questão foucaultiana reside naquele ‘ali’. 8

A afirmação de uma corrente ‘pós-moderna’ na Arqueologia operou-se a partir de diversas propostas de

‘interpretação da interpretação do significado’ da cultura material, com isto querendo dizer que se estendeu não apenas à relação ‘ocultada’ do significado do objecto material, mas também das condições sociais, culturais e ideológicas da sua interpretação por parte do sujeito interpretante (Hodder 1982a, b, 1986; Hodder ed., 1982, 1985, 1991; Hernando 2002: 137 e ss.; Joyce 2002; Hegmon 2003: 213-243).

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relações entre o poder e o conhecimento (Taylor 1985: Habermas 1986). Mas para além das críticas mencionadas, é imensa a influência de Foucault e do pós-estruturalismo na incorporação dos efeitos dos lugares nas Ciências Sociais contemporâneas. A importância que a facticidade irresolúvel do concreto detinha na metafísica de Foucault fica bem expressa pelas suas próprias palavras: But this inexhaustible wealth of visible things has the property (which both correlates and contradicts) of parading in an endless line; what is wholly visible is never seen in its entirety. It always shows something else asking to be seen; there’s no end to it. Perhaps the essential has never been shown, or rather, there’s no knowing whether it has been seen or if it’s still to come in this never-ending proliferation [Foucault 1986b: 110],

em que a angústia existencial de impossibilidade de ‘firmação’ de um ponto absoluto de referência se concentra na prática específica de denúncia histórica do carácter arbitrário do ponto de vista dominante que justamente a História nos apresenta como o único dotado de respeitabilidade. As dimensões presentes na obra de Foucault são, naturalmente, imensas, quer em substância quer nos efeitos produzidos em obras de outros autores, e inclusivamente na criação de uma sensibilidade geral ‘foucaultiana’ da epistemologia histórica. O nosso propósito é apresentar especificamente o modo como o pensamento foucaultiano, sobretudo a organização da sua crítica histórica, admite, se não mesmo exige, a intervenção do lugar como tema organizador dessa mesma história, mais do que apenas o sítio físico em que ela se desenrola. Os efeitos constitutivos do lugar no desenvolvimento e representação de um evento histórico e da sua sucessão cronológica não é um atributo que esteja apenas presente em Foucault, sendo, como veremos, uma característica cada vez mais comum em muitos autores que conjuntamente desenham uma crítica consistente do projecto político-intelectual da Modernidade. O que em Foucault talvez seja mais específico, e será por esse ponto de vista que principalmente abordaremos a sua contribuição para uma ‘geo-historiografia’ da Arqueologia, é a atenção que dedica aos mecanismos ‘genealógicos’ e ‘arqueológicos’ de definição de uma determinada ‘verdade histórica’. É em si mesmo curioso, e extremamente significativo, que Foucault utilize dois nomes de ramos do ‘saber histórico’, a Arqueologia e a Genealogia, para definir a 6

própria História. Contudo, a simples ilustração semântica desses nomes devia alertar o historiador de ciência das razões íntimas que levam o autor a justamente não utilizar o termo ‘História’. O que têm em comum (ainda com um quê de opositivo), neste contexto, estas duas práticas do conhecimento histórico, é o facto de, de certo modo a contrario, ajudar a descrever a miragem da História como disciplina objectiva, neutral e cumulativa do conhecimento do Passado. A Arqueologia, exibe-se, semanticamente, não só como a ‘reconstrução’ do todo a partir de ‘restos miúdos e incompletos’,9 mas também do modo como certos elementos materiais, escolhidos por razões saturadas de ideologia, passam a descrever, através de uma formidável sinédoque, ‘horizontes’ culturais, cada um deles intimamente coerente dentro dos seus próprios limites, mas liminarmente distintos com os que o precedem e antecede, servindo, neste sentido, de salvaguarda aos pressupostos rankianos da História oitocentista que acreditava tudo poder conhecer através dos documentos. A ‘arqueologia’ foucaultiana, aponta, todavia, para o carácter ‘incompleto’, ‘redutor’ e ‘hiperbólico’, de qualquer forma de conhecimento.10 A Genealogia, pelo seu lado, impõe, também semanticamente, não só uma ideia de ‘nobilitação’ gradual do Passado, de acordo com a sua antiguidade e a ‘legitimação’ geracional da herança de um penhor do passado, mas também o da pesquisa paciente de seres humanos concretos considerados nas suas concretas condições de realidade e existência. A este nível, creio que a crítica de Foucault se dirige resolutamente para todos os mecanismos, explícitos e implícitos, conscientes e inconscientes, por um lado de atribuição de um ‘sentido histórico’ entre eventos cuja única relação íntima foi o de serem contínuos no tempo e, por outro lado, à ocultação ‘ideológica’ de todos os elementos discrepantes na organização presentista desses mesmos eventos históricos.

9

A evocação desta ‘fenomenologia’ do objecto da Arqueologia é de Orlando Ribeiro, apud J. C. Garcia (2003:

194) 10

Quase é desnecessário referir que esta visão da ‘arqueologia’ proposta por Foucault parte, ela própria, de uma

redução quase caricatural sobre a própria Arqueologia, disciplina que vem prescindindo progressivamente do carácter estanque da estratigrafia e do poder redutor dos traços materiais quantitativa ou qualitativamente mais abundantes (cf. Bailey 1987: 5 e ss.).

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Resta precisar, agora, qual o papel que a Genealogia cumpre no contexto da crítica foucaultiana geral da História:11 Genealogy (…) requires patience for knowledge of details, and it depends on a vast accumulation of source material. Its ‘cyclopean monuments’ are constructed from discreet and apparently insignificant truths and according to a rigorous method; they cannot be product of large and well-meaning errors [Foucault 1986b: 76-77].

Em termos precisos, a dimensão ‘geográfica’ da obra de Foucault que gostaríamos de sublinhar é o contexto de crítica propriamente espacial que o autor exerce sobre a ideia de ‘história total’ e da representação da sua verdade intrínseca, concretizado num modo de ver o mundo em que one sees only ‘spaces of dispersion’: spaces where things proliferate in a jumbled-up manner on the same ‘level’ as one another – on the one level where advanced capitalism and the toy rabbit beating a drum no longer exists in any hierarchical relation on the one being considered more important and fundamental than the other – and on which it can never be decided if the ‘essential’ has been sighted (…) [Philo 2000: 207].

Poderia pensar-se que esta abordagem da teoria foucaultiana consistiria apenas na representação da sua teoria epistemológica segundo uma nomenclatura espacial e que, desse modo, a sua ‘geografia’ não passava de um artifício de tradução. Queremos afirmar que não é esse o caso, e que o carácter constitutivo do espaço e as práticas localizadas são, em si próprias, uma expressão da fragmentação histórica que a sua epistemologia contempla.12

11

E dar razão, assim, a Soja, quando este autor inclui Foucault no conjunto de autores que permitiu desintegrar a

solidez aparente do projecto da Modernidade, ajudando a estabelecer os parâmetros críticos de uma geografia ‘pós-moderna’: ‘He would no doubt have resisted being called a post-modern geographer, but he was one, malgré lui (…)’ (Soja 1989: 16). 12

Também a Epistemologia enquanto disciplina não tem favorecido uma visão ‘localista’ da interpretação das

condições de produção, transmissão e recepção do conhecimento científico (Lowther 1962: 495-497). Cf., por exemplo, a obra de Bernecke e Dretske (2000) e confirme-se que a interpretação universalista é ainda dominante na estruturação disciplinar do ‘conhecimento sobre o conhecimento’.

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Um exemplo inicial pode desde já descrever o modo como uma ‘geografia foucaultiana’ pode presidir à crítica geral do estabelecimento da História como verdade: quando Martins Sarmento hesita em considerar Briteiros e Sabroso como elementos de contiguidade ou continuidade (o autor hesita se deve apresentar Briteiros como ‘lígure’, isto é, como Sabroso, ou como ‘romano’, vindo a escolher, deliberadamente, o primeiro caso) dentro da ‘eventualização’ histórica da etnogénese do noroeste da Península Ibérica, fá-lo com uma idêntica ocultação / visibilização dos fragmentos arqueológicos daqueles dois lugares. Sendo o investigador o responsável único pela informação disponibilizada, é o lugar concreto de fragmentação histórica que passa a ser rearranjado segundo uma ‘genealogia ligúrica’ pretendida pelo autor. Do ponto de vista estritamente teórico, a leitura da obra de Foucault revela que é sua preocupação constante denunciar todas as formas ‘totalitárias’ de situar e, sobretudo, narrar a racionalidade, dando-lhe, portanto, uma forma de história da racionalidade. É a este nível específico que a facticidade ‘geográfica’ investe contra as formas narrativas de ‘história total’, uma vez que permite a desmistificação da sua expressão cronológica comum. As ‘estruturas’ da história marxista, a longue durée dos Annales, o Espírito hegeliano… enfim, todas as grandes narrativas feitas sobre o tecido histórico não resistem à crítica indutiva da geografia da sua própria dispersão, que revela, quando exercida, que afinal a ideologia uniu pontos bem distantes e cerziu de ‘significado’ o que previamente não eram senão vastas regiões de inexpressividade histórica. A inclusão de um ‘ponto-de-vista geográfico’ na análise histórica traz para o centro das preocupações epistemológicas sobre a narrativa do Passado, uma objecção em atribuir um lugar determinado, e quase sempre privilegiado, ao tipo de elementos de conceptualização a priori cuja contribuição real para o concreto devir da história é quase insignificante. Quando governada excessivamente por formas de racionalidade apriorísticas, i.e., por grelhas de inteligibilidade prévias que obrigam, com ‘mão-de-ferro’, a situar espácio-temporalmente os eventos discretos, a História, nas palavras de Foucault, torna-se total: The project of total history is one that seeks to reconstitute the overall form of a civilisation (…) supposed that between all the events of a well-defined spatio-temporal area, between all the phenomena of which traces have been found, it must be possible to establish a system of homogeneous relations: a

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network of causality that makes it possible to derive from each of them, relations of analogy that show how they symbolise one another, or how they all express one and the same central core (…) [Foucault 1972: 9-10].

No decurso do nosso estudo, teremos ocasião de notar o modo como a insinuação de uma conceptualização a priori anima integralmente o trabalho de Martins Sarmento, e que passa pela convicção íntima de uma série de elementos constitutivos de uma realidade ‘lígure’ que, partindo da suposição conjugada de uma série de características emanadas da condição do presente do autor, se replicam sob a forma de uma ‘grelha’ muito precisa de atribuição de um significado global à sua geografia imaginária do Passado; justamente, como nos alerta Foucault, a tese etnogénica de Martins Sarmento incluirá a representação universal de uma civilização, exercendo os seus efeitos em todas as instâncias da realidade histórica considerada: ‘[I]t is also supposed that one and the same form of historicity operates upon economic structures, social institutions and customs, the inertia of mental attitudes, technological practice, political behaviours, and subjects them all to the same type of transformation (…)’ (Foucault 1972: 10). No limite, é a partir desta expressão hiperbólica dos elementos comuns de um ‘ligurismo’ construído, que Martins Sarmento procede à delimitação precisa do horizonte civilizacional dos ‘arianos’, povo de civilização, intercalado entre a ‘selvajaria troglodita’, dos povos que os antecedem, e a ‘barbárie germânica’ dos povos que lhes sucedem, num esforço óbvio de garantir o aperfeiçoamento exemplar do sentido geográfico de uma narrativa histórica forjada em capítulos nitidamente distintos: ‘[L]astly, it is supposed that history itself may be articulated into great units – stages or phases – which contain themselves their own principle of cohesion’ (Foucault 1972: 10). A este nível é surpreendente a acuidade da crítica de Foucault quando aplicada a Martins Sarmento. Na ânsia, quase obsessiva, de diferenciar ‘Lígures’ de ‘Celtas’, o investigador português não hesita em recusar terminantemente qualquer indício de ‘civilidade’ entre o segundo daqueles dois povos, como não hesita igualmente em recuperar para a esfera ligúrica qualquer elemento de civilidade que ainda se encontre sem paternidade, como é o caso específico da atribuição ‘ligúrica’ da cidade ‘murada’ de Milão: 10

É quase certo que eles [Celtas] não construíam oppida; repugnava-lhes viver em cidades muradas e isto condiz com a sua educação nómada e aquele génio fanfarrão que lhes fazia dizer que de nada tinham medo, senão da queda do céu. (…). Políbio diz expressamente que eles viviam dispersos por aldeias sem muralhas, mas logo adiante escreve que Milão, uma cidade sua, era murada. A mesma confusão veremos dar-se com os Celtas do Anas, que, segundo Estrabão, viviam vicatim, segundo Plínio possuíam cidades, cuja terminação em briga (provavelmente não céltica, diga-se de passagem), denota um verdadeiro oppidum, como muitas outras da Espanha não céltica. (…). Eu, por mim, concebo muito bem que o celta aborrecesse as cidades muradas, que não conheceu quando nómada, de que não necessitou, quando agressor irresistível, e que até muito tarde mostrasse a sua predilecção pelas povoações abertas; mas concebo ao mesmo tempo que, desandando-lhe a fortuna e obrigado a tomar a defensiva, se fosse muitas vezes aproveitando das cidades muradas que encontrou, e mesmo construindo outras à imitação daquelas [Sarmento 1882a: 102 e nota 2].

Duas ordens de conceptualização são possíveis a partir desta crítica da história ‘total, por parte de Foucault. São analiticamente diferenciadas mas representam a expressão da mesma ontologia nos limites extremos do tempo e do espaço. O que se pretende, quer no contexto teórico da crítica epistemológica de Foucault, quer na aplicação concreta da leitura da história da Ciência e das geografias imaginárias do Passado, é fundamentalmente compreender o efeito ideológico concreto da história total no arranjo espácio-temporal da narrativa. Em relação ao ‘tempo’, ver-se-á como Foucault essencialmente se contrapõe à tendência, dominante em quase todas as formas historiográficas (ou estilos de apresentação narrativa do Tempo), de esquartejar o fio contínuo da temporalidade em grande ‘unidades’ dotadas de uma misterioso auto-reconhecimento, e, neste domínio, a sua estratégia ‘desconstrutiva’ será preferentemente a de demonstrar a igual validade metodológica de ‘qualquer’ divisão cronológica considerada como entidade em si-

11

-mesma, afinal, destacar o carácter ‘tautológico’ da justificação mútua entre ‘método’ e ‘lei’.13 No que diz respeito ao ‘espaço’, o historiador-Foucault será justamente mais ‘geógrafo’, ao apresentar aos seus colegas de ofício a realidade geograficamente discreta em que (não) se baseia essa mesma suposta identidade cronológica absoluta do todo o período histórico. O Espaço representa, neste sentido, o lugar preferencial de ‘infirmação’ das proposições principais sobre o Tempo. Em qualquer das abordagens, o conteúdo estratégico da filosofia da história perfilhada por Foucault é o de questionar a essência do conceito de ‘continuidade’, fulcral em todas as formas de historiografia que o antecederam, sobretudo as que representam a expressão da mundividência que do Tempo detém a Modernidade.14 A ‘continuidade’ que os historiadores atribuem a um conjunto de factos discretos, associados numa certo arranjo espácio-temporal, arranjos que tomam a forma de ‘unidades’ histórico-geográficas concretas (‘Idade do Bronze Atlântico’, ‘Ferro Céltico’, ‘La Tène’, ‘Romanização’, etc.), contextos poderosamente deformadores, e a partir dos quais passa a ser enunciada qualquer proposição sobre o mesmo passado, além de constituírem-se obrigatoriamente através de ‘pontos de contacto’ privilegiados com as ‘unidades’ que os antecedem e que lhes seguem no fio contínuo do Tempo (Foucault 1972: 8-10). Uma das características mais marcantes da estratégia ‘desconstrutivista’ de Foucault é que não procede apenas à tentativa de demolição da falsa coesão interna dessa mesma ‘história total’, mas propõe a sua substituição por modalidades alternativas de 13

A noção de tempo-espaço tem vindo a ser objecto de uma profunda reavaliação teórica. Cada vez mais se tem

a noção de que conceitos como ‘região’, ‘período’ ou ‘escala’ são profundamente tecidos de considerações aprioristas e essencialistas, desligando o lugar em que decorre a acção social (físico ou simbólico) dos factores estruturantes do Zeitgeist respectivo dessas mesmas sociabilidades (cf. Bailey 1981 e G. Clark 1992). 14

De facto, a filosofia da história de Foucault adquire um tom particularmente crítico da Modernidade,

associando, por exemplo, à mundividência medieval a superioridade relativa de permitir uma livre associação de eventos, sem que seja necessário subsumi-los a uma lógica interna de desenvolvimento. Claro está que isto não significa que considere a concepção do Tempo entre os medievais como equivalente àquela que ele próprio detém. Para Foucault, não existe qualquer ‘sentido’ para o Tempo, e cada unidade espácio-temporal não é mais do que uma ‘associação’ aleatória de processos estranhos entre si: esta concepção do Tempo não tem nada a ver com a ‘aleatoriedade’ medieval, de origem obviamente providencialista, i.e., resultado da intervenção directa de Deus na temporalidade concreta e unidireccional da Criação.

12

compreensão histórica. Ao nível puramente lógico, a ‘racionalidade histórica’ alternativa de Foucault passa a ‘subir um nível’ em relação à mesma lógica que estabelece a coesão entre as grandes unidades ‘histórico-geográficas’ das formas historiográficas da Modernidade e, pelo mesmo método, a destacar os projectos globais político-intelectuais que voluntariamente organizam a forma narrativa da História de modo a dar-lhe o ‘sentido histórico’ com que são normalmente apresentadas.15 Devo reconhecer que a influência de Foucault (para o bem e para o mal) foi em extremo responsável pela metamorfose que este meu trabalho sobre a historiografia de Martins Sarmento foi obrigado a sofrer. Quando foi iniciado, animava-o uma intenção de história ‘total’, como a designaria em termos foucaultianos, tentado a isolar e reconhecer os elementos que permitiam ‘arqueologicamente’ (e refiro-me aqui ao sentido simbólico da palavra, e não o literal que diga respeito aos vestígios materiais que o autor recolheu) definir Martins Sarmento como um exemplar de uma dessas ‘unidades histórico-geográficas’ definidas previamente pela história da Arqueologia ou pela história da História. Progressivamente, a actividade paralela de incursão conceptual na obra de Foucault e a leitura próxima da obra de Martins Sarmento tornaram evidente aos meus olhos o que justamente o era desde sempre para Foucault (e também para Nietzsche, autor em que Foucault evidentemente filia esta parte ‘histórico-aleatória’ da sua filosofia16): que Martins Sarmento era uma expressão concreta de um projecto 15

Este tipo de ‘racionalidade histórica alternativa’, a que o autor chama especificamente ‘história geral’, ‘is to

determine what form of relation may be legitimately described between these different series; what vertical system they are capable of forming; what interplay of correlation and dominance exists between them; what may be the effect of shifts, different temporalities and various rehandlings; in what distinct totalities certain elements may figure simultaneously; in short, not only what series, but also what ‘series of series’ – or, in other words, what ‘tables’ is possible to draw up. A total description draws all phenomena around a single centre – a principle, a meaning, a spirit, a world-view, an overall shape; a general history, on the contrary, would deploy the space of a dispersion’. Como se verá no ponto seguinte, este é um dos domínios em que justamente incide a crítica de Said sobre o trabalho de Foucault. Dentro do quadro geral do relativismo espácio-temporal-cultural (histórico-geográfico-antropológico) que caracteriza a obra do pensador de origem palestiniana, esta estratégia de Foucault é prisioneira dela própria, por aplicar a entidades discretas (os projectos político-intelectuais individualmente considerados) uma concepção abstractamente uniforme, como se tratasse da organização geral de um projecto comum, que é, afinal, a crítica que o filósofo francês faz incidir sobre a generalidade da historiografia da Modernidade. 16

Nietzsche admitia sérias reservas ao facto dos projectos intelectuais relacionados com a História insistirem em

atribuir uma importância desmesurada a conceitos apriorísticos como organizadores da compreensão histórica, conceitos sem qualquer incidência substantiva na realidade que pretendiam descrever (Dews 1987: 39).

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político-intelectual pessoal, e biograficamente condicionado, e que a historiografia posterior o fora ‘aperfeiçoando’, de modo a garantir a continuidade genérica de uma programa de investigação cumulativo da chamada ‘cultura castreja’. Esta é a principal razão por que justamente este trabalho veio a desenvolver-se numa abordagem tão relacionada com a expressão política (no sentido global da palavra) e biográfica de um projecto pessoal de organização do Passado. Esta modificação do ponto-de-vista inicial tem justamente a ver com reconceptualização por que Foucault obriga a passar o Tempo na sua forma alternativa de racionalidade histórica. Ela consiste especificamente em permitir que a geografia concreta da ‘unidade espácio-temporal’ constituída possa exercer o seu poder de fragmentação, ao pôr em destaque as lógicas particulares e ‘locais’ de definição dos projectos biográficos de prática científica, i.e., os ‘espaços de dispersão’ que constituem inevitavelmente a multitude de lugares concretos, social e culturalmente, nos quais a actividade humana tem radicadamente origem.

É conhecida a origem ‘estética’ rousseliana que despoletou a analogia espacialmente fragmentária da ‘paisagem sem perspectiva oficial’ que Foucault replica na sua ‘história geral’ – uma paisagem em que os objectos não se determinam pela sua posição, mas pela simples afirmação da sua existência:17 17

Raymond Roussel era um poeta que partia da ‘sem-importância’ de uma vista em paisagem para a ordem

descritiva dos seus poemas. Estes, poemas de considerável extensão, podiam ter origem numa minúscula representação publicitária de uma praia, de um panfleto informativo de um concerto musical ou num rótulo de uma água mineral. A característica iluminante da poesia de Roussel, e em que Foucault reconhece o princípio organizador da sua própria epistemologia histórica, prende-se com o facto de não só a descrição poética se fazer sobre a quási-insignificância do objecto retratado (ou, o que é o mesmo, a denúncia da magnificação de determinados pontos-de-vista no estabelecimento de uma ‘tradição de paisagem’), como também pela circunstância de nessa mesma ‘paisagem’ todos os elementos figurativos contribuírem igualmente, na sua ponderação ontológica, para a realidade existencial concreta do conjunto. O que Foucault recolhe de Roussel, e exige tacitamente do historiador, é que não se estabeleça uma ordem de hierarquia que privilegia uma parte da ‘paisagem’ em função da geometria da perspectiva. Ao anular a relação entre ‘eixo de visão’ e a sua ‘periferia’, entre ‘figura’ e ‘fundo’, entre ‘drama’ e ‘cenário’, Foucault pretende desfazer o poder ‘hipnótico’ que a perspectiva exerce sobre o observador, e que o leva a focar, mesmo involuntariamente, o seu olhar para o ‘centro do quadro’ – trata-se, de não ficar à mercê da ilusão da proporcionalidade: ‘There is a fundamental lack of proportion: seen in the same way are the porthole of the yacht and the bracelet of a woman chatting on the deck, the wings of a kite and the two points formed by the tips of a stroller’s beard raised slightly by the wind (…). In this fragmented space without proportion, small objects thus take on the

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There is no privileged point around which the landscape will be organised and with distance vanish little by little; rather, there’s a whole series of small spatial cells of similar dimensions placed right next to each other without consideration of reciprocal proportion (…). Their position is never defined in relation to the whole but according to a system of directions of proximity passing from one to the other as if following the links in a chain: ‘to the left’, ‘in front of them to the left’, ‘above’, ‘higher’, ‘further’, ‘further continuing on the left’ (…) [Foucault 1986a: 107].

O próprio nome de ‘história geral’ já nos adverte que, para Foucault, não existem lugares privilegiados no estudo de ‘uma vista’. Tudo tem a mesma importância, determinada apenas pelo ‘lugar’ que ocupa na tela respectiva. Nenhuma regra específica de superioridade pode levar a que uma determinada linha de perspectiva seja preferida sobre as outras. De um ‘ponto-de-vista’ estabelece-se uma ‘paisagem’, um ‘panorama’, ditado unicamente pela posição em que decidimos ‘fixar os pés’ do nosso corpo perceptor. Tal como no original desta metáfora, se nos movemos de um lado para o outro, de cima para baixo, i.e., se modificamos as condições geométricas da relação de perspectiva entre o observador e o seu objecto-total, uma nova ‘paisagem’ surgirá: elementos até então imperceptíveis ganham relevo inesperado, outros que eram centrais na primeira observação revelam-se afinal bem menos do que pensávamos; para Foucault, cada uma destas vistas é apenas uma visão possível do passado e, por uma razão propriamente política, a tradição ‘pictórica’ subsequente vem a ‘fixar’ um desses múltiplos pontos do observador como sendo o dotado de maior capacidade heurística, e assim a determinar todos os códigos de apreensão de novas paisagens sob as regras monótonas da primeira vista. Este é modo como o ‘tempo se dilui no espaço’ (Philo 2000: 213) e a razão por que Foucault pode ser reconhecido como um interlocutor válido na afirmação de um ponto de vista geográfico nas Ciências Sociais e na Epistemologia em geral. A geografia definida / definitiva da paisagem concreta do Passado tem de ser considerada na sua inteira existência, sem criação de linhas preferenciais de análise, ou recolha sintomática de elementos que permitam a criação mais ou menos arbitrária de teleologias históricas. appearance of flashing beacons. It’s not a question of signalling their position in this instance, but simply their

15

A descrição ‘geográfica’ (‘cénica’) do Passado assim constituída é, ao mesmo tempo, a garantia de inquiribilidade plural da contextura empírica dos documentos, e nivelação ética da análise de todos os contributos políticos e intelectuais que determinam a sua forma, incluindo nestes a do próprio observador.18 A simples ‘co-presença’ dos elementos pertencentes a uma mesma unidade espácio-temporal funciona em oposição à estética da ‘metamorfose’ histórica que, nas diversas historiografias da Modernidade (e dando um peso diferencial, conforme o projecto político de que partiam, às situações de continuidade ou ruptura), dispunham numa relação essencializada os elementos constituintes da mesma ‘unidade histórico-geográfica’ da História, ou entre unidades cronologicamente sequenciais. Mas existe um nível existencial potencialmente mais perturbador que anima a filosofia da História de Foucault. A noção de que a geografia ‘cénica’ dispõe os elementos documentais do Passado a igual distância do olhar do observador, e de que a partir deles se podem derivar múltiplas leituras do passado, não impede, ainda assim, que se participe de um estranho sentimento de ‘superficialidade’, de que se poderiam desenvolver linhas contínuas de um texto infindo, em que as células espaciais que a exigência da perspectiva faz desenhar sobre a tela possam ser diminuídas até eventos e características minúsculos (esta passagem de Foucault faz-me invariavelmente pensar na deriva especialista das maior parte das disciplinas científicas), em que só os cultores especializados das historiografias do tipo ‘moderno’ podem encontrar uma eficiente valorização e um prazer epistemológico em tomar em consideração. A partir do momento em que um investigador tenha passado por esta espécie de ‘conversão foucaultiana’ compreender que por trás de uma paisagem, por muito recheada de elementos concretos que a constituam, habita inevitavelmente o silêncio de uma história irrecuperável:

existence’ (Foucault 1986a: 106-109). 18

O próprio Raymond Roussel viria a revelar, numa interessante paródia ao seu próprio modo de escrever os

poemas (Comment j’ai écrit certains de mes livres, 1935) que a organização narrativa do poema como que seguia a quadriculagem regular que o pintor previamente deveria usar na organização da perspectiva. É a inversão ‘ontológica’ do papel da quadriculagem e da perspectiva que justamente predispõe o leitor à revelação, a partir da ironia, de que o Tempo é subitamente fragmentado em pequenas células espaciais que não têm entre si nenhuma relação essencial que não seja a que lhes é dada pelo ponto-de-vista do observador (Ford 2000: 213).

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For much of the time Foucault (…) apparently accept[s] that there is nothing outside the proliferation of words about the ‘surface of things’ – that this proliferation pretty much captures in all of its comprehensiveness the total and only ‘reality’ of the things described – and the suggestion in this regard is that the ‘discourse which describes them in detail is finally the one that explains them’. In this case, the silence of things on more ‘essential’ matters is perfectly comprehensible, for there is simply nothing else to say once [one] has finished [one’s] description [Philo 2000: 217-218].

2) Edward Said, historiador de cultura palestiniano-americano, exibe nos seus escritos uma pungente afirmação do carácter significante do lugar na produção do conhecimento científico. No cerne da sua análise pode destacar-se o conceito de ‘travelling theory’, expressão de que não se encontra uma convincente tradução em português, mas que à falta de melhor se poderia expressar por ‘teoria viajante’, para com isso destacar as situações complementares de ser o conhecimento científico uma forma de difusão e de nele deterem uma importância especial, sobretudo no que diz respeito à época moderna, as viagens dos cientistas no contexto do imperialismo (Mackenzie 1990: 216-259). O que caracteriza em primeiro lugar essas teorias? O facto de ‘viajarem’: ‘from person to person, from situation to situation, from one period to another (…)’. O primeiro dos sentidos que aqui pretendemos destacar é esta característica do conhecimento científico da Modernidade – a ‘extensão’, isto é, a replicação de um determinado tipo de conhecimento em situações diversas daquela em que originalmente foi criado, processo que vimos já antes, na caracterização do pensamento de Foucault, não ser exclusivo da crítica saidiana (Said 1991: 226). Porém, para Said esta replicação nunca é automática, isto é, o processo da sua circulação é constitutivo da nova formulação do conhecimento, o encontro com realidades diferentes daquelas de que este deriva originalmente, faz com que os produtos finais sejam diferentes e, sobretudo, nunca em nenhum momento e em nenhuma instância, que não seja a exercida pela formulação violenta da relação imperialista, existe um referencial comum da sua objectivação (Said 1991: 244). A conclusão fulcral que Said pretende retirar é a de que todas as formulações do conhecimento, as teorias científicas, estão saturadas do espaço-tempo de que 17

emergem.19 A concepção de Said tem, porém, uma outra consequência. Não se trata apenas de que as teorias detenham as marcas têmporo-espaciais da sua produção, mas também a de que a sua replicação e a sua apropriação se farão obrigatoriamente em novos ‘lugares-tempos’ com uma identidade própria. E talvez com sofrimento, que tem origem na irreversibilidade prática do tempo cultural. A este respeito a própria biografia de Said aponta para a relação estabelecida conceptualmente nas proposições centrais da sua teoria social. Como veremos, não se trata apenas de trazer para a frente das suas preocupações teóricas a condição de exilado da sua própria terra, conceito de violência espacial plenamente presente em Foucault, e, de um modo geral, em toda a tradição marxista anterior, mas do facto de a relação ‘imperial’ dar origem a uma identidade partilhada, e algo fragmentada, na qual convivem sentimentos contraditórios de orgulho e desprezo pela própria geografia imaginária a que se pertence. O ‘orientalismo’ de Said é mais do que a crítica do Orientalismo enquanto prática académica ocidental – é (e, na nossa opinião, sobretudo) uma actividade mais ou menos consciente de depuração ética do Ocidentalismo dos orientais. É este espaço especialmente conflitual que se desenha nos interstícios da relação imperial que permite uma abordagem às formas de irredutibilidade da identidade partilhada (S. Jones 1997: 129 e ss.). Pode facilmente compreender-se que uma absoluta outorga, por parte de Said, do poder identitário ao lugar-tempo o pode pôr em confronto com Foucault. A descrição por Foucault de ‘lugares-tempos’ como expressão de uma organização do poder não é em muito diferente da concepção do próprio Said. O problema surge quando aquele autor se propõe ‘estender’ as conclusões retiradas do estudo de um caso particular, de uma entidade ‘têmporo-espacial’ autónoma para o funcionamento geral da sociedade (Said 1991: 245). Como já fizemos referência atrás, quando procedíamos à caracterização da afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ em Foucault, a aplicação ‘exemplar’ deste investigador a um nível superior de 19

É este sentido, o da apropriação ‘cultural’ de um lugar de alteridade, que tem permitido a alguns historiadores

de Ciência aproximar a lógica ‘geográfica’ de colonização do espaço com a lógica ‘histórica’ de apropriação do Tempo, i.e., do Passado. Em ambos os casos parece haver, no domínio do Evolucionismo do século dezanove, uma superação eficiente da alteridade pelo apagamento absoluto da temporalidade do Outro (cf. Driver 1991; 1992) e da própria Natureza (Driver e Rose 1992).

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abstracticidade do mesmo tipo de procedimentos metodológicos (e pressuposições ontológicas) do próprio objecto da sua crítica, caracteriza uma ‘sobreteorização’, ela mesmo impedida pelas premissas lógicas da sua aplicação. Para Said, a reorganização ‘local’ do conhecimento é absoluta e, assim, a nivelação ontológica das entidades discretas que constituem a informação inicial disponível para a teoria é sempre absolutamente arbitrária. Nesse momento, pelo menos do ponto de vista de Said, Foucault não faz nada de diferente dos naturalistas do império que generalizaram ao globo inteiro as teorias naturais e sociais que desenvolveram no ocidente. A universalização é, em qualquer dos casos, um modo de dominação (Said 1991: 245). Ao exercer os pressupostos da sua própria biografia, Edward Said permite-se, por isso mesmo, introduzir uma discrepância teórica que será um ponto importante da originalidade da sua visão sobre a História, e talvez justifique, pelo menos em parte, as principais diferenças entre o seu trabalho e o de Foucault. Mais do que pretender vincar o carácter absoluto que Said atribui ao lugar, e que por si só é importante, esta questão levanta também outra associada, a de saber se o relativismo pode ser tão determinante que esteja vedado a um sujeito, que pertença, seja a que nível for, aos lugares ‘dominantes’, desenvolver uma visão que não seja ela ‘universalizante’, se está por isso condenado a este ‘totalitarismo sobreteórico’ que ele detecta em Foucault (Said 1990; cf. Hesse 1980: 33 e ss.).20 A questão reside, em grande parte, na relação da violência política do conhecimento, e dos efeitos que ela detém sobre a materialidade concreta do ser humano e, especificamente, incluindo nele a dimensão táctil do corpo (cf. Shilling 1993; Schmidt e Voss 2000; Thomas 2002). Enquanto que em Foucault a violência política do disciplinamento do conhecimento passa pela repressão normalizadora das características do corpo considerado individualmente (o ‘prisioneiro’, o ‘louco’, o ‘aluno’…) em Said os contornos ‘tácteis’ da relação cultural imposta pelo imperialismo sobrelevam a expressividade da relação erótica da diferença. Numa definição opositiva

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Esta questão, ao nível político, é constantemente brandida: só os negros poderiam ser anti-esclavagistas, só as

mulheres feministas, só os judeus anti-anti-semitas, etc. Quer no campo ‘opressor’ quer no campo dos ‘oprimidos’ há quem o defenda. Não se afirma, naturalmente, que seja essa a posição de Said (embora parte de alguma crítica feminista o acuse justamente disso), embora a instabilidade identitária criada pela sobreposição de diversas esferas culturais (especialmente a ‘palestiniana’ e a ‘anglo-saxónica’, e por esta ordem) seja historicamente mais propensa a este tipo de manifestação político-intelectual da denúncia.

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simples (com todas as vantagens e inconvenientes que a simplicidade detém), diríamos que ao ‘corpo’ foucaultiano lhe é sempre negado o prazer, enquanto que ao ‘corpo’ saidiano este mesmo é constantemente valorizado. A directa relação que esta oposição, que cremos existir entre Foucault e Said, tem na biografia dos dois autores não deixa de ser significativa. Se a questão da exibição da homossexualidade se revelou central na determinação dos pressupostos existenciais da teoria foucaultiana, vemos igualmente que em Said um ponto recorrente da sua argumentação passa pela des-sensualização ‘activa’ do estereótipo do ‘oriental’, no sentido de criar um contexto eficiente de afirmação da individualidade intelectual e política (McWhorter 1999: 108; Yegenoglu 1999: 25).

A actividade científica de Edward Said teve como objecto principal de análise as relações culturais e científicas que o imperialismo da época moderna promoveu. Nas suas próprias palavras, propõe-se levar a cabo uma ‘expedição geográfica à História’:21 [J]ust as none of us is outside or beyond geography, none of us is completely free from the struggle over geography. That struggle is complex and interesting because it is nor only about soldiers and cannons but also about ideas, about forms, about images and imaginings (…) [Said 1993: 6].

Inicialmente, a ‘expedição’ de Said centrou-se na região (e, dado o contexto, uso a palavra ‘região’ como todas as cautelas geográficas) de onde é originário, com a intenção de demonstrar como o conhecimento ocidental produziu uma entidade chamada precisamente ‘Oriente’. Já fizemos referência que Said hesita constantemente em reforçar qualquer um dos pólos da constituição da sua identidade, a origem ‘palestiniana’ e o percurso ‘anglo-saxónico’, mesmo ainda na Palestina ou em outros países de matriz cultural semelhante (árabe e muçulmana) como o Egipto. A produção do conceito, ou conjunto estruturado de vários níveis de conceptualização que é o 21

Esta expedição também pode ser levada à ‘Arqueologia’, naturalmente; e talvez até seja mais facilitada a

ordem imperial e colonial de atribuição assimétrica da alteridade num campo disciplinar que acumula a diferenciação do Outro desde o ponto de vista histórico e antropológico: basta lembrarmo-nos da dificuldade que a Arqueologia nacionalista ‘branca’ sempre teve em admitir que algum dos povos africanos de raça negra pudesse estar por trás da construção das ruínas de Zimbabwe (Hall 1909: 13; para uma crítica histórica, Garlake 1973: 79-80; cf. tb., em termos mais gerais da arqueologia nacionalista africana, Tardits 1981 e Schrire et al. 1986).

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‘Oriente’, é levada a cabo através de um conjunto entretecido de factos e ficções que concorrem para a representação de um alter ego em oposição a outra conjugação de ficção e factos chamada ‘Ocidente’ – uma oposição de representações. Esta oposição funciona através de uma estrutura dissemelhante em termos de afirmação política da violência, ainda que antecipe as condições eficientes da sua própria superação. A produção do modo especular de criação da identidade (oposta e partilhada) foi, segundo Said, levado a cabo por uma sedimentação progressiva, por uma acumulação de informação sobre lugares que foram previamente ‘inventados’, mas que a partir do momento em que foram representados como reais, se tornaram lugares de investigação científica regular e sistemática, em que inúmeras disciplinas académicas tiveram um papel activo, e entre as quais não foi menor o levado a cabo pela Arqueologia e pela Geografia. Daqui deriva a importância do segundo sentido que pretendíamos se deduzisse da expressão ‘teoria viajante’, isto é, a importância que irão deter, neste processo de representação, as narrativas dos ocidentais viajantes que procedem à observação no próprio local de recolha de informação. Porém, esta recolha não está confinada ao relato ficcional dos romancistas e libretistas de ópera; talvez não seja até a este nível que a relação estruturada de criação contínua de uma identidade ganhe forma duradoura. Da relação, ambígua e mutuamente reforçadora, do facto e da ficção, originar-se-á uma definição cada vez mais rigorosa, ‘científica’, da recolha de informação. E, insensivelmente, o que começou por ser uma literatura de viagem transformar-se-á em conhecimento científico do Outro. É através das disciplinas ditas ‘científicas’ que a arbitrariedade da construção identitária do ‘Oriente’ é mais facilmente ‘naturalizada’, não só pelo carácter neutro, objectivo e cumulativo que se supõe subjazer à sua actividade mas, sobretudo, porque é da sua íntima natureza (ao contrário de outras formas da criatividade humana) não se permitir uma indagação constante dos pressupostos metafísicos da sua constituição.

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No seu trabalho seminal de 1978, Orientalismo, Said desdobra a análise histórica do Oriente numa ontologia tripla que relaciona poder, conhecimento e geografia.22 Nesta enunciação dos pressupostos metodológicos da sua teoria hermenêutica, adivinha-se desde logo a influência directa da concepção epistemológica de Foucault, sobretudo de uma versão ‘espacialista’ das relações entre ‘poder de disciplinamento’ e ‘disciplinamento do poder’ (cf. Lynch e Woolgar 1990: 1-18; Miller e Tilley 1984). Embora a teoria de Said não seja uma aplicação simples dos pressupostos da história foucaultiana a um novo objecto de análise, o ‘Oriente’ (uma espécie de ‘extensão’ da teoria mais ‘intra-europeia’ de Foucault a uma realidade ‘extra-europeia’), existindo até alguns pontos de irredutível distanciamento entre ambos (a questão ‘humanista’ é, a este respeito, absolutamente central), o próprio Said não deixa de reconhecer o imenso respeito intelectual pela visão espacial do poder do conhecimento revelada na historiografia de Foucault. ‘What is, I think, deeply compelling about the continuity of Foucault’s early with his middle works is his highly wrought presentation of the order, stability, authority, and regulatory power of knowledge. (…). It is probable that Foucault’s admirably un-nostalgic view of history and the almost total lack in it of the metaphysical yearning, such as one finds in heirs to the Hegelian tradition, are both ascribable to his geographic bent’ [Said 1986: 149-150. A ênfase é nossa].

A relação epistemológica delineada por uma extensão ‘extra-europeia’ da teoria foucaultiana da História não é levada a cabo sem problema, equívocos e até aparentes contradições insanáveis. Já fizemos antes referência ao facto de a teoria histórica de Said ser animada por um sopro humanista bastante perceptível, i.e., por uma radicalidade individual e pessoal dos eventos históricos e da responsabilidade ética associada a esse mesmo nível de capacidade de acção [agency].23 Uma postura assim

22

As narrativas tecidas de factos e ficção são uma característica não apenas dos géneros considerados

‘literários’, mas também das narrativas históricas e descrição geográficas que supostamente são feitas no domínio severo das ciências, especificamente da História e da Geografia. 23

No caso específico da Arqueologia, porque lida com testemunhos residuais da actividade social que pretende

descrever e interpretar, poder-se-ia pensar que lhe estaria vedada uma abordagem ‘agencialista’, que tivesse em consideração a personalidade e identidade dos actores sociais envolvidos. Tal não é caso (como se pode ver em

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definida dificilmente tem lugar no cenário fortemente anti-humanista do pensamento foucaultiano (presente, de resto, como ‘trope’ epistemológico comum em muito do trabalho intelectual dos restantes ‘pós-estruturalistas’, como Kristeva, Derrida, Deleuze, Lacan, Irigaray, etc.), lugar epistemológico em que a definição da subjectividade nunca é estabilizada individualmente, sendo sobretudo resultado da determinação social e política das condições performativas da individualidade negociada. Uma outra ordem de ‘crispação’ do universo epistemológico da história ‘orientalista’ da Europa da Modernidade, tal como é levada a cabo por Said, prende-se com a manifesta ‘normalização’ da alteridade que é levada a cabo em relação ao pólo ‘ocidental’ da relação cultural estabelecida entre a Europa e a Ásia. Muito do carácter eficiente da obra de Said, dentro do próprio universo cultural do ‘ocidente’ (a que afinal o autor palestianiano-americano pertence, ainda que ‘criticamente’, posicionando-se de uma forma intersticialmente exterior) resulta da enunciação distintamente não-foucaultiana (não ‘arqueológica’, portanto) de uma ‘seamless and unified history of European identity and thought’, que subsumiria numa interpretação única da visão sobre o ‘outro’ (neste caso, o ‘oriental’), elementos exemplares de unidades espácio-têmporo-culturais tão díspares como a Grécia de Heródoto, a Veneza dos doges, a França de Napoleão, ou a Inglaterra victoriana, como se entre todos se transmitisse o propósito comum de identificar uma região ‘europeia’ oposta à ‘asiática’ e, dentro de cada uma destas regiões culturalmente definidas, a intenção genealógica de fazer perviver uma superioridade essencial (Ahmad 1994: 165-166). A eventual legitimidade de uma crítica continuista ao trabalho de Said não invalida, porém, que o trabalho deste autor permita uma excepcional capacidade heurística no trabalho de desconstrução da relação alteral entre a Europa da Modernidade e o seu ‘objecto’ científico e estético que constitui o ‘Oriente’. É-o certo para as manifestações mais directamente ligadas à esfera cultural da bourgeoisie oitocentista, e das suas manifestações de ‘alta cultura’, é-o ainda, de uma forma talvez mais evidente na organização científica das ciências humanas do mesmo período, e com especial

Fowler [2002], ainda que no contexto ‘favorável’ da Egiptologia), e se a disciplina tem preferido, ao longo da sua história, a abordagem dos sujeitos ‘colectivos’, tal deve-se não apenas à especial disposição do seu objecto ‘empírico’ mas também, se não sobretudo, à organização epistemológica do seu objecto ‘teórico’.

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incidência na Arqueologia e História da Antiguidade. Se a crítica continuista feita em relação ao trabalho de Said não é despicienda, e revela afinal a dimensão biográfica de emancipação e redenção a que antes nos referíamos, seria estulto, e contra-producente para o objectivo dessa mesma crítica, não reconhecer o poder crítico de uma teoria estruturada da alteridade enquanto formulação mutuamente reforçada de ‘facto’ e ‘ficção’, como é afinal, na sua essência, a teoria saidiana do orientalismo.24 A afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ da História é o próprio cerne da historiografia de Said, e nisso ela constitui-se como uma das mais evidentes conceptualizações anti-essencialistas das várias manifestações abstractizantes do Tempo pelas quais a historiografia europeia, sobretudo desde Vico e Herder, até Hegel e Marx, desde sempre veio a manifestar uma nítida preferência.25 Para Said, o lugar não é apenas a determinação física do evento histórico, mas, e fundamentalmente, a determinação simbólica de uma integração ‘regional’ que o definam como exemplo ilustrado de um realidade mais vasta. Neste contexto de atribuição de uma semiótica espacial de inclusão e exclusão, Said desenvolve a hermenêutica das metáforas que 24

Neste aspecto, aproximamo-nos explicitamente da posição de D. Gregory: ‘But I see no reason to choose

between an account that charts continuities – the stagnant air of Orientalism trapped within the corridors of history – and one that throws open the ill-winds that interrupt this state of affairs from time to time and place to place. Neither does Said, who argues, explicitly and unequivocally, that the French occupation of Egypt at the end of the eighteenth century inaugurated a distinctively modern constellation of power, knowledge and geography (…)’ (Gregory 2000: 312). A ênfase é nossa. Cf, também, as palavras do próprio Said: ‘Throughout the exchange between Europeans and their ‘others’ that began systematically half a millennium ago, the one idea that has scarcely varied is that there is an ‘us’ and a ‘them’, each quite settled, clear, unassailably self-evident. As I discuss it in Orientalism, the division goes back to Greek thought about barbarians, but, whoever originated this kind of ‘identity’ thought, by the nineteenth century it had become the hallmark of imperialist cultures as well as those cultures trying to resist the encroachments of Europe’ (Said 1993: xxv). 25

Herder é, de certo modo, o principal defensor de um tom ‘local’ na História (McEachran 1939), na Geografia

(Birkenhauer 1986) e na Antropologia (Clark Jr. 1969; Nisbet 1970), no pensamento social em geral: ‘[A]ll regionalists, all defenders of the local against the universal, all champions of deeply rooted forms of life (…) owe something, whether they know it or not, to the doctrines that Herder (…) introduced into European thought’ (Berlin 1976: 176). Especificamente sobre a influência de Herder nos estudos da historiografia portuguesa, e no modo como subjaz a uma afirmação de uma ‘índole nacional’, presentes nos actores sociais, individual ou colectivamente considerados, cf. A. Beau (1964: 202 e ss.). O nacionalismo ‘arqueológico’ que surge ao longo de todo o século dezanove inclui-se nesta vasta proposta ‘terapêutica’ de compensar a devastação napoleónica inicialmente, depois a prussiana e a austríaca, que farão acender iguais sentimentos de ‘busca das origens’ nas nações violentamente submetidas nos estados imperiais (Harpeou 1982: 241-249).

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concorrentemente se afadigam em estabelecer, no espírito humano, o espaço que é ‘nosso’, familiar, tranquilizador, previsível, racional, de um espaço ‘outro’ em que todas as categorias de definição são invertidas: desconhecido, perturbador, imprevisível, sensual… É fundamental sublinhar o carácter ‘poético’ desta aproximação saidiana ao lugar, sobretudo pela oposição entre racionalidade e sensualidade que se atribuem aos lugares epistemologicamente reconhecidos como objecto científico. A historiografia de Said é invariavelmente uma história da história da ‘infância’, da força constitutiva, dentro da teoria ‘adulta’ dos sentimentos não consciencializados, da formação da identidade. Embora com claras ressonâncias da esfera da psicanálise, não é nos universais do inconsciente que ele encontra a sua mais perfeita expressão; é talvez a noção do conhecimento transcendente da fenomenologia que melhor exprime a relação do objecto e sujeito históricos em Said – porque, ao contrário da estruturação tópica alteral do inconsciente (o ‘lugar’ do inconsciente é de algum modo ‘exterior’ ao próprio sujeito, e a sua abolição é uma condição prévia da descoberta da ‘verdade’), a versão fenomenológica admite uma saturação de significado partilhada pelo lugar e pelo observador, e o mecanismo íntimo de atribuição de significado não prescinde nunca das condições tópicas da sua formulação: The objective space (…) is far less important that what poetically is endowed with, which is usually a quality with an imaginative or figurative value we can name and feel: thus a house may be haunted or homelike, or prisonlike or magical. So space acquires emotional and even rational sense by a kind of poetic process, whereby the vacant or anonymous reaches of distance are converted into meaning (…) [Said 1995: 55].

A construção de ‘geografias imaginárias’ é o resultado inevitável de uma relação ‘poética’ estabelecida com o Tempo. A construção da nossa própria identidade exige o mantelamento prévio de relações de exclusão e de diferença, profundamente essencializadas, e envolvendo mais do que o nível emocional detido individualmente por cada um dos seus participantes. É a própria ‘institucionalização’ da produção da alteridade que confere uma tão grande eficiência ‘política’ ao conhecimento e reconhecimento das regiões culturais definidas, e que atribui uma expressão própria de descontinuidade nos lugares intersticiais da migração e do exílio. 25

O mecanismo de construção de tais ‘geografias imaginárias’ rege a sua eficiência pelo modo como interpela as dimensões existenciais do desejo, da ansiedade e do receio, da fantasia. Quando assistimos ao frenesim da dilucidação de um corpo gigantesco de informação referente ao Oriente, ao longo de todo o século dezanove, não podemos nunca deixar de tomar em consideração a dúbia articulação do ‘lugar e do corpo’ na eficiência da sua organização. O que é pressuposto na análise ‘orientalista’ de Said é a afirmação concomitante da sedução e da racionalidade, é o modo específico como a ciência oitocentista torna disponível através da racionalização sublimada o erotismo vedado (ou violável) do Oriente. É pela afirmação da violência do corpo oriental que Said pretende dar visibilidade à sua análise histórica da presença oriental no Ocidente e vice-versa. É justamente para evitar o tipo de universalização que uma abordagem psicanalítica sempre providenciaria, que o autor tende a falar mais de uma abordagem poética da relação histórico-geográfica do prazer; e é, finalmente, porque está mais resolutamente interessado em dar conta dos mecanismos concretos de construção global da alteridade, que Said não prescinde de analisar e identificar a expressão histórico-geográfica concreta do exercício da violência efectiva das potências imperiais nos lugares colonizados. É sobretudo a este nível que a ligação foucaultiana mais nitidamente se faz sentir. Para Said, os lugares de exercício do poder colonial, entre os quais considera os países-eles-mesmos, não se distinguem, nos mecanismos de opressão e nos resultados de representação, dos que Foucault havia considerado para as prisões ou hospícios. Todos são lugares em que se disciplina activamente o conhecimento e se dá a conhecer explicitamente a disciplina. A inter-relação definida dentro desta constelação de poder-conhecimento é que atribui uma singular visibilidade à ciência como forma de naturalização e racionalização dos mecanismos basilares de desejo, medo e fantasia, que são os que, em última análise, mais profundamente comandam o mecanismo de atribuição não só da identidade mas também, e muito especificamente, do seu estereótipo e da sua pervivência no tempo: [T]o the extent that modern history in the West exemplifies for Foucault the confinement and elision of marginal, oppositional and eccentric groups, there is, I believe, a salutary virtue in testimonials by members of those groups asserting their right of self-representation within the total economy of

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discourse. Foucault is certainly right – and even prescient – in showing how discourse is not only that which translates struggle or systems of domination, but that for which struggles are conducted (…) [Said 1986: 153].

O papel da Ciência e das suas várias disciplinas no estabelecimento de uma ‘geografia imaginária’ do Ocidente, na qual a expressão prévia das mesmas fronteiras no passado é um passo absolutamente necessário para o sucesso discursivo da primeira, reside sobretudo na integração dos mecanismos profundos de produção da subjectividade na matriz normalizadora e objectiva da cientificidade, a única que pode dotar a violência da imposição da presença colonizadora de uma justificação não estritamente política. Uma disposição assim definida pode resumir-se em algumas áreas de eficiência, analiticamente diferenciadas por facilidade de exposição, mas que, na sua imbricada totalidade, constituem o mecanismo eficiente pelo qual se afirma a constelação de poder e conhecimento da Modernidade. Um dos elementos determinantes da construção teórica da historiografia de Said reside no carácter discursivo da regionalização de exclusão que caracteriza o orientalismo enquanto prática científica. O pressuposto central nesta exposição epistemológica é o de que as sociedades (o ‘tempo presente’ das sociedades, enquanto ordem constitutiva de uma actividade no domínio das ciências históricas) se constituem através de instâncias e de longas enunciações discursivas que exprimem uma série relativamente clara de pressupostos normalizadores, e que são tornados explicitados e dotados de eficiência cultural (e política) através de um sistema lexical e semântico de dicotomias, exclusões e irredutibilidades. Neste contexto, Said identifica um propósito recorrente nas formações discursivas do Ocidente, traduzido por uma série discernível de oposições elementares entre as culturas ‘ocidental’ e ‘oriental’ que, tomadas em conjunto, formam uma matriz ordenada de incomunicabilidade e irredutibilidade entre as duas esferas civilizacionais (Said 1995: 186-187). A oposição constitutiva das duas esferas de alteridade, o ‘Ocidente’ e o ‘Oriente’ estabelece-se não apenas pela explicitação da diferença (‘Ocidente’ como ‘racional’, ‘progressivo’, ‘masculino’; ‘Oriente’ como ‘sentimental’, ‘eterno’, ‘feminino’), mas pela atribuição de uma hierarquia associada, que se insinua pela imposição da ausência do termo ‘superior’ no ‘inferior’. Assim, a categoria ‘sentimental’, mais do que a afirmação de um determinado conjunto de atributos definidos ‘positivamente’ é 27

invariavelmente associada à ‘ausência de racionalidade’; do mesmo modo, o carácter ‘eterno’ do Tempo do Oriente (tão óbvio no arianismo de Martins Sarmento, para quem a esfera ‘ligúrica’ de civilização pervive longos séculos no Ocidente sem modificar o essencial da sua constituição íntima, já trazida originalmente do Oriente) não significa em si mesmo a apreciação de qualquer mecanismo de longue-durée associado a uma especial adequação intrínseca dessa mesma esfera civilizacional, mas especificamente a ausência de historicidade, de progresso; finalmente, o carácter ‘feminino’ do Oriente não diz respeito a uma eventual determinação da ordem feminina sobre o devir social, um análise circunstanciada da existência de relações e vínculos culturais no quadro de uma esfera matriarcal de organização social, mas sim, e muito significativamente, do Oriente como ‘não-masculino’, i.e., como lugar essencializado de complementaridade, enquanto objecto de satisfação visual, do olhar invasor do ocupante colonial. Ainda que em escritos posteriores Said tenha desmanchado o carácter liminar das suas primeira oposições, a sua manifestação eficiente não pode ser de modo algum posta em dúvida.26 Em alguns planos muito aproximada da concepção de ‘abjecção’ de Kristeva, a estratégia essencializadora da diferença que é posta em prática na produção alteral do Oriente não é um artifício de descrição das relações violentas e complexas entre as duas regiões em encontro, mas é, ela mesma, uma estratégia política absolutamente necessária à manutenção da relação colonial dentro do quadro da normalidade ‘jurídica’ da cultura, i.e., da normalidade da representação da própria violência de que não pode, sob nenhuma circunstância, prescindir (Macedo 1985). A determinação articulada de um programa político e intelectual de disciplinamento do conhecimento e de reconhecimento da disciplina não deve parte da sua especial eficiência ao modo como a ciência, considerada prática universal, neutra e ‘objectiva’, procede ao elencamento detalhado das características constitutivas do objecto de análise. O paralelo entre a organização do Estado oitocentista, centralizador, hierárquico e presente nos lugares mais recônditos do território, e uma Ciência de fundo e forma 26

‘Partly because of empire, all cultures are involved in one another; none is single and pure, all are hybrid,

heterogeneous, extraordinarily differentiated, and unmonoolithic, [but] I do not wish to be misunderstood. Despite its extraordinary cultural diversity, the United States is, and will surely remain, a coherent nation. The same is true of other English-speaking countries (Britain, New Zealand, Australia, Canada) and even of France, which now contains large groups of immigrants’ (Said 1993: xxv).

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positivista, também ela centralizada, hierárquica e universal, não é decerto uma simples coincidência ontológica mas antes um propósito metodológico. Em qualquer um dos casos é estabelecido um regime de poder que não admite que nenhum evento ocorra fora dos limites estabelecidos em que pode justamente ocorrer. A Sociedade, como a Natureza e a História, deixa de ter ‘enigmas’, no sentido ‘misterioso’ do termo, uma vez que os limites de previsibilidade são estabelecidos previamente; apenas restam os enigmas ‘científicos’, cuja garantia de solução prévia manieta nos limites do previsível e do dominado, e que se articulam como replicação da expressão inicial de uma ‘lei’. O principal instrumento da ciência, entendida como um género especial e superior (werkiano) de conhecimento, é a capacidade de designar e acumular o detalhe (Porter 1983: 301-302). A série inumerável de disciplinas científicas que se propõem caracterizar detidamente a ‘realidade do Oriente’ são apenas a face visível do esforço político, tornado tão eficiente quanto a relação de alteridade o permita, de determinar a absoluta extensão do objecto a conhecer. Ao desnudar a totalidade, ao exibir, na sobreposição cartográfica de todas as objectividades das diversas disciplinas científicas, a superfície da sua pele, a relação colonial atinge o objecto último da representação inanimada do corpo a possuir, porque a partir do momento em que o conhecimento se representa como absoluto, então a autoridade científica torna-se autorização política, e a violação consuma-se pelo consentimento suposto da relação imperial: [Orientalism] is a discipline of detail, and indeed [it is] as a theory of detail by which every minute aspect of Oriental life testified to an Oriental essence it expressed, that Orientalism had the eminence, the power and the affirmative authority over the Orient that it had [Gregory 2000: 313].27

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Esta replicação superficial da violência da relação colonial em Said (com uma explícita filiação em Foucault, e

no estabelecimento do paralelismo feito por este autor entre o aparelho do Estado e a ordem epistemológica do positivismo: ‘[Napoleon Bonaparte] wished to arrange around him a mechanism of power that would enable him to see the smallest event that occurred in the state he governed’ [Foucault 1979: 140]), estabelecida desde o universo da própria ciência, virá a ter uma expressão literal na antropologia física e nos procedimentos de antropometria racial por ela levados a cabo. O princípio constitutivo desta disciplina, nos vários domínios em que se impôs (criminologia, antropologia colonial, pedagogia…) foi, essencialmente, o direito a despir um corpo, e uma vez despido, o direito a medi-lo exaustivamente; assim, a actividade ‘intelectual’ da medição pressupõe obrigatoriamente a violência ‘política’ do desnudamento.

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Em íntima articulação com o que foi dito no parágrafo anterior, deve tomar-se em consideração que o disciplinamento do conhecimento promovido pela imposição do detalhe e acumulação pormenorizada da cartografia superficial do ‘outro’ depende das condições estruturantes da ‘estética da recepção’, i.e., dos espaços de visibilidade motivada e construída no interior das formações discursivas. Nelas, a formulação espacial do conhecimento toma uma importância central, pois, as instituições de reprodução social do conhecimento distante (no Tempo como no Espaço) são especificamente desenhadas de modo a promover uma visibilidade / invisibilidade arbitrária dos constituintes íntimos do objecto descrito – com a intenção final de fazer com que este seja visto de uma determinada (e determinante) maneira. Said dá, por isso mesmo, uma importância especial ao modo de contemplação ‘panorâmica’ que o Ocidente tende a dar predominância no momento de representar o ‘outro oriental’: The Orientalist surveys the Orient from above, with the aim of getting hold of the whole sprawling panorama before him [Said 1995: 185].

o que remete para a estética contemplativa que a geografia feminista identifica como sendo constitutivo da relação masculina com o espaço em geral e com todas as formas de representação ‘em paisagem’ que têm vindo a constituir o artifício descritivo reiterado da Modernidade.28 A relação exótica (e erótica) com o Oriente não se esgota porém na atribuição de um olhar masculino invasor sobre o ‘corpo reclinado’ da mulher oriental, tal como era representado nas diversas formulações artísticas das artes visuais do século dezanove. O carácter homo-erótico associado a uma determinada sensualização das personagens do cenário oriental estabeleceu igualmente uma ordem discursiva alternativa, na qual a prática e representação da relação erótica com o ‘Oriente’ substituiu, simbólica e literalmente, a persistência da homofobia agressiva do Ocidente, dando origem a uma 28

Sobre a noção da ‘paisagem’ como modo de ver, cf. o trabalho seminal de Denis Cosgrove e os

desenvolvimentos mais recentes (Cosgrove e Daniels 1997; Cosgrove 1998a; Cosgrove 1998b); para uma versão crítica do conjunto da ‘paisagem’ como trope narrativo da Modernidade é imprescindível a consulta da obra de Ana Francisca de Azevedo (Azevedo 2006), especialmente o capítulo segundo. Sobre a visão ‘panorâmica’ orientalista como um exemplo do modo geral de denúncia feminista do carácter contemplativo do ‘corpo’ da Natureza e História pelo olhar invasor masculinista, cf. R. Kabbani (1986) e G. Rose (1993).

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sobreposição ambígua de diversas esferas de identidade de género, fixadas sobretudo no ambiente das grandes cidades árabes do Mediterrâneo e Próximo Oriente.29 O centro de interesse da teoria saidiana é porém muito mais específico do que a simples caracterização do olhar invasor e sensualizado da bourgeoisie europeia sobre o ‘corpo’ da paisagem oriental. O seu objectivo central é demonstrar que ao longo de todo o século dezanove a representação do ‘Oriente’, entre os países do ‘Ocidente’, partiu de uma reprodução panorâmica do exótico e do sublime histórico e geográfico, cristalizou o essencial da sua acção ‘invasiva’ em modelos de conhecimento sob a forma severa da Ciência. Museus, taxinomias, disciplinas científicas são, para Said, os verdadeiros instrumentos de uma dominação efectiva do território colonizado; porque será a partir do sentimento verista do seu potencial descritivo que as representações do exótico adquirem uma aura de verosimilhança que pode então ser universalmente transmitida a partir das formas mais elementares de difusão cultural da alteridade, e promover as condições efectivas de apropriação cultural de uma ‘paisagem imaginária’, em que as condições concretas de existência, sobretudo dos elementos discrepantes, pudessem revelar-se inteiramente. Para Said, o elemento decisivo, pelo que representou de iniciação de uma prática continuada de ‘colonização cultural’ é a obra gigantesca que Napoleão faz publicar sobre o Egipto. Na Description de l’Égypte a estética da recepção é garantida não apenas pela apresentação ‘fotográfica’ dos vestígios grandiosos do passado egípcio (neles incluindo os de cronologia ptolomaica e romana), mas especificamente pela ausência forçada dos habitantes árabes e muçulmanos do tempo da própria expedição ocidental ao Egipto. Ao desnudar o corpo da paisagem, e ao apresentá-lo, exótico e sublime, ao olhar invasor da bourgeoisie europeia, a obra não apenas remove explicitamente os habitantes contemporâneos do cenários da sua representação, como

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A representação do ‘Oriente’, e muito especialmente das cidades do norte de África e Próximo Oriente, como

lugar de uma eroticidade marginal e redentora da homofobia cultural da ‘ordem burguesa’ vitoriana estabeleceu uma longa genealogia de tropos narrativos em que as qualidades da ‘paisagem’ interferem directamente no conteúdo ‘moral’ dos comportamentos das personagens, remetendo assim para uma expressão do que Livingstone (Livingstone 1992: 216-260) chama de ‘configuração moral da natureza’. Ainda entre os autores do século vinte, e mesmo dos contemporâneos, este estereótipo tende a reproduzir-se, como no caso de Evelyn Waugh, Lawrence Durrell ou Michael Ondaatje.

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afirma subliminarmente (ou nem tanto) a continuidade directa, a filiação genealógica, das civilizações dominantes do Passado com as civilizações dominantes do Presente. Faraós egípcios e imperadores europeus são assimilados pela Arqueologia e integrados numa narrativa comum que essencializa o Tempo e a herança, admitindo como ‘natural’ a ligação entre os dois mundos que a pesquisa e escavação arqueológica, haveria de, ao longo de todo o século dezanove, materializar nos vários museus de recolha de antiguidades orientais em todas as grandes capitais europeias: [T]he representation of the Orient as an imaginary ‘museum without walls’, in which cultural fragments were reassembled and allocated among the categories of a tabular Orientalism, invokes an altogether different order of departmentalization: the textual inventory that is emblematic of Foucault’s classical, eighteenth-century taxonomies. (…). [T]he enframing of the Orient within what Said describes as ‘a sort of Benthamite Panopticon’ moves the empire of the gaze beyond the tableau and the table to anticipate a system of power-knowledge in which ‘things Oriental [are placed] in class, court, prison or manual for scrutiny, study, judgement, discipline or governing’: it is a preliminary and a prop for the disciplinary powers inscribed within the colonizing apparatus of the ‘world-as-an-exhibition’ [Gregory 2000: 317].

3) Outra abordagem que toma em consideração os efeitos constitutivos do lugar no contexto da história do conhecimento científico é a obra de Paul Carter, The Road to Botany Bay (1988), cujo subtítulo é, significativamente, ‘An Essay in Spatial History’. O trabalho de Carter incide sobre o modo como o Ocidente ‘descobriu’ e colonizou o continente australiano e do modo como foi importante a ‘nominação’ nesse acto de apoderamento de um território distante. A ‘nominação’, a atribuição de nomes aos lugares da terra Australis incognita, é que permite, segundo o autor, que o espaço seja transformado simbolicamente num lugar, isto é, ‘um espaço com história’. A ‘história espacial’ de Carter opera, portanto, na instância da linguagem (Carter 1987: xxiiixxiv).30

30

Apesar de o século dezanove conhecer bem a representatividade da ocupação indígena (Spencer 1901).

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De grande importância na construção simbólica de um lugar é, não só, a atribuição de um nome como, e sobretudo, a capacidade de o tornar disponível no contexto da comunicação cultural, para que se destaque o modo como estes espaços são objecto de invasão e intervenção linguística. Ou, o que é o mesmo, como as extensões de espaço se tornam um evento na narrativa da colonização e uma categoria de conhecimento científico. A razão por que Carter prefere o nome de ‘história espacial’ ao de geografia é a de, justamente, sublinhar a importância da inclusão dos lugares numa estrutura narrativa colonial e científica (Carter 1987: xxiii).31 Na interpretação de Carter, um nome, ou melhor um acto de nominação, localiza num lugar específico e até aí desconhecido, a intenção universalizante da Ciência. É, portanto, mais do que um nome – é uma intenção Paralelamente aos ‘cabos e baías’ a que os primeiros exploradores e naturalistas iam dando nome, também o interior da Austrália viria a sofrer um processo semelhante, embora anos muitas décadas depois, porventura mais intensamente colonial, como por exemplo com o levantamento cartográfico. A exploração e o levantamento cartográfico configuram uma prática conjunta de apoderamento do território nativo, conhecido localmente, mas ‘descoberto’ no contexto da circulação cultural ocidental, mas agora com intuitos propriamente ‘geográficos’, isto é, próprios de uma ciência espacial. Como instrumento fulcral deste acto de apoderamento de um ‘lugar selvagem’, e da sua

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O espaço concreto que Carter analisa no seu trabalho é a ‘descoberta’ e colonização da Austrália. O que este

autor defende é que a ‘nominação’ dos espaços que iam sendo progressivamente colonizados fazia parte integrante do projecto colonial ele mesmo, em que uma forma de apoderamento europeu se fazia através da despossessão linguística dos territórios dos povos nativos. O apoderamento linguístico teria acompanhado todo o processo de conquista e colonização da grande ilha, conforme as viagens de reconhecimento e o preenchimento de mapas confluíam no organização de um território tornado cada vez mais assíduo no contexto da circulação cultural europeia. O primeiro exemplo que Carter nos apresenta e que, de resto, dá o nome ao livro, é o da nominação da Botany Bay, no contexto da viagem do Endeavour, em que viajavam nomes importantes da ciência inglesa do Iluminismo, especialmente Joseph Banks, que viria a deter um lugar proeminente na própria Royal Society. Ao atribuir o nome de ‘Baía da Botânica’ ao lugar em que a nave de Cook aportou pela primeira vez no continente australiano, os exploradores e naturalistas operavam localmente com uma universalização característica da ciência iluminista. O acto de nominação é também uma alegoria da Ciência iluminista e da conjugação específica das viagens naturalistas que punham em contacto, quando não em confronto, as duas partes envolvidas: os exploradores e os naturalistas, aqui representados pela oposição, ou composição, entre Banks e Cook. Para os exploradores, como Cook, a ciência como exploração; para os naturalistas, como Banks, a exploração como ciência (Carter 1987: 25).

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transformação num ‘espaço geográfico’, ergue-se, naturalmente, o mapa: ‘instrument of interrogation, a form of spatial interview which made nature answer the invader’s need for information’ (Carter 1987: 113). A reticulação trigonométrica e a cartografia a que dá origem é indubitavelmente uma operação de tradução de ordem espacial que é exigida previamente à ocupação efectiva do território. Ao cobrir o lugar original por uma rede de coordenadas geográficas, inventou-se um país novo e desenhou-se no seu solo as linhas reais da sua vulnerabilidade, caminhos inevitáveis da sua invasão, tornando disponível para as instâncias de representação científica o que até então se resguardava nos limites da concepção mitológica do ‘espaço distante’.32 Também no que diz respeito à actividade científica de Martins Sarmento, teremos oportunidade de ver como a construção das geografias imaginárias do Passado se fundamenta num duplo propósito de descoberta e reconhecimento. Por um lado, pela nominção dos territórios do Passado, dos ‘cabos e baías’ da Antiguidade resgatados pela hermenêutica pacientementemente operada sobre as fontes clássicas, especialmente sobre a lenda dos Argonautas e o poema de Avieno. Por outro lado, pela recolha infatigável das marcas materiais daquelas geografias no Presente do autor; os ‘materiais de Guimarães’ são, neste sentido, o survey geográfico da História e o fundamento político-intelectual da apropriação de uma determinada forma de Memória. Tal como um continente vê, a partir da aplicação da Ciência geográfica, formulada uma nova identidade, também o Passado de um território pode, a partir da aplicação da Ciência

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Enquanto produto social, o ‘espaço’ segue uma linha de reestruturação ao longo do tempo que lhe é garantida

pela íntima comensurabilidade do espaço e do tempo, da história e da geografia. Nesse contexto, a ‘produção do espaço’ não é apenas retroactiva, ou mesmo reactiva, mas exerce ela própria um poder constitutivo de intervenção que pode, em circunstâncias específicas, permitir adquirir, ao espaço, um poder emancipador efectivo. Esta ideia, que retiramos de Lefebvre (1991; 2002: 131-141), e embora enunciada primitivamente para o ambiente urbano, pode com naturalidade ser expandida para a estruturação espacial da comunidade científica e das representações cartográficas das suas geografias imaginativas do passado. A noção de que a prática da acção social constitui o momento mais importante da reprodução social está igualmente presente em Bourdieu (1998), e Carl (2000: 331 e ss.) apresenta uma interessante explicitação do poder ‘prático’ da arquitectura doméstica e urbana na intimação social da ‘normalidade’ do comportamento. Equivalente a esta fenomenologia do espaço é, naturalmente, a relação que identicamente se estabelece com os objectos, que são mais do que ‘indicadores de função’: eles são, pela natureza prática da sua utilização, a via privilegiada da inculcação estruturante e reprodução das relações sociais e tecnológicas de que fazem parte (Dobres 2000: 82 e Dobres e Robb 2000: capítulo introdutório).

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arqueológica, passar a deter uma nova forma de identidade, cuja inércia se estenderá perviventemente no Tempo. I. 1.2. O Lugar Existem diversos trabalhos no contexto da Antropologia e da Sociologia em que uma abordagem espacial-social está presente. Far-se-á referência fundamentalmente ao trabalho de quatro autores: C. Geertz, E. Goffman e A. Giddens e P. Bourdieu. Todos eles reconheceram, ainda que sob pontos de vista diferentes, o modo como se interrelacionam, e mutuamente se reforçam, a organização do espaço e a prática social.

1) O propósito essencial do trabalho de Geertz é o de compreender as próprias condições da compreensão, isto é, determinar qual a natureza da relação comunicativa que permite que dois actores sociais, feridos entre si de alteridade mais ou menos profunda, possam comunicar e compreender-se mutuamente, sendo que ‘alteridade’, neste contexto, se refere não apenas às condições objectivas de irredutibilidade estabelecidas entre as diversas esferas culturais postas em contacto no ‘momento antropológico’, do próprio trabalho de campo do antropólogo, como também a ‘inscrição’ dessa relação sob a forma de um texto descritor da ‘essência cultural’ a apreender. Como se verá, Geertz é especialmente sensível não apenas à possibilidade de ‘falar pelo outro’, mas à própria capacidade discreta de um único texto favorecer uma visão estereotipada do objecto dessa substituição epistemológica.33 É uma tarefa de índole hermenêutica com uma componente fortemente localista, remetendo para as condições específicas, ‘dialogais’ do evento físico e social da comunicação (Miller 1997: 247). Por exemplo, no contexto do estudo dos sistemas legais em áreas diversas do mundo, e em oposição ao modelo dominante da filosofia política e jurisprudencial da Modernidade, Geertz defende que : ‘[L]aw and ethnography are crafts of place: they work by the light of local knowledge (…)’ (Geertz 1983: 167). Não existe um conjunto de preceitos jurídicos ‘naturalmente universais’, mas sim modulações locais de uma convivência comum, dotadas de independência e

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A defesa da componente localista de Geertz pode ser vista em alguns dos seus trabalhos (e.g., Geertz 1973;

Geertz 1980; Geertz 1983).

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especifidade antropológica. A possibilidade de confluência dos vários sistemas jurisprudenciais é, para Geertz, unicamente dialogal, de expressão necessariamente hermenêutica, uma vez que nenhum sistema meta-antropológico os envolve nem, portanto, dá um sentido particular a realidades singulares em lugares específicos. Hermenêutica, significa, assim, dar mais importância à natureza significante das relações antropológicas dialogais do que à análise discreta dos elementos constituintes dos sistemas culturais. Para Geertz, a expressão hermenêutica da situação dialogal supera, assim, o desconhecimento mútuo, transferindo a possibilidade de caracterização ontológica da cultura, não pela adequação a um conjunto de conceitos supostamente neutros e universais (mas que, na realidade, são sempre emanados de um sistema cultural específico), mas pela redução da variedade a um comentário mútuo. Um texto antropológico é, neste sentido, sempre escrito a ‘duas mãos’, não porque derive do contacto explícito de duas esferas culturais, mas porque descreve o único momento de mútua compreensão. Ao contrário da fixação textual etnográfica clássica, que se dirigia a um leitor perfeitamente identificado, o ‘fellow’ da sociedade antropológica do século dezanove ou o ‘académico’ das décadas iniciais do século seguinte, o ‘texto geertziano’ é (supostamente) passível de ser lido por qualquer um dos lados que promoveu o encontro ao qual ele se refere, e é dessa sua ambivalência localmente situada que ele retira não só a capacidade hermenêutica de desvelar o desconhecido mas igualmente o carácter transitório da sua própria afirmação, resultado da factualidade espácio-temporal a que diz especificamente respeito. Deixamos propositadamente entre parênteses a palavra ‘supostamente’, porque será a este nível que a teoria feminista enunciará a sua crítica do programa geertziano de relação com a alteridade, ao defender que a fixação de um texto é sempre uma manobra hermenêutica ‘não emancipatória’ da realidade estudada, e que, sob a forma de um relativismo conveniente, o programa geertziano replica o mesmo tipo de menorização e superficialidade da relação com o desconhecido que era já uma característica intrínseca dos momentos mais ‘clássicos’ da Antropologia (Branco 1986; e cf. Franklin 2001). Voltaremos a este ponto específico um pouco mais à frente. De momento, tentemos isolar as características gerais da epistemologia de Geertz e descrever o modo como ela servirá de referente a uma afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ na concepção do estudo do Tempo. 36

O trabalho de Geertz sobre os sistemas jurisprudenciais serviu de base a um programa etnometodológico mais vasto de descrição e interpretação dos sistemas culturais. O carácter localista deste programa chama naturalmente para a linha (metodológica) da frente uma série de procedimentos que visam dar conta de um modo mais completo e satisfatório do que, tradicionalmente, era levado a cabo pelos inquéritos clássicos da antropologia de campo – aquilo a que se chamou de thick description. Uma caracterização dos sistemas culturais que, mesmo nos mais ínfimos pormenores, não prescinde da sua integração na corrente dialogal do comentário mútuo que os ilumina e se aproxima do seu verdadeiro papel na construção de uma relação de identificação e comunicação. Naturalmente, a própria actividade do antropólogo encontra-se imersa neste tipo de relação dialogal, comentário mútuo de dois sistemas culturais ‘localizáveis’. Somente através deste diálogo local, os sistemas culturais podem revelar inteiramente os seus sentidos mais profundos. Obviamente, para Geertz, tal como em Latour, o facto de o antropólogo pertencer predominantemente a um sistema cultural expansivo e de recobrimento ‘universal’ não faz com que o mesmo não seja igualmente um sistema ‘local’ de cultura, ainda que a relação colonial faça impender sobre este pressuposto legítimas inquietações, não só políticas mas estritamente epistemológicas. A não ser assim, as relações antropológicas desenvolvemse no contexto de universos imaginários, onde as acções não podem ser culturalmente suspensas, e onde, portanto, são interpretadas como comentários de si próprias (Geertz 1973: 7-13). Em todo o caso, sempre que nos referirmos ao poder constitutivo do local e à capacidade ‘tradutora’ da relação antropológica, tal como é apresentada por Geertz, não nos esqueceremos nunca da principal objecção que é feita ao seu trabalho, que passa pela incidência necessariamente assimétrica da relação de colonização ‘branca’ dos restantes continentes. Uma das críticas mais contundentes da possibilidade de existir uma correlação simétrica entre duas esferas ‘locais’ de afirmação cultural, uma da parte do ‘antropólogo’, e outra do ‘informador’, é a de Frantz Fanon, no contexto da sua interpretação psicanalítica da ‘maldição absoluta’ e irrevogável do processo de colonização: As long as the black man is among his own, he will have no occasion, except in minor internal conflicts, to experience his being through others. There is

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of course the moment for ‘being for others’, of which Hegel speaks, but every ontology is made unattainable in a colonized and civilized society. It would seem that this fact has not been given sufficient attention by those who have discussed the question. In the Weltanschauung of a colonized people there is an impurity, a flaw that outlaws any ontological explanation. (…). For not only must the black man be black; he must be black in relation to the white man. Some critics will take it on themselves to remind us that this proposition has a converse. I say that this is false. The black man has no ontological resistance in the eyes of the white man. Overnight the Negro has been given two frames of reference within which he has had to place himself. His metaphysics, or, less pretentiously, his customs and the sources on which they were based, were wiped out because they were in conflict with a civilization that he did not know and that imposed itself on him [Fanon 1967: 109-110. A ênfase é nossa].

Contudo, estas críticas não nos impedirão, de momento, de ‘perder a floresta com a árvore’, e de não reconhecer os elementos constitutivos de afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ por parte da relação etnográfica concebida por Geertz, bom como a sua especial importância na concepção epistemológica do Tempo. Não é possível compreender o núcleo essencial da teoria cultural geertziana sem fazer alusão à característica do ser humano em replicar uma determinada proposição em diferentes contextos daqueles em que ela é inicialmente formulada. No contexto da ciência (pelo menos na sua variante positivista e werkiana), este monismo faz mesmo parte integrante da ontologia da teoria. Pelo seu lado, também Kuhn associa à actividade científica uma série de mecanismos psicológicos de tradução e replicação de exemplares a situações para as quais não foram em primeira ordem designados.34 Com íntimas relações com a noção de ‘travelling theory’ de Said, o que está em questão no trabalho de Geertz é a insinuação de uma dúvida epistemológica sobre a actividade científica (e não-científica, em geral) revelada pelo espírito humano, que 34

Assim, o poder heurístico dos ‘electricistas’ do século dezoito estaria justamente no poder ilustrativo da

analogia de um sistema eléctrico com um sistema hidráulico. E ainda que a analogia não seja perfeita (nunca o é), a verdade é que a maior parte das grandezas físicas e relações entre variáveis determinadas para o original ‘hidráulico’ se vieram a verificar equivalentes no replicado ‘eléctrico’, e forneceu a um determinado grupo de cientistas as condições de ‘vitória’ paradigmática (Kuhn 1989: 228).

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imediatamente aplica, a novas situações, proposições exaradas de contextos exteriores ao novo domínio da aplicação, sobre o poder ‘heurístico demasiado’ de uma teoria ou de uma explicação que leva to the fact that all sensitive and active minds turn at once to exploiting it. We try it in every connection, for every purpose, experiment with possible stretches of its strict meaning, with generalizations and derivatives.35

Assim, o que Geertz ergue como o sinal mais marcado da sua concepção epistemológica é a ‘territorialização’ essencial da natureza do conhecimento, a sua radicalidade cultural e local, que impede, em qualquer circunstância, a validação de todas as formas de extensão e sinédoque teóricas, para lá dos limites historicamente validados das relações factuais entre os universos tocados por essa mesma extensão. E mesmo assim, como veremos, sempre sujeitos à validação propriamente ‘cultural’ que o contacto entre diversas esferas civilizacionais possa permitir. O ponto de partida é então a constituição da cultura e, por extensão, o conhecimento, nos seus próprios termos, domínio fora do qual toda a designação semiótica se organiza, não por uma tradução sustentada mas pela imposição sígnica exterior e violenta. Uma consequência necessária deste ponto de vista é, naturalmente, a afirmação weberiana da construção da identidade do ser humano através das redes de significação múltiplas por ele estabelecidas e a obrigatoriedade ‘interpretativa’ da hermenêutica da sua exposição. De acordo com a pressuposição assumida do poder ‘local’ de afirmação da cultura e do conhecimento, Geertz caracteriza a abordagem metodológica que deriva necessariamente dela – ‘thick description’ (Geertz 1973: 5-6 e 9-10). Geertz

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Langer 1951, apud Geertz 1973: 3. Embora Susanne Langer exponha esta proposição no domínio específico

da estética da obra-de-arte, o essencial mantém-se, na denúncia do modo como uma determinada ideia, discreta e pontualmente recolhida de uma situação histórico-geográfico-antropológica muito específica, ganha uma inusitada valorização no seio da comunidade científica, ou artística e desenvolve um ‘excesso de sinédoque’, de modo a negar quaisquer outros pontos de vista alternativos. A afirmação explícita de Geertz do carácter plural das culturas, no próprio título do seu livro de 1973 (The Interpretation of Cultures), leva a considerar como este ponto é central no interior da sua teoria. Sobre a avaliação do ‘rigor’ de uma informação recolhida pela confrontação ‘densamente textual’ entre o ‘antropólogo’ e o seu ‘informador’, cf. Baxter e Eyles (1997). Cada vez mais se estabelece, dentro da domínio específico da Antropologia, que a estruturação identitária do nacionalismo percorre não só o contexto de formulação das perguntas do ‘antropólogo’ como das respostas do ‘informador’, o que destaca uma possível inarticulabilidade do discurso antropológico no lugar exacto em que seria suposto ele exercer-se (Cillia et al. 1999).

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explicitamente reconhece a sua dívida intelectual, na definição do conceito de ‘thick description’ do contextualismo de Gilbert Ryle. Para este autor, a compreensão de um determinado facto não podia nunca ser inteiramente acedida se não se compreendesse previamente o contexto (variável) em que ela se inseria: The thinnest description of what the rehearsing parodist is doing is, roughly, the same as for the involuntary eyelid twitch; but its thick description is a many-layered sandwich, of which only the bottom slice is catered for by that the thinnest description. Taking the word ‘only’ in one way, it is true enough that the rehearsing parodist is, at this moment, only contracting his right eyelids. Taken in another way, this is quite false; for the account of what he is trying to effect by this eyelid-contraction, i.e. the specification of its success-conditions, requires every one of the successively subordinate ‘try’ clauses, of which I will spare you the repetition.

Do ponto de vista da história da Cultura (e da Antropologia), a ordem contextualista invalida qualquer tipo de recolha de elementos de informação discretos e ‘positivos’, uma vez que a mesma organização elementar pode dizer respeito a contextos significativamente diferentes.36 É uma radicalidade eventualmente ainda mais funda do que foi a dos ‘funcionalistas’ e ‘estruturalistas’, autores que, no interior da Antropologia, referiam igualmente a validade diminuída do facto ‘positivo’ tomado elementarmente. Para Ryle, como para Geertz, o carácter ‘contextual’ da definição cultural de um elemento não se revela pela recolecção de ‘todos os elementos’ significativos em conjunto estruturado (como o era para as duas tradições anteriores – que se satisfaziam com clusters de elementos discretos) mas apenas pela situação concreta de ‘co-presença’ desses elementos, que só a dialogalidade poderia, com êxito, desvendar. ‘Etnografia’ ganha assim, com Geertz, um sentido mais específico, que pode com sucesso ser importado pelas outras disciplinas que lidam com as relações entre seres humanos, as Ciências ‘Sociais’. Esse sentido é a ‘etnometodologia’, um conjunto

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A ideia de que uma ‘paisagem’ arqueológica não se resume à distribuição dos vestígios materiais por uma

superfície abstracta e ‘coordenada’ por latitudes, longitudes e altitudes, polígonos de Thiessen e funções de difusão, leva a que os elementos simbólicos de caracterização da paisagem sejam cada vez mais tidos em conta, ainda que, nos pareça que a tónica interpretativa tende a deixar mais marginalizado a relação do passado com o presente do que a sua recíproca (Ashmore e Knapp 1999: 8-12).

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de pressupostos e práticas de trabalho e pesquisa que partem da manutenção ostensiva das condições de dialogabilidade e contextualização, ‘a way of accounting for the organization of society that relies on description rather than theory, aims for explication rather than explanation, and is concerned with ideographic detail rather than broad generalization’.37 Neste contexto, a relação de alteridade proposta pela co-presença do ‘antropólogo’ e do ‘informador’ impede uma leitura ‘críptica’ da realidade de que se pretende dar conta. Esta é mesmo, quando considerada singularmente, a principal característica da etnografia geertziana, quando comparada com as tradições intelectuais da Antropologia que o precedem, principalmente os estruturalistas. Para estes, o ‘texto antropológico’ é uma ‘versão’ histórico-geográfica da narrativa comum da Humanidade, dos interditos e obrigações que mutuamente constituem o acesso da Natureza à Cultura, sendo a sua abolição, como elemento intermediário da tradução global dos mecanismos ‘profundos’ que regem as relações do ser humano consigo mesmo e com a Natureza, imprescindível para a compreensão do significado oculto. Em Geertz, pelo contrário, não existe desvelamento possível, antes imersão de um mundo em outro, do qual se sai quando dele nos afastamos, ao qual obrigatoriamente pertencemos enquanto nele vivemos. O ‘texto antropológico’, neste sentido, não é codificado por palavras ou conceitos mais ou menos abstractos, que intelectualmente se constatam e verbalizam numa descrição narrada de uma participação cultural alheia; o ‘texto antropológico’ geertziano é um texto escrito com o próprio comportamento, é uma ‘performance’, e o ‘antropólogo’ que o queira compreender deve vivê-lo como tal, ‘participadamente’:38

37

S. J. Smith 2000: 239. Sobre a ‘contaminação’ mútua do carácter ‘literário’ e ‘cultural’ (Said diria ‘facto’ e

‘ficção’) da narrativa antropológica, dentro do contextualismo ryleano, cf. Barrett (1987) e Trencher (2002). Sobre a epistemologia da ‘indução’ e a criação extrapolada de teorias universais, cf. Gardin (1980: 62 e ss.) e Gibbon (1984: 35 e ss.). 38

A crítica feminista da concepção geertziana da interpretação da cultura funciona justamente a este nível: o da

inaplicabilidade da metáfora textual à relação etnográfica. A mesma frase que acima caracteriza a nossa descrição da relação etnográfica de Geertz, teria de ser escrita diversamente, talvez: O ‘texto antropológico’, neste sentido, não é codificado por palavras ou conceitos mais ou menos abstractos, que intelectualmente se constatam e verbalizam numa descrição narrada de uma participação cultural alheia; o ‘texto antropológico’ feminista é um texto escrito com o próprio corpo, é uma ‘incarnação’, e o ‘antropólogo’ que o quiser compreender deve vivê-lo como tal, ‘insensatamente’ (cf. Gibson-Graham 2005: 105-108).

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Doing ethnography is like trying to read a manuscript – foreign, faded, full of ellipses, incoherencies, suspicious emendations, and tendentious commentaries, but written not in conventionalized graphs of sound but in transient examples of shaped behaviour [Geertz 1973: 10].

Nenhuma outra palavra descreve melhor a qualidade discriminante da relação etnográfica assumida por Geertz do que aquela que ele próprio utiliza no fim desta frase: a sua interpretação da cultura, ou das culturas, como ele próprio faz questão de sublinhar, é sobretudo a afirmação ousada de exercer a transiência da própria quási-ilegibilidade da relação inter-cultural. Em todo o caso, o investigador deve desconfiar do carácter essencializado das relações de constituição da relação alteral, quando baseada em critérios de confiança mútua. Existe, por trás da concepção geertziana da relação etnográfica, um pressuposto, nem sempre explícito, de que a bonomia da relação é em si mesma geradora de um maior insight da comunidade com que se pretende entrar em contacto. Eticamente, a versão conflitual desta relação está atribuída à violência epistemológica própria da relação colonial, enquanto a sua recíproca se atribui àqueles que fazem uso da empatia, da simpatia, entre os elementos em co-presença. Nada, porém, determina epistemologicamente que a relação etnometodológica do consenso seja menos mistificadora do que a outra forma com que aparentemente quer entrar em contradição.39 Nesta exposição condensada da relação etnográfica em Geertz é possível começar a identificar as principais linhas de ruptura que o autor apresenta em relação à genealogia interpretativa da disciplina da Antropologia. O que parece ser dominante na estruturação da sua teoria é o facto de que a divisão tradicional entre ‘objectividade’ e ‘subjectividade’, quando referida à noção, central, de cultura, deve ser de pronto erradicada do discurso antropológico. A cultura entendida deste modo, não se deixa obscurecer no significado reificado da concepção super-orgânica, em que da cultura se admite ter processos autónomos e uma existencialidade própria, independente da prática

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Ver, por exemplo, Svend Brinkmann e Steinar Kvale (Brinkmann e Kvale 2005), autores para quem uma

relação mais conflitual entre ‘entrevistador’ e ‘entrevistado’ pode não ser necessariamente negativa do ponto de vista de estabilizar os referentes de conhecimento entre os elementos em co-presença.

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social de que emana, nem nas várias formulações reducionistas que pretendem confundir a esfera da actividade cultural com os padrões materiais da sua expressão. A relação etnográfica é essencialmente cognitiva, porque contém não só a inscrição da sua expressão mas também a compreensão contextual da sua prática. Os mecanismos de expressão prática da esfera cultural não dizem apenas respeito aos elementos de que ela mesma se constitui, mas da aplicabilidade prática que esses elementos traduzem em termos de exibição de um modo compatível de sociabilidade, de publicação cultural desses mesmos elementos. É neste sentido que um investigador, um antropólogo, um etnógrafo, um arqueólogo, apenas pode permitir-se compreender a comunidade com que se encontra, no momento em que possa, com sucesso, passar por um elemento indígena dessa mesma comunidade. Temos a noção perfeita de que a alteridade relativa a um arqueólogo não é mesma de um antropólogo; nem tão-pouco é a mesma a relação de co-presença entre os autores sociais e culturais envolvidos. Porém, uma extensão deste modelo traz para a esfera da Arqueologia a noção, central em Geertz, do embebimento progressivo do investigador na sua comunidade de destino. Uma viagem ao passado pode ser igualmente geradora de mecanismos de co-identificação e, se a confirmação do conhecimento do outro é sempre garantido pela codificação performativa dos comportamentos, então não há razão para que o ‘presente’ do registo arqueológico não permita uma codificação material e ideal semelhante a estabelecer com a ‘visão do passado’ do investigador (Bauer 2002). É a própria expressão contextual, e enquanto expressão contextual dos conceitos mais abstractos, que define a tarefa primordial da relação etnometodológica. As coisas não existem em si mesmas, mas ‘no mundo’; é o ‘mundo das coisas’, onde se tece a designação cultural da vida comunitária, enquanto sua expressão pública complexa e completa, que o investigador deve partilhar, mesmo quando se refere (ou sobretudo quando se refere) à identificação da esfera cultural através de elementos materiais da sua designação: The thing to ask is what their import is: what is it, ridicule or challenge, irony or anger, snobbery or pride that, in their occurrence and through their agency, is getting said. (…). [N]o one, I would think, identify [a Beethoven quartet] with its score, with the skills and knowledge needed to play it, with

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the understanding of it possessed by its performers or auditors, nor, to take care, en passant, of the reductionists and reifiers, with a particular performance of it or with some mysterious entity transcending material existence. (…). As Wittgenstein [said:] ‘We […] say of some people that they are transparent to us. It is however important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves). We cannot find our feet with them’ [Geertz 1973: 10, 11, 13. A ênfase é de Geertz.].

Tomando em consideração as características propriamente teóricas adiantadas nos pontos anteriores, cabe agora considerar quais as implicações dessa concepção na expressão prática do relacionamento ‘etnográfico’, incluindo nesta designação todas as expressões de relações feridas de alteridade. A pesquisa etnográfica, neste sentido, não passa por tomar o ‘lugar’ do outro, nem de ‘abandonar a civilização’ de que se parte para se fundir na que se encontra, nem tão pouco reproduzir uma modalidade kitsch de vivencialidade, imitando os modos de vestir, de se alimentar, de modo a traduzir uma disposição estética do ‘não-eu’. A ideia central de Geertz é, essencialmente, a de estabelecer os princípios válidos de uma ‘boa conversação’, de uma relação hermenêutica dialecticamente constituída, de modo a que o resultado final não esteja contido nas grelhas interpretativas de nenhum dos pólos dessa mesma conversação, de que seja algo constituído cronotopicamente, uma mundividência que transcenda as condições iniciais da sua própria constituição e que dependa intimamente da passagem do tempo e da situação do lugar, determinados pela própria conversação assim estabelecida. Quase é desnecessário referir que a crítica posterior incidirá principalmente na concepção simétrica desta conversação, além de outros ‘excessos de sinédoque’ que contaminam igualmente a bondade conceptual da proposta geertziana. Por um lado, está longe de ser pacífico, entre vários investigadores no contexto da teoria social, que o ‘antropólogo’ represente a ‘civilização ocidental’ e o ‘informador’ represente a ‘civilização indígena’; porém, deve dizer-se que Geertz detinha uma noção 44

especialmente clara desta problemática e que em nenhum momento pretendeu que a sua ‘voz narrativa’ (e, respectivamente, a do informador, embora nesta caso com menos nitidez epistemológica) representasse mais do que ele próprio, o que reflecte bem a conceptualização global da sua própria teoria da ‘localidade da cultura’. A natureza da ‘tradução’ assim estabelecida, tendo origem no evento discreto da relação ‘etnográfica’ entre o ‘antropólogo’ e o ‘informador’, seria subsumida num jogo complexo de múltiplas atribuições de sentido, até que se pudesse tornar um referente estabilizado do corpus escrito da descrição ‘ocidental’ do ‘não-ocidental’.40 Além disso, embora a geografia concreta do seu trabalho indique uma prática etnográfica relacionada com as situações sociais e culturais ‘não-ocidentais’, nada no enunciado geral da sua teoria permite tomar como garantido que a mesma relação ‘etnográfica’ assim constituída não se possa aplicar a ‘conversações’ no quadro da estrutura social ‘ocidental’ a que pretence o próprio ‘antropólogo’. Contudo, a noção de ‘irredutibilidade cultural’ que habita a obra de Geertz exige, inevitavelmente, uma área de total desconhecimento do outro, ou, mais rigorosamente, uma área de comportamento social e representação cultural, em que as soluções alternativas propostas (pela ‘sociedade do antropólogo’ e pela do ‘indígena’) sejam absolutamente irreconciliáveis. Essa é, especificamente, a origem conceptual que suporta o seu posicionamento ‘anti-anti-relativista’, sob a autoridade do humanismo de Montaigne: ‘[E]ach man call barbarism whatever is not his own practice (…) for we have no other criterion of reason that the example and idea of the opinions and customs of the country we live in’. (…). What looks like a debate about

40

A este respeito é muito significativa a opinião que Geertz partilha com o filósofo Stanley Cavell: ‘If speaking

for someone else seems to be a mysterious process (…) that may be because speaking to someone does not seem mysterious enough’ (Geertz 1973: 13). É através da perturbação dos prejuízos associados à ‘naturalidade’ da relação conversacional que funciona a crítica anti-estruturalista de Geertz. A autoridade de Cavell não é, por isso mesmo, acessória, mas necessária para a autorização de uma prática de ‘levantamento’ dos fundamentos do mecanismo humano da ‘conversação’, e da produção activa da identidade que produz, sobretudo nos mecanismos inconscientes da autobiografia como modo constitutivo não só do ser-humano concreto, mas das condições de reconhecimento de todos os outros. Sobre a caracterização de um modo ‘autobiográfico’ constitutivo das relações de alteridade e sobretudo da relação etnográfica, cf. Gorra 1995: 143-153, especialmente os ‘reviews’ das obras de Stanley Cavell e Clifford Geertz.

45

the broader implications of anthropological research is really a debate about how to live with them [Geertz 2000: 45].

Os limites da ‘relação etnográfica’ são assim estritamente confinados, por Geertz, à manifestação de uma interpretação ‘localizada’, haurida de uma conversação entre dois autores cujas mundividências não são nunca inteiramente sobreponíveis. Esta sobreposição imperfeita é que exige, nos próprios termos da sua imperfectibilidade, a necessidade da descrição ‘espessa’ da sua própria constituição, quer pelo ‘tempo’ que exige para a sua designação, dentro de parâmetros de objectividade mutuamente consentida, quer pelo ‘tempo’ de confirmação continuada da sua fundamentação. Tudo se passa, como se o primeiro mapa desenhado pela imposição exterior do antropólogo das estruturas mentais de origem à realidade ‘indígena’ criasse um ‘texto’ que tem de ser reescrito quantas vezes forem necessárias, sempre que a relação demorada e atenta entre o ‘antropólogo’ e o ‘informador’ o ponham em causa.41 Tal como na ‘cartografia das Descobertas’, cada mapa desenhado estabelece os limites das questões que se farão na viagem seguinte de reconhecimento, ao mesmo tempo que, em cada uma destas viagens de reconhecimento, se renovam dialecticamente as condições de conversação com os ‘indígenas’ que põem directamente em questão o mapa prévio. Assim, como cada mapa tornava inútil o anterior, o texto do antropólogo é constituído por uma série de reformulações de textos sucessivamente tornados obsoletos pela informação que cada um desses mesmos textos permite que a conversação traga para a esfera partilhada do comentário mútuo: In short, anthropological writings are themselves interpretations, they are thus, fictions, not that they are false, but that they are ‘something made’.

41

[W]e begin with our own interpretations of what our informants are up to, or think they are up to (…). (Geertz

1973: 15). Esta frase de Geertz ilumina com particular intensidade o problema fundamental de relativismo que habita a sua obra. A noção de que em nenhuma altura o ‘antropólogo’ possa estabelecer princípios absolutos de caracterização da realidade ‘indígena’ é especialmente fulgurante na ‘suspeição metódica’ que é exercida sobre o ‘informador’. Este, para Geertz, está longe de ser o ‘representante-tipo’ da comunidade a que pertence, papel que modalidades anteriores da prática da Antropologia lhe haviam determinado. As suas motivações e especialmente aquelas que o tornam ‘um informador’ são as mesmas que permitem, por um lado, aceder ao mundo indígena, a que a incomunicabilidade original não permite aceder de outro modo, e, por outro, determinar inevitavelmente uma personalização interior dessa acedência, base de uma relatividade intrínseca da relação etnográfica que não se pode em nenhuma situação transcender.

46

(…). [A]lthough culture exists in the hill-fort, anthropology exists in the book [and] that line between mode of representation and substantive content is as undrawable in cultural analysis as it is in painting. (…). It is not against a body of uninterpreted data, radically thinned descriptions, that we must measure the cogency of our explications, but against the power of scientific imagination to bring us into touch with the lives of strangers [Geertz 1973: 15, 16, 17].

Uma das principais consequências da concepção ‘conversacional’ da relação etnográfica proposta por Geertz é a denúncia da suposta objectividade da Antropologia estruturalista, que considerava ser possível estudar a cultura, nas suas várias manifestações, no recinto dos ‘seus próprios termos’. A dúvida geertziana torna-se ‘metódica’ justamente na medida em que supõe que os mecanismos tornados óbvios por uma hermenêutica assim constituída podem dizer mais respeito ao esquematismo do seu autor do que à ‘lógica interna’ (termo sobre o qual Geertz tem uma enorme resistência epistemológica) da cultura de uma determinada comunidade. A resposta ao esquematismo ‘estruturalista’ reside então, segundo o investigador, na determinação do ‘fluxo vivo’ da comunidade com que se dá o encontro conversacional. Não se trata já de fixar uma regra invariante do comportamento humano, numa determinada versão espácio-temporal, em que a própria comunidade indígena contribui para o todo do ‘ser humano’ apenas como uma versão do fundo inconsciente que governa a espécie em qualquer ‘tempo e lugar’ (excepto o Ocidente, convenientemente), mas sim de estabelecer uma consonância entre dois ‘lugares-tempos’ muito específicos, o do ‘antropólogo’ e o dos ‘informadores’, de modo a poder contribuir para uma caracterização propriamente histórica dessa relação. Neste contexto, a natureza do próprio ‘texto’ etnográfico muda. Na concepção clássica da relação etnográfica, tecida de um etnocentrismo que atribuía às culturas não-ocidentais uma temporalidade evolutiva ou de todo inexistente, a dinâmica histórica dessas comunidade feridas de alteridade antropológica apenas tinham duas soluções possíveis, ou não evoluíam, ou evoluíam obrigatoriamente numa direcção determinada. Em qualquer um dos casos, uma única descrição dos mecanismos do seu funcionamento seria necessária para averiguar do seu presente e do seu futuro (este, nas relações coloniais entretanto estabelecidas, tinha uma grande probabilidade de nem vir a ter existência concreta). É 47

dentro desta concepção geral da relação antropológica que vemos não só a Antropologia evolucionista e regionalista a estabelecer os corpus documentais dos vastos continentes não-europeus, como também, ainda que mais velada, mas não menos eficiente, emergir a ‘melancolia estruturalista’ que Lévi-Strauss sentiu quando chegou aos ‘trópicos’ e que o levou, justamente por isso, a apelidá-los de ‘tristes’: Odeio as viagens e os exploradores. E aqui estou eu disposto a relatar as minhas expedições. (…). Não há lugar para a aventura na profissão do etnógrafo; só serve para o avassalar, exercendo na eficácia do trabalho a pressão das semanas e dos meses perdidos no percurso, das horas ociosas gastas com o informador esquivo [s.n.]; (…). É possível, sem dúvida, consagrar seis meses de viagens, privações e lassidão fastidiosa à recolha (que demorará alguns dias, por vezes algumas horas apenas) dum mito inédito, duma regra de casamento nova, duma lista completa de nomes clânicos, mas esta escória da memória: «às 5 e 30 da manhã entrávamos na doca do Recife em meio de grasnar das gaivotas e duma frota de mercadores de frutas exóticas que enxameava ao longo do casco», essa recordação tão débil, merece que erga a minha pena para a fixar? [Lévi-Strauss 1955: 11].

frase que insinua na sua constituição íntima a profunda ambiguidade da relação colonial da Antropologia. Alguma ambiguidade pode ser sentida, talvez, na relação etnográfica concebida por Geertz, mas ela é decerto diferente da intuída das palavras de Lévi-Strauss. Para este autor, a pesquisa antropológica é uma busca de essências universais do ser humano (‘um mito inédito, uma regra de casamento nova, uma lista completa de nomes clânicos’), ou mais

rigorosamente,

da

expressão

‘local’,

‘inconsciente’,

‘cultural’,

dessa

universalidade. Toda a relação etnográfica mantida entre o antropólogo e o informador (esquivo) é apenas um meio de recuperar essa pepita ‘platónica’, esse elemento da idealidade comum da Humanidade, que não existe a não ser ali (McNeill 1986: 164). Por isso, a viagem se torna tão insuportavelmente pesada para o cientista viajante. Em Geertz, porém, é na espessura da facticidade da relação etnográfica assim constituída que se desenha o essencial da prática antropológica. É o evento e não a essência que se busca. Assim, não só a viagem é a veia cava que alimenta a narrativa antropológica, como ela é, por necessidade, constantemente renovada, porque o 48

antropólogo geertziano tem a noção perfeita de que o episódio a que assistiu, e que descreveu no seu caderno de campo, não é mais do que a tradução momentânea entre dois universos textuais, autorizada pela relação etnográfica consentida entre um determinado ‘antropólogo’ e um determinado ‘informador’.42 Porém, poderíamos ir ainda mais longe, e reunir a ambiguidade comum da Antropologia ‘estruturalista’ e ‘geertziana’, designando, como constitutiva da relação antropológica, uma essencial representação do que é próprio longe dos seus limites, uma abjecção essencial do medo do distante. Poderíamos mesmo afirmar, talvez um pouco desassombradamente, que o essencial da prática antropológica tem o seu fundo num desvario do desejo, que leva a que o mais importante não sejam nem as listas dos sistemas clânicos, nem o comentário mútuo dos textos em encontro (ou em confronto), mas sim a ‘geografia impura’ (Azevedo 2006) da relação de alteridade centrada no viajante, esse eterno descontente que afirma que, e por muito que Lévi-Strauss nos pretenda convencer do contrário (mas, não o nega inconscientemente ao escrevê-lo?), o mais importante da relação antropológica é estabelecido entre o investigador e ele— próprio; que passa por poder escrever, num caderno de notas, que ‘às 5 e 30 da manhã entrávamos na doca do Recife em meio de grasnar das gaivotas e duma frota de mercadores de frutas exóticas que enxameava ao longo do casco’. Para lá da ambiguidade partilhada entre ‘estruturalismo’ e ‘geertzianismo’, ainda assim não gostaríamos de nos afastar da linha essencial da análise da contribuição de Geertz para uma teoria ‘espacial’ ou ‘locacional’ da cultura, nem do modo como nos servirá de cenário epistemológico da interpretação da prática científica de Martins Sarmento. Ela, a contribuição de Geertz, passa, gostaríamos de insistir neste ponto e sublinhá-lo com convicção, pela afirmação de uma imperenidade do texto antropológico como reflexo do carácter eventual da relação etnográfica. Assumir esta dissolução da ontologia do ‘outro’ (como, ao contrário, cremos, não acontece com Martins Sarmento

42

‘Nothing has done more, I think, to discredit cultural analysis than the construction of impeccable depictions

of formal order in whose actual existence nobody can quite believe’ (Geertz 1973: 18). Esta crítica de Geertz traz-nos à memória uma crítica semelhante, no domínio da Arqueologia, historiada por Vítor Oliveira Jorge: ‘[C]omo dizia o Carlos Alberto Ferreira de Almeida, “nos desenhos bate sempre tudo certo”’ (Alarcão e Jorge 1997: 68).

49

na sua relação com o ‘povo’ e as suas ‘tradições’)43 resulta, a nosso ver a necessidade de atribuir um alto significado às práticas inter-textuais de que resulta, em última análise o ‘acto inscritor’ de descrição de uma cultura num texto mais ou menos definitivo. É especialmente neste ponto, a qualidade e natureza de inscrição do sistema social, que Geertz expõe a sua dívida intelectual para com Ricoeur. Ao aplicar a metáfora textual no trabalho do antropólogo, Geertz replica a teoria semiótica de Ricoeur que sustentava que essa metáfora detinha uma especial capacidade de dar conta das construções sociais do significado e da cultura, uma vez que, para este autor, texto e sociedade são de natureza caracteristicamente similar no que concerne os mecanismos de produção, circulação e recepção de significado.44 Ricoeur designou mesmo as similaridades que permitem a replicação das técnicas de estudo do texto na análise das práticas sociais: inscrição, plasticidade, reinterpretação contínua e polissemia, parecem ser atributos partilhados entre estas duas realidades. Porém, o exemplar de trabalho mais importante associado à metáfora textual tem a sua origem na Antropologia, o que não é inesperado, uma vez que o texto sempre foi o construto mais comum desta disciplina, desde a sua origem. Geertz sugere que o antropólogo, enquanto intérprete de culturas diferentes, pouco mais pode fazer do que interpretar as práticas sociais do mesmo modo como se lê e interpreta um texto. Mais ainda, afirma que esta operação é imposta não apenas aos intérpretes externos às culturas alheias, mas inclusivamente para quem nelas participa ‘por dentro’. Esta ‘tradução’ contínua e assimétrica levanta uma questão dupla de ordem teórica e ética:

43

Correndo o risco de sermos superficiais na nossa análise, ainda assim não conseguimos deixar de considerar

que os pressupostos epistemológicos que estão por trás da ‘restituição’ da alteridade histórica (absoluta) pela dialogação indirecta da alteridade ‘antropológica’ (relativa) põem em contacto muito íntimo a atitude intelectual dos ‘sábios’ oitocentistas e algumas propostas etno-arqueológicas mais recentes (cf. e.g., o capítulo introdutório de David e Kramer [2001]). Descontando alguma ingenuidade das comparações transversais oitocentistas e a sofisticação das propostas actuais, ainda assim cremos que existe matéria para reflexão. 44

A metáfora textual tem uma longa tradição no desenvolvimento do pensamento ocidental, porque a palavra

escrita sempre deteve uma realidade mais tangível que qualquer outra forma de produção cultural. Métodos muito diversos foram sendo desenvolvidos de modo a extrair o significado dos textos desde que, no século dezanove, Dilthey inaugurou o uso científico da hermenêutica. Este método foi complementado por inúmeros outros, como a análise formalista e estruturalista, ou, mais recentemente, pela desconstrução e análise de discurso. A própria historicidade dos métodos sugere o modo como foi evoluindo a própria concepção do texto.

50

teórica, pelo que representa de fluido em qualquer representação da alteridade, ética, pelo que representa da capacidade de ‘falar pelo Outro’: ‘What’, does Paul Ricoeur, from whom this whole idea of the inscription of action is borrowed and somewhat twisted, asks, ‘what does writing fix?’ ‘Not the event of speaking, where we understand by the “said” of speaking that intentional exteriorization constitutive of the aim of discourse thanks to which the sagen – the saying – wants to become Aus-sage – the enunciation, the enunciated. In short, what we write is the noema of the speaking. It is the meaning of the event, not the event as event.45

Assim, também o antropólogo ‘inscreve’ o significado ‘cultural’ dos eventos que observa, o ‘dito’ e não o processo da sua enunciação. O poder desconstrutor de uma relação antropológica assim tecida é, naturalmente, enorme. Os fundamentos principais de atribuição de objectividade à narrativa da alteridade passam não só pela presunção de verdade do narrado, mas também da ‘universalidade do particular’, isto é, da possibilidade de atribuir um significado a um evento que se transcenda a si próprio, que não seja apenas a descrição do transitório, mas permita um especial insight da totalidade da cultura a que diz respeito. No domínio da teoria esta limitação é insuperável e, por isso mesmo, veremos que Geertz estabelece a possibilidade de desvelamento da alteridade em fundamentos especificamente práticos: ‘This is not as fatal as it sounds,

45

Geertz 1973: 19. Também por esta razão, a metáfora textual encontra-se hoje sob um escrutínio rigoroso, e sob

grande desconfiança, sendo progressivamente enriquecida ou mesmo substituída por concepções e construtos alternativos que não se baseiem em qualquer pressuposto essencialista. Para alguns autores pós-marxistas, a abordagem textual não é imune a críticas de idealismo e ‘textualismo’, ao perder o contacto e ao não integrar no seu aparelho teórico e metodológico os factores materiais e as condições objectivas de produção dos discursos. Outros autores defendem que esta simplificação ‘textocêntrica’ da esfera da produção cultural deixa para trás algumas outras formas de práticas de significado que são igualmente importantes, tanto como os textos, na construção das identidades e formação dos sujeitos sociais, nomeadamente práticas performativas de carácter mais efémero mas que detêm um papel central na definição e posicionamento dos sujeitos sociais. Por isso, a intertextualidade, o ‘contexto do texto’ que foi usado como construto principal pelo programa da ‘metáfora do texto’, tem vindo a perder a sua caracterização puramente textual, de modo a integrar todas as práticas espaciais significantes, e as representações de lugar e paisagem associadas. Especificamente sobre a influência das noções ricoeurianas de ‘conflito interpretativo’ e ‘significado inter-subjectivo’ em Geertz e na Antropologia em geral, cf. R. C. Ulin (Ulin 2005: 885-886).

51

for, in fact, not all Cretans are liars, and it is not necessary to know everything in order to understand something’ (Geertz 1973: 20.). No fim, contudo, permanece a noção de que a Antropologia já não é a mesma, se transfigurou irremediavelmente, e de que a possibilidade de enunciar discursos sobre situações feridas de alteridade extrema não se resolve apenas pela dissolução do lugar privilegiado do ‘antropólogo’, mas pela redução biográfica entre ele e o ‘informador’ – algo que os defensores dos subaltern studies assumirão como elemento-chave constitutivo da relação etnográfica, sem o qual essa mesma relação não poderá nunca passar de um tecido ficcional sobre factos a que nunca se tem definitivamente acesso.46 As ideias acima reunidas permitem caracterizar o pensamento de Geertz, especialmente o contributo insubstituível que representam para a afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ nas Ciências Sociais. Relativismo, fixação local da cultura e da identidade, carácter construído da relação etnográfica, poder heurístico da ‘conversação’ e, sobretudo, a dimensão moral de falar com, sobre e pelos outros, são os elementos que nos farão companhia no momento de interpretar a produção histórica (e etnográfica) de Martins Sarmento. Porque, tal como o ‘informador’ indiano que devolveu a segurança ontológica da sua ciência à perturbadora dúvida metódica do ‘antropólogo’, também no nosso caso, sabemos que a relação com o desconhecido e com o ‘Outro’ não tem nunca nem um fim nem um retrato definitivo: There is an Indian story – at least I heard it as an Indian story – about an Englishman who, having been told that the world rested on a platform which rested on the back of an elephant which rested in turn on the back of a turtle, asked (perhaps he was an ethnographer; it is the way they behave), what did

46

Os subaltern studies constituem uma tradição de estudos pós-coloniais, com origem na Índia, que prestou uma

atenção especial ao modo como as figuras ‘subalternas’ (decerto que não o ‘antropólogo’ nem, especialmente, o seu ‘informador’) estão limitadas na enunciação das suas vozes narrativas. Com esta posição epistemológica, pretende-se evitar que a narrativa e análise histórica fiquem duplamente reféns do textualismo das fontes históricas e etnográficas, e assim promovam os discursos extremos essencializados da ‘dominação’ e da ‘revolução’, cada um deles necessariamente incompleto na determinação do todo social a que diz respeito: num extremo a dinâmica cultural ficaria aprisionada na ‘inferiorização’ da população indígena; no segundo caso, ficaria igualmente aprisionada por um discurso ‘presentista’ da libertação, dentro do qual se invisibilizariam as contradições internas das situações pós-coloniais. Cf., especialmente, Guha (1997) e, no contexto da Arqueologia, Gosden (2001).

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the turtle rest on? Another turtle. And that turtle? ‘Ah, Sahib, after that it is turtles all the way down’.47

2) Ao falar de Goffman, de imediato nos surge no espírito a noção essencial da vida quotidiana e os micro-espaços de co-presença como os constituintes mais fortes na estruturação da vida social, incluindo mesmo a ideia, por vezes caricaturada em extremo, de que não ‘existe vida’ para além da competência social da vida pública. Mesmo que alguma crítica recente tome em consideração o carácter excessivo desta mesma caricatura, cremos, ainda assim, que a competência social de produção, circulação e recepção do conhecimento depende em grande parte das relações estabelecidas ao nível da apresentação quotidiana.48 Não é nossa intenção proceder a uma caracterização muito pormenorizada da obra de Erving Goffman, matéria que estaria deslocada no contexto geral desta introdução teórica. Apenas nos limitaremos a destacar, com a exposição necessária dos elementos mais destacados, a contribuição que ela pode dar a uma afirmação global do ‘ponto-de-vista geográfico’ na Ciência Social, e especificamente na esfera da História (Geografia Histórica) da Ciência. Nesse sentido, gostaríamos de destacar quatro pontos que podem estruturar o panorama geral da ‘micro-geografia goffmaniana’.49 Em cada um deles se pretenderá reter não apenas o carácter geral da sociologia ali definida mas a espacialidade específica que está associada à prática social, e se usamos

47

Geertz (1973): 28-29. Apesar do registo irónico desta narrativa, e que predispõe o leitor à crítica dos

parâmetros relativos constitutivos da sua própria mundividência, deve ter-se em atenção o poder ‘orientalista’ da palavra ‘sahib’ (e do contexto associado da narrativa), e recordar os inúmeros contextos em que, desde a infância, um participante da cultura ‘ocidental’ a ela tem acesso. Tendo a reconhecer algum poder heurístico à crítica feminista que denuncia a denúncia pós-colonial como uma pervivência ‘politicamente correcta’ da assimetria original das relações culturais da Modernidade, quer de um, quer do outro lado dessa relação (Narayan 2000: 80-100). 48

Para uma crítica ao excesso caricatural da sociologia de Goffman, cf. Denzin (2002). No outro extremo, para

uma expressiva e emotiva ‘incarnação’ pessoal da teoria goffmaniana, associada à apresentação diária da diferença ‘racial’ em ambientes culturalmente dominantes, cf. Gaines (2002). Gaines apresenta as noções goffmanianas de framing e recognition como o fundo existencial primário de identificação da (sua) ‘raça’ (negra) em ambientes diversificados de (in)tolerância racial e descobre nela os principais instrumentos de uma espécie de ‘redenção prática’ das fragilidades e resistências de uma relação cultural assim estabelecida. 49

Este quatro pontos seguem, de resto, a mesma divisão formal que Ann Branaman faz incidir na substância

concreta da obra de Goffman (Branaman 2004: xlv).

53

o termo ‘espacialidade’ é justamente com o intuito de destacar o carácter dialéctico da relação social-espacial, sem que se atribua, essencializadamente, a prevalência a qualquer delas. Num primeiro ponto, destacar-se-ão os lugares específicos de co-presença como indutores dialécticos da expressão da identidade. Neste contexto, não se deixará de referir a ambiguidade essencial que, no contexto da obra de Goffman, se atribui à natureza concreta dessa mesma expressão de identidade. Um ser humano que se apresenta socialmente, confrontado com a natureza convivencial da sua relação com o ‘Outro’, deve, ou tem de, situar a sua expressão de identidade [o que Goffman chama self] na relação conjunta dos constrangimentos impostos e pela manipulação possível do drama a partir do cenário. Para Goffman estas duas situações estão longe de ser antitéticas, e na sua conflagração reside justamente a formação da subjectividade: o indivíduo é resultado das condições sociais e ‘públicas’ de interacção, mas é, ao mesmo tempo o produtor delas. Do sucesso relativo em desenhar-se um posicionamento, neste continuum de poder e sujeição, deriva a afirmação individual do poder dentro de um grupo. Como veremos a seguir, os participantes de uma reunião científica, mesmo no âmbito de uma actividade tão supostamente neutral como é a Ciência, não são imunes a estas condições nem aos seus efeitos. Em segundo lugar, far-se-á referência ao modo como o posicionamento ‘público’ (e esta palavra refere-se a qualquer forma de co-presença entre indivíduos numa rede estruturada de reconhecimento, como o é também a comunidade científica de uma determinada disciplina) deriva e assenta numa rede ‘estrutural’ de poder, ou de acessibilidade a ele. De facto, e este ponto diz directamente respeito ao extremo não voluntarista da dialéctica enunciada no ponto anterior, um indivíduo apenas pode exprimir convenientemente a sua relação de reconhecimento mútuo com os outros participantes com quem interage, se puder sustentar uma imagem ‘pública’ (ainda que seja num contexto específico) de plena respeitabilidade, e esta só pode atingir-se se existir uma relação prévia, substantiva, com as regras ‘formais’ de estruturação espacial e social da audiência correspondente; porém, como é esperado, o acesso aos recursos que definem substantivamente a estrutura de poder depende em grande medida do reconhecimento prévio no contexto dessa mesma estruturação de poder, i.e, do status quo. 54

A estrutura de poder definida pelo recurso diferencial às diversas modalidades da cultura dominante, ainda que exiba o mesmo tipo de comportamento e se enuncie sob o mesmo tipo de pressupostos, pode apresentar-se de forma mais ou menos violenta. Algumas instituições de ‘cultura dominante’ podem mesmo assumir a forma de completa supressão da liberdade individual e do direito ao corpo. Escolas, hospitais, asilos, prisões (enfim, as bêtes noires de Foucault) são por excelência lugares em que a individualidade é quase totalmente dissolvida na estrutura geral do poder e onde a capacidade de acção individual, socialmente considerada [agency], é tornada quase inoperante. Obviamente não estamos a dizer que essa dissolução se efectue do mesmo modo em todas aquelas expressões de espacialidade-poder, antes queremos enfatizar que ela existe, do mesmo modo, nas instituições de produção do conhecimento científico. E não estamos a referir-nos apenas a lugares de grande especialização cultural e social (e de poder, portanto), como sejam os laboratórios de investigação avançada, mas sim em todas as instâncias em que a Ciência se produz, difunde e recebe.50 Um terceiro nível de caracterização da espacialidade na teoria goffmaniana prende-se com a expressão concreta dos cenários ‘locais’ de apresentação pública da identidade. É a este nível que podemos fazer uma referência directa às metáforas ‘espaciais’ que habitam a sua obra como descrição analógica da vida social. Fixados em

50

Esta capacidade ‘espacial-social’ de representação da ‘estrutura’ cultural dominante no contexto da Ciência

fica expressivamente enunciado nas reuniões de co-presença destinadas à defesa pública de provas científicas. Para além da natural hierarquização que da estrutura académica se reproduz na ‘sala de dissertação’, o próprio cenário da sua apresentação é conducente a exprimir espacialmente as condições assimétricas de juízo mútuo, e assim a sobrepor a organização ‘estrutural’ à eventual expressão da capacidade-de-acção individual socialmente considerada (agency). O mesmo se passa em salas de tribunal, consultórios médicos, salas-de-aula, etc. Outro caso particularmente ‘exuberante’ de um certo modo de espacialmente criar as condições de diminuição efectiva da capacidade de acção individual passa, por exemplo, no contexto da produção científica, nas regras endógenas de autorização que a citação bibliográfica reproduz. A citação bibliográfica, mais do que qualquer outro, é o elemento singular que mais directamente individualiza o ‘género científico’. Se um artista plástico, por exemplo, retirar elementos iconográficos de outros autores anteriores a si, não tem a obrigação de o assinalar explicitamente na sua obra; ao contrário, a produção científica exige-o, e nisso consiste essencialmente. Por isso, no limite, a ‘qualidade pública’ da Ciência, mais do que a afirmação de um conteúdo verdadeiro é a afirmação colectiva do juízo relativo de verdade. Sobre a possibilidade de restituição contextual da ‘capacidade de acção’ a partir da leitura interpretativa do registo arqueológico, é imprescindível a consulta dos trabalhos de J. Barrett (Barrett 1994; 2001; e cf. Johnson 1989)

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elementos facilmente discerníveis na produção semântica da metáfora, a ideia de ‘palco’, ou de ‘igreja’, até de ‘mesa-de-jogo’, remetem imediatamente para a caracterização dupla, espacial-social, de lugares específicos (e regras associadas) em que se desenham alguns dos atributos mais importantes de uma relação social estabelecida pela afirmação co-presente da identidade. Em cada um destes lugares existe uma tensão essencial e inescapável (‘actor-audiência’, ‘ritual-fé’, ‘legalidade-moralidade) que é a marca mais impressiva de uma teoria interaccionista simbólica, performativa, como é a de Goffman. São inúmeros os exemplos concretos destes tipos de analogias presentes na estruturação espacial-social da vida ‘pública’ da comunidade científica, muitas vezes dela fazendo parte não apenas uma daquelas expressões metafóricas, mas até mais do que uma ao mesmo tempo. A forma de apresentação concorre em importância com a do seu conteúdo, exactamente do mesmo modo como, num templo, a forma ritual de apresentação da espiritualidade comum é sempre necessária à visibilização pública do conteúdo intangível da crença individual. Finalmente, far-se-á referência ao conceito goffmaniano de framing, o qual, apesar de possuir uma natureza semelhante ao de ‘estrutura’ não se confunde com ele. Este conceito, que com naturalidade se poderia traduzir por ‘enquadramento’, reflecte a capacidade que detém a organização co-existencial dos seres humanos em aferir o significado das práticas sociais aos arranjos específicos da sua apresentação. Em termos espácio-sociais, este conceito pode compreender-se com mais facilidade se fizermos referência ao seu equivalente cinematográfico. Nesta forma de linguagem, o cinema, o ‘enquadramento’ consiste justamente em fazer destacar alguns elementos do ‘fundo’ de modo a permitir uma determinada significação da ‘figura’ e da capacidade iconográfica dessa escolha reside, a maior parte das vezes, o sucesso relativo do papel narrativo da personagem. Também na vida social, especificamente nas modalidades de co-presença da vida académica

e

científica,

a

capacidade

de

‘apresentação’

individual

deriva

substancialmente da sua habilidade em interagir com o enquadramento de fundo semiótico de comunicabilidade. Porém, ao contrário do original de replicação cinematográfico, a maior parte dos indivíduos não possui a capacidade de determinar a 56

experiência do enquadramento, resultando, por isso mesmo, uma fortemente diminuída, quando não inviabilizada, prestação pública da sua individualidade.51 No que diz respeito ao primeiro dos pontos enunciados, a apresentação individual da identidade num contexto de co-presença e a tradução espacial dessa mesma relação, já antes referimos que o ponto mais importante a destacar da teoria interaccionista de Goffman, no contexto de uma eventual ‘geografia histórica da Ciência’, é a ambiguidade essencial que é atribuída ao papel do indivíduo. Este ‘desliza’ entre os extremos praticamente inalcançáveis de negação absoluta da identidade subjectiva e afirmação puramente inter-subjectiva do comportamento público, por um lado, e a dominação efectiva do contexto de co-presença, de modo a recuperar o contexto de afirmação dessa mesma identidade voluntarista. Em qualquer dos casos, porém, Goffman afirma que a principal característica das situações estruturadas de co-presença passa justamente pela quase impossibilidade de fazer determinar a aceitação pública de uma dada imagem individual. Além das características de construção pública da identidade, que passam fundamentalmente pela convicção de que aquela depende, em primeira instância, de um enunciado de várias formas de valorização pessoal em termos que a estrutura social reconhece como pertinentes,52 mas que pode, dialecticamente interagir, manipulando-a, 51

A oposição relativa entre framing e estrutura, em Goffman, reproduz, afinal, a ordem espacial-social da

oposição entre uma ontologia (e, necessariamente, uma epistemologia) ‘interaccionista’ e ‘estruturalista’; a primeira supõe-se que se enuncie apenas no momento da co-presença, mas sendo determinada pelo status quo relativo à extensão ‘arquitectural’ da segunda. A ideia de que a noção de framing retira a força estrutural da sua afirmação de uma expressão formal, que não depende directamente das condições substantivas do ‘encontro’, mas se mantém para além delas, levou alguns autores a negar que a micro-sociologia goffmaniana fosse realmente ‘interaccionista’: (…) Goffman’s work [is] an American variant of contemporary structuralism and, consequently, [we should abandon] the common misunderstanding that makes of Goffman a symbolic interactionist’ (Gonos 1977: 854). A crítica conceptual da noção de frame é especificamente levada a cabo por Thomas Scheff (Scheff 2005), no sentido de determinar o mínimo de oganização linguística comum que permite e exibe o comentário mútuo entre interlocutores. Veja-se a proposta de Jennifer Tucker, do ponto de vista da Arqueologia, assim como de todas as outras ciências ‘exibicionistas’ (suportadas visualmente por museus, arquivos, reproduções, etc.) da ordem científica da Modernidade, e o lugar que o ‘enquadramento’ adquire na cultura visual da ciência assim considerada (Tucker 2006). 52

Não estamos aqui muito longe do conceito de ‘capital’ em Bourdieu. Como se verá mais à frente, o sociólogo

francês considera que todas as formas capital (económico, político, cultural, etc.) podem ser traduzidos entre si, sem que nenhum deles detenha uma posição especialmente predominante, nem mesmo o económico. O capital simbólico (representação de poder) assim constituído representa a soma de todas as formas de capital possuído e a qualidade

57

Goffman parece recolher a garantia do carácter essencialmente ‘público’ da produção identitária na observação do facto de menorização relativa do sujeito. Constitui-se na constatação de que a formação da subjectividade é suficientemente plástica para obedecer aos mecanismos instituídos publicamente de recusa parcial da própria entidade subjectiva: a resignação que é demonstrada por grande parte das pessoas que, no momento de apresentação pública da sua identidade, são privadas de alguns dos papéis sociais que julgavam poder cumprir, é a prova, para Goffman, que não só se pode falar de uma entidade absoluta e prévia do ‘eu’, como a identidade consiste fundamentalmente de uma série mais ou menos desgarrada de vários momentos de afirmação pública identitária, referentes a diversas esferas públicas, que podem ser arbitrariamente separados ou emendados, suprimidos e adicionados, sem que a esfera central de afirmação pública da subjectividade seja sentida como insuportável pelo sujeito considerado concretamente. Esta é a contradição essencial que preside à caracterização da identidade subjectiva em Goffman, contradição que é apenas aparente, e cuja irresolubilidade apenas se baseia na concepção essencialista de atribuição de uma personalidade a um corpo orgânico, herdeira da tradição humanista ocidental. Para Goffman, a aparente dualidade que parece existir entre um ser humano, considerado em si mesmo, na sua individualidade corporal, na individuação da sua personalidade, no processo final de construção de uma biografia, não colide com a noção de esse mesmo ser individual apenas se determinar identitariamente no conjunto de oposição e manipulação dos ambientes públicos em que se apresenta. A ideia de que um indivíduo, considerado na sua biografia, corporalidade e organicidade (a crença de que o cérebro aloja uma personalidade ‘orgânica’, não social,

diferencial dos seus elementos (Bourdieu 1977: 42 ss.); dito de outra forma, não é apenas a quantidade de capital que pode só por si garantir a mobilidade social mas também a diversificação; o ‘capital cultural’, que forma o essencial da valorização pública do intelectual detém alguma resistência de intermutabilidade por outras formas de capital. No contexto da Arqueologia é especialmente significativo poder falar-se de uma forma de capital ‘artístico’, no sentido da detenção exclusiva, por parte de um determinado grupo, de uma esfera do gosto, e através dela atingir uma idealidade da relação social respectiva (Bourdieu 1979; cf. tb. González Ruibal 2003: 315-329). Desde este ponto de vista, a organização arquitectónica de um espaço pode ser considerada sob o ponto de vista de ‘acumulação de capital’ do gosto, que estabelece não apenas o ‘hábito’ do seu consumo mas igualmente as regras da sua própria superação (Bourdieu 1990).

58

é fundamental no projecto da Modernidade53) não é compatível com o jogo ‘desonesto’ da manipulação da sua apresentação pública impede de compreender, para Goffman, que as duas situações são a formulação de uma única realidade: aquela, sendo historicamente constituída sempre nesses moldes, leva a que se tenha de considerar o ser humano ‘enquanto-tal’ como justamente o que tem sucesso ao apresentar-se publicamente: It is the self-as-performer which could properly be considered to be housed within the individual organism and not entirely determined by social contingencies. When we define our own or another person’s self, however, we usually have in mind much more than these basic energies, desires, and impulses. Goffman emphasizes that the self-as-performer is not the same as the self as such, but rather is the basic motivational core which motivates us to engage in the performances with which we achieve selfhood. Thus, dualistic images of self do not contradict his idea that the self is socially constructed. As Goffman sees it, the socialized self, or the self-as-character, represents a person’s unique humanity. It is the socialized self of the character performed, not the self-as-performer, which is equated with self in our society. But this part of the self, according to Goffman, is a social product. Paradoxically, it is the self performed outwardly in social life and not the inner motivational core that we think of as the inner self [Branaman 2004: xlix. Ênfase nossa].

A existir uma máscara no momento de afirmação pública da nossa identidade, ela é feita pela pele da própria cara, e não pode retirar-se uma sem rasgar a outra, pois a natureza humana é fundamentalmente a capacidade de orientar cada indivíduo para as situações sociais de co-existência que lhe propiciam a afirmação dessa mesma suposta universalidade. É uma tautologia existencial que governa a formação da subjectividade,

53

No momento historicamente mais significativo da afirmação do ideal da Modernidade, o século dezassete da

Europa da Reforma, esta concepção ‘tópica’ da individualidade intelectual do cérebro tornou-se de tal forma dominante que S. Shapin (Shapin 1991) veio a conformar a ‘localização’ preferencial da produção do conhecimento científico: a mente.

59

e é apenas ao nível da sua performatividade que ela ganha a estabilidade ontológica que lhe permite não só sobreviver, mas especialmente viver.54 O ponto central a ser destacado numa concepção interaccionista assim definida é a de que a ‘personalidade’ não exige uma radicalidade mais profunda do que o ‘papel’ ‘apresentado’ (e não ‘representado’, pois este termo exigiria uma hierarquia ontológica entre as duas entidades), uma vez que a noção de ‘personalidade’ ou ‘identidade’ como expressão de uma essência prévia é ela mesma a expressão de uma apresentação simbólica interaccionista, isto é, de um papel a cumprir: aquilo que um ser humano ‘é na realidade’ está sempre inalcançável, mesmo para o próprio, tanto como para os outros: ‘What is important is the sense he [or she] provides them [the others] through his [her] dealings with them of what sort of person is behind the role he is in’ (Goffman 1974: 298). Veremos, mais tarde, como a representação da afirmação identitária do ‘investigador’ no seio de uma comunidade académica exige o reconhecimento tácito da sua produção de subjectividade, entendida como interlocutor válido no contexto comum de apresentação pública e que é aí, tanto como no mecanismo citacional que faz parte integrante da prática ‘pública’ científica, que se denotam os mecanismos propriamente espaciais de configuração de um status quo académico, gerador de fenómenos de inclusão e exclusão que ultrapassam a simples esfera teórica.55 O poder constitutivo do ‘lugar’ tem um papel conceptual fundamental na teoria que ficou conhecida sob o nome de ‘symbolic interactionism’ de Goffman. Nela são especialmente tomadas em conta as condições sociais e espaciais de estruturação de rotinas de co-presença dos actores sociais, e especificamente da sua condição ‘corporal’. Não é, portanto, de admirar que Goffman tenha centrado a sua investigação em

54

O aristotelismo [Aristóteles, na sua frase ‘o homem é por natureza um animal político’, destaca, do mesmo

modo que o fará Goffman, a ligação essencial entre o impelimento animal, natural, do indivíduo para aferir o seu comportamento em público], implícito nesta concepção sociocêntrica do ser humano representa uma ruptura epistemológica importante em termos das Ciências Sociais que, quer através da espiritualidade medieval-reformista, quer pela ‘racionalidade’ absoluta dos iluministas-positivistas, mantinham um fundo comum conveniente de teleologia (quando não providencialismo) na concepção do Tempo e da dinâmica da sua evolução e transformação. 55

Cf. Meskell (2002: 279-280). Neste contexto, ver-se-á como os mecanismos de ‘reconhecimento inter-pessoal’

são, para a manutenção de um diálogo activo entre a audiência de uma determinada disciplina académica, e neste caso a Arqueologia, muito mais importantes e eficientes do que a eventual concordância ou discordância teórica. Pelo menos, assim o revela a disposição micro-espacial da sua própria expressão pública.

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situações físicas de reunião de um grande números de pessoas, como fábricas e estádios desportivos, e a que nós associamos, por exemplo, os congressos e mesas-redondas dos investigadores de uma determinada área de pesquisa científica, como sejam os arqueólogos. Estes espaços de grande proximidade física e social são, por isso mesmo, lugares privilegiados de co-presença, de associação induzida, e portanto, situações em que se desenvolvem fortes relações de interacção simbólica. As implicações desta concepção social de Goffman tem por isso um significado espacial concreto. Por um lado, usando as ‘arquitectónicas’ do espaço como indicadores do tipo de práticas que pretendem induzir. Por outro, e em consequência daquele, pelo carácter propriamente espacial que assumem as condutas assim ritualizadas, quando traduzidas em situações de normatividade e dissidência: A correctly staged and performed character leads the audience to impute a self to a performed character, but this imputation – this self – is a product of a scene that comes off, and is not a cause of it. The self, then, as a performed character, is not an organic thing that has a specific location, whose fundamental fate is to be born, to mature, and to die; it is a dramatic effect arising diffusely from a scene that is presented, and the characteristic issue, the crucial concern, is whether it will be credited or discredited [Goffman 1959: 252. Ênfase nossa.].

Um exemplo concreto que pode ajudar a ilustrar o que temos em mente quando fazemos uso do conceito de ‘arquitectónicas de espaço’ proposto por Goffman é a ‘mesa-redonda’ a que pudemos assistir em 21 e 22 de Fevereiro de 1997, intitulada Conceptualização e Interpretação em Arqueologia: Perspectivas Actuais, na Fundação Eng.º António de Almeida, no Porto. Esta ‘mesa-redonda’ incluiu-se num momento específico de activação dos problemas de epistemologia da Arqueologia entre algumas das figuras principais do panorama institucional da disciplina, enquadrando-se especificamente no que poderíamos chamar o debate ‘Alarcão-Jorge’, por nele terem participado, e mutuamente interpelado, dois nomes maiores da disciplina, o Prof. Jorge de Alarcão e o Prof. Vítor de Oliveira Jorge. O carácter personalizado dessa confrontação teórica teve uma expressão justamente ‘goffmaniana’ na disposição espacial da discussão ao redor desta 61

mesa, fisicamente situada numa sala da Fundação Eng.º António de Almeida, a qual, apesar da boa vontade do título, se verá que não foi assim tão ‘redonda’ como se poderia pensar; para o seu ‘esquinamento’, i.e., a atribuição e exercício de hierarquias pessoais, sociais e institucionais, contou em grande medida o posicionamento espacial dos contendores, assim como a capacidade de visibilização ou invisibilização propriamente locucionária das intervenções respectivas.56 O esquema ‘formal’ do diálogo que foi mantido ao longo de dois dias é apresentado sob dois aspectos. Em primeiro lugar, tomou-se em consideração os pares de intervenientes que foram postos em comum por um qualquer acto locucionário, e especificamente ‘vocativo’: ou seja, retiramos do texto (gravado e posteriormente impresso) das sessões, todas as situações de comunicação que incluíam uma referência directa, dialogal, entre quaisquer dois dos intervenientes da mesa-redonda. A simples existência de um canal de comunicação entre um par de intervenientes permite reconhecer a existência de um vínculo comunicacional ‘institucional’ entre ambos, i.e., se um dos intervenientes interpela directamente outro, reconhece-se nessa ‘ligação’ a existência de um vínculo propriamente social entre ambos, pois pertencem os dois à mesma esfera social em que não é arbitrário um determinado tipo de acto locucionário. De um modo simplificado, chamamos a este nível da análise ‘disciplinar’, porque recolhe uma série concorrente de actos locucionários de ‘reconhecimento entre pares’, independentemente de concordarem ou não em questões de fundo epistemológico. Nesta estrutura nebulosa, em que co-existem inúmeros subgrupos (arqueólogos, investigadores,

museólogos,

directores

institucionais,

estudantes

universitários,

técnicos, simples curiosos, sem que sejam, como é natural, mutuamente exclusivos), facilmente se constata que o espaço comunicacional é decisivamente dominado por um 56

O debate aqui referido teve início com a publicação, por Jorge de Alarcão, do livro Para uma conciliação das

Arqueologias, (1996), e pela resposta quase imediata por parte de Vítor O. Jorge e Susana O. Jorge (1996), no âmbito de outros escritos semelhantes sobre epistemologia da Arqueologia (1995). Durante alguns anos este debate ganhou alguma visibilidade no contexto da Arqueologia portuguesa, dando origem a outros escritos, sobretudo de Jorge de Alarcão, que vieram a ser reunidos em volume (2000). A afirmação de um ‘ponto de vista geográfico’ sobre estes mesmos temas da epistemologia tem constituído justamente o ponto de partida do nosso trabalho, que, incidindo sobre a produção teórica de algumas personalidades científicas e dos seus respectivos programas de pesquisa (Martins Sarmento, Leite de Vasconcelos, Mendes Correia) tem pretendido estabelecer as bases de uma Geografia (histórica e cultural) da Arqueologia (Pimenta, 2005a, 2005b, 2006), na qual este mesmo estudo se inclui.

62

conjunto de intervenientes que acumulam as qualidade de investigador (universitário) e arqueólogo do terreno. Em segundo lugar, na ‘textura’ da própria discussão far-se-á referência à articulação conjugada das expressões de concordância / discordância. Este ponto é muito importante e gostaríamos por isso de o explicitar detidamente. Numa situação locucionária ‘vocativa’ como a que pretendemos ilustrar com esta mesa-redonda e que contém os principais elementos que nos interessam para apresentar a expressão do espaço coloquial e quotidiano que a análise goffmaniana reconhece como estruturante da vida social, existem dois níveis de interpretação das relações comunicativas estabelecidas. Como já referimos, do ponto de vista ‘morfológico’, a simples presença da referência do Outro no nosso discurso, seja para concordar ou discordar, reconhece no seu interlocutor o ‘direito à existência’ numa determinada ‘audiência’, caso contrário seria invisibilizado, o que, na prática, corresponde a não existir de todo. Já é mais importante, ainda a este nível que chamamos ‘morfológico’, reconhecer os elementos de concordância e discordância que são apresentados nos actos locucionários, pois deles deriva a estrutura de ‘poder’, os grupos e lealdades que se organizam no interior do universo da audiência; estas configurações propriamente ‘políticas’, que se vão desenhando ao longo da comunicação, começam a desenhar com alguma nitidez aquilo a que se poderia chamar a organização ‘paradigmática’ dentro do universo disciplinar.57 O facto de um interveniente reconhecer um outro como ‘arqueólogo’ não significa que não acuse a sua epistemologia de ‘inadequada’ ou ‘confusa’. São coisas distintas, e a estrutura comunicacional demonstra-o muito convincentemente. Existe, porém, um segundo nível de organização política (não sendo ‘morfológico’) sem o qual toda a tentativa de interpretação de organização ‘política’ da afirmação paradigmática da Ciência não poderia compreender-se. Para substantivar esta relação organizada mais ‘profundamente’, é sem dúvida adequado chamar-lhe nível ‘estrutural’ de organização política do paradigma, uma vez que, tal como no seu exemplar saussuriano, mais importante do que o que se afirma ou condena, é com quem se faz. 57

Contrariando a ideia de um passado objectivo, enunciado sob a forma de Culturas, ou de processos evolutivos,

susceptível de ser descoberto e reconstruído por acumulação de observações, juntando bocados, com método, disciplina e raciocínio, defendemos (…) uma concepção do passado que é sempre interpretação, valorizando a responsabilidade hermenêutica do sujeito que o constrói (…) (Martins 1993-1994: 43).

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Desde este ponto de vista, não é tão importante a substância da discussão mas a organização inter-pessoal que dela se pode derivar. Assim, por esta razão, tendemos a dar grande importância, no contexto do micro-universo desta mesa-redonda, aos ‘pares ordenados’ de actos locucionários vocativos; quando se vê dois dos elementos presentes, mesmo que não se interpelem directamente (e portanto não estabelecendo uma ligação visível no plano ‘morfológico’) a usar da mesma argumentação de discordância face a um terceiro elemento presente, é quase certo que podemos, ao nível ‘estrutural’, reconhecer a reprodução, num micro-espaço, da esfera de discussão trans-paradigmática que percorre a Arqueologia portuguesa e internacional naquele momento. O modo como este micro-espaço de representação determina a natureza da relação entre os investigadores individualmente considerados, e decide (ou não), face à audiência, a vantagem relativa dos paradigmas em confronto, é que nos permite falar de uma análise ‘goffmaniana’ do espaço quotidiano na formulação do próprio conhecimento científico: Many gods have been done away with, but the individual himself stubbornly remains as a deity of considerable importance. He walks with some dignity and is the recipient of many little offerings. He is jealous of the worship due him, yet, approached in the right spirit, he is ready to forgive those who may have offended him. Because of their status relative to his, some persons will find him contaminating while others will find they contaminate him, in either case finding that they must treat him with ritual care. Perhaps the individual is so viable a god because he can actually understand the ceremonial of the way he is treated, and quite on his own can respond dramatically to what is proffered him. In contacts between such deities there is no need for middlemen; each of these gods is able to serve as his own priest [Goffman 1967: 95].

Quatro pontos muito breves permitirão dar uma expressão mais concreta às linhas de apresentação teórica do problema que fizemos acima. Consistirão resumidamente em (i) reconhecer o modo como a própria apresentação física da mesa-redonda veicula uma simbologia da democraticidade da discussão que nem sempre se reproduz no todo da audiência; (ii) apresentar alguns exemplos de actos locucionários ‘vocativos’ de reconhecimento entre os intervenientes e constatar a estrutura sociológica de ‘pertença 64

grupal’ que está por trás dela; (iii) apresentar, complementarmente, alguns exemplos de actos locucionários ‘vocativos’ que integrem os dois níveis de organização do espaço comunicacional atrás referidos, e que nos permitem reconhecer os contornos de organização ‘paradigmática’ do mesmo espaço comunicacional da disciplina; (iv) finalmente, em termos especificamente ‘goffmanianos’, apresentar alguns exemplos de como uma estrutura comunicacional associada a um micro-espaço é assumidamente uma organização ‘política’ do próprio discurso, e como tem efeitos específicos na organização paradigmática de um grupo profissional e, transitivamente, na caracterização epistemológica de uma disciplina. Em relação ao primeiro dos quatro pontos antes enunciados, não podemos deixar de fazer referência ao modo de organização espacial que foi apresentado como cenário da discussão sobre a ‘Conceptualização e Interpretação em Arqueologia’. O próprio facto de chamar-lhe ‘mesa-redonda’ implica, simbolicamente pelo menos, a intenção de não fixar uma discussão de tão grande alcance filosófico à estrutura hierárquica da especialização disciplinar.58 É certo que os moderadores assumiam uma posição ‘espacialmente significante’ no cenário do evento: a mesa, de formato comprido, tinha nas duas ‘cabeceiras’ os dois moderadores, Jorge de Alarcão e Vítor de Oliveira Jorge, distribuindo-se os restantes intervenientes pelas cadeiras da assistência, dispostas semi-circularmente em redor da mesa dos moderadores, também ela numa organização espacial que reflectia uma intenção ‘democratizante’ da discussão.59 Assim, com a excepção (em si significativa, mas disciplinarmente natural) da separação física e simbólica dos moderadores e da assistência, todos os intervenientes estavam espacialmente em iguais condições de intervir, e a ninguém, como é natural, foi negado

58

O moderador Vítor Oliveira Jorge não deixa, justamente, de referir que é esta ‘democraticidade’ o ponto de

partida da discussão que ali se vai manter: [VOJ, dirigindo-se a JA:] ‘Antes de iniciar, gostaria de agradecer ao Prof. Jorge de Alarcão que, além de ser uma figura cimeira da nossa arqueologia, de ter colaborado em numerosíssimos júris e realizações da Universidade do Porto, vem hoje fazer aqui um trabalho extremamente importante, que é o de participar connosco no debate livre e aberto [s.n.] de problemas de arqueologia teórica’ (p. 13). 59

A resposta de Jorge de Alarcão a Vítor Oliveira Jorge é de molde a explicitar que a ‘democraticidade’

pretendida pela discussão pública dos temas não pode, contudo, deixar de ter em conta o grau de especialização dos cultores da Teoria da Arqueologia: [JA, dirigindo-se a VOJ:] ‘Em primeiro lugar, agradeço as palavras do Professor Vítor Jorge. Da maneira como ele me apresentou, parece que eu sou aqui a figura primeira; não vim com essa ideia, mas sim com a de que eu e o Professor Vítor Jorge, como moderadores, estamos aqui em pé de igualdade’ (p. 14).

65

o direito de interpelação; se todos foram ou não respondidos, e o modo como o foram, é que nos parece a nós extremamente significativo. Comecemos pelo fim, isto é, por designar e interpretar a posição que é detida por aqueles intervenientes que, em consonância com as características ‘democratizantes’ do cenário proposto, interpelaram directamente outros elementos presentes na mesa-redonda mas que, porém, não receberam qualquer resposta. Queríamos dizer, desde já, que não atribuímos um especial significado de arrogância institucional a este facto, uma vez que uma mesa-redonda é também um encontro de pessoas que já se conhecem anteriormente, e que, por isso mesmo, as condições de visibilidade locucionária não são estritamente as mesmas para todos os intervenientes; mas também esse ponto se coaduna com as proposições de Goffman sobre a estruturação activa do espaço de apresentação da ‘corporeidade’ do self na vida pública. Se a operação de recolha a que procedemos não está muito incompleta, é possível identificar quase uma dezena de actos locucionários ‘vocativos’, isto é, interpelações directas que não foram respondidas e que resultaram no facto objectivo de estes actores não terem tido oportunidade de ‘performar’ naquele cenário. Contudo, se se for ver com pormenor o conteúdo das suas propostas, algumas teriam normal cabimento na discussão que se estava a desenrolar, e não se pode atribuir à natureza coloquial e às vezes confusa de uma mesa-redonda o facto de estes intervenientes não verem respondidas as suas interpelações. Existe, cremos nós, um plano estruturante, mais fundo, que implica que estes actores não tenham tido a oportunidade de participar na ‘performance’ daquele determinado momento: é que, olhando para as ‘qualificações’ que os habilitaram a estar presentes na mesa redonda, vemos que configuram um conjunto de actividades que os põe ‘fora’ da estruturação política profunda que subjaz à organização da assistência: trata-se de dois estudantes universitários, ainda que de Arqueologia, um empresário e dois professores do Ensino secundário. Esta listagem é extremamente significativa porque desenha, parcelarmente e a contrario, o grupo dominante do espaço comunicacional: os elementos que constituem o grupo dominante são, como os primeiros, arqueólogos, como o segundo, gestores (das actividades de escavação), como os terceiros, professores e investigadores: mas são-no ao mesmo tempo em todas essas qualidades: de facto, como se verá, e como já se referiu, o grupo que domina quantitativa e qualitativamente o espaço comunicacional será o dos 66

intervenientes que conjugam uma específica série de qualidades: investigação, docência universitária e trabalho concreto no campo. O grupo dominante do espaço comunicacional pode ser facilmente reconhecido pela quantidade de actos locucionário vocativos que os elementos que o constituem trocam entre si. A figura que se lhe refere foi construída de modo a permitir reconhecer graficamente esta realidade, uma vez que a espessura das linhas utilizadas para designar as relações entre os elementos da assistência é proporcional ao número de actos locucionários vocativos, as interpelações directas. Não causa espanto o facto de vermos que os dois maiores ‘canais’ de interpelação se desenham em redor dos moderadores da mesa redonda, Jorge de Alarcão (JA) e Vítor Oliveira Jorge (VOJ); é de facto ao redor de ambos que se estabelecem as principais linhas de discussão e são as suas opiniões que sistematicamente são tidas em conta no momento de se apresentar a própria opinião pessoal. Esta ‘trave mestra’ do edifício comunicacional deve já alertar-nos para o carácter personalizado da performatividade do próprio cenário que, ao dispor os dois investigadores num posicionamento destacado em relação ao resto da assistência, fazia atrair para si próprio a substância da comunicação e o exercício da autoridade. A expressão desta dupla autorização (que, veremos, contém elementos de alguma tensão) é tão mais nítida quanto uma grande parte da ‘espessura’ das linhas de comunicação dentro do grupo dominante do espaço comunicacional é feita exclusivamente entre um e outro. A representatividade destes dois nomes no contexto disciplinar da Arqueologia portuguesa é assim reproduzida directamente na estrutura locucionária do micro-espaço comunicacional de uma mesa-redonda. Além dos dois moderadores, quantitativamente dominantes no espectro total dos actos locucionários vocativos deste micro-espaço, existem mais alguns elementos que ganham uma especial relevância, que pertencem todos a um perfil ‘locutor’ relativamente semelhante. Assim, além de Jorge de Alarcão e Vítor Oliveira Jorge, que detêm uma posição dominante no contexto da estrutura locucional (os dois juntos produzem ou são objecto de tantas interpelações como as de todos os outros elementos deste grupo dominante considerados conjuntamente), podemos reter outros nomes que entre si têm as características que acima enunciámos (investigação teórica, docência universitária, prática concreta de escavação) e que configuram, portanto, o espaço de 67

poder disciplinar por quem e para quem esta mesa-redonda foi prioritariamente concebida. De entre os elementos deste grupo, que a figura graficamente enuncia, tomam especial relevo, por ordem quantitativa de actos locucionários, os nomes de Luís Raposo (LR), Susana Oliveira Jorge (SOJ), Maria Manuela Martins (MMM), João Carlos Senna-Martínez (JCSM), Carlos Tavares da Silva (CTS), Virgílio Hipólito Correia (VHC), Isabel Pereira (IP), Susana Correia (SC) e Mila Simões de Abreu (MSA), para citar apenas os que produzem ou recebem mais interpelações. Se recolhermos as qualificações com que o próprio livro os apresenta, logo na listagem inicial dos nomes (p. 11-12), e ainda que não conhecêssemos o percurso profissional de cada um deles, imediatamente se tornaria óbvio que todos são personalidades que estão directamente ligadas a instituições de enorme prestígio no seio da Arqueologia portuguesa (universidades, museus, projectos de escavação, política de património), e que é atribuídos dessas mesmas funções que autorizam o principal das suas intervenções. Contudo, não é impossível, mesmo dentro deste grupo dominante, discernir um subgrupo dotado de maior inter-replicação estrutural, e que corresponde directamente aos investigadores docentes universitários, situação que pode bem ser compreendida em face do objecto ‘filosófico’ específico que é o tema da própria mesa-redonda, e em cujo contexto ganham uma especial importância as questões relacionadas com a visão ‘paradigmática’ da volução da disciplina da Arqueologia. A estrutura interna do grupo dominante do espaço comunicacional da mesa-redonda pode ser aferido pelo ratio que os intervenientes detêm entre as formas ‘activa’ e ‘passiva’ no seio da estrutura locucionária global. Existe uma enorme diferença, em termos de reconhecimento efectivo do posicionamento dos intervenientes, entre interpelar ou ser interpelado. Algumas das situações mais significativas desta estrutura têm exactamente a ver com os valores diferenciais que este ratio assume ao longo da performatividade das personalidades em confronto. Alguns dos intervenientes são, poderíamos dizer, bastante ‘vocativos’, isto é, interpelam directamente, e muitas vezes, uma grande parte dos restantes elementos presentes. Outros, pelo contrário, não o fazendo muitas vezes, são constantemente interpelados pelos restantes elementos da ‘comunidade dialogal’. Sem querer tirar inferências para além do que é legítimo fazer, até porque a personalidade e o temperamento interferem directamente neste tipo de 68

performatividade, cremos, ainda assim, que se trata de um índice particularmente valioso do reconhecimento de lugar que é atribuído aos diversos participantes, no contexto, claro está, dos temas que estão em discussão. Se utilizarmos um ratio de cálculo relativamente simples, e alertando desde logo para o carácter algo artificial da sua expressão, podemos, ainda assim, constatar que alguns dos intervenientes presentes na mesa-redonda geram um número de interpelações superior em número àquelas que eles próprios produzem; estão neste caso, por ordem descendente do ratio calculado pelo quociente entre os dois tipos, activo e passivo, de interpelação, os nomes de Maria Manuela Martins, Carlos Tavares da Silva, Jorge de Alarcão e Susana Oliveira Jorge, sendo estes os únicos que apresentam um valor superior à unidade, isto é, recebem mais atenção do grupo do que aquela que lhe providenciam. Em contrapartida, não deixa de ser sintomático, e até algo confrangedor (o constrangimento é justamente, segundo Goffman, um dos modos eficientes como na apresentação quotidiana do self se rearranjam, ao nível do micro-espaço, as relações de poder instituídas) que alguns elementos do grupo, e com todas as atribuições que poderiam fazê-los pertencer a esta esfera de dominação, sejam sistematicamente ignorados nas interpelações que fazem. Se formos verificar o contexto em que sucede este arranjo comunicacional, podemos constatar que co-existem situações bastante diversas sob a aparente uniformidade do valor quantitativo do índice. Entre eles, o caso de Jorge de Alarcão é altamente significativo, pelo que faremos a sua interpretação no ponto seguinte. Também o caso de Carlos Tavares da Silva é excepcional, e parece apontar para uma delimitação estritamente técnica da discussão, em redor da autoridade que a sua personalidade detém ao nível do trabalho concreto de campo, secundado por uma filiação ideológica muito específica que é alvo de algumas interpelações. Onde o carácter paradigmático desta análise parece, a nosso ver, deter alguma expressão é no que diz respeito a Maria Manuela Martins e Susana Oliveira Jorge, uma vez que as interpelações de que são alvo se prendem com uma relativa identidade de tomadas de posição no contexto de afirmação da validade epistemológica dos pressupostos da geografia ‘pós-processual’, um dos temas ‘quentes’ que atravessam toda a discussão do primeiro dia. Num certo sentido, são a afirmação de uma mesma visão paradigmática da Arqueologia, em frontal oposição àquela que Jorge de Alarcão defende, confrontação epistemológica que é 69

afinal o motor da própria mesa-redonda, e reprodução concreta do debate que atravessava (e atravessa) a Arqueologia portuguesa naquele momento.60 O facto de o nome de Vítor Oliveira Jorge não aparecer, um pouco estranhamente, no conjunto dos autores com um ratio favorável no contexto desta discussão, uma vez que a sua posição epistemológica, pelo que se depreende das suas intervenções ao longo dos dois dias (e se conhece da sua própria produção teórica sobre os temas), não é diferente dos das duas investigadoras referidas, pode assim melhor compreender-se tomando em consideração a hipótese que o lado ‘conflitual’ da visão da Arqueologia é distribuído por várias personalidades, ao contrário da que se lhe opõe, a visão ‘conciliadora’ da Arqueologia, proposta por Jorge de Alarcão, que se vê obrigado a defender quase isoladamente os seus pontos de vista, apenas com algumas opiniões favoráveis de Luís Raposo. É justamente a este nível que me parece significativo o plano ‘estrutural’ dos actos locucionários de ‘discordância’ a que fizemos antes referência, mas que gostaríamos de comentar no ponto seguinte em relação com o posicionamento específico de Jorge de Alarcão no espaço comunicacional da mesa-redonda. Se déssemos conta graficamente do conjunto de actos locucionários presentes neste micro-espaço comunicacional, seriam várias as informações que poderíamos retirar. É notória, e a isso já fizemos referência antes, a concentração de interpelações em redor da personalidade de Jorge de Alarcão, fazendo do investigador o eixo principal em redor do qual se estabelece a organização da estrutura comunicacional da mesa-redonda. Apercebemo-nos, de imediato, que esta atenção não diz apenas respeito à natural autoridade que a sua personalidade detém na Arqueologia portuguesa, uma vez que, incidindo a nossa atenção na expressão concreta das interpelações, nos apercebemos imediatamente de que esta reconhecida autoridade é acompanhada por uma explícita

60

Esta mesma expressão de uma sociologia de afirmação paradigmática já tinha sido por nós caracterizada a

partir da estrutura de citação relativa ao programa de pesquisa da ‘arqueologia espacial’: ‘[A]s duas autoras já referidas, Susana O. Jorge e Manuela Martins, fazem destacar uma linha de força maior na estrutura de citação que não se esgota em obras de índole geral – quer pela quantidade de citações comuns, quer pela natureza dos trabalhos dos autores citados, torna-se particularmente evidente que partilham a mesma literatura técnica, escolheram o mesmo procedimento metodológico e, pelo menos no âmbito da arqueologia espacial, encontram-se num programa teórico de investigação comum, num paradigma’ (Pimenta 1993-94: p. 365); cf. Leone 1982; Leone et al. 1987).

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confrontação paradigmática. Esta dualidade com que o autor é investido, na ‘performance’ colectiva da mesa-redonda, pode ser mesmo mais bem compreendida se tivermos em atenção que recolhe o maior número de discordâncias por parte dos outros autores presentes, ao mesmo tempo que essas mesmas discordâncias são acompanhadas por um número significativo de pedidos de ‘desculpa por discordar da sua opinião’. A estrutura locucionária centrada no nome de Jorge de Alarcão revela, goffmanianamente, que o próprio autor tem noção da performatividade do contexto em que se encontra, como o demonstra não só o facto de muitos dos intervenientes fazerem questão de demonstrar a sua discordância quanto às suas posições epistemológicas, mas também, e muito significativamente, pelo facto de o investigador não responder a grande parte delas: este é um silêncio mais eloquente do que seriam muitas palavras de uma eventual resposta à interpelação. Olhando com atenção para a espessura das ‘linhas’ de resposta de Jorge de Alarcão em relação aos que o interpelam, vê-se que, com algumas excepções, a autoridade é exercida sobretudo pelo não-reconhecimento do próprio contexto de oposição, característica que é, para Thomas Kuhn, a mais importante característica da tensão inter-paradigmática.61 A razão por que a organização do espaço comunicacional apresenta esta configuração específica, prende-se justamente com o facto de que se pressente, na articulação conjugada dos actos locucionários ‘paralelos’ de discordância, que existe uma confrontação epistemológica que reproduz afinal uma descontinuidade propriamente ‘sociológica’ de afirmação de um nova geração com uma nova mundividência do estudo do Passado, e para a qual é de importância central a desautorização expressa do modelo anterior que pretende substituir: In contemporary societies rituals performed to stand-ins for supernatural entities are everywhere in decay, as are extensive ceremonial agendas involving long strings of obligatory rites. What remains are brief rituals one individual performs for and to another, attesting to civility and good will on the performer’s part and to the recipient’s possession of a small patrimony of 61

‘[O] que resta aos interlocutores que não se compreendem mutuamente é reconhecerem-se uns aos outros

como membros de diferentes comunidades de linguagem (…)’ (Kuhn 1989: p. 248). Este era justamente o ponto que Karl Popper não podia aceitar como sendo constitutivo de uma teoria ‘científica’ do conhecimento científico (Nickles 2003: p. 143).

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sacredness. What remains, in brief, are interpersonal rituals [Goffman 1971: 62. Ênfase nossa].

Se, como afirma Goffman, a apresentação do self nas esferas públicas das práticas sociais é constitutivo e reprodutor das relações sociais mais vastas de que depende, então, na organização comunicacional do micro-espaço da mesa-redonda ‘Pensar a Arqueologia, Hoje’, o que se torna mais evidente, além da configuração óbvia de um disciplinamento social de uma determinada prática científica, a Arqueologia, é a tentativa de confrontação propriamente paradigmática tendo em vista a deposição de um modelo ‘moderno’ dessa mesma prática e a sua substituição por um outro, que, à falta de melhor nome, poderíamos qualificar de ‘pós-moderno’.

3) A sociologia de Giddens lida especificamente, e de uma forma central na sua teoria, com o modo como os sistemas sociais são determinados em lugares-tempos específicos. Não é alheia a esta característica espacial da sua teoria alguma influência da Geografia, nomeadamente da teorização de Hagerstrand, desenvolvida também por Pred, que veio, no seio da disciplina, a chamar-se time-geography. Podem assim detectar-se algumas marcas ‘espaciais’ na teoria de sociológica de Giddens: a rotinização das actividades dos agentes sociais não se pode compreender sem o papel activo dos lugares-tempos em que decorrem, que Giddens chama ‘locales’; a ‘zonação’ dos locales tem como objectivo, ou pelo menos resultado, a facilitação das rotinas; o carácter ‘zonal’ das rotinas implica que todas as actividades sociais devam ser consideradas na sua dimensão ‘regional’, aqui entendida como partilhando de uma significação das múltiplas escalas de fenómenos que nela participam.62 Sendo assim, compreende-se o papel fundamental que o espaço adquire na sociologia geddesiana, de facto, para este autor:

62

A teoria de estruturação de Giddens teve também uma fecunda recepção em trabalhos de Arqueologia. Dadas

as características específicas da materialidade associada ao seu objecto empírico, as análises são sobretudo centradas numa tentativa de estabelecimento de rotinas de co-presença induzidas pela planta dos povoados ou das habitações, um pouco à imagem da obra giddensiana de 1984.

72

Space is not an empty dimension along which social groupings become structured, but has to be considered in terms of its involvement in the constitution of systems of interaction [Giddens 1984: 368].

No contexto da caracterização da Modernidade, e a produção do conhecimento científico também participa do mesmo tipo de organização, Giddens destaca justamente o carácter profundamente ‘multi-escalar’ e distante do poder ocidental na organização dos locales (Giddens 1991: 19). A teoria de Giddens, apesar do enorme sucesso que conheceu dentro e fora da disciplina da Sociologia, ou talvez por isso mesmo, tem vindo a ser alvo de uma reavaliação crítica. A crítica feminista destaca a invisibilização a que são sujeitas as questões de género. Os partidários das teorias ‘localistas’ não escondem o receio de ver configurada uma nova ‘grand-theory’ (Bryant e Jary 1991: Clark et al. 1990). Para lá da extensão e da natureza que a reavaliação da teoria de Giddens possa estar a ser alvo, referimo-la, neste contexto, como um exemplo da importância conceptual da ‘espacialidade’, isto é, das unidades irredutíveis de espaço e prática social.63 Se existe um autor da teoria social que directamente pode ser referido como tendo contribuído directamente para a afirmação de um ‘ponto-de-vista geográfico’ nas Ciências sociais, ele é em dúvida nenhuma Anthony Giddens que, sendo sociólogo de formação, nunca escondeu que deveu a um geógrafo o insight da sua própria teoria da estruturação: [T]ime-geography, as formulated by Hägerstrand, takes as starting point the routinized character of daily life (…) this is, with features of the human

63

Existem, todavia, alguns outros trabalhos no campo da Sociologia que detêm um ponto de vista teórico que

atribui ao espaço um papel constitutivo na estruturação da prática e das relações sociais. M. Douglas (Douglas 1978) reactualiza o princípio durkheimiano de que as divisões espaciais são de origem social. Nesse contexto dá especial importância aos códigos normativos de conduta, e de como as sanções à sua desobediência têm em geral um carácter fisicamente inscrito no espaço. John Urry (Urry 1995) reflecte sobre o modo como os nossos padrões de comportamento dependem da frequência ritualizada e quotidiana de vias de e lugares. Jonathan Turner refere (Turner 1987: 179) a importância que adquire o espaço no contexto da negociação social, em que a estrutura social se afere à ordem emanada do tipo de interacções no tempo e espaço. Em David Armstrong (Armstrong 1988) podemos ver um exemplo concreto do modo como a organização do espaço do consultório acompanhou a modificação da concepção da profissão médica. Richard Sennett (Sennett 1988) incide a sua atenção sobre o ‘desaparecimento’ do espaço público e o recrudescimento dos lugares de intimidade (cf. Curry 2006).

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body, its means of mobility and communication, and its path through the ‘life-cycle’, and therefore with the human being as a ‘biographical project’.64

Esse geógrafo, de nacionalidade sueca, chamava-se Torsten Hägerstrand (1916-2004), e foi o responsável pelo desenvolvimento de uma teoria que tomou o nome, no espaço cultural anglo-saxónico, de time-geography, e que continha o propósito específico de lidar com as relações entre ‘espaço’, ‘tempo’ e ‘capacidade de acção’ social, que viriam a ser os ingredientes principais da structuration theory de Giddens.65 No contexto de ‘structuration’ da teoria hagerstrandiana, cujas principais características seriam replicadas na equivalente ordem conceptual de Giddens, ganharia especial relevância a expressão da ‘materialidade’ espacial das condições de existência, da organização prática das diversas escalas (diária, sazonal, epocal) da existência individual e da respectiva concretização biográfica, uma vez que as trajectórias dos diversos agentes sociais ‘have to accommodate themselves under the pressures and the opportunities which follow from their common existence in terrestrial space and time’ (Hagerstrand 1967: 332). Desde esse ponto de vista as relações de proximidade espacial ou de co-presença são vistas, quer como constrangimentos impostos à organização temporal da biografia social, quer como recursos que são socialmente validados no tecido da afirmação ‘estatutária’ da formação subjectiva.66 64

Giddens (1985: 266). Ênfase nossa. A ‘time-geography’ de Hagerstrand revela a sua origem ‘geográfica’ nas

suas próprias condições de enunciação, pois deve muito a uma realidade específica da ruralidade sueca dos finais do século dezanove e inícios do século vinte, ‘span’ cronológico utilizado por Hägerstrand como componente empírica dos seus trabalhos. Contudo, o conceito alargou-se a todos os tipos de ‘estruturação’, física ou virtual, que determina as práticas espaciais e sociais dos indivíduos, independentemente das escalas a que actuam (cf. Larsen et al. 2006). 65

Refira-se que este geógrafo, Torsten Hägestrand, esteve directamente ligado a uma profunda transformação

‘paradigmática’ da Geografia portuguesa na década de setenta. A ele se ligou, pessoal e institucionalmente, o geógrafo Jorge Gaspar, cuja obra, haurida então de uma certa tradição quantitativa e de ‘modelação’, iniciou uma tradição epistemológica que, de algum modo, se confrontou com a tradição regionalista dominante em Portugal até então, e, de algum modo, epistemologicamente, com Orlando Ribeiro, mestre incontestado daquele programa de pesquisa. Que a convivência dos dois programas de pesquisa foi sentida em termos que a teoria kuhniana descreve como sendo típicos de ‘confrontação paradigmática’, demonstra-o um artigo de Orlando Ribeiro em que este autor revela o ‘estado de alma’ que lhe suscitam os ‘novos ventos’ que sopravam na disciplina (Ribeiro 1972). 66

Esta posição epistemológica prática viria a conhecer um desenvolvimento especialmente importante (será

mesmo o cerne teórico das posições feministas que lhe subjazem) no trabalho, por exemplo, de Donna Haraway, para quem a irredutibilidade das situações existenciais é o ponto de partida de afirmação de uma espacialidade fragmentada e corporalizada, sendo o ‘lugar-próprio’ o principal recurso social que está ao alcance de todos e de

74

A co-presença é o modo específico em que se organiza a vida social. Porém, essa organização não se estabelece aleatoriamente, como se a distância social fosse dependendo constitutivamente da distância física estabelecida entre os diversos agentes sociais nela comprometidos.67 De facto, se alguma contribuição substantiva a análise empírica de Hagerstrand pôde confirmar, na caracterização a que procedeu da espacialidade e temporalidade da vida rural da Suécia do início-de-século, foi a de que a organização espácio-temporal da vida quotidiana é ‘governada’, no contexto da Modernidade, pela dialéctica estabelecida entre os constrangimentos da ‘ordem pública’ da acção social e os projectos individuais dos actores sociais, cuja eficácia era medida e ‘organizada’ através da percepção e representação cultural dessa mesma ‘estruturação pública’. Em última análise, o que Hagerstrand pretendeu demonstrar, que Giddens explicitamente ergue como princípio constitutivo da sua ‘geografia estruturante’ da capacidade-de-acção social [agency] é que ainda que os [p]risms of daily conduct are not just geographical or physical boundaries, but have ‘time-space’ walls on all sides (…) [t]he projects which individuals seek to realize, if they are to be actualized, have to utilize the inherently limited resources of time and space to overcome constraints which they confront [Giddens 1985: 268. A ênfase é nossa].

O que Giddens, via Hagerstrand, distintamente enuncia na sua teoria social da Modernidade (e não há razão, antes pelo contrário, em pensar que uma organização

qualquer ser humano (ou de, para nos servirmos do universo semântico da autora, de qualquer formulação de subjectividade). Esta valorização epistemológica da diferença e do ponto-de-vista particular está igualmente na base dos conceitos de ordem mais sociológica do pensamento de Bakhtin. Cf. Bakhtin (1984: 283-302) e Haraway (2004: 1-6). Para Giddens, é sobretudo o carácter repetitivo que é promovido pela organização rotinada da vida quotidiana que lhe serve de principal argumento do modo como o espaço e o tempo da Modernidade se incluem numa estruturação mais vasta ao nível da ‘produção’ social e económica estabelecida pelo poder, confrontada com uma alienação progressiva do ponto de vista da representação cultural necessariamente a deter pelos agentes envolvidos: ‘Agents move in physical context whose properties interact with their capabilities, given the constraints at the same time as those agents interact with one another’ (Giddens 1985: 267). 67

A este respeito convém sempre recordar a insistência com que a Sociologia do Espaço, seja em Durkheim,

Weber e especialmente nos elementos da Escola de Chicago, sempre veio afirmando a total inadequação em considerar a distância física como o elemento descritivo mais indiciador da distância social. De facto, estas duas realidades não são estritamente coincidentes, e em situações de ‘fronteira’ podem mesmo revelar efeitos contraditórios e até mutuamente exclusivos (Wirth 2003 [1938]: 97-104).

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similar não se estabelece em outras formulações históricas e culturais) é a ideia de que a liberdade individual promovida, em termos de representação cultural, pelas formulações liberais e neo-liberais dos séculos dezanove e vinte, com a sua associação simbólica a uma ‘mobilidade’ (geográfica e social) – consagrada no conceito de agency –, contém elementos ‘invisíveis’ de uma estruturação funda que lhe limita seriamente a possibilidade plena de existência. É justamente a partir da articulação dialéctica entre as ordens liberal e constringente da Modernidade que Giddens desenha o essencial da sua própria structuration theory, estratégia epistemológica que pretende dar conta dos mecanismos não designados do constrangimento e especificamente do papel que a organização concreta do espaço-tempo nela representa.68 A vantagem epistemológica de uma concepção ‘realista’ da organização do espaço-tempo social apresenta inúmeras vantagens do ponto de vista de uma epistemologia da afirmação geográfica nas Ciências Sociais e especificamente da Arqueologia.69 Uma contribuição fundamental das propostas da time-geography hagerstrandiana passa, certamente, pela abordagem não essencializada da existência do indivíduo, tal como a tradição liberal tendencialmente representava, com a vantagem de promover uma estratégia epistemológica que não dependia forçosamente da tradição anti-liberal tradicional, com origem na ortodoxia marxista. A ‘terceira via’, assim estabelecida,

68

É a este nível que se compreende a especial importância que Hagerstrand atribui à corporalidade da actividade

e da capacidade-de-acção social. Numa intervenção que vai já fazendo parte da tradição epistemológica da disciplina, o geógrafo João Ferrão apresentou, em Novembro de 2002, no âmbito das Jornadas organizadas pelo Departamento de Geografia da Universidade do Minho, argumentos suficientes em favor do poder persuasivo das relações informais na estruturação propriamente política do espaço disciplinar. Nesta, são fundamentais todas as expressões de co-presença, das rotinas que escapam ao poder vigilante da organização ‘visível’ do espaço-tempo, com todas as vantagens redentoras que uma prática ‘lefebvriana’ permite, mas com as inevitáveis desvantagens corporativas que com elas concorrem. 69

Para uma exposição eminentemente teórica sobre o problema da escala em articulação com o conceito

integrado de espaço-tempo, cf. o artigo de Vernon Meentemeyer (Meentemeyer 1989: 163-173), onde é dada especial atenção às categorias epistemológicas de definição não apriorística da escala, bem como dos efeitos que daí advêm no estabelecimento de uma teoria ‘realista’ do espaço. As contra-críticas a uma ciência demasiado centrada nos esquemas de representação e percepção podem ser vistas em Bhaskar (1978 e 1981).

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permitiria averiguar da real capacidade-de-acção social dos agentes individualmente considerados [agency] no corpo organizado dos constrangimentos sociais [structure].70 Por outro lado, o carácter transiente de um objecto científico assim considerado, levou a que a atenção crítica dos investigadores fosse especialmente dirigida para as situações em que a organização social globalmente considerada exercia concretamente os seus efeitos sobre a mobilidade geográfica e social dos agentes sociais, lugares de práticas sociais de menor escala do que aqueles que eram normalmente tidos em conta pela teoria macro-sociológica dominante, seja de tradição liberal, seja de tradição marxista; é neste contexto que se pode constatar uma enunciação propriamente ‘geográfica’ dentro de uma tradição epistemológica ‘moderna’ que sempre deu maior protagonismo ao ‘tempo’.71 Em íntima articulação com o tema anterior, a teoria social hagerstrandiana recupera a importância da expressão do corpo como lugar de articulação das relações sociais concretas enunciadas em condições de co-presença. A mobilidade não é apenas uma categoria ideal de substituição das esferas substantivas que definem a identidade, mas antes faz menção do tempo da sua exibição. Neste domínio é de especial importância a crítica que se estabelece dos mecanismos de produção da subjectividade pública que são levados a cabo pelas estruturas de poder (seja o Estado ou o capital) no que representam de tempo dispendido na formação ‘pública’ da biografia pessoal e, dentro dos quais, o sistema de ensino e recrutamento profissional representam uma das mais óbvias manifestações.72

70

Uma divisão conceptual semelhante à de Giddens pode, cremos nós, ser detectada na oposição entre a

formulação dedutiva das ‘leis’ comportamentais do ser humano e a sua ‘especial’ confrontação com a materialidade do registo arqueológico, enquanto elemento concreto da sua expressão, e que apenas se pode tomar em consideração indutivamente (Binford 1972; mas cf. Raab e Goodyear 1984 e Gallay 1986: 117 e ss.). 71

A esta estruturação dominantemente ‘temporal’ da epistemologia não escapou sequer a tradição do

materialismo histórico, razão pela qual Harvey viria a propor o conceito reformulado de ‘materialismo histórico-geográfico, e no qual o autor estabelece inclusivamente a história da própria disciplina (Harvey 1984: 1-11). Cf., tb., J. Sarmento (no prelo). 72

Uma crítica comum ao trabalho de Hagerstrand passa pelo reconhecimento de que este autor privilegiou em

demasia a dimensão física da co-presença. Como veremos no ponto seguinte, as propostas de Bourdieu representam uma tentativa sustentada de incluir a dimensão simbólica como constitutiva dessa mesma co-presença, alargando assim o conceito de ‘capital’ para lá da sua manifestação estritamente económica.

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Será justamente no sentido de reformular criticamente a noção estritamente física do ‘lugar’ de co-presença, estabelecida por Hagerstrand, que Giddens formulará o seu conceito de locale, de modo a nele incluir não apenas a fisicalidade do ‘sítio’ em que a co-presença ocorre, mas igualmente a de determinar a organização contextual que lhe permite (se não a obriga) a existência: It is possible to describe locales in terms of its physical properties, but it is a basic error to suppose that locales can be described in those terms alone (…). A ‘house’ is grasped as such only of if the observer recognizes that it is a dwelling with a range of other properties specified by the modes of its utilization in human activity. (…). One of the reasons for using the term ‘locale’ rather than that of place is that properties of settings are employed in a chronic way by agents in the constitution of encounters across space and time.73

De acordo com a significação lata de ‘locale’ que Giddens deriva da teoria locacional de Hagerstrand, também o conceito, central na sua teoria, de ‘regionalização’ não deve ser entendido apenas como a organização espacial – a localização – das práticas sociais, mas sim como o estabelecimento em referência à fragmentação do espaço-tempo dessas mesmas práticas sociais. Um mesmo espaço assume, ao longo das rotinas estabelecidas a diversas escalas, natureza diversa, criando, por isso, contextos de estruturação e significação distintos da prática social.

73

Giddens (1985): 268 e 272. Quase não é necessário dizer que este é um dos pontos mais importantes de

dificuldade epistemológica de uma eventual aplicação da teoria giddensiana no contexto da Arqueologia. Sendo esta uma disciplina cujo poder interpretativo depende em grande medida da expressão ‘material’ das estruturas do passado, uma contextualização ‘cognitiva’ torna-se uma necessidade concreta concorrente com a identificação de tais estruturas. Contudo, a liberdade interpretativa do ‘contexto’ em Arqueologia não deixa de ser, ela própria, ‘arqueológica’: ‘Each object exist in many relevant dimensions at once, and so, where the data exist, a rich network of associations and contrasts can be followed through in building up towards an interpretation of meaning. The totality of the relevant dimensions of variation around any one object can be identified as the context of that object’ (Hodder 1986: 143); ênfase nossa. É por esta razão que tendemos a considerar que as interpretações comparadas estabelecidas entre situações feridas de alteridade antropológica (como as que se produzem no contexto da etno-arqueologia) nos parecem de menor alcance ontológico quando confrontadas com as que são estabelecidas no recinto propriamente ‘arqueológico’ da interpretação, se bem que compreendamos a validade epistemológica de quando elas são utilizadas explicitamente com apenas ‘uma ordem contextual’, a adicionar aos preconceitos presentistas da esfera cultural do investigador (Criado Boado 2001: 139).

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Dentro desta estratégia interpretativa, um determinado ‘sítio físico’ adquire um ‘zonamento’ específico ao longo das horas do dia, das estações do ano, das fases da vida social. Quando se considera o problema de ‘zonamento’ dos lugares, que a materialidade estrita exibe através dos da sua forma, uma contextualização profunda é necessária de modo a compreender a função e natureza social da co-presença que nelas se estabelece, não apenas da atribuição do sentido no presente, mas do continuum biográfico e histórico global em que se insere. As características principais a ter em conta no contexto de uma teoria ‘regionalizada’ da prática social dos locales tem, por isso, de tomar em consideração não apenas a forma do sítio considerado, isto é, as ‘marcas’ físicas e simbólicas da sua organização e da gama de obrigações e interditos que eles enunciam, mas também a escala da duração do tempo social que a eles está associado. Uma expressiva ilustração desta

complementaridade

hermenêutica,

pode

ser

intuída

da

interpretação

‘arqueológica’ dos monumentos do tipo ‘sauna’ que os povoados fortificados do primeiro milénio do noroeste da Península Ibérica exibem em considerável abundância. A forma da estrutura deterá um poder heurístico essencialmente diferente se a ele for atribuída

uma

temporalidade

‘quotidiana’

ou

‘sagrada’,

isto

é,

se

forem

preferencialmente considerados como lugares de lazer ou de culto, porque dela depende a natureza e expressão da sua força institucional na organização das práticas sociais da comunidade.74 É justamente do carácter institucional atribuído a uma determinada forma física de co-presença que derivam as principais características estruturais do espaço-tempo a que se refere, nomeadamente a enunciação ‘frontal’ e ‘dorsal’ da sua organização espacial. A formulação ‘regional’ de um locale estabelece mecanismos de permeabilidade e disponibilidade física e simbólica do seu uso pelas práticas sociais estabelecidas como ordem pública de interacção e co-presença. À expressão prática do lugar (i.e., como

74

Não pretendemos entrar em polémicas interpretativas para as quais não estamos obviamente habilitados.

Apenas retemos este exemplo por ter ele sido um dos campos de maior confrontação interpretativa no contexto do programa de investigação arqueológico da ‘cultura castreja’. Muito menos advogamos que um monumento deste tipo tenha obrigatoriamente de incluir-se em apenas uma das duas ordens interpretativas, sendo inevitável que partilhe de ambas. O que queremos sublinhar, neste contexto, é que a organização da escala temporal afere obrigatoriamente um significado diverso a uma mesma forma.

79

enunciador de uma determinada ordem de estabelecimento das práticas sociais dos agentes sociais em co-presença: ‘the being together of co-presence demands means whereby actors are able to come together’) associa Giddens os qualificativos de ‘frontal’ e ‘dorsal’, querendo com eles designar a localização específica, física e simbólica, das práticas sociais públicas e privadas, ou, por outras palavras, as que são destinadas a um consumo simbólico da ordem pública, comunitária, e as que, complementarmente, delas se distinguem.75 É ao nível da organização prática da ordem pública da vida comunitária que ganham especial importância a oposição entre as ‘áreas frontais’ e ‘dorsais’ de delimitação simbólica dos sítios físicos considerados como lugar de co-presença e interacção social, e em que assume especial relevância a própria disposição corporal dos agentes sociais envolvidos: ‘Face’ and ‘front’ are related to the positioning of body (…). [R]egionalization encloses zones of time-space (…) permitting the sustaining of distinctive relations between ‘front’ and ‘back’ regions which actors employ as integral to the contextuality of action and to the sustaining of ontological security.

Regressando ao exemplo de ilustração a que atrás fizemos referência, a atribuição de um significado ‘frontal’ à organização física de um monumento tipo sauna (portanto, ‘público’, i.e., em que o corpo de um elemento social individualmente considerado é totalmente vigiado, e portanto ‘pertence’ inteiramente à comunidade, como se supõe sucede em qualquer ritual do género ‘purificador’ ou ‘aclamador’ ou de rito-de-passagem adolescente) obriga a uma rede de contextualização inteiramente diferente daquela que lhe atribuir uma realidade ‘dorsal’, associada a um uso privado, familiar ou individual.

75

Sobre a ‘genealogia’ da noção de lugares públicos e privados, no contexto da teoria social ocidental, e

nomeadamente a formulação aristotélica que privilegia o faciendum (a intenção) face à forma, cf. o artigo de Michael Curry, que justamente defende uma posição semelhante à de Giddens, pela afirmação política de uma noção não-formal do lugar: ‘Na sua metafísica teleológica, as actividades privadas eram as que pertenciam à vida quotidiana, como comer, ter filhos e outras do mesmo género, enquanto as actividades públicas eram competitivas, através das quais os homens se mostravam a si mesmos como humanos no sentido mais completo da palavra. Qualquer relação entre actividade e lugar era meramente contingente’ (Curry 2006: 44 e ss.; a citação é da pág. 45).

80

Contudo, a noção de uma formulação ‘frontal’ ou ‘dorsal’ da organização do espaço físico de um locale está longe de replicar directamente a noção de ‘inclusão’ ou ‘exclusão’, disponibilidade ou indisponibilidade física do corpo individual no contexto da apresentação pública da vida comunitária. De facto, as regiões dorsais podem constituir lugares especialmente activos na organização da vida comunitária, sobretudo quando estabelecem as regras informais de restituição das contrapartidas tornadas visíveis pela organização frontal da regionalização do espaço-tempo comunitário.76 Porém, e este ponto da teoria de Giddens é de especial relevância no contexto da fundamentação ‘cognitiva’ da interpretação material da sociedade, todas as organizações rituais que tendem ao estabelecimento de uma ordem simbólica de mútua representação de status e identidade, passam pela liturgia completa dos espaços dotados de frontalidade simbólica, pois eles são a expressão da performance social normativa, a designação da normalidade social. A importância da noção das áreas ‘dorsais’ na caracterização do lugar de reunião ou co-presença como constitutiva da ordem (e moral) ‘pública’ não se restringe à existência de espaços relativamente ocultados, onde se dissipam as energias causadas pela necessidade da performance colectiva dos agentes sociais envolvidos numa mesma organização (zonação) espácio-temporal de um locale. A metáfora goffmaniana dos ‘bastidores’ não é, portanto a única se pode desenhar na espacialização da vida pública, sendo igualmente relevante (mas quase nunca tida em conta nas análises sociais

76

A este nível a teoria de Giddens incorpora o mesmo tipo de metáfora da que é explicitamente assumida em

Goffman quando compara a vida social com a dramaturgia do palco (e.g. Goffman 1959: xi, 3-4 e, especialmente, p. 70 e ss.). Como nos referimos em outro momento à contribuição deste autor para a afirmação de um ponto-de-vista geográfico, não nos deteremos agora na sua caracterização. Contudo, é importante, no contexto da caracterização da sociologia de Giddens, destacar a caracterização ‘dupla’ da vida social ao redor de uma área ‘frontal’ de impressão ‘pública’ da normalidade e da aceitação, face à região ‘dorsal’, não especificamente ‘secreta’, mas ‘reservada’ (os ‘bastidores’) em que se organiza menos normativamente a própria produção da esfera pública da performance. As regras sociais e sobretudo a explicitação cultural dos comportamentos são necessariamente diferentes nas duas áreas referidas: ‘Back regions which allow complete solitude are maybe less important than those which allow the expression of a regressive behaviour (…) that permit profanity, open sexual remarks, elaborate quipping (…) rough informal dress, ‘sloppy’ sitting and standing posture, use of dialect or substandard speech, mumbling and shouting, playful aggressivety and ‘kidding’, inconsiderateness for the other in minor but potentially symbolic acts, minor physical self-involvements such as humming, whistling, chewing, nibbling, belching and flatulence’ (Goffman 1959: 128).

81

pautadas por um normativismo que atribui uma única performance cultural a toda a comunidade) os lugares que se referem a uma total exclusão da vida pública. A sua importância deriva não apenas de um vago direito à existência de todas as partes constituintes de uma comunidade mas sobretudo porque, em muitas situações, a dinâmica histórica de uma determinada organização social não pode ser totalmente compreendida sem um acesso privilegiado a esses lugares de verdadeira antecipação (reformista ou revolucionária) do tempo futuro. Um exemplo particularmente ilustrativo desta condição pode ser recolhido da historiografia romana (e da arqueografia com ela associada): imagine-se o que resultaria de empobrecedor para a compreensão da evolução do Império Romano a partir, sobretudo, do século terceiro, se não se tivessem em conta os lugares específicos que a sua história (e arqueologia) detecta como meros lugares de exclusão das minorias religiosas cristãs que habitavam em ambiente urbano, especificamente na urbe de Roma. De facto, estes lugares de exclusão são, e em virtude dela mesma, o lugar privilegiado de reformulação ideológica da própria totalidade de que se excluem ou são activamente excluídos. Esta noção de ‘exclusão activamente produzida’ é tão mais importante na sociologia de Giddens, quanto, tal como no exemplo concreto com que ilustramos aqui o seu pensamento, a dinâmica de substituição é promovida pelo sentimento colectivo de uma progressiva distanciação entre as duas ordens, ‘frontal’ e ‘dorsal’ de organização social. Todos os elementos de ritualização e performance colectiva que garantem um equilíbrio negociado de uma determinada representação de uma comunidade por si-própria, exigem uma porosidade que estabeleça um contacto substancial entre os ‘actores’ e as ‘personagens’ (aceitando implicitamente, para efeitos analíticos, que exista alguma vez a condição absoluta de um ‘actor’ sem ‘personagem’), entre a ‘audiência’ e os ‘bastidores’: [The] level of enclosure between back and front regions is likely to be very high, since it very often holds that the more ritualized or contrived the occasion, the more is has to be presented as an autonomous set of events, in which the backstage props are kept entirely out of view of audiences and observers [Giddens 1985: 278.].

A convicção partilhada de que esta adequação se perdeu para além do limite que é exigido pela simples apresentação performativa da comunidade sobre si-própria, leva, inevitavelmente, à reformulação das suas condições de existência, ou dito de outro 82

modo, não à explicitação essencial da verdadeira natureza do backstage (o que nunca acontece, embora assim seja apresentado, retoricamente, em situações de forte dinâmica social, em épocas de substituição ‘revolucionária’ das estruturas de poder) mas à substituição mais ou menos extensa de ‘actores’, ‘personagens’ e ‘dramaturgia’.77 As formas de restrição de acesso e de exclusão activa são, assim, modalidades constitutivas da própria organização espacial e temporal que formalizam as relações sociais, geradas e gerando elas próprias, numa organização dialéctica eficiente, formulações estritas de vigilância e dominação social. Ainda que a Sociologia de Giddens seja especialmente dedicada a estabelecer a análise destes fenómenos no contexto da Modernidade78 e da expressão económica capitalista a ela associada, não deixa ainda assim de poder traduzir uma epistemologia geral de caracterização das formas de imposição espacial e temporal do poder sobre a organização social dos locales e dos agentes sociais neles em co-presença, através da articulação integrada de mecanismos de recolha de informação e de supervisão de conduta pessoal (na qual a visualidade explícita da ordem pública é fundamental – e a eles poderá estar associado os elementos formais da planta edificada, e.g. os ‘recintos colectivos’, que ‘obrigam’ à presença simultânea da comunidade). Porém, é necessário sublinhar, mais uma vez, que a organização social dos locales não se restringe à explicitação performativa exigida por uma determinada estruturação do poder mas antes que ela contempla igualmente, por aquela desconhecida, permitida, tolerada e por vezes até promovida como forma de contra-crispação social, de áreas ‘dorsais’ de exibição da diferença, ou mesmo de a-normatividade comportamental.79 77

González Ruibal acredita que é também a este nível performativo das relações de poder que se deve

compreender a reorganização física e simbólica que se pode reconhecer entre as diversas fases construtivas dos povoados fortificados do Noroeste da Península Ibérica ao longo do I milénio a.C. De facto, a transição entre a conspicuidade de um povoado do Bronze final (Gómez e Pautreau 1998: 127) e a aparente ‘democraticidade’ espacial dos povoados da primeira Idade do Ferro, não se podem justificar apenas por uma transformação democratizante operada no seio das comunidade, mas da necessidade de performar uma relação renovada entre as áreas ‘frontal’ e ‘dorsal’ da organização social derivada dessas transformações, de modo a incluir porosamente uma relação de representação negociada entre os privilégios do poder e as expectativas sociais colectivas (González Ruibal 2003: 90 e ss.). 78

Especialmente Giddens (1991).

79

Para Mikhail Bakhtin (assim como para Norbert Elias), a Modernidade opor-se-ia à mundividência medieval

pela obrigatoriedade de fixar a sexualidade genital a áreas ‘dorsais’ dos ‘locales’ de co-presença da comunidade (não

83

Para finalizar, e comprometendo a minha formação geográfica em assuntos especificamente arqueológicos, gostaria de propor uma interpretação propriamente giddensiana no domínio do estudo da iconografia castreja, especificamente em relação à decoração dos torques. Se atentarmos nas estampas que ilustram alguns exemplares deste elemento de joalharia,80 podemos reparar que a decoração incide quase invariavelmente sobre as extremidades e sobre o terço médio da peça, ficando entre ambas estas ‘regiões decoradas’ uma área muitas vezes desprovida de qualquer intenção decorativa. Assim, podemos admitir que a exibição ‘frontal’ da jóia, e da ‘hexis’ corporal associada, passa pela imposição semântica de dois diferentes pontos-de-vista, uma destinada a ser vista quando encarando o seu portador de frente, outra, ao contrário, quando este fosse visualizado pelas costas. O facto de uma ser ‘frontal’ e outra ‘dorsal’ em relação ao corpo do seu portador, não significa que detenham as mesmas características quando relacionadas com o sentido de regionalização que lhe dá a sociologia de Giddens: de facto, ambas estas regiões são dotadas de um carácter frontal, referindo-se apenas a situações de co-presença que indiciam diferentes locales, em diferentes zonas e segmentação do espaço-tempo da comunidade. Pela iconografia associada a este elemento decorativo, que constituem as estátuas de guerreiros e os carros votivos, pensamos que não é impertinente considerar a hipótese de que o torques

necessariamente privados, mas ‘ocultos’). A invisibilização, entre a prática cultural dominante entre os investigadores, da representação frontal do objecto empírico, é provavelmente a razão pela qual a Arqueologia histórico-cultural não incide usualmente a análise sobre temas de sexualidade, mesmo quando, como em Briteiros, existia iconografia suficiente para a ela dar origem (e por isso mesmo González Ruibal a apresenta já como elemento de caracterização colectiva de uma comunidade guerreira, no contexto do virimorfismo repressivo caracterizado, por Geertz, em situações antropológicas similares). O mesmo sucedeu na história das diversas disciplinas das Ciências Sociais, razão pela qual a crítica feminista, sobretudo a de filiação estruturalista e pós-estruturalista, promoveu a revisão da gaze masculina enquanto ‘trope’ narrativo fundamental da ‘grandes teorias’ da Modernidade. Cf. respectivamente, Bakhtin 1984: 26-27, Elias 1978, González Ruibal 2003: 361-368 , Geertz 1973: 5 e Engelstad 1991: 502-514. A ‘apologia da guerra e da violência’ veio a constituir um trope narrativo específico da historiografia nacionalista das primeiras décadas do século vinte em Portugal, reproduzindo, de resto, uma tendência idêntica que se desenhou, com maior ou menor ‘estridência’ na Europa da altura (Searle 1976), especialmente da Alemanha nacional-socialista (J. Paterson 1987; Sandner 1989). A valorização, que Martins Sarmento faz, na caracterização que faz dos seus ‘Lígures’, contrasta directamente com uma certa ‘apologia da guerra’ e do carácter belicista das nações, a que se vai poder assistir na historiografia do início do século vinte, de que é exemplo a obra de Cristóvão Aires (1916). 80

Silva 1986: Est. cviii-cxii.

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cumpria uma função de investimento de autoridade em duas situações de co-presença distinta, configurando dois locales diferentes: num caso, e por imposição sígnica das extremidades decoradas, o seu portador, numa hexis corporal semelhante à detida pelas estátuas de guerreiros, apresentar-se-ia numa posição de dominação, de assimetria radical, em que a visualidade mútua se desenharia entre os dois extremos de um herói ou chefe aclamado – a comunidade enfrentando o seu epígono. No outro caso, em que, por força da intenção semiótica da parte medial do torques este haveria de ser visualizado pela parte posterior, a ‘frontalidade’ giddensiana da relação de co-presença, exigiria um locale inteiramente diferente do da ‘aclamação’; estamos a pensar, naturalmente, naquelas situações em que, como as descritas nos carros votivos associados ao culto do suevotaurilia, toda a comunidade se perfilava em procissão, e na qual, se interviesse o seu líder, o faria numa posição semelhante ao de todos os outros elementos, não por ‘enfrentamento’ hierárquico, mas por quase-dissolução na semelhança. Cremos que não é impossível ver na dupla proposição sígnica ‘frontal’ das jóias tipo torques, uma articulação de dois locales distintos da relação social da comunidade com os seus chefes: a imposição sígnica da autoridade velada pela designação simbólica da igualdade fundamental entre todos os seus elementos.

4) Tal como em Anthony Giddens, também na teoria social de Pierre Bourdieu podemos constatar uma preocupação constante em apresentar uma argumentação consistente em favor da indivisibilidade entre o sujeito e o objecto de conhecimento, dicotomia que era favorecida pela versão dominante da história científica da Modernidade. Não significa isto que outros autores, antes da segunda metade do século vinte, não tenham pretendido argumentar no sentido de uma concreção iniludível entre o sujeito e o objecto do conhecimento científico dos fenómenos sociais. Nomes como Herder, Dilthey, Windelband, e até mesmo, num certo sentido (e não dos menos importantes), Marx e Engels constituem uma genealogia respeitável de um modo de pensar a praxis científica que a afasta decisivamente dos pressupostos positivistas e behavioristas das Ciências Sociais. Contudo, a versão dominante, por razões estritamente meta e sócio-paradigmáticas, havia sido sempre o modelo positivista do conhecimento empírico validado pela lógica inter-subjectiva universal do sujeito do conhecimento. Não causa, por isso, espanto que tendo sido as correntes marxistas tão 85

importantes politicamente ao longo da segunda metade do século dezanove, apenas tenham sido relevantes epistemologicamente, na Geografia como na Arqueologia, quase um século mais tarde. A ‘crise positivista’ do século vinte, nomeadamente após as grandes convulsões sociais da transição do terceiro para o último quartel, é que reunirão as condições necessárias de superação desta subjectividade, e a possibilidade de apresentação de modalidades sincréticas de relação entre o sujeito e objecto de conhecimento científico. O livro The Logic of Practice é, em muitos aspectos, o ‘discurso do método’ dessa nova proposta sociológica, a partir da qual o autor justifica uma teoria da prática que não cinde arbitrariamente e artificialmente a relação entre os dois pólos (‘lógico’ e ‘empírico’) de autorização do conhecimento científico.81 A argumentação crítica de Bourdieu incide igualmente sobre os dois extremos nefastos de exageração da relação objectivista/subjectivista da epistemologia. No primeiro caso, em que o conhecimento científico se estrutura de acordo com uma metafísica ‘objectivista’, e na qual o estruturalismo seria a face dominante dessa mesma tradição coeva,82 Bourdieu critica especialmente o facto de que a incidência ‘objectiva’, exercida sobre o mundo social, ao ponto de o ‘descarnar’, até apresentar apenas as ‘correntes de transmissão’ que o põem em funcionamento, não é exercida da mesma maneira sobre os investigadores eles-mesmos;83 uma epistemologia assim fundada numa assimetria propriamente prática (para Bourdieu, não existe justificação para pensar que a ciência seja ‘estruturalmente’ diferente de qualquer outra produção intelectual, como sejam a fixação narrativa de mitos, ou o estabelecimento de regras de conduta), levaria a garantir ao investigador uma posição privilegiada no conjunto do

81

Cf. respectivamente, Bernstein 1983: pass., Haraway 1991: 193 e ss. e Pimenta 1996: 87-101.

82

O facto de Bourdieu ter dedicado a primeira parte da sua investigação a temas de Antropologia, especialmente

pela sua permanência na Argélia após a Segunda Guerra, necessariamente o poria em contacto com as propostas de Lévi-Strauss, plenamente dominantes então no seio dos estudos daquela disciplina em França. 83

Para um exemplo ‘arqueológico’ desta epistemologia, cf. o trabalho de Clastres, no qual se enuncia o ‘espaço

da prática social’ como sendo constituído não apenas pelas relações estruturais que o definem homologamente com outras instâncias do social, mas também como um lugar de práticas concretas, cujo efeito estruturante ou ‘agencial’ depende da prática concreta em si e não de nenhum determinismo recobridor de longo alcance (Clastres 2001: 141). É, porém, bastante natural que, no contexto da Arqueologia, uma vez que não é possível rasgar o véu de alteridade absoluta que se estabelece com a situação social original, que os estudos estruturalistas analíticos venham a ter uma especial representatividade (e.g., Pearson e Richards 1994: 25; Cobas e Prieto 1997: 106, 161-162).

86

sistema social, não apenas pela sua posição de ‘vantagem cognitiva’ mas sobretudo pela atribuição essencializada de uma especial capacidade dos cientistas e investigadores em fugirem às condições de produção inconsciente de representação do mundo que, contudo, esses mesmo investigadores pareciam encontrar em todos os restantes elementos de qualquer comunidade. Do mesmo modo, a ideia de que um ser humano, individualmente considerado, pudesse deter o conhecimento de todas as consequências das suas acções e de que as suas tomadas de posição revelariam a melhor solução, racionalmente ponderada, no conjunto das decisões possíveis (visão behaviorista estrita que animava, sobretudo, a ciência económica, mas também todas as versões neopositivistas das Ciências Sociais), parecia a Bourdieu igualmente insusceptível de confirmação, e o autor pôde mesmo apresentar uma série relativamente extensa de estudos de caso cujo objectivo principal seria o de demonstrar a não validade dos fundamentos de uma argumentação subjectivista.84 A ‘teoria da prática’ (Outline of a Theory of Practice), nome com que Bourdieu titula o seu livro de apresentação de uma versão da sua teoria social com que pretende contemplar, ao mesmo tempo e integradamente, os extremos ‘objectivista’ e ‘subjectivista’ da acção social, desde logo nos adverte da posição epistemológica de síntese que o autor vai pretender efectuar. A sua intenção epistemológica é a de apresentar uma conceptualização em redor de ‘prática’, de modo a contemplar todas as dimensões que lhes estão associadas no contexto da organização social e sobretudo para fixar os contornos do conceito que, na sua opinião, mais bem representa a ligação 84

Foram várias as áreas sociais em que Bourdieu apresentou um estudo empírico sobre a organização não-

-behaviorista estrita, não ‘subjectivista’ nem ‘voluntarista’ da organização social e da relação entre o ser humano, individualmente considerado e o conjunto dos seus pares, organizados em estruturas de poder diferencial: a escola, a universidade, o sistema administrativo, etc. Cf. Bourdieu 1977; Bourdieu 1979; Bourdieu 1988; Bourdieu 1996. A teoria ‘subjectivista’ mais importante no contexto da teoria social contemporânea ficou conhecida, na literatura anglosaxónica, pelo nome de rational-actor theory ou rational-choice theory. O postulado principal que lhe dá origem afirma que qualquer ser humano, individualmente considerado, tomará, em contextos de resolução de um determinado problema, a decisão que garantir ‘mais por menos’, i.e., mais retorno por menos investimento pessoal. Os antecedentes históricos desta concepção da teoria comportamental situam-se nas primeiras formulações da Economia clássica, e foram vertidos para as formulações mais recentes da mesma ciência, quer nas que se lhe podem filiar directamente, como o caso da Economia neo-clássica, quer, um pouco surpreendentemente, em algumas versões mais ‘analíticas’ do pensamento neo-marxista. Para uma crítica histórica e teórica da genealogia da teoria da ‘escolha racional’, cf. Barnes 1996: esp. caps. 1-3.

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dialéctica entre as margens subjectiva e objectiva da organização da prática social – o conceito de ‘habitus’. A operação de ‘habitus’ é, para Bourdieu, a entidade que organiza a prática social concreta dos seres humanos considerados individualmente, no contexto de uma organização que os envolve e de que eles, enquanto indivíduos, não detêm o conhecimento pleno. Para Bourdieu, o conceito de ‘habitus’ partilha, mas ao mesmo tempo dissolve, as visões extremas do subjectivismo e objectivismo sociológicos: o primeiro a considerar as decisões humanas como absolutamente livres e conscientes, negando qualquer poder estruturante da organização social envolvente; o segundo, concebendo a sociedade como a explicitação de ‘leis sociais’ organizadas topicamente num lugar oculto e exercendo a sua obtusa inevitabilidade para lá de qualquer espécie de controlo individual dos agentes sociais. O conceito de ‘habitus’ organiza centralmente a teoria social de Bourdieu. É a relação prática que se estabelece entre as formulações objectivas (‘objectivantes’) da estrutura social e a capacidade de acção individual; é igualmente a operação concreta de in-corporação da organização estrutural (‘estruturante’) objectiva e abstracta das leis sociais no sujeito individualmente considerado; ‘incorporação’, neste contexto, faz referência ao conteúdo literal da expressão, porque, para Bourdieu, a objectivação das leis gerais no comportamento individual não se faz apenas por uma transposição intelectual de conteúdos, mas pela imposição (de violência mais ou menos simbolizada) das normas de comportamento a um corpo concreto, sensorial, que funciona através de categorias que ultrapassam as entidades lógicas do ‘certo’ e do ‘errado’ ou em que, pelo menos, essas mesmas categorias de ordem intelectual são inevitavelmente acompanhadas pela percepção do prazer e da dor (Painter 2000: 246.). O ‘habitus’ é enfim, partilhado pelos agentes sociais que se reconhecem como iguais, o meio e o resultado da organização social, e o reprodutor da sua própria desigualdade: The conditionings associated with a particular class of conditions of existence produce habitus, systems of durable, transposable dispositions, structured structures predisposed to function as structuring structures, that is, as principles which generate and organize practices and representations that can be objectively adapted to their outcomes without presupposing a conscious aiming at ends or an express mastery of operations necessary in

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order to attain them. Objectively ‘regulated’ and ‘regular’ without being in any way the product of obedience to rules, they can be collectively orchestrated without being the product of the organizing action of a conductor [Bourdieu 1990: 53.].

A partir da citação anterior, podemos ver em detalhe a natureza e o tipo de efeitos sociológicos e epistemológicos que encerra a definição bourdieuana de ‘habitus’, isolando os vários elementos constituintes da sua própria definição.85 Em primeiro lugar, o ‘habitus’ consiste num conjunto de predisposições que levam os agentes sociais a admitirem para si próprios determinados tipos de comportamentos. Geram determinadas práticas sociais, sem que no entanto os agentes sociais que as levam a cabo tenham uma consciência muito nítida da razão por que o fazem. Para Bourdieu, para lá de uma eventual essencialização deste momento transcendente, que não passou despercebido à crítica pós-estruturalista e feminista,86 parece claro que apesar da regularidade expressa pelas atitudes partilhadas, não existe, ontologicamente, uma ‘tópica’ oculta de geração dessas mesmas regras. Em segundo lugar, este conjunto de disposições regulares comportamentais parecem admitir algum grau de durabilidade, inculcabilidade e transponibilidade, o que lhes garante um efeito constitutivo da organização e acção social para lá do momento da sua enunciação. Obviamente, Bourdieu refere-se, neste contexto, a todos os mecanismos da

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Neste ponto específico, seguimos de perto a crítica de John Thompson (Thompson 1991: 12 e ss.), a que

associamos algumas ideias que estão presentes, mais ou menos desenvolvidamente, em outros autores: Hesmondhalgh 2006: 211-231; Rose 2006: 101-136. Do ponto de vista específico da aplicação da teoria do ‘habitus’ na Arqueologia, cf. e.g., Jones (1997), Hamilakis et al. (2002), além, naturalmente, das incursões de González Ruibal, no contexto específico da arqueologia do I milénio a.C. do Noroeste da Península Ibérica, sobretudo em relação ao estabelecimento de ‘discursos materiais’, como formulação de normas comportamentais, de que é exemplo a organização simbólica da ‘casa bracarense’ como meio e resultado da organização social do tipo ‘société à la maison’ (González Ruibal 2003: 336-343). 86

Cf., e.g., Julie McLeod (McLeod 2005: 11-30). Para esta autora, que apresenta uma revisão da relação

conflitual entre Bourdieu e a teoria social feminista, devem repensar-se os conceitos de ‘habitus’ e ‘campo de estratégia’, e incluir numa análise mais contextualizada os efeitos de instabilidade causados pelas condições de formação de subjectividade (aqui, incidindo especificamente na questão de identidade de género) e de transgressão das normas instituídas pelo campo estratégico de afirmação diferencial, destacando as formulações de continuidade identitária em espaços intersticiais de formação da subjectividade fragmentada. No geral, é uma releitura anti-essencialistas dos conceitos centrais da teoria social de Bourdieu.

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ordem pública e privada que são responsáveis pela formação, nomeadamente durante a infância, da explicitação de um conjunto de normas que passam, na idade adulta, a funcionar autonomamente em relação ao momento e lugar da sua primitiva explicitação. É também a este nível que Bourdieu considera que a capacidade normativa dos enunciados puramente verbalizados se incorpora numa hexis corporal específica que passa a representar a pervivência concreta da memória (a dor e o prazer, consciente ou inconscientemente associados à inculcação dos princípios verbalizados, permitem uma actualização constante pelo uso do próprio corpo, garantindo a ‘naturalização discursiva’ da estrutura social no recinto mais amplo da ‘prática da teoria’). Em terceiro lugar, e em íntima articulação com o ponto anterior, o conjunto de predisposições assim inculcado e incorporado, tende a adquirir uma inércia comportamental, que, ao seu portador, quando não criticamente avaliadas, podem justamente parecer uma regularidade ‘natural’ e inescapável da organização social.87 Em quarto lugar, a diferenciação heteroclassista do ‘habitus’, associada à homogeneização intra-classista, tendem a sobrepor uma lógica ‘discreta’ sobre o continuum social, promovendo activamente a distinção rígida de ‘classes’, as quais se reconhecem, internamente e exteriormente, pela incorporação dos mesmos hábitos comportamentais; a presença do corpo é, para Bourdieu, absolutamente central neste contexto específico, por ser ao nível abjectivista da relação de intimidade física que se denunciam as fronteiras de (quase) absoluta intransponibilidade social, razão pela qual

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Também Habermas, no contexto da sua Teoria Crítica, desenhou, muito nitidamente, uma oposição entre a

forma werkiana e compreensiva de fazer ciência. A primeira, característica das formulações positivistas, atribuía à regularidade inculcada nos sujeitos humanos, a uma causa essencializada exterior; a segunda, pelo contrário, deprimia absolutamente a capacidade de acção do agente social, remetendo-o à condição de produto de um processo histórico sobre o qual não tinha qualquer capacidade de intervenção. É justamente com o sentido de operar a síntese entre estas duas abordagens, aparentemente irreconciliáveis, que apresenta a sua própria fundamentação ‘emancipadora’ da Teoria Crítica: ‘Há circunstâncias em que a vida social é condicionada por factores de que os indivíduos em causa pouco sabem – em que as forças sociais se assemelham a forças da natureza [mas] quanto mais os seres humanos sabem (…) tanto mais aptos estarão para se libertarem dos confinamentos a que estavam sujeitos antes’ (Giddens 1992: 160).

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os fenómenos de mobilidade social são sempre precedidos de uma transformação visível da própria hexis corporal.88 Finalmente, este é um dos pontos mais importantes para uma teoria da prática dos ‘discursos materiais’, que são, na Arqueologia, o lugar mais óbvio de organização de uma teoria bourdieuana, as disposições são transponíveis, i.e., independentemente do locus inicial da sua enunciação, passam a fazer parte da estrutura de organização da subjectividade comportamental e surgirão em novos domínios, a partir de homologias simbólicas e funcionais.89 O ‘habitus’, em suma, é o que garante (e obriga?) aos agentes sociais a capacidade de agir nas mais diversas e específicas situações, sem que delas se tenha de possuir uma compreensão completa da sua natureza e dos seus efeitos. O habitus é a exposição concreta da própria existência individual no seio da comunidade social envolvente. Também especialmente importante no contexto da teoria social de Bourdieu é o conceito de ‘capital’ e servirá de ponto de apoio muito concreto para uma teoria derivada da fundamentação de uma ‘discursividade’ a identificar nas manifestações materiais de uma comunidade: Pierre Bourdieu ha extendido el concepto de capital marxiano más allá de la esfera económica. El poder y las relaciones de desigualdad no pueden basarse en exclusiva en la acumulación, mantenimiento y reproducción del capital económico. El capital social, cultural y simbólico resulta al menos tan importante como el económico en las estrategias del poder. Según Bourdieu, al reducir la economía precapitalista a su realidad objetiva, ‘el economicismo aniquila la especificidad localizada precisamente en la discrepancia socialmente mantenida entre la realidad objetiva y la representación social de la producción y el intercambio’. (…). Como Foucault, Bourdieu también hace un gran hincapié en la esfera más baja de las relaciones sociales, en lo

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‘Structured dispositions (…) are ingrained in the body in such a way that they endure through the life history

of the individual, operating in a way that is pre-conscious and hence not readily amenable to conscious reflection and modification’ (Thompson 1991: loc. cit.). 89

O conceito de ‘discursos materiais’, i.e., de concreções de comportamento social na cultura material, retirei-o

de González Ruibal (González Ruibal 2003: 17-19). O estabelecimento de homologias entre diversas esferas de organização funcional ou simbólica dos vestígios materiais do passado é plenamente justificado no contexto da noção de ‘transposição de habitus’, tal como Bourdieu a define e demonstra.

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cotidiano y lo material, en la práctica frente al discurso [González Ruibal 2003: 18].

Assim devem tomar-se em consideração não apenas as modalidades de expressão do capital, mas também as formas de intermutação entre todas elas, destacando a capacidade mimética de formulação de estratégias sociais diferenciadas a partir da concreta expressão dessas modalidades no campo de negociação social. O (i) capital económico diz directamente respeito à riqueza material disponível e constitui o elemento central da análise clássica da tradição filosófica do materialismo histórico.90 O (ii) capital social faz referência directa ao poder que se gera e torna disponível pela organização social concreta das redes formais e informais de conhecimento e reconhecimento interpessoal e de grupo. Embora a teoria social clássica tenha tendido a dar mais importância aos mecanismos internos de afirmação dos diversos grupos de status, a teoria antropológica e histórica está hoje em condições de reconhecer que a dinâmica social é objecto de fenómenos de intensa aceleração, justamente nas margens imperfeitas de recobrimento entre estes mesmos grupos, nomeadamente quando são explicitadas em ambientes de contactos económicos de feição colonial. O lugar de ‘informador’ ou ‘contacto privilegiado’ pode deter, e normalmente detém, um papel central na organização do espaço social das comunidades colonizadas.91 O (iii) capital cultural diz respeito a todas as formas de avaliação positiva da erudição e do conhecimento especializado, nomeadamente quando suportadas por títulos consagrados publicamente de estruturas educativas de prestígio. Este domínio de análise social detém uma importância especial no nosso trabalho de interpretação geo-historiográfica em 90

Convém no entanto referir que o a tradição marxista nunca restringiu a análise da desigualdade social apenas à

expressão da diferença de riqueza disponível. De facto, o conceito de ‘classe’ em Marx nunca pôs de lado as configurações culturais, social e ideológicas com ela associadas, embora, é verdade, tendesse a considerá-las como ‘super-estruturais’, isto é, como elementos de expressão de uma estratégia de alienação destinada a encobrir as ‘molas reais’ de funcionamento da estrutura social. Contudo, deve aqui ter-se em consideração que as primeiras formulações do materialismo dialéctico (e do seu equivalente de análise da dinâmica histórica, o materialismo histórico) foram aplicadas numa escala de análise ‘macro-social’, na qual o principal elemento de aferição do posicionamento de classe é estabelecido pelos níveis de rendimentos, e sobretudo, pela relação de alienação da força de trabalho em contexto de uma economia plenamente monetária. Cf. Godelier 1978: 84-96.

92

Martins Sarmento, por considerarmos que a capacidade de visibilização às escalas nacional e internacional foi seriamente prejudicada pela eventual diminuição da sua capacidade no domínio formal das competências científicas.92 Finalmente, o (iv) capital simbólico refere-se à representação especificamente ideológica de atribuição social de quaisquer formas de capital, é um processo de ‘legitimação’. Neste contexto, é possível o uso de ‘indicadores’ de prestígio que, não tendo qualquer valor intrínseco, funcionam na acção comunicativa global como elementos determinantes de reconhecimento de status: ‘it is the form that the various species of capital assume when they are perceived and recognized as legitimate’ (Bourdieu 1989: 17). Quase é desnecessário dizer que este é um domínio de particular relevância na formulação de uma teoria simbólica do espaço e, assim, da possibilidade de afirmação de uma contribuição significativa de Bourdieu no contexto de afirmação do ponto-devista geográfico nas Ciências Sociais. De facto, a organização e apresentação simbólica do espaço edificado, elemento normalmente conservado nas escavações arqueológicas, é um dos elementos mais importantes de configuração de uma estrutura simbólica da sociedade, e, segundo Lévi-Strauss, nas sociedades sem escrita pode mesmo cumprir um papel análogo ao que nas sociedades com escrita é atribuído à codificação jurisprudencial e educativa.93 91

Cf., e.g., o papel que a estrutura social indígena do Noroeste da Península Ibérica, especialmente a área

bracarense, teria cumprido na pacificação ‘autónoma’ do território face à dominação romana (C. F. Almeida 1983: 187-198). 92

Curiosamente, ou talvez nem tanto, será justamente a este nível, aparentemente lateral da polémica científica,

que Adolfo Coelho incidirá parte da sua crítica com que pretende (e consegue, como veremos) reforçar a imagem ‘antiquarista’ de Martins Sarmento e desacreditar a sua teoria interpretativa do passado como uma formulação especificamente científica (cf. Levine 1986) 93

Cf. o caso da aldeia winnebago a que C. Lévi-Strauss faz alusão no seu livro Anthropologie structurale (Lévi-

-Strauss 1974: 155-157) a partir do trabalho de campo de P. Radin. Este constatou um curioso desacordo entre as pessoas que lhe serviam de informadores. A disposição espacial da aldeia era diferentemente representada pelos habitantes da aldeia conforme a sua pertença social (upper/lower phratries). Do mesmo modo, os modelos culturais em confronto podem traduzir diferentemente as suas relações com a estrutura espacial. Um extremo de profunda dependência é o caso dos índios bororo, em que o conjunto da disposição espacial constitui um sistema fechado que remete à ordem cosmológica, religião, organização do trabalho, sistema de parentesco e às regras de casamento. A intervenção dos missionários, ao modificar essa disposição espacial, desorientou e fez ruir, juntamente com a desagregação espacial, todas as referências inscritas no espaço, todas as interacções sociais e todos os modelos autoconscientes de representação e de modelização dos comportamentos: ‘A distribuição circular das palhotas em

93

Contudo, tão importante quanto a configuração multiforme do capital tornado disponível na organização social, é a característica comum a todas estas formas de possibilidade de transmutação, assegurando, por isso, uma capacidade de estratégia diferencial que não era admitida, pelo menos com o grau de mobilidade aqui considerado, pelo marxismo clássico, ainda que mantendo lógicas internas específicas a cada um deles, dentro das quais a possibilidade de tradução e substituição pode ser profundamente deprimida: [E]ach form of capital provides the resources for social struggles within its respective sphere independent of the other forms and without requiring conversion. Thus symbolic struggles, for example, have autonomy from economic struggles,94

o que significa, em termos concretos de uma teoria social da ‘materialidade discursiva’, a atribuição separada do valor simbólico dos objectos materiais como formulação não estritamente económica da organização social da comunidade a que dizem respeito. I. 1.3. A Racionalidade 1) Edward Casey, autor dos livros Getting Back Into Place e Fate of Place, é um investigador que incorpora no estudo da racionalidade os conceitos associados à ‘inflexão geográfica’. A sua obra insere-se numa perspectiva fenomenológica, com referências a (e emulações de) autores que desenvolveram o seu trabalho no seio desta

torno da casa dos homens é de tal importância, no que diz respeito à vida social e à prática do culto, que os missionários Salesianos da região do Rio-das-Garças rapidamente descobriram que a maneira mais segura de converter os Bororo consistia em obrigá-los a abandonar a sua aldeia, trocando-a por outra, onde as casas são dispostas em filas paralelas. Desorientados relativamente aos pontos cardiais, privados da planta que fornece um argumento para o seu saber, os indígenas perdem rapidamente o sentido das tradições, como se os seus sistemas social e religioso fossem muito complicados para passarem sem o esquema tornado patente pela planta da aldeia e cujos contornos são perpetuamente refrescados pelos seus gestos quotidianos’ (Lévi-Strauss 1981: 214-215; ênfase nossa). 94

Painter 2000: 244. Para uma crítica de teor semelhante, mas no contexto da Arqueologia, cf. Hedeager 1992,

capítulo introdutório.

94

perspectiva

filosófica

W. G. Hoskins.

como

Yi-Fu

Tuan,

David

Seamon,

J. B. Jackson

ou

95

A intenção da filosofia de Casey é interrogar sistematicamente a relação do lugar com a racionalidade, visto que, para o autor, o ‘the place we occupy (…) has everything to do with what and who we are’. Com o intuito de demonstrar a sua argumentação principal, Casey percorre uma série de manifestações sociais e racionais em que o papel constitutivo do lugar é manifesto, como seja o ‘mapa’, o ‘corpo’, a ‘cidade’ (ou em termos mais genéricos, o ‘edificado’), a ‘natureza’ – nela

incluindo muito

decisivamente a ideia de ‘natureza selvagem’ como relação constitutiva antinómica da própria afirmação ‘cultural’ do ser-humano – e, finalmente, a ‘viagem’. Para Casey, a não ser que se proceda a uma reflexão sistemática do que realmente significa, e que consequências tem, o ‘lugar em que se está’, a vida humana will continue to be as disoriented and displaced, as destabilized and dismaying, as we know [it] to be at this imperilled post-modern moment. (…). The prospect of no-place is dismaying not only when pulling up stakes or in wartime (part of the horror of nuclear war is its annihilation of places as well as persons) but at many other times; indeed, every time we are out of place (…) we find ourselves entering into a special form of panic: placepanic’.96

O significado e as consequências, epistemológicas e éticas, do ‘lugar’ na vida humana, é o que a que a tradição anglo-saxónica dá o nome de ‘situated rationality’, e que não vejo inconveniente em traduzir literalmente em português por ‘racionalidade situada’. Desde logo se compreende a importância de uma proposição teórica do carácter ‘localizado’ da racionalidade no contexto da História e Filosofia de Ciência, e especialmente quando esta toma a forma de uma historiografia da Arqueologia. O

95

Os dois primeiros nomes referidos são geógrafos, os últimos desenvolveram o seu trabalho no seio do que em

inglês se chama ‘landscape studies’, que em geografia inspirou, por exemplo, os trabalhos de Denis Cosgrove. Em Portugal, esta é uma área de estudos que tem vindo a desenvolver-se na Universidade do Minho, nomeadamente através dos trabalhos de João Sarmento e Ana Francisca de Azevedo (cf. Bibliografia). 96

Casey 1993: xvii. O trabalho de Casey inclui-se numa longa genealogia de estudos da fenomenologia do

espaço, na qual ganham especial proeminência (e o próprio autor não deixa de o reconhecer) os trabalhos de Bachelard e Heidegger.

95

principal ingrediente da exposição geográfica do passado histórico (a construção de geografias imaginativas tecidas numa genealogia geradora do presente), pelo menos na época e lugar a que este trabalho se irá reportar, é sem dúvida a afirmação dos limites de reconhecimento propriamente geográfico da identidade, de que o nacionalismo é a versão mais estridente, mas longe de ser a única. De facto, quando, na segunda parte deste trabalho, procedermos à caracterização das geografias arqueológicas imaginativas de Martins Sarmento, teremos sempre em presença esta ideia central do ‘lugar do pânico’ que Casey tão eloquentemente enuncia. Nesse contexto, procuraremos demonstrar, ou pelo menos esboçar os contornos de uma caracterização significativa, modo como as ‘escalas de identidade’ de Martins Sarmento são, ao mesmo tempo, recusa do medo de dissolução da própria identidade – ‘the place-panic’.97 Quando Casey se refere ao ‘mapa’ ontológico que governa a situação do ser-humano no mundo tem em ideia muito especificamente a necessidade racional de atribuir uma localização precisa ao continuum da existência. Neste sentido, ‘pertencer a um lugar’ – ou tão só estar num lugar – convoca muito mais do que a fixação das coordenadas físicas que dão garantia de exclusividade numa rede tridimensional do espaço. Desde o ponto-de-vista do investigador, um lugar é sobretudo a recíproca de não ser errante, o contrário de ‘estar perdido’ – porque um ‘mapa’, afinal, mais do que a descrição de uma parte do mundo, é a inscrição da distância a que estamos de casa, e a exposição do caminho de regresso. Poderia alguém, neste ponto, questionar qual a relevância de uma ‘cartografia existencial’ assim definida para o estudo da historiografia de um arqueólogo e historiador amador, de meados do século dezanove, vimaranense, como é Martins Sarmento. E, contudo, não é possível ler as páginas dos seus inúmeros escritos sem que nos apercebamos de imediato do papel securizador (de verdadeira ‘fixação’ ao lugar conhecido, ao centro-do-seu-mundo) que cumpre a sua teoria etnogénica do

97

Já em outro lugar fizemos referência ao facto de nos parecer que a fixação ao lugar detinha uma especial

predominância na geo-historiografia de Martins Sarmento (Pimenta 2005). Nela se desenvolve especificamente a ideia de uma ‘perenidade’ genealógica associada a Sabroso, Briteiros e Guimarães, como ‘lugares’ de formação de identidade continuada do Entre-Douro-e-Minho na formação da nacionalidade portuguesa. Do mesmo modo se faz referência a uma eventual ‘imposição local’ de que Martins Sarmento faz uso, especificamente a partir de Sabroso, para dirimir a questão da arte pré-romana, no contexto de uma polémica internacional em que se envolveu, após a visita dos ‘sábios internacionais’ a Briteiros.

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passado. Desde as grandes viagens da migração ‘ariana’, convenientemente, aferidas a um tempo mítico de não-existência, aos passeios solitários do ‘esquadrinhador de miudezas’ pelos terrenos da sua comarca natal, até, finalmente, ao fechamento progressivo do próprio ‘passado’, os vestígios materiais, as tradições orais, as referências bibliográficas, entre as paredes de um museu-biblioteca pessoal, tudo indicia que Martins Sarmento detinha uma relação onfálica com a sua terra, com o seu país, com a sua casa, de onde não saía voluntariamente, e para onde convocava, em esferas de informalidade mais ou menos extensamente estabelecidas, todos aqueles que julgava necessários à afirmação do seu próprio espaço (Lemos 1985; 1988; 1995; 1999). Falamos, assim, de nostalgia. Dos vários sintomas que pode padecer a síndrome romântica, a nostalgia é dos mais evidentes e aquele que, singularmente, mais bem consegue estabelecer uma ruptura existencial com os ambientes ideológicos que o precederam e que lhe seguiram, respectivamente o racionalismo duro dos tempos iluministas e o modernismo futurista do desvario nacionalista das primeiras décadas do século vinte. Não estamos a negar que em qualquer destes momentos se tenha afirmado uma sorte de cosmopolitismo, nem que, também, o longo século dezanove tenha podido desenhar os contornos da sua própria relação cosmopolita com a alteridade e com o vasto mundo: porém, em nenhuma das outras duas mundividências, a nostalgia exerceu tão profunda influência como no século liberal, momento em que o ser-humano, deixado sozinho à sua livre individualidade, não pôde assegurar a tranquilidade ‘equalitária’ racionalista dos primeiros, nem a partilha ‘fraternalista’ dos movimentos proletários dos segundos. Dos três vértices que a propaganda revolucionária de 1789 havia consagrado no seu mote, liberté, égalité, fraternité, seria ao romântico século dezanove que calharia escolher, de entre todos, aquele com que seria mais difícil de conviver – a angustiante liberdade do indivíduo, considerado na sua singular irredutibilidade aos outros. A nostalgia, neste sentido, é mais do que a memória do tempo perdido, é o desejo de conhecer e explicitar os lugares que o contêm, as ruínas em que esse mesmo tempo perdido se transmuta e mineraliza, é a demanda da própria impossibilidade: No matter what plea or adjustment I make, I cannot catch hold of the peculiar magic of those [childhood] places (…). No effort of will can restore me that perception, that view of the horizon not yet tainted by futurity – it

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runs through me sometimes, but I cannot summon it. And yet everything I would say about place depends on it, and everything I search for myself involves some deep fantasy of its restoration. My best, truest self is vitally connected to a few square miles of land [Birkerts 1986: 54. Ênfase nossa].

A nostalgia do passado resume-se assim na relação enunciada entre a terra e a identidade. Abdicar de uma reflecte-se inevitavelmente na perda da sua correspondente: o lugar, a identidade; a identidade, o lugar. E tal como Birkerts, também Martins Sarmento, como veremos, sente intimamente que perde mais do que um antepassado ilustre no momento em que lhe pretendem impor uns quaisquer povos ‘celtas’ no ‘seu’ Entre-Douro-e-Minho: pela violência associada às suas respostas polémicas, facilmente compreendemos que perder o passado ‘ariano’ da ocupação da sua terra é também beliscar a essência da sua própria identidade, da sua íntima personalidade. Porque o sentido local de existência, o dasein, individual e colectivo, tem origem e reflecte, não apenas a história da sua (nossa) ancestralidade, mas enuncia e descreve os lugares de que se vem e para onde se retorna, os vértices de um mapa em que essa mesma história se actualizou e se tornou duradoura, enfim, em que se fez geografia. A uniformidade do tempo e do espaço da Modernidade transformou esta relação essencializada com o ‘lugar do passado’, e este tomou uma dimensão inesperada em colisão com aquela werkiana uniformidade. O ‘lugar do passado’, no ideário romântico do século dezanove, em que Martins Sarmento tão nitidamente se insere, remete para uma dimensão quási-onírica da existência, tempo em que, justamente, o lugar era a medida de todas as coisas, e também do tempo que não corria, por que na ordem fenomenológica da nostalgia, ‘space and time are not yet separable concepts, they are scarcely concepts at all’ (Birkerts 1986: 54). É pela oposição às principais qualidades que caracterizam a ‘nostalgia’ (‘literally, pained at the non-return home’ [Casey 1993: 138]), que melhor podemos compreender a fenomenologia do passado em Martins Sarmento. À dissolução identitária provocada pela ‘desorientação’, ‘desmemorialização’, ‘des-habitação’ e ‘depressão’, veremos como todo o programa de pesquisa arqueológico do investigador se direcciona no sentido de garantir o fortalecimento do ‘sentido de lugar’, da ‘orientação’ concreta na geografia vestigial das ruínas do passado, do ‘regresso a casa’, ciclicamente reelaborado nas vicissitudes da história do Noroeste da Península Ibérica, e, finalmente, na 98

realização ‘eufórica’ da afirmação continuada da identidade e superioridade civilizacional dos ‘Arianos’ do Ocidente. De Martins Sarmento poderíamos dizer, com especial pertinência, o que Casey admite para os povos e os indivíduos despojados dos seus lugares de ancestralidade: Natives and nonnatives alike are embroiled in a shared predicament of placelessness and its aftermath, and the only way out of this predicament is to regain living contact with place itself, to remember that place is a remarkable thing. This will take more than nostalgic glimpses backward into personal or collective history or forward-looking gazes into utopias or the exotica of outer space. Nostalgia (as well the exoticism with which it is so often allied) is part of the problem, and does not contain the solution [Casey 1993: 139].

Também Martins Sarmento associou a uma específica nostalgia do passado, uma referenciação utópica da exoticidade ‘oriental’ dos ‘Lígures’; e, também neste caso, a nostalgia e a utopia lado-a-lado lograram desenhar, em traços fortes, os contornos do problema que, do mesmo modo, não puderam enunciar as regras da sua própria superação. Referindo-se a dois momentos distintos das suas explorações arqueológicas pelos cabeços dos montes da comarca de Guimarães (Fui à toa, guiando-me unicamente pelo monte. .. Arrostei com o monte pelo sudeste; é áspera a subida. (…). [S]uposto já estejamos no alto da cordilheira, que é continuada para norte pelos montes de S. Simão, de Garfe, e por uma cadeia doutros cada vez mais ásperos e selvagens, há sobejos sinais de que em algumas destas eminências não faltaram moradores nos antigos tempos [Sarmento 1889: 7 e Sarmento 1901: 20].)

Martins Sarmento permite-nos compreender o contexto específico da relação do corpo com a fenomenologia do lugar e, especialmente, do ‘lugar do passado’, entendido como repositório do tempo ancestral. Poderia pensar-se que uma relação fenomenológica assim estabelecida entre um investigador e o seu objecto empírico de pesquisa (entre um arqueólogo e os vestígios materiais do passado) não tem cabimento numa teoria da História da Ciência e especificamente de uma Geo-historiografia; cremos, ao contrário, que é totalmente errado essencializar a prática científica como uma actividade de 99

conteúdos plenamente intelectuais, e procuraremos demonstrar, balizados pela argumentação caseyana em favor de uma ‘teoria de localização do corpo’, por um lado, e os exemplos ilustrativos da prática científica de Martins Sarmento, por outro, como a relação de ‘corporalização’ é absolutamente fundamental no contexto da prática arqueológica. Noutro lugar tivemos a oportunidade de afirmar que existe uma erotica archaeologica específica que diz respeito à fundamentação psicológica de um certo ‘olhar de soslaio’, quase um fetichismo, como constitutivo da ontologia de uma ciência dos ‘vestígios materiais’ como é a Arqueologia. Nessa altura, apenas enunciámos esta relação ‘corporal’ como conjectura, ainda que ilustrando-a com dois exemplos complementares de prefiguração de uma deriva do prazer erótico da relação transcendente com os objectos; esperamos agora poder desenvolver um pouco mais detidamente as características fundamentais de uma relação assim estabelecida: A Arqueologia basicamente estuda o que resta depois de toda a gente se ter ido embora. De todas as disciplinas da Ciência social, é sem dúvida aquela a que mais repugna a superação da alteridade; é um saber dimensionado à medida dessa repugnância; porque escolhe culturas sem textos; porque escolhe objectos sem expressão. A Arqueologia é uma teoria de soslaio do passado. Mas, não é esse justamente o seu fascínio? [Pimenta 1997: 43-50; a citação é da página 50.].

2) O mesmo tipo de preocupação espacialista da racionalidade humana está presente na obra de Charles Taylor, The Sources of the Self. Porém, no caso de Taylor, o conceito ‘espacial’, que fulcralmente estrutura a sua filosofia, é o de ‘desorientação’. Este conceito visa lidar, sobretudo, com as consequências para a identidade a que o ser humano está sujeito no contexto da fragmentação social e moral que caracteriza, segundo o autor, a Modernidade. Para Taylor, o ‘lugar social’ é justamente isso, um ‘lugar’. E em todas as instâncias da vida social, a capacidade de intervenção e de negociação deriva, em primeiro lugar, do lugar que se ocupa e no qual os outros admitem a nossa existência: What this brings to light is the essential link between identity and a kind of orientation. To know who you are is to be oriented in moral space, a space in

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which questions arise about what is good or bad, what is worth doing and what not, what has meaning and importance for you and what is trivial and secondary. I feel myself drawn here to use a spatial metaphor; but I believe this to be more than personal predilection. There are signs that the link with spatial orientation lies very deep in the human psyche. In some very extreme cases of what are described as ‘narcissistic personality disorders’, which take the form of radical uncertainty about oneself and about what is of value to one, patients show signs of spatial disorientation as well at moments of acute crisis. The disorientation and uncertainty about where one stands as a person seems to spill over into a loss of grip on one’s stance in physical space. Why this link between identity and orientation? (…).98

Lugar e identidade são assim a expressão mútua de uma mesma ontologia. A necessidade de uma ‘identificação do lugar’ é o que justamente distancia Taylor de Foucault. Este último concebia o espaço como uma manifestação de poder para-subjectiva de onde, em parte, derivava a eficácia repressiva. (O efeito ‘panopticon’, o sinistro aparato celular que assombrava a análise histórica da ‘punição e vigilância’, tem muito a ver com esta capacidade de gerar medo por uma sugestão do sujeito repressivo cuja presença física não é sequer necessária.). Para Taylor, o poder exerce-se apenas em contextos de ‘posicionamento subjectivo’ (Livingstone 1995: 12). A inevitável ‘localização’ da identidade subjectiva não impede, contudo, a autenticidade de avaliação e a desmontagem das situações sociais fossilizadas. O conceito central dessa emancipação é, para Taylor, o da ‘quest’, cuja tradução para português não é sem problemas (demanda?), mas que deve em todo o caso guardar a sugestão ‘espacial’ (e biograficamente narrativa) que aquela palavra tem em inglês, para que não se perca de vista que a capacidade de identificação pessoal e social passa necessariamente pela modificação das situações espaciais da sua expressão. Como o diz o próprio Taylor:

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Taylor 1989: 28; ênfase nossa. Esta ordenação do lugar de afirmação de identidade pode mesmo ser

configurada como uma geografia, e a ela o autor faz explícita referência: ‘I define who I am by defining where I speak from, in the family tree, in social space, in the geography of the social statuses and functions, in my intimate relations to the ones I love, and also crucially in the space of moral and spiritual orientation within which my most important defining relations are lived out’ (Taylor 1989: 35).

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My underlying thesis is that is a close connection between the different conditions of identity, or of one’s life making sense (…). One could put it this way: because we cannot orient ourselves to the good, and thus determine our place relative to it and hence determine the direction of our lives, we must inescapably understand our lives in narrative form, as a quest. But one could perhaps star from another point: because we have to determine our place in relation to the good, therefore we cannot be without an orientation to it, and hence must see our life in story. From whichever direction, I see these conditions as connected facets of the same reality, inescapable structural requirements of human agency [Taylor 1989: 52. Ênfase nossa].

Do mesmo modo que, para Taylor, se deve falar de ‘consciência localizada’ deve igualmente falar-se de ‘levantamento local de cidadania’. E também no que diz respeito a Martins Sarmento esperamos poder demonstrar que a sua teoria etnogénica do Passado dos Lusitanos, é em grande medida a transcrição biográfica, em forma de narrativa científica, da sua própria afirmação liberal romântica de cidadania e, do mesmo modo, apresentar a biografia das suas personagens como uma tentativa de atribuição de sentido, de seriação semântica, de fragmentos da vida do próprio investigador. Tal como diz Taylor, cremos que na obra científica de Martins Sarmento, e com especial evidência na narrativa d’Os Argonautas, ‘we must see our life in story’. No contexto mais geral da filosofia ‘moral localista’ de Taylor, existe porém uma dimensão – quase uma restrição – que nos pareceria mais relevante para a análise da geo-historiografia de Martins Sarmento, que se relaciona com a ‘paisagem moral’ que se pode associar a um século dezanove ‘victoriano’, desenhada entre os extremos de uma teleologia criacionista em evidente degenerescência e uma afirmação crescente da ‘inescapabilidade’ de umas ‘leis da Natureza’ que perturbadoramente tomavam conta do comportamento humano e do próprio desígnio da Humanidade (cf. Toulmin e Goodfield 1966: 75-76).99 Martins Sarmento, como se verá, exibia, por vezes pungentemente, esta ambiguidade, esta indecisão de identidade, científica e propriamente existencial, de que

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Para uma profunda caracterização do conhecimento histórico (e, antes de tudo, mitológico) como reiterada de

afirmação de uma ‘imaginação moral’ e geográfica da comunidade, cf. Shklar 1987: 71 e Jordan 2001; sobre o poder reprodutor da cultura material neste mesmo contexto de afirmação continuada do passado, vd. e.g., Joyce 1999 e Kemp 2000: 344 e ss.

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a sua narrativa argonáutica é o exemplo mais evidente, aquele em que o fundo romântico da personalidade afirma em voz alta a sobreposição crispada entre o direito ao heroísmo (afinal, o heroísmo nas formas narrativas da tradição greco-romana significa sobretudo o domínio do Tempo e cujo epígono é justamente Hércules e a conquista humana da ‘imortalidade olímpica’), consagrada nas vozes narrativas de Jasão, Ulisses ou Medeia, e a monótona apresentação do tempo longo e do esquelético mundo da arqueologia do passado. Neste sentido deve compreender-se o Romantismo como a ‘recusa temporária’ do desaparecimento de Deus e a necessária etapa intermédia da afirmação espiritualista da Natureza como única responsável dos destinos da Humanidade.100 The original root of the demand that we seek universal justice and well-being is of course our Judeao-Christian religious tradition. (…). The orthodox Christian understanding of this universal concern is agape, or ‘charity’; and the answer to the question of what makes it possible is grace. This may not be linked to any excepcionalist view of a society, since nothing guarantees that whole societies will be transformed by grace. Christianity has always had a very ambivalent relationship to the societies in which it has existed, and the very concept of Christendom is fraught with theological tension [Taylor 1989: 410. Ênfase nossa].

A nossa intenção será, justamente, tentar demonstrar que a metáfora dominante da narrativa histórica de Martins Sarmento é permeada por esta ambiguidade fundamental da ‘graça’ histórica no desenvolvimento das nacionalidades (e convém lembrar que a polémica herculaniana acerca da fundação ‘cristocêntrica’ da nacionalidade estava ainda bem viva no tempo de Martins Sarmento); não dizemos que ela reproduza inteiramente a ideia de um ‘povo escolhido’, como acontecia entre os monges de Alcobaça – o que pensamos poder dizer é que a metáfora antropocêntrica domina claramente o alinhamento estrutural da temporalidade associada à etnogénese sarmentiana dos

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‘A arqueologia dos castros nasceu, assim, na órbita do Romantismo, com os seus particularismos ideológicos

e patrióticos, assumidos e personificados por eruditos como Martins Sarmento, ou Alberto Sampaio, que dedicaram toda uma vida ao estudo de uma única região, registando simultaneamente, artes, tradições e antiguidades, na procura de uma continuidade histórica que fundamentasse a tendência tradicionalista, que, no séc. XIX, defendia o passado contra os ventos de mudança’ (Martins 1993-1994: 48).

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Lusitanos, e que nela é relevante o elemento semântico do ‘pecado’, emprestando à suas personagens históricas um sentido de ‘moralidade’ que é evidente quando essas personagens são individualmente consideradas, como é o caso de Jasão ou Medeia, mas que não é menos importante nas ‘personagens colectivas’ da Pré-História, e de que a oposição ‘Lígures’-‘Celtas’ é a mais evidente expressão. A insinuação de uma ‘crise criacionista’ ou, pelo menos, ‘teleológica’, no ideário romântico, teve como elemento mais definidor a ideia de que, pela primeira vez, haveria indícios seguros de um horizonte moral alternativo, ‘natural’, que implicaria a conduta humana em factores que não dependiam intrinsecamente da esfera da religiosidade. Ficam assim constituídos os fundamentos de uma ‘ética da descrença’ que, tomando diversas formas alternativas no contexto polimorfo dos diversos romantismos particulares, ofereciam uma saída aos espíritos desejosos de uma nova crença, a quem o carácter indeterminado das leis naturais do espírito humano não pareciam poder seduzir. Não será alheia a esta ambiguidade propriamente ‘existencial’ a razão pela qual é possível detectar, ao longo do terceiro quartel do século dezanove, uma corrente fortemente anti-evolucionista, de pendor degeneracionista que pretendia fazer sobreviver a ‘superioridade absoluta’ da Humanidade dos tempos bíblicos no jargão científico dominante, de modo a poder participar dos dois movimentos que se desenhavam em profundo antagonismo: a narrativa genésica da Criação e a afirmação progressiva da ‘antiguidade do Homem’ pela Arqueologia.101

101

Grayson (1983: 211-220); e cf., para uma crítica da ‘temporalidade do sistema das três idades’ como

manifestação ideológica de uma ‘religiosidade laica’ da Modernidade europeia e ocidental: Dasa (1994); Snobelen (2001: 59-104); Trigger (1994: 113-116). Orlando Ribeiro admite igualmente o poder de ‘organização’ propriamente geográfico que advém da vontade de viagem que o Sul exerce sobre os homens do Norte como um dos principais elementos constitutivos do Romantismo, e especificamente da ciência da Geografia: ‘Como o Romantismo nasceu na Europa média, o Mediterrâneo atrai ao mesmo tempo pelo clima, pela proximidade, pelo prestígio histórico das suas ruínas, pelo colorido e animação das populações, marcadas já por traços de exotismo. Goethe compõe a Viagem à Itália, Byron canta a Grécia, Chateaubriand descreve Constantinopla, o americano Washington Irving evoca o ambiente muçulmano do Sul de Espanha e a vida romanesca dos bandoleros. Podia multiplicar-se esta enumeração de celebridades; com ela vinham muitos anónimos e os primeiros viajantes científicos, atraídos pelo mais rico cadinho de civilizações e pela originalidade da natureza e do viver dos homens. Basta tomar um exemplo na nossa ciência, a Geografia Geral Comparada (1822-1859) de Carl Ritter, que começa pela África e pela Ásia mas prossegue pelas regiões do Próximo Oriente, descritas com tanta minúcia que o autor não pôde rematar a obra’ (Ribeiro 1998: 32).

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A afirmação de uma temporalidade da Natureza e da Humanidade associada a uma vaga relação religiosa com a materialidade da sua expressão poderia, assim, guardar um lugar especial para aquelas disciplinas intelectuais, que, ainda que não academicamente organizadas (e talvez mesmo por isso mesmo), fizessem dedicar alguns espíritos à busca (aqui retomamos a noção tayloriana da demanda individual da biografia na narrativa dela própria) de todas as manifestações possíveis dessa espiritualidade comum que harmonizava a Natureza e a Humanidade quando fora da relação platónica-agostianiana que até determinava reinos distintos (e quase incomunicáveis, ou só comunicáveis no tempo da Morte) para as duas metades constitutivas da persona. O movimento do Sturm und Drang e, especificamente, a figura de Goethe decerto não são alheios, pela via da influência literária, a esta afirmação da ancestralidade e do paganismo como formas superiores de organização do ‘mundo natural do espírito’, para usar um paradoxo que se pretende aforístico. Não é justamente na recolha combinada das tradições orais e dos vestígios humanos da antiguidade que veremos afadigarem-se alguns dos melhores intelectos do século dezanove europeu, de que o filo-helenismo alemão é a mais viva expressão? Desde os seus inícios, o filo-helenismo alemão essencializa a estética grega como a afirmação de uma civilidade ‘pagã’ de ordem ‘natural’ superior à espiritualidade da tradição judaico-cristã. Podemos ver, já em finais do século dezoito, o modo como Wincklemann se refere aos artistas gregos, elevando a relação com a natureza como metáfora dominante da aperfeiçoabilidade estética: [T]hese wise artists behaved like good gardeners, who graft different shoots of the finest sorts onto one branch; as a bee drinks from many flowers, likewise [the Greek] concept of beauty was not reducible to individual, particular beauties (…) but [Greek artists] sought the beautiful in uniting many beautiful forms. They purified their images of all personal characteristics, which would divert our minds from the truly beautiful [Marchand 1996: 11-12.].

Não é justamente o mesmo que irão fazer, em Portugal, figuras importantes da tradição intelectual do Romantismo que, desde Garrett a Leite de Vasconcelos,

Deve lembrar-se aqui a importância que o rei Fernando de Saxe-Coburgo teve na protecção dos monumentos portugueses (França 1999: 486)

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percorrem a literatura popular em busca da essência da nação?102 Não é, finalmente, esta a ordem narrativa mais completa que permite dar conta dos pormenores quase inconciliáveis da biografia de Martins Sarmento, cuja aparente falta de sentido ‘científico’ havia já confundido o seu principal biógrafo, Mário Cardoso? Por vezes se tem afirmado, em nossa opinião erradamente, que Martins Sarmento foi um polígrafo, e que da sua robusta mentalidade de autodidacta abrangendo as múltiplas facetas de um enciclopedismo dispersivo, havia surgido o literato, o historiador, o crítico, o filósofo, o arqueólogo e o etnólogo! Quem tal defendeu desconhecia a sua Obra, e particularmente a sua formação e evolução mental. Sarmento foi simplesmente, ou melhor, essencialmente, um etnólogo, como o afirmam os seus trabalhos fundamentais e a índole dos seus escritos, daqueles que marcaram o rumo definitivo do seu pensamento de estudioso. (…) De facto, Martins Sarmento foi essencialmente um etnólogo, pois a preocupação máxima e definitiva dos seus estudos foi a origem dos Lusitanos, após o encerramento das fases transitórias iniciais da sua vida intelectual, ou sejam: a das composições poéticas e romântico-literárias, que decorre desde 1855 a 1860, e a dos estudos sociológicos, que vai de 1868 a 75. Passemos em claro estes dois primeiros períodos da sua vida literária, porque só a fase científica nos interessa verdadeiramente, visto ter sido esse o ciclo de estudos que tornou o seu nome conhecido e admirado em toda a Europa culta. Sem dúvida que foi naquela fase em que, passado o período romântico, publicou diversos trabalhos de sociologia, e que antecedeu a fase científica dos seus estudos (…) Começou então a fase positiva que havia de durar um quarto do século, até à sua morte, a fase científica de um cérebro que adquirira a consciência plena dos seus exactos limites. Martins Sarmento revelou-se então o erudito,

102

Apesar de uma geração mais recente do que a de Martins Sarmento, Leite de Vasconcelos, em razão de ter

começado a escrever muito cedo, e associando-se ao facto de Martins Sarmento o vir a fazer muito tarde, vêm coincidir em grande parte o tempo das duas publicações. Relembre-se que muito pouco tempo após a publicação d’Os Lusitanos de Martins Sarmento, já Leite de Vasconcelos publicava algumas das suas obras sobre temas análogos, nomeadamente, as suas primeiras sínteses sobre as tradições populares e a pré-história de Portugal (Vasconcelos 1882 e 1885). As Religiões da Lusitânia, o seu opus magnum no domínio da Arqueologia, são publicadas, contudo, já totalmente fora do âmbito cronológico da vida de Martins Sarmento.

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o etnólogo, o investigador que dentro em breve marcaria um lugar proeminente nos estudos da Pré-história nacional (Cardoso 1961).

Mário Cardoso resolveu, naturalmente, a sua preocupação com a sobreposição ‘existencial’ da biografia de Martins Sarmento remetendo-a para uma ordem narrativa evolucionista, assumindo que o investigador vimaranense haveria passado por ‘fases’ constitutivas da sua personalidade pública. Nesta ordem assumida, a ‘fase positiva’, dentro da qual Martins Sarmento se dedicaria aos estudos científicos, marcaria a maturidade do autor, sendo as anteriores, a ‘poética’ e a ‘sociológica’, como que paragens necessárias ao desenvolvimento final. Aparte este hegelianismo histórico, entretecido com positivismo comtiano, dizemos apenas que basta a leitura da obra Os Argonautas, (de 1887, relembre-se!), para concluir do esquematismo pré-assumido do faseamento proposto por Cardoso. De acordo com a obra publicada, desde as Poesias até à Arte Micénica…, pensamos que pode afirmar-se com toda a segurança que se Martins Sarmento era inteiramente romântico enquanto jovem adulto, não o era muito menos à data da sua morte em 1899. Os Argonautas, enquanto marco intermédio da fase final da sua vida, são a prova evidente disso mesmo.

3) Alasdair MacIntyre estabeleceu os fundamentos de uma filosofia da imponderabilidade moral, e do relativismo epistemológico, tendo-se afirmado como um dos primeiros nomes da transição ‘pós-moderna’ nos domínios da racionalidade e, em especial, no contexto de renovação teórica do marxismo, razão pela qual a sua obra foi sujeita a críticas, sobretudo dos que aí viam uma manifestação de insanável relativismo.103 O carácter situado da identidade recebeu também a atenção da filosofia de MacIntyre, através do conceito eminentemente social-espacial de ‘setting’, dentro do qual se pretende aferir a caracterização do comportamento como inteiramente dependente das intenções que o governam, assim repudiando explicitamente a possibilidade de uma abordagem ‘behaviorista’ mecânica e exterior dos fenómenos

103

A sua primeira obra de ressonância pública é, justamente, uma reinterpretação do Marxismo (MacIntyre

1953), e consiste na tentativa de o integrar com as formulações não materialistas da tradição filosófica ocidental, muito especialmente a tradição aristotélica medieval.

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sociais, como foi apanágio das abordagens ‘sistémicas’ promovidas pela filosofia neopositivista com origem no ‘círculo de Viena’. Esta ‘imersão’ significativa do comportamento detém uma característica especificamente ‘local’, pois, para MacIntyre, não apenas os comportamentos são incompreensíveis sem as intenções que os determinam, como estas são desancoradas sem os lugares específicos em que se exprimem e exercem. O lugar é, neste caso, o ‘tradutor’ da acção social, o contexto em que a intenção adquire sentido e esta reelabora-se conforme se modifica aquele (MacIntyre 1988: 201 e ss.; MacIntyre 1990: 363). Para este autor, é um erro pensar que o pluralismo conduz necessariamente a uma rejeição da possibilidade eficiente de atingir uma concepção substantiva de ‘verdade’. Nesse sentido, desenvolve o conceito de ‘warranted assertibility’ como substituto do conceito absoluto de ‘verdade’. Também este termo não é facilmente traduzível para português, porém não vemos inconveniente em usar ‘assertividade consensual’, com a intenção de guardar a noção semântica do carácter social, negociado e ‘conjunto’ da afirmação da verdade: The concept of warranted assertibility always has application only at some particular time and place in respect of standards then prevailing at some particular stage in the development of a tradition of enquiry, and a claim that such and such is warrantedly assertible always, therefore, has to make implicit or explicit references to such times and places. The concept of truth, however, is timeless [MacIntyre 1990: 69].

Para MacIntyre, porém, este relativismo na avaliação epistemológica da validade relativa das teorias não é absoluto, ou pelo menos não é ‘historicamente’ absoluto, uma vez que, numa visão algo semelhante à selecção darwinista, a evolução das teorias demonstraria a estabilização daquelas que melhor correspondessem aos contextos de ‘assertividade consensual’. Disso seria exemplo a ciência natural desenvolvida pela Modernidade.104 104

A evidência arqueológica da ‘antiguidade do Homem’ não fez o seu curso sem dificuldades (Eiseley 1958).

Toda a primeira metade do século dezanove consiste numa bipolarização crescente entre a ideia renovadora de natural da espécie humana e o fundo teleológico primitivo das concepções anteriores, nas quais o Romantismo se ergueu como especial defensor. A principal razão de discórdia parece ter residido (Bowler 2003: 38) no abandono da

108

Em consonância com o enquadramento filosófico anterior, MacIntyre incidiu a sua atenção também nas consequências éticas das práticas locais. Do seu ponto de vista, os princípios morais universais só se tornam efectivos na sua aplicação em contextos locais e, por isso, de modo muito semelhante à elaboração de Latour no domínio científico e tecnológico, também MacIntyre admite que a universalização moderna apenas recolhe a sua estrutura universal pela aplicação continuada e metamorfoseada dos ambientes locais concretos, formando uma rede de contemplação e estruturação mútua, fora da qual a organização conceptual deixa de poder garantir as condições mínimas de ‘comentário mútuo’. Em suma, diferentes lugares dão origem a diversos modos de racionalidade prática, que resulta do facto de, para MacIntyre, um agente social tomar decisões sempre na expectativa da reacção dos restantes agentes sociais que num determinado lugar social são afectados por essa decisão. Isto significa que, ao contrário do que a visão neutral e objectiva da racionalidade moderna postulava, nenhuma decisão se toma em si mesma, por critérios internos de verdade, mas por integração social activa corporalizada num lugar social.105 O que é significante é, antes do mais, os outros com que o partilhamos. O ‘lugar’ é o Outro. Por essa razão, a expressão prática da racionalidade é sempre uma ‘racionalidade situada’: [T]he conclusion of the reasoning is in action and not the utterance of a decision, or an expression of intention. Indeed such an utterance or expression would be an interruption of the process of practical reasoning. An individual who had reasoned his or her way through the premises to the point of action, but who was distracted by an impulse to do other than what reason dictated, might of course respond to that impulse by affirming a decision to resist the impulse and follow reason; but while the affirmation of such a decision would have a function in relation to the conflict of irrational desire – irrational, that is, in the context of the practice – with reason, it would be functionless as part of the practical reasoning. It follows of course that, if the

ideia de ‘harmonia’ tão ao gosto dos investigadores da primeira metade do século para concepções mais ‘violentas’ e inesperadas do Tempo da Natureza. 105

‘The outcome of decisions acted upon is therefore always shaped by how the agent in question perceives how

others who share his or her social space will respond to his or her actions’ (Livingstone 1995: 13).

109

conclusion of the reasoning is an action, then that action must be understood as expressive of a statement, a statement of the form, ‘This is what is to be done’. And indeed it is precisely because actions can be so construed that we are able to identify inconsistency and consistency relationships between actions and the premises of the reasoning agent [MacIntyre apud Knight 1998: 122. Ênfase nossa.].

No contexto da geo-historiografia de Martins Sarmento, a ‘teoria da racionalidade prática’ de MacIntyre servir-nos-á de guia para uma específica valorização da enunciação paradigmática da obra do investigador de Briteiros. É nossa convicção, e procuraremos substantivá-la com exemplos da sua obra, que o espírito de Martins Sarmento era animado por uma ‘geografia homérica’, i.e., por um mundo de imagens, narrativas e sentimentos hauridos numa educação ‘clássica’, e em que a ‘paisagem do passado’ grego e romano (mas, especialmente, o mundo helénico) se tornaram, como diria, para usar as palavras de Bachelard, a sua ‘poética’. Será a partir desta organização estética da história e do mundo que a narrativa d’Os Argonautas vai ser cuidadosamente ‘transferida’ para o cenário atlântico, de modo a que (e continuo acompanhado de Bachelard no uso destas expressões) o ‘sonho na casa’ e a ‘casa no sonho’ pudessem historicamente e geograficamente coincidir. É no contexto do filo-helenismo evidente de Martins Sarmento que iremos fazer uso da proposta interpretativa de MacIntyre. É que, a nosso ver, Martins Sarmento estabelece na sua obra os elementos claros de um ‘género científico’ específico, com o intuito racionalmente prático de incluir o seu ‘pequeno dogma pessoal’ sobre o ‘atlantismo’ das narrativas helénicas e o ‘mediterranismo’ da arqueologia ‘lusitana’ numa estrutura social de recepção dominada já pela Universidade positivista. A crítica da racionalidade de MacIntyre pode ver-se, do ponto de vista epistemológico, como uma revivificação de uma tradição não-positivista no pensamento ocidental, de que Aristóteles e Nietzsche são os pontos de apoio predilectos. A explícita filiação genealógica nas duas filosofias referidas deve de imediato alertar-nos para o carácter eminentemente político (como prático) da sua própria teoria social e epistemológica, reconhecendo nela uma tradição, não apenas das ‘virtudes’ de um pensamento prático assim considerado mas igualmente do carácter socialmente incarnado dessas mesmas ‘virtudes racionais’. 110

A determinação da ‘qualidade’ (e usamos aqui este termo no duplo sentido de elemento de ‘diferenciação’ e de ‘valorização’) de uma teoria social, especialmente do domínio do comportamento humano, das Ciências Sociais, passa, segundo MacIntyre, por uma apresentação e representação das nossas próprias acções e proposições como elementos reconhecíveis no contexto de uma teleologia partilhada que garante retrospectivamente a adequação teórica e prática do nosso posicionamento como actores sociais. Ao participar numa prática social específica e ao emular os padrões de comportamento e ‘afirmabilidade’ da tradição em que nos pretendemos incluir, é que um indivíduo, singularmente considerado, se permite elevar-se paulatinamente, percorrendo os graus mais baixos, intermédios e finais que são o único caminho de reconhecimento integral da socialização. Na Ciência dominada academicamente, este modelo cumulativo tem mesmo uma expressão formal, sendo a ‘licenciatura’, o ‘mestrado’ e o ‘doutoramento’, etc., os graus necessários, não à obtenção da ‘quantidade’ de informação considerada necessária ao nível de intervenção correspondente, mas à ‘qualidade’ (de novo considerada duplamente, como ‘direito’ e ‘virtude’) de exibição dessa intervenção, e correspondente capacidade de recepção pela comunidade em que essa intervenção é significativa. Este modelo ‘académico’ tem algum interesse ilustrativo por duas razões: por um lado, porque apresenta na sua estrutura formal os mesmos elementos que MacIntyre admite existirem, mais ou menos explicitados, em todas as situações de afirmação prática da racionalidade; mas tem, também, o valor associado de servir como pano de fundo adequado para a compreensão da própria prática científica de Martins Sarmento. De facto, como veremos, existe uma ambiguidade essencial na obra (e na sua capacidade de recepção) do autor vimaranense que passa pela fragmentação de esferas práticas de intervenção, que o investigador não consegue nunca sobrepor adequadamente. Parece evidente que a primeira ‘estética de recepção’ se dirige a uma prática social culturalmente apropriada pelo conjunto socialmente significativo dos seus ‘amigos antiquários’, a quem de resto, num momento de elevado simbolismo ético, faz questão de dedicar o artigo ‘Lusitanos, Lígures e Celtas’, nascido no seio de uma polémica violenta com um representante de uma outra ordem ‘geográfica’ de inclusão da prática científica: a universidade, materializada então no Curso Superior de Letras: 111

Por causa dos Lígures, com que os meus amigos já iam simpatizando, acaba de me dar uma formidável descompostura o Sr. Francisco Adolfo Coelho, professor de Glótica no Curso Superior de Letras. Não sendo meu propósito entrar na gloriosa campanha das retaliações difamatórias, e estando a parte científica da farragem abaixo de toda a crítica, salvo num ou noutro ponto, hesitei por algum tempo se deveria ou não responder. Mas estas noites longas e fastientas têm tentações mefistofélicas, e demais disso se perdesse esta ocasião de falar dos meus Lígures, dificilmente apanharia outra. Decidime, pois, a analisar a trapalhada. Vi-me porém em embaraços sérios e aqui está porquê: Manuel de Melo, o autor da Glottica em Portugal – um livro, que por uma coincidência apreciável começou a correr mundo quase ao mesmo tempo que a Revista Archeologica, de Lisboa, borbotava contra mim a interminável verrina do Sr. Coelho – Manuel de Melo, digo, desagravando a memória de João Pedro Ribeiro, Ribeiro dos Santos, Constâncio, o Cardeal Saraiva, Fr. Inocêncio, Alexandre Herculano, etc., etc., aos quais o meu demolidor passara diploma de ignorantes, de pedantes, de imbecis – porque é de saber que para o Sr. Coelho todo o mundo é ignorante, ignorante, pelo menos – aplicava-lhes estes versos de Regnard: C’est un homme étonnant et rare en son espèce | Qui rêve fort à rien et s’égare sans cesse; | Il cherche, il tourne, il brouille, il regarde sans voir ; | Quand on le parle blanc, soudain il répond noir (Sarmento 1890-94: 1).106

106

Um dos ‘seus amigos’, o publicista D. L. Castro haveria de, na Revista de Guimarães, transformar em

‘ciência normal’ a ruptura paradigmática de Martins Sarmento: ‘Na sua descrição de Espanha, Estrabão menciona nada menos de quatro Lusitânias. PRIMEIRA LUSITÂNIA: “a dos antigos, situada para além do Douro na direcção do norte, chamada hoje a Calaica” (III, 4, 20). É o velho país dos Lígures de Avieno e do snr. Martins Sarmento [s.n.] (…). SEGUNDA LUSITÂNIA, “tendo por limites, ao sul do Tejo, a oeste e norte o Oceano, a leste o território dos Carpetanos, Vetões, Vaceus, Calaicos e outros povos desconhecidos” (III, 3, 3). É a ocupação do território dos Cempses de Avieno, efectuada pelos Lígures do norte, provavelmente cerca do século V a.C., também determinada pelo snr. Martins Sarmento [s.n.] (…). TERCEIRA LUSITÂNIA, “a de alguns autores modernos, compreendendo entre os povos lusitanos essas mesmas tribos limítrofes, Carpetanos, Vetões, Vaceus, Calaicos”, etc. (III, 3, 3) (…). QUARTA LUSITÂNIA, “a da partilha das províncias, que acaba de fazer-se, entre o Povo e o Senado, de uma parte, e o Príncipe, da outra, abrangendo as populações compreendidas entre a fronteira da Bética e o curso do Douro” (III, 4, 30).” (…)». Desde logo se imagina a impressão que não faria entre os publicistas pró-sarmentianos este ‘deslizamento’ dos Lusitanos desde o Minho – e mesma da Galiza, ‘nossa irmã pela raça e pela língua’ – até ao Algarve: «[À] parte os pequenos restos dos Celtas (…) todos os povos desta faixa do Ocidente eram da mesma raça (…)’. (Castro 1889: 157 ss.); outro ‘dos seus amigos’, A. Sampaio, haveria de organizar uma versão bem mais científica de mesma herança:

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O carácter algo pungente deste desabafo não desmente o essencial que vínhamos descrevendo: Martins Sarmento apresenta alguma ambiguidade em assumir as virtudes de duas comunidades ‘sociais’ distintas para a formulação das regras de apresentação da sua visão do passado e, por isso, veremos que a recepção da sua obra ficará limitada nos dois campos, por justamente não possuir as regras de racionalidade prática que coincidam plenamente com qualquer uma das esferas de produção prática de significado. O resultado desta indecidibilidade prática revelada pelo autor é o de que não penetrará a sua obra eficazmente no seio da comunidade académica de então, porque esta se preocupará sempre em destacar mais as inconsistências do que os méritos, ficando igualmente desconhecido entre os ‘amigos antiquários’ porque ao introduzir algumas das regras que as comunidades académicas nacional e internacional lhe exigem, aqueles se preocuparão, complementarmente, em destacar mais os méritos do que as inconsistências. Levianamente desprezado por uns, acriticamente endeusado por outros, o resultado concreto é que o trabalho de Martins Sarmento viria a ficar, na sua complexidade, largamente desconhecido, sendo a sua obra reduzida a um relativamente pequeno número de lugares-comuns. Martins Sarmento, claro está, contribuiu decisivamente para este estado de coisas, não apenas pela tentativa de miscigenação de elementos de racionalidade prática oriundos de duas tradições sociais diversas (e, de facto, imiscíveis), como pela perpetuação de uma (diríamos) ‘obstinação epistemológica’ que

‘Desta exposição deduz-se que havia duas distribuições de população; uma, a que podemos chamar divisão oficial, como hoje diríamos, – a dos conventus, introduzida pelos conquistadores para facilitar o governo dessa extensa região que vinha desde o Mediterrâneo e Pirinéus até à foz do Douro no ocidente; outra, que persistia por baixo dela [s.n.], a antiga, formada no decorrer de séculos, em consequência quer de guerras internas ou de afinidades étnicas, representada nas civitates e oppida, e que subsequentemente se foi delindo, até que desapareceu (…)’ (Sampaio 1893: 163). Martins Sarmento, se bem que considere os historiadores dos séculos que o precedem como laborando em erros essenciais na apreciação da história antiga e pré-história de Portugal, ainda assim não deixa de fazer uma nítida diferenciação entre os historiadores de ‘bernardices’ e os intelectuais do fim do século dezoito e início do seu próprio século, aos quais reconhece já uma ciência histórica indiscutível, sobretudo de João Pedro Ribeiro, um dos historiadores que primeiro teve a intenção explícita de separar a ‘História em boa frase’ da que se podia demonstrar com documentos exactos (Ribeiro, J. P. 1810-36 [1896]: XV). Adolfo Coelho viria a adquirir, admitida na própria historiografia do Curso Superior de Letras, uma séria reputação de ‘cientificidade’ em contraponto a uma antiga ‘retórica’ do ensino, marcada pela grandiosidade do verbo, pelo lançamento do gesto, mas conotado negativamente com alguma superficialidade de fundamentação. Cf. Aguilar (1939: 267).

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passou, por exemplo, pela excessiva insistência na nominação lígure (o próprio autor, como veremos no capítulo correspondente, hesita em decidir se os nomes ‘lígures’ da Península Ibérica são uma perpetuação da língua indígena ou uma ‘interpretação fenícia’, o que representaria uma grande diferença etnogénica), a qual necessariamente o desacreditou na comunidade científica internacional. Cabe dizer que a cristalização do pensamento histórico de Martins Sarmento perviveu muito após a sua morte. De facto, quando tivemos a oportunidade de consultar os estudos que se referiam directamente à sua obra, pudemos constatar como, ao longo do tempo, esta oposição entre as duas representações que dele se vulgarizaram, a versão algo paroquial do ‘valoroso historiador’ e a imagem desacreditada de um antiquário da ‘província’, com veleidades científicas, se prolongam no tempo, sendo de algum modo fundidas, na visão teleológica da história da Arqueologia portuguesa, sedenta de apresentar todas as suas etapas paralelamente à história da Arqueologia internacional, e o autor reduzido (injustamente a nosso ver, pois existem insights de algum poder heurístico na teoria da História sarmentiana) a um simples papel de ‘Schliemann português’.107 O posicionamento social de Martins Sarmento deve pois ser compreendido à luz da sua dupla e inadequada inclusão em duas ‘comunidades’ praticamente inconciliáveis, bem como, para evitar anacronismos, em obediência à formulação propriamente ideal, e 107

‘Il se trouve dans ces lieux, un homme, M. Sarmento, résidant à Guimarães, lequel, semblable à Schliemann,

dépense depuis des années de grosse sommes dans ces fouilles. Il a fait l’acquisition des lieux mêmes pour les garantir contre les mains inhabiles. Chaque année il fait fouiller une partie de la surface du terrain et rassembler soigneusement tous les objets recueillis, de sorte qu’il se trouve à présent en possession d’un si grand nombre de pièces, qu’elles peuvent former, à elles seules, un petit musée’ (Virchow 1884: 648). ‘Em Guimarães, cidade do norte de Portugal, vive um homem instruído e rico, entusiasta e generoso, que se dedicou com interesse à história do seu país. O snr. Martins Sarmento, depois de escavações consideráveis e habilmente dirigidas, descobriu ruínas da mais subida importância. Os resultados dos seus trabalhos permitir-nos-ão também mostrar laços positivos entre a península, a Itália e a Grécia, e preencher em parte o intervalo que separa os tempos pré-históricos da época romana’ (Cartailhac 1888: 127). Tem também origem nesta redução a imagem perpetuada de Martins Sarmento como ‘arqueólogo’. Tal está, parece-nos, longe de corresponder à verdade, e noutro lugar defendemos que a ser unicamente alguma coisa (e esta redução é anacrónica em relação ao período romântico e ao tipo de interesses intelectuais do autor) Martins Sarmento é um historiador, e é no âmbito da História, mais até do que da Pré-História, que o autor inclui os elementos mais importantes da sua obra. A ruptura com o passado intelectual ‘antiquarista’ é um processo que em toda a Europa exigirá mais do que uma geração, e que sempre gerará expressões intermédias dotadas de grande ambiguidade epistemológica (Daniel 1963: 35-36).

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idealista, da sua epistemologia. Recuperando o contexto da noção de ‘racionalidade política’ que MacIntyre detecta em Aristóteles, como sendo constitutiva da vida pública da polis, também no caso de Martins Sarmento devemos compreender que a sua obra é animada por um sopro ‘heróico’ que já estava presente na sua actividade pública não científica. Numa sociedade assim considerada (e a este nível é fundamental compreender a distinção absoluta entre a ‘contiguidade’ pessoal da esfera pública de uma Guimarães de meados do século dezanove, e a fragmentação existencial, e política, progressiva dos espaços urbanos, desde a Lisboa de Adolfo Coelho ao Paris da Revue Celtique) one is conscious of oneself in terms of one’s role. One’s social relations are structured by one’s role and the respective roles of others, each of whom is required to act in the way appropriate to their particular role. To fail an act in such a way is to act wrongly and unjustly, to derange the social order [Knight 1998: 13].

Este, cremos nós, foi o drama de Martins Sarmento. O investigador, indecidido entre as duas esferas de ordem social em que se pretendia incluir, não escolheu nenhuma; e pelas duas foi manifestamente incompreendido.

4) O facto de estarmos a destacar o aspecto ‘espacial’ nas formulações teóricas destes autores não deve deixar a falsa impressão de que neles o ‘espaço’ tem alguma ‘prioridade’ sobre o tempo. A apresentação mais ‘geográfica’ das teorias prende-se com a necessidade de fazer justiça à afirmação de David Harvey que acima transcrevemos, que denuncia que a racionalidade moderna sempre privilegiou o tempo sobre o espaço. Todos os autores referidos são unânimes em considerar irredutível o carácter têmporo-espacial de todos os fenómenos sociais. É em razão dessa reposição do equilíbrio entre as duas instâncias que os autores visibilizam o lado mais geográfico das teorias, através do uso literal e metafórico de elementos ‘espaciais’. Deve-se à teoria feminista a formulação de uma teoria espacialista da racionalidade, no contexto das propostas anti-humanistas. Na perspectiva de Donna Haraway, o conceito de objectividade deve ser reelaborado de um ponto de vista ‘geográfico’, devendo antes falar-se de uma racionalidade ‘situada’. Essa reelaboração passa fundamentalmente pela substituição do conceito cartesiano de ‘visão de nenhum lugar’, 115

que subjaz ao ‘trope’ epistemológico dominante da Modernidade, pelo conceito de ‘visão de algum lugar’, característica que a autora considera inescapável na formulação da racionalidade do ser humano: 108 The theory is meant to orient, to provide the roughest sketch for travel, by means of moving within and through a relentless artifactualism, which forbids any direct si(gh)tings of nature, to a science fictional, speculative factual, SF place called, simply, elsewhere. At least for those whom this essay addresses, ‘nature’ outside artifactualism is not so much elsewhere as nowhere, a different matter altogether. (…). Goddess knows, the subject is being changed relentlessly in the late twentieth century [Haraway 2004: 6364].

Porém, Haraway faz questão de sublinhar que a posição feminista não se enquadra nos restantes modelos ‘construtivistas’, que admitem uma total submersão ao relativismo da construção da objectividade. Ao contrário, a teoria feminista detém como lugar central na sua teoria a capacidade de intervenção e de emancipação do ser humano: ‘Feminists have to insist on a better account of the world (...) it is not enough to show radical history contingency and modes of construction for everything’. A concepção pós-cartesiana da racionalidade da teoria feminista assenta metafórica e literalmente na importância dada à visualidade. Deter um ‘ponto de vista’ implica deter uma visão corporalizada, que a transcendência cartesiana falsamente repudiava, assentando assim numa ‘falsa visão’ do mundo, que não exibia os seus limites, e sobretudo se eximia à sua responsabilidade. Ao contrário, uma visão ‘objectiva’ ‘is about limited location and situated knowledge’ (Haraway 1991: 187-190, 195). No contexto da geo-historiografia de Martins Sarmento que pretendemos analisar neste trabalho, a contribuição feminista, e especificamente da teoria ‘particularista’ de Haraway, permitirá desenvolver três aspectos importantes e mutuamente relacionados da obra do autor. Por um lado, far-se-á uma abordagem de âmbito teórico geral à concepção ‘natural’ que artificialmente estrutura as divisões culturais do estudo do passado. Assim, ver-se-á como a necessidade de substituir integralmente as populações ‘trogloditas’ da Península

108

Cf., e.g., Haraway (1991: 96, 187, 195).

116

Ibérica, leva Martins Sarmento a admitir, como uma necessidade hermenêutica, a interpretação microscopista absoluta dos movimentos de povos. A razão que subjaz a esta necessidade teórica da sua etnogénese deve muito à obrigatoriedade de imiscibilidade cultural que o autor defende e, especificamente, à relação directa que a natureza antropológica da ‘raça’ detém para a identificação étnica e das nacionalidades. Neste mesmo contexto, veremos igualmente a importância que o autor consignará às diferenças irredutíveis entre ‘Lígures’ e ‘Celtas’, cuja base ‘natural’ expõe como prioritárias, e que levará a algumas considerações ambíguas na relação de ambos com o fundo ‘ariano’ da civilização europeia. Em segundo lugar, far-se-á especificamente referência à importância dos regimes narrativos totalitários do tempo de Martins Sarmento, e à dificuldade que o autor virá a sentir em integrar neles um modelo localista de afirmação de uma arqueologia e etnogénica ‘indígena’. Entre todas as manifestações desse tipo de ‘totalitarismo narrativo’, é com os ‘celtistas’ que Martins Sarmento terçará armas mais violentamente, por reconhecer no celtismo uma arbitrária recolecção de vestígios materiais para dogmaticamente se inferir e afirmar a superioridade civilizacional ‘francesa’ no contexto geopolítico da Europa do seu tempo. Veja-se, a este respeito, a leitura geopolítica que inevitavelmente se pode fazer da configuração geográfica dos ‘contribuidores’ e ‘assinantes’ do número inaugural da Revue Celtique, ‘lugar’ de produção, circulação e recepção mais importante dos estudos célticos ao longo do terceiro quartel do século dezanove. Apesar de ser a Celtibéria (e a Galiza e Portugal, ainda que em menor grau) reconhecidamente, uma das mais importantes regiões célticas da Europa, e de cujo estudo mais interessaria conhecer uma versão local, estão totalmente ausentes quer contribuidores quer assinantes da equivalente região espanhola (de resto, de toda a Península Ibérica); ao contrário, as ‘regiões linguísticas’ célticas estão excepcionalmente bem fornecidas de autores de artigos e de leitores. Não será possível, em consonância com as queixas de Martins Sarmento, entrever uma ‘dogmática’ de origem nacional e regional no que concerne à exacta aferição do que era ‘céltico’ na Europa do século dezanove?

117

Figura 1 – A ‘regionalização geopolítica’ da Revue Celtique Fonte: Revue Celtique. Vol. I. Os círculos são directamente proporcionais ao número de assinantes da revista.

Em segundo lugar, e intimamente associado com o que dissemos no ponto anterior, far-se-á uso do conceito que Donna Haraway cunhou de ‘view from somewhere’, como atitude epistemológica, não só admissível como necessariamente activa, i.e., como expressão de um compromisso que o sujeito de uma prática científica tem de assumir enquanto parte integrante de um projecto que não é só intelectual mas politicamente motivado. Este é um tema que será detidamente caracterizado no ponto seguinte quando fizermos referência à teoria ‘dialogal’ de Mikhail Bakhtin. Convém, no entanto sublinhar que a proposta de Bakhtin se formula numa espécie de ‘humanismo’ tecido de idealidade a que se opõe muito frontalmente o construtivismo social da teoria feminista de Haraway. Não pretendemos resolver este item específico desta discórdia, cujo âmbito filosófico fica naturalmente fora das nossas competências. Apenas alertamos, no que diz respeito à estruturação de um trabalho como este, no domínio da História da Ciência, da fundamentação séria, num e noutra autora, de uma afirmação da subjectividade dos pontos de vista, como constitutiva, ela mesma, da cartografia de revelação do objecto científico – não existe um só mapa, nem um só caminho, nem, sobretudo, ele preexiste ao início da própria caminhada. Se bem compreendemos a posição epistemológica de Donna Haraway, o sucesso de qualquer interpretação, tal como nos seus equivalentes modelos políticos de replicação (a que não serão decerto alheias as marchas ‘pela Paz’ 118

que a geração pós-Vietname tornou prática comum nos E.U.A) não se mede pelo número de pessoas que são formalmente indoutrinadas, mas pela generosidade da livre adesão a ela das nossas próprias vidas. Finalmente, far-se-á também referência ao poder de invisibilização que a longa tradição científica da Modernidade implicou para algumas minorias, e até para metade da população da Terra, ou da História. As questões de género, e as que estão relacionadas com a ‘invisibilização teórica’ das mulheres (Haraway inclui no seu programa de pesquisa teórico, com uma ironia semanticamente redutora, o conceito de ‘modest witness’), tem, como seria de esperar, uma expressão nítida nos trabalhos da disciplina de Arqueologia, e, como veremos, não está ausente da geo-historiografia de Martins Sarmento. A ‘Arqueologia do Género’ tem hoje uma expressão cada vez maior nos trabalhos de investigação da disciplina. Desde estudos relacionados com a própria estrutura social de recrutamento dos investigadores, até à valorização, na construção da interpretação do passado, das esferas de masculinidade (armas, nomeadamente), como indicadores da dinâmica e evolução histórica, passando pela reprodução acrítica das estruturas masculinistas do presente na descrição passado, este novo campo de investigações vem pondo em questão mais de um século de investigação científica da disciplina, propondo novas interpretações e ‘geografias imaginativas’ do Passado, complementares com as do mainstream. Nele detém, com lugar proeminente, a inclusão das temáticas da sexualidade e formação subjectiva da identidade, no âmbito de teoria psicanalítica como campo de formulação genérica das problemáticas históricas.109 No que diz respeito à geo-historiografia de Martins Sarmento, especificamente na análise crítica da sua própria hermenêutica d’Os Argonautas, veremos que nela se podem

109

Sobre a Arqueologia do Género em termos gerais, cf. Conkey e Spector 1984: 1-38; Levy 1989: 62-78;

Conkey e Gero 1991: 3-30; Gero 1996 [diz directamente respeito ao modo como o género estrutura as relações práticas de co-existência e encontro entre investigadores]; Gero e Conkey 1991; Gilchrist 1999 [obra muito interessante, nomeadamente para quem é geógrafo de formação, pois apresenta uma análise da ‘linha de fractura’ do género, e as relações entre espacialidade e poder, a partir do exemplo histórico concreto das plantas dos conventos medievais]; Meskell 1996 [para uma discussão das relações de corporalidade presentes no discurso e na prática científica da Arqueologia], além de obras de carácter mais geral, mas com referências importantes ao tema do feminismo como filosofia activa e do género como conceito epistemológico: Wylie (2002); Sorensen (1996). Este elencamento não pretende exaustividade, apenas indicar alguns dos campos de investigação que têm recebido uma atenção renovada por parte das arqueologias feministas.

119

destacar

alguns

elementos

de

masculinismo

dominante,

associados

a

uma

essencialização da efeminização de sentimentos e práticas específicas, de que a personagem de Medeia (uma das razões por que preferimos utilizar a obra d’Os Argonautas como pré-texto de interpretação crítica da geo-historiografia de Martins Sarmento, que para este investigador, as personagens que convivem nas páginas do texto de Apolónio, de resto como nas de Homero e dos heracleianos, correspondem a personagens reais da viagem dos Fenícios ao Norte da Europa) é o exemplo mais evidente, mas não único. Em suma, a contribuição que pretendemos deduzir do trabalho de Haraway, no contexto de formulação de uma teoria geográfica da História da Ciência, e especificamente de uma ‘Geografia Histórica da História’ (que mais não é aquilo a que chamamos ‘Geo-historiografia’) é o modo com se podem abordar as problemáticas associadas aos processos de formação de subjectividade, nesta incluindo as práticas científicas e a produção de geografias imaginárias do Passado. Nela incluiremos algumas referências explícitas da crítica anti-humanista que se encontram no trabalho de Haraway, mas igualmente na de muitos outros autores conotados com o pós-estruturalismo, que apontam para os fenómenos de construtivismo social como sendo poderosamente operativos no resultado final das enunciações discursivas em geral, e da produção científica histórica em particular. Neste contexto, as relações de formação da subjectividade teórica são vistas no contexto das relações mais amplas de poder, dentro das quais se pretendem afirmar, contrapor ou reproduzir. Os processos interligados de formação de identidades e des-identificações não são nunca estabilizados numa idealidade comum, mas antes vistos como expressão de uma afirmação constante do desejo de não dissolubilidade da identidade pessoal, sem a qual a existência política decisivamente não existe. No contexto da geo-historiografia de Martins Sarmento faremos uso de um conceito particular que está presente na crítica feminista da construção (inter ou contra)-subjectiva da identidade: a abjecção. Este é um conceito que retiramos directamente da teoria psicanalítica de Julia Kristeva, que faz referência ao modo como é fundamental à constituição da identidade a ‘vilanização’ (a ‘odiosa’ ostentação no outro) dos traços identitários que deploramos em nós mesmos. A teoria psicanalítica de origem feminista reconhece hoje vários fenómenos de representação cultural (e de violência social) 120

associados a este modus operandi da mente humana, de que a denegação sistemática da feminilidade activa ou a homofobia são exemplos correntes. A nossa intenção, como se verá no decorrer da análise interpretativa da geo-historiografia sarmentiana, será o de levantar pistas para uma eventual abjectividade presente na denegação sistemática de civilidade que o autor impõe aos ‘Celtas’, e verificar se essa mesma denegação não inclui elementos de sublimação inconsciente do contexto ‘decadentista’ da época e do Portugal em que o autor viveu.110

5) O último dos autores que, no contexto de um elencamento de contribuições para a afirmação de um ponto-de-vista geográfico no domínio da Ciência Social e especialmente da História da Ciência é Mikhail Bakhtin. Se o apresentamos em último lugar é justamente porque, em obediência às regras da boa retórica, ele será de entre todos não o menos importante. Também, veremos que, embora seja convocada ao longo de várias fases deste trabalho, a sua contribuição é especialmente importante para a ‘conclusão’ substantiva (e ‘sinedoquemente’ ilustrativa) do estudo da geo-historiografia de Martins Sarmento; e, assim, a posição final que detém nesta ‘introdução’ teórica replica, de alguma forma, a função terminante que deterá no todo deste trabalho. A contribuição de Mikhail Bakhtin será desdobrada, neste momento, em dois temas principais, ambos relacionados com o modo como o ‘princípio dialogista’ da sua obra se articula com a análise de elementos ‘espaciais’ da prática e representação social e cultural da Modernidade. Contudo, estamos longe de poder fixar simplisticamente uma caracterização teórica do tipo ‘ordenada’ e ‘hierarquicamente organizada’, pois a essência do pensamento bakhtiniano suscita justamente uma flexibilidade essencial do conceito de ‘contexto’, e admite a dificuldade em aprisionar o seu conteúdo significativo em ordens de categorização demasiado rígidas, para lá do controlo negociado de uma comunicação concreta. 110

O decadentismo associado às teorias cíclicas da História veio a ter uma expressão mais contemporânea que se

veio a debruçar sobre a natureza dos processos sociais que originam o colapso das sociedades complexas (e.g., Bell 1971; Tainter 1988; Turchin 2003; cf. tb. Pimenta [no prelo], para uma caracterização metaparadigmática da ideia de colapso na geo-historiografia), e nas quais se integram exemplos específicos que dizem respeito ao desaparecimento do ‘horizonte micénico’ (Betancourt 1976).

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Yet crucially the travels presented here do not seek to arrive at a preordained destination. To arrive in such a place (…) would mean abandoning the fundamental tenets of Bakhtinian thought. As we shall see Bakhtin’s philosophy is one of open-endedness and becoming. To reach a point where the opportunity for further travel, or more precisely for continuing dialogue, is denied is a position that does not exist in Bakhtin’s thought [Holloway e Kneale 2000: 71].

Do ponto de vista estrito da geo-historiografia, i.e., das práticas sociais-espaciais que estruturam um programa de pesquisa científico no domínio das ciências históricas, não deixaremos de considerar a ‘teoria dialógica’ de Bakhtin, e a heteroglossia a ela associada, como uma possibilidade de replicação do próprio modo de substituição paradigmática (ou convivência multi-paradigmática), com incidência concreta na análise da co-existência mais ou menos problemática entre os diversos modelos interpretativos no tempo de Martins Sarmento. O dialogismo de Bakhtin que, no domínio da Crítica Literária e da Linguística, nomeadamente após a sua introdução no Ocidente por T. Todorov, ganhou uma proeminência tão acentuada que praticamente destronou, neste domínio, a corrente crítica marxista (Holquist 2002: capítulo introdutório), tem vindo a ser usado em inúmeras disciplinas e áreas de investigação, entre as quais a teoria cultural não é naturalmente excepção (Hirschkop e Shepherd 2001). Se a versatilidade do pensamento de Bakhtin, ao abranger tantas áreas do conhecimento nos providencia (e Bakhtin, decerto, apoiá-lo-ia) uma ‘polifonia’ de interpretações, tal leva-nos igualmente a ter de exercer uma certa cautela interpretativa, de modo a não replicar arbitrariamente as características da sua crítica que, sendo eminentemente literária (ficcional) não tem por que se aplicar de modo indiferenciado à ‘literatura científica’ que se rege estritamente por regras muito próprias. Porém, devemos notar que também a este nível Martins Sarmento (e o seu livro Os Argonautas é a este título exemplar, sendo esta uma razão mais que levou a que o escolhêssemos com pretexto da análise da sua obra) é caracteristicamente singular, e que a ele se podem aplicar com naturalidade as homologias resultantes da sobreposição (que o autor português não desdenha fazer) entre os níveis ‘ficcional’ e ‘histórico’ da sua produção científica sobre o Passado. 122

Para que possamos proceder a uma caracterização relativamente completa da contribuição bakhtiniana para a afirmação de um ponto-de-vista-geográfico na epistemologia, iremos estruturar os atributos da sua ‘filosofia dialogal’ em redor de alguns temas analiticamente diferenciáveis entre si, mas que são, como veremos, aspectos salientes de uma realidade completa mas multiforme, una mas diversa nos seus matizes, enfim – dialogal. Um dos primeiros elementos que necessariamente se é obrigado a distinguir entre os fundamentos do dialogismo bakhtiniano é a relação estabelecida pela prática social (e que determina a sua própria natureza) entre o Eu e o Outro. Quando acima fizemos referência, no contexto de apresentação de Goffman, à mesa-redonda ‘Pensar a Arqueologia, Hoje’, justamente destacamos a ‘arquitectónica’ do espaço como, a disposição física e simbólica dos intervenientes, que são significativamente sublinhadas por um dos intervenientes,111 serve como ilustração esse exemplo do fundo da caracterização existencial que Mikhail Bakhtin faz da relação dialogal: I am conscious of myself and become myself only while revealing myself for another, through another, and with the help of another. The most important acts constituting self-consciousness are determined by a relationship toward another consciousness (toward a thou) (…). The very being of man (both internal and external) is the deepest communion. To be means to communicate (…). To be means to be for another, and through the other for oneself. A person has no internal sovereign territory, he is wholly and always on the boundary: looking inside himself, he looks into the eyes of another or with the eyes of another (…). I cannot manage without another, I cannot become myself without another [Bakhtin 2003: 287].

A expressão visual e especial da metáfora aqui utilizada por Bakhtin permite desde logo reconhecer o âmbito ‘público’ que, tal como Goffman, ele atribui à execução concreta das práticas sociais. Neste sentido, estamos em presença de uma afirmação do carácter ‘político’ da teoria cultural, presente já em Aristóteles, mas a que viria a 111

‘[E]u estou aqui, nesta sala, numa determinada posição. Vejo parte da sala; não vejo o que está atrás de mim.

Mas o Prof. Vítor Jorge, que se encontra à minha frente, vê o que está atrás de mim. Se eu quisesse fazer uma descrição completa e global da sala, teria de aproveitar a minha visão e completá-la com a do Prof. Vítor Jorge’. Jorge de Alarcão, in Alarcão e Jorge (1997: 19).

123

suceder o isolacionismo ‘epistemológico’ que a Era da Ciência fixou como paradigma de cientificidade de toda a Modernidade.112 A noção de um sujeito omnipotente, omnisciente, centrado num lugar-nenhum, e desde aí revertendo a seu favor toda o conhecimento da Natureza – não existe: [T]here is neither a first word nor a last word. The contexts of dialogue are without limit. They extend into the deepest past and the most distant future. Even meanings born in dialogues of the remotest past will never be finally grasped once and for all, for they will always be renewed in later dialogue. at any present moment of the dialogue there are great masses of forgotten meanings, but these will be recalled again at a given moment in the dialogue’s later course when it will be given new life. For nothing is absolutely dead: every meaning will someday have its homecoming festival [Bakhtin, apud Holquist 2002: 39].

Esta noção bakhtiniana do ‘lugar-tempo’ único de cada sujeito, de cada significado, de cada elemento de comunicabilidade, tem igualmente implicações vastas no domínio específico da epistemologia: a ideia de que os cientistas podem naturalmente permutar posições sem que a visão do objecto científico constituído pela apresentação de uma ‘relação de visão’ abstracta, seja posta em causa, e ganhe corpo a noção esteticamente apelativa (porque cada olhar estabelece uma paisagem) mas sobretudo eticamente perturbadora de que cada sujeito tem uma visão-do-mundo que se lhe é obrigado partilhar: ‘[T]here is no alibi for existence. Alterity is fundamental to the ‘not-I-in-me’. The implication of this is that for self-authorship through outsideness to proceed, in order to discover the ‘not-I-in-me’, in some way the Self must complete the Other. In other words, it must fix or better still, objectify the Other in time and space’ (Holloway e Kneale 2000: 75). 112

A identificação da ‘Idade da Ciência’ como afirmação solitária da ‘mente’ como lugar privilegiado do

conhecimento científico é o argumento principal da caracterização do século dezassete inglês por Steven Shapin ‘The wise man and the philosopher are said to live and work anywhere at all and nowhere in particular. This is the ultimate basis of their wisdom and their integrity. Not only is the philosopher free of place; through the exercise of pure intellect he constitutes his own place. His mind elaborates a world wholly independent of his corporeal situation. The philosopher, like any man of absolute integrity, needs no company to distract, amuse or instruct him. Hanna Arendt identified with the Greek tradition when she wrote that the “philosopher can always rely upon his own thoughts to keep him company”’ (Shapin 1990: 191-218; a cit. é da p. 210).

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Uma crítica ‘moderna’ não hesitaria em denunciar que uma posição assim estabelecida entre os sujeitos de co-existência redundaria num atomismo humanista insustentável e esta é também umas das principais ordens de crítica dos autores marxistas e feministas às demais filosofias humanistas. Porém, uma crítica assim definida admite réplica: de facto, a normalização forçada da inter-subjectividade que a Modernidade opera – e também a Ciência – não significa uma maior adequação das estruturas cognitivas aos seus objectos, mas apenas uma ‘obstinação’ metodológica que a História da Ciência demonstra com facilidade tanto ter dado origem a consistentes certezas como gerado dogmáticas falsidades. O dialogismo de Bakhtin não se furta a solucionar os problemas que uma crítica assim considerada pode enunciar. Ao reconhecimento da diferença corresponde existencialmente o respeito pelo Outro e a afirmação das condições de co-argumentação em que ambos, o Eu e o Outro, podem mutuamente tornar-se relevantes. Um completa o Outro e da rede assim estabelecida entre todos os vértices que formam a rede dos que habitam o nosso ‘espaço’ se estabelecem os contornos e a expressão da nossa própria existência. Este será um dos principais domínios ‘dialogais’ de crítica que nos propomos fazer da geo-historiografia sarmentiana. A ciência, ou o seu ‘estilo de apresentação’, consiste afinal na explícita convocação dos ‘outros’ relevantes para estarem co-presentes como ‘autorização’ (no duplo sentido de ‘autor’ e ‘autoridade’) das nossas próprias proposições. E veremos como, no caso de Martins Sarmento, uma estrutura esclerosada de referências ditadas pela ‘geopolítica’ nacional e internacional asfixiou lentamente o caminho próprio (‘sem álibi’) que o autor se propunha seguir.113

113

Os Argonautas são o exemplo mais ilustrativo dessa mesma ‘anarquia metodológica’ e ‘epistemológica’. É

importante frisar que não defendemos simplesmente que a ciência deva evoluir por qualquer forma de anarquia tomada como método. Existe entre os críticos do anti-relativismo epistemológico a convicção de que é esta a posição dominante na epistemologia contemporânea. Tal não é verdade; nem a grande parte dos autores por nós considerados erigem a anarquia como principal, quanto mais única, via de chegar ao fundo ‘empírico’ do mundo; nem sequer os mais impenitentes dos chamados anarquistas metodológicos defendem exclusivamente essa via. O próprio Feyerabend, comummente considerado como um dos primeiros teorizadores dessa linha metodológica transgressora, não deixa de notar que “qualquer coisa serve” (tema do 1.º capítulo da sua obra Contra o Método) ‘não é um princípio que (...) sustente’ (Feyerabend 1988: 7).

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Por outro lado, a mesma expressão de ‘fechamento da coloquialidade’ pode ser assacada à relação que Martins Sarmento entretinha com os co-participantes do seu programa arqueológico: tal como em tempos Gaspar Simões apontou, criticamente, a Eça de Queirós, também em Martins Sarmento não existem ‘pessoas’ – existem tipos: o ‘informador’ da tradição popular, o ‘amigo antiquário’, o ‘erudito académico’ das instituições universitárias ou similares, o ‘sábio estrangeiro’… todos são convocados pelo autor d’Os Argonautas no contexto de uma previsão conceptual, como deles se esperasse apenas o que a eles se havia já previamente atribuído que haveriam de dizer. A extrema ‘solidão’ epistemológica a que antes nos referimos é bem o espelho da essencial des-dialogização que o autor opera sobre o próprio lugar que ocupa, e que transmite inteira à obra que ele mesmo escreve. Quando nos referimos, no contexto do dialogismo bakhtiniano ao ‘estilo discursivo’ estamos concomitantemente a fazer referência à noção de ‘utterance’. Uma ‘proposição’, um elemento de comunicação é, para Bakhtin, mais do que uma estrutura do tipo verbal que possa ser inscrita sob qualquer forma textual. Bakhtin, neste sentido (como também, de certo modo, a variante linguística pragmática, sobretudo a de tradição norte-americana), é profundamente para-textual e está por isso interessada nas formas performativas (incluindo a relação com o próprio corpo) do contexto da sua utilização. Porque, para Bakhtin, a ‘utterance’ é intensamente dialogal; isto significa que qualquer formulação de uma intenção comunicativa de um sujeito contém não apenas a intenção comunicativa do sujeito de comunicação, como a natureza (pelo menos representada, mas especialmente performada) do seu interlocutor, do seu destinatário. Já antes vimos como nos proporemos distinguir dois níveis de intervenientes no ‘estilo discursivo’ de Martins Sarmento e de que modo a incompleta relação dialogal que estabeleceu com uns e outros implicou o seu progressivo isolamento, até ao ponto de podermos reconhecer no ‘fastio’ do autor, a convicção de que no fim da sua vida científica ele é singularmente, e solitariamente, o único interlocutor de si próprio, o único destinatário do seu próprio discurso. Bakhtin considera a existência de dois tipos de ‘contexto’ que dão sentido e ‘lugar’ à enunciação da sua própria ‘utterance’. Um, de expressão mais fenomenológica, diz respeito às condições de co-presença física que estruturam a nossa capacidade enunciativa e argumentativa. Uma vez que fizemos antes referência a Goffman e ao seu 126

interaccionismo simbólico, não iremos agora aprofundar este elemento do dialogismo bakhtiniano que nos parece muito da mesma natureza (mas não a sua ‘anarquicidade’, que veremos mais à frente); contudo, sempre diremos, já que não houve ensejo de o referir quando apresentámos a teoria goffmaniana, que nos parece haver por parte de Martins Sarmento uma recusa constante deste ambiente de performance física muito intensa: ou, a existir, o investigador faria sempre questão que a sua actuação ‘táctil’ se estabelecesse sempre no seu próprio lugar, quando não na sua própria casa (Lemos 1985; 1988). O outro sentido bakhtiniano de ‘contexto’, de origem mais discursiva, interessa-nos mais, neste momento; nesta segunda ordem de contextualização, Bakhtin faz menção ao carácter ‘heteroglótico’ da prática discursiva, i.e., à múltipla estruturação linguística e comunicacional do espaço das práticas sociais, inclusivamente daquelas que, como a Ciência, se exercem através de intermediários de inscrição textual, como periódicos e livros. Para lá da eventual incomensurabilidade entre os dois tipos de ‘contexto’ assim apresentados (a mesma tensa ambiguidade aparece entre a ‘parole’ e ‘langue’ saussurianas) e que, no caso de Martins Sarmento, exprime, repetimos, a condição essencial da sua biografia científica, gostaríamos de, para além disso, fazer referência ao modo como o ‘estilo discursivo científico’ é ele próprio a negação formal desta abertura dialogal enquanto em-si considerado, sendo a heteroglossia banida por determinação da sua própria natureza, e a possibilidade de ‘polifonia’ apenas poder exercer-se, paradoxalmente, pela substituição integral de uma por outra estrutura dogmática. Neste contexto, em que sentido podemos, no domínio da geo-historiografia de Martins Sarmento, fazer uso do conceito de ressonância ‘anárquica’ que é o mundo alternativo do ‘espaço carnavalizado’de Bakhtin? A noção de ‘carnaval’ como instância concreta da expressão do dialogismo é central na filosofia de Bakhtin e consiste, em certo sentido, no contributo de ordem mais eticamente decisivo do humanismo assumido da sua teoria social. Bakhtin foi detido pela polícia política de Estaline e condenado a sofrer um exílio prolongado e em condições de grande privação nas prisões geladas do Norte. É proverbial a sua heróica indiferença pelos seus próprios escritos, cujo papel aproveitava para enrolar tabaco e fazer cigarros. Parte da sua obra desapareceu irremediavelmente no processo; a perseguição política levou igualmente a que alguns dos seus escritos fossem 127

apresentados como sendo escritos por outros intelectuais, apenas mais tarde se vindo a saber que eram da sua autoria; de alguns persiste mesmo a dúvida. É impossível não ver na filosofia social de Bakhtin, no amor à ‘polifonia’ e ‘carnaval’ do seu dialogismo, a recíproca da sua própria condição de intelectual manietado pela normalização cultural soviética dos anos vinte e trinta; que curiosamente replica, a contrario, o amor à ‘ordem’ e ao sistema ‘normativo’ das ‘grandes teorias’ que veio a caracterizar as regiões do mundo em que se disponibilizava a ordem política da democracia representativa (Holquist 2002: 1-14). Bakhtin considera, desde logo, o problema do ‘carnaval’ desde o ponto de vista ‘histórico’ e não apenas ‘teórico’. O seu livro sobre Rabelais é uma descrição circunstanciada, com base também documental, mas sobretudo de crítica literária, da demonstração de que a Modernidade prescindiu de um ‘lugar’ das práticas sociais do ‘corpo grotesco’ e do ‘carnaval’ que caracterizavam largamente a mundividência da Idade Média e, especificamente, na sua forma mais ‘laica’, o século da Renascença. No interior desta mundividência, o ‘carnaval’ seria mais do que uma ‘ritualização da inversão’, como se veio a cristalizar sob a dupla dominação posterior da Igreja e da Ciência que caracterizaram a Modernidade, mas sim o exercício concreto e quotidiano (embora com uma palpitação específica a acompanhar as épocas ‘naturais’ do calendário – o Tempo e o Espaço ainda não se dividiam, como veio a suceder, em unidades matemáticas de igual quantidade de ‘duração’ e ‘extensão’ que o cartesianismo veio impor) da existência, da co-existência, social e individual. Não existiam dois mundos separados, o da ‘normalidade’ e do ‘bizarro’, ligados episodicamente em momentos determinados do calendário; não, o ‘segundo mundo’ do espaço carnavalizado, do corpo aberto, sexualizado e grotesco convivia serenamente ou crispadamente, mas sempre ironicamente, com o mundo da ordem pública, sem que este pudesse nunca exercer o poder arbitrário da ‘última palavra’. No dogma, no authoritarianism, no narrow-minded seriousness can co-exist with Rabelaisian images; these images are opposed to all that is finished and polished, to all pomposity, to every ready-made solution in the sphere of thought and world outlook. (…). The suspension of all hierarchical precedence during carnival time was of particular significance. Rank was especially evident during official feasts; everyone was expected to appear in

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the full regalia of his calling, rank and merits and to take the place corresponding to his position. It was a consecration of inequality. On the contrary, all were considered equal during carnival. Here, in the town square, a special form of free and familiar contact reigned among people who were usually divided by the barriers of caste, property profession and age. The hierarchical background and the extreme corporative and caste divisions of the medieval social order were exceptionally strong. Therefore such free, familiar contacts were deeply felt and formed an essential element of the carnival spirit. People were, so to speak, reborn for new, purely human relations. These truly human relations were not only a fruit of imagination or abstract thought; they were experienced. The utopian ideal and the realistic merged in this carnival experience, unique of its kind [Bakhtin 1984: 3, 10].

Não é sem significado que esta descrição da ‘oficialidade’ da ordem pública medieval, descrita por Bakhtin via Rabelais e outros autores da Renascença, possa com tão notável acuidade representar a ordem dogmática da organização do conhecimento científico sob a égide da Modernidade. Como veremos, os poucos indícios de ‘carnavalização’ da narrativa histórica a que Martins Sarmento se permitiu, serão de imediato asfixiados pela enorme falta de ‘sentido de humor científico’ das comunidades académicas do seu tempo, a nacional e a internacional. Quando nos referimos a ‘sentido de humor científico’ não nos referimos, obviamente, a qualquer intenção de desligar a ciência dos pressupostos que organizam o seu especial estilo discursivo. Contudo, a invisibilização metodológica (e social, não devemos nunca esquecer) a que são votados os autores que não organizam a sua narrativa nos estritos limites do discurso científico dominante, leva a que, por vezes, formas fecundas de dialogismo científico sejam apenas recuperadas décadas, séculos e até milénios depois (como foi o caso do heliocêntrico de Aristarco). Os partidários de uma tradição ‘idealista’ da evolução da Ciência dirão que ‘nada se perde’, e que a força da Razão se tornará evidente; os menos crédulos poderão talvez achar que o cemitério dos séculos tenha talvez emudecido para sempre vozes úteis de organização científica e social que apenas tinham o mérito circunstancial de serem aplicados na sua própria época; os mais cínicos, esses não deixariam de fazer lembrar que o que o platonismo incidente resolve, em nome da tradição evolutiva da Ciência,

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nada pode contra a ignomínia exercida concretamente sobre os corpos dos que, como Giordano Bruno, foram na sua época ignominiosamente ignorados ou silenciados. Que papel para um ‘lugar de inversão’ na análise da geo-historiografia de Martins Sarmento? Aqui, creio eu, reside uma das manifestações de grande poder dialogal do investigador, e isto, curiosamente, apesar deste autor ser tendencialmente possuído por algumas expressões de autoritarismo e dogmatismo interpretativo. Porém, a sua quixotesca afirmação do ‘impossível’ e a extensão quase inacreditável com que o faz (ligurismo dos Lusitanos, germanismo dos Celtas, fenicismo dos Argonautas, etc.) adquire, na sua quase insana obstinação, o papel reservado por Bakhtin ao poder redentor da heteroglossia: talvez o mundo dogmatizado da excessiva Modernidade da segunda metade do século dezanove apenas pudesse ser desarmadilhado pela obstinação romântica do ‘lugar-próprio’ e pela afirmação desassombrada da individualidade. Alfredo Pimenta foi, creio, quem mais profundamente compreendeu o poder quase ‘redentor’ desta epistemologia sarmentiana da ‘inversão’ (A. Pimenta 1933), ainda que lhe tivesse querido dar uma feição nacionalista, que originalmente não está presente (antes, individualismo) e que não é um elemento essencial da sua enunciação (cf. A. Pimenta 1934-1935: 107; 1948: 33). Finalmente, destacaremos aquele que é o elemento mais decisivo do dialogismo de Bakhtin no contexto da análise da geo-historiografia de um programa de pesquisa científico, especialmente de uma teoria etnogénica como a que Martins Sarmento enunciou para o passado do território português – o cronotope. Nas própria palavras de Bakhtin, podemos recolher os elementos que serão, como veremos mais tarde, centrais na caracterização espácio-temporal da narrativa sarmentiana: We will give the name chronotope (literally ‘time space’) to the intrinsic connectedness of temporal and spatial relationships that are artistically expressed in literature (…). What counts for us is the fact that it expresses the inseparability of space and time (…). In the literary artistic chronotope, spatial and temporal indicators are fused into one carefully thought-out, concrete whole. Time, as it were, thickens, takes on flesh, becomes artistically visible; likewise, space becomes charged and responsive to the movements of time, plot, and history. This intersection of axes and fusion of

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indicators characterize artistic chronotope. The chronotope in literature has an intrinsic generic significance. It can even be said that it is precisely the chronotope that defines genre and generic distinctions (…). The chronotope as a formally constitutive category determines to a significant degree the image of man (…). The image of man is always intrinsically chronotopic [Bakhtin 2002: 84-85. Ênfase original].

O cronotope é, antes do mais, um género. Cada narrativa, literária ou científica, exibe uma ‘personalidade’ espácio-temporal que resume as condições culturais e ideológicas da sua enunciação. Embora Bakhtin se afadigue em recolher esta ‘personalidade’ genérica na história da literatura ficcional, cremos poder demonstrar que se podem igualmente aplicar às narrativas estritamente científicas, sobretudo quando, como no caso de Martins Sarmento, estas são entretecidas com um fundo de romance histórico inconfundível.114 Neste contexto, esperamos poder ilustrar, suficientemente, o modo como o ‘género narrativo’ específico de Martins Sarmento passa pela exibição de um cronotope de inefabilidade ou, mais precisamente, de essencialização da ‘personagem’: se a nossa análise geo-historiográfica não é de todo inadequada, cremos poder dizer que a característica mais importante da narrativa histórica sarmentiana é a convicção de que o tempo e o espaço se dissolvem, perdem concretitude e permitem às personagens a absoluta independência de tudo que não de si próprias.115 114

A difusão do género literário do ‘romance histórico’ entre os intelectuais do século dezanove ajudar-nos-á a

caracterizar a topografia social da época, porque evoca duplamente as condições de produção e de recepção do conhecimento do Passado. Ela dá conta, não apenas do fundo romântico que anima a esfera cultural dos historiadores, mas também, e não é menos importante, da possibilidade de incluir nessa evocação um cada vez maior número de pessoas a quem a dinâmica económica do ‘fontismo’ ia providenciando um ócio cosmopolita em que a ilustração histórica e científica detinha um importante lugar (P. A. Carvalho: 481-522); essa mesma expressão cosmopolita da ‘inactividade’ foi usada pela retórica argumentativa das gerações naturalistas como forma de justificação ideológica da inflexão mais ‘socializante’ e ‘proletária’ do poder (G. Jones 1980). 115

Dado o filo-helenismo explícito de Martins Sarmento, com que, que sob muitas expressões, vamos conviver

ao longo da análise geo-historiográfica da sua obra, não é de admirar que o cronotope dominante, genericamente, no seu trabalho, seja o da ‘essencialização da personagem’. É que, segundo Bakhtin, e ainda que, segundo as suas próprias palavras, a análise (no seu tempo) das estruturas espácio-temporais das obras de ficção literária seja ainda incipiente, ainda assim, é nas narrativas gregas do tempo clássico que este investigador descobre o mesmo tipo de organização cronotópica da narrativa que nós, pela nossa parte, cremos poder afirmar que domina a narrativa de Martins Sarmento. ‘[T]he first type of ancient novel (not first in chronological sense) the “adventure novel of ordeal”

131

I. 2. A geografia do conhecimento científico Investido da companhia dos autores a que anteriormente nos referimos, cabe agora tentar definir a natureza e a prática de uma geografia do conhecimento científico e, em particular, de uma Geografia da Arqueologia. Existe uma convicção epistemológica, quer entre geógrafos quer entre nãogeógrafos, de que uma ‘geografia de qualquer coisa’ tem obrigatoriamente de fundar-se no ambiente material, numa ‘geografia física’. Esta posição existe também no contexto da Geografia da Ciência, bastando para tal ver a diferentes visão que sobre o mesmo problema têm dois geógrafos que a se dedicaram a este tema. Harold Dorn, no seu Geography of Science, tem como objectivo interpretar a distribuição da pesquisa científica a partir, sobretudo, dos ambientes físicos em que se integram.

116

Neste caso, ficamos com a sensação de que uma Geografia da Ciência

‘(…) is synonymous with an ecological constructivism that prioritises material environment over other factors’.117

(…) would include all the so-called “Greek” or “Sophist” novels written between the second and sixth centuries A.D. (…). In these novels we find a subtle and highly developed type of adventure-time, with all its distinctive characteristics and nuances. The adventure-time and the technique of its use in the novel is so perfected, so full, that in all subsequent evolution of the purely adventure novel nothing essential has been added to it down to the present day. (…). All the events of the novel that fill this hiatus are a pure digression from the normal course of life; they are excluded from the kind of real duration in which additions to a normal biography are made’ (Bakhtin 2002: 90-91. Ênfase nossa). Mesmo que quiséssemos, creio que nos seria impossível descobrir uma descrição mais exacta do ‘tempo narrativo’ na obra de Martins Sarmento. 116

Dorn (1991); e cf., para uma utilização do mesmo tipo de considerações num contexto pós-fordista de

produção científica, Hugill (2003). 117

Esta posição epistemológica não é, naturalmente, privativa da disciplina da Geografia. Também no domínio

da Arqueologia pudemos ter acesso a ‘recompilações’ do passado disciplinar baseados em pressupostos muito diferentes e que dão por isso origem a narrativas muito dissemelhantes sobre o contexto paradigmático da evolução social da prática científica a ela associada; algumas delas estruturam-se segundo a lógica comum de apresentação das grandes descobertas (e dos grandes descobridores), do aperfeiçoamento das técnicas e da força cumulativa da ‘cartografia têmporo-espacial’ respectiva; outras, porém, fazem referência à evolução do Pensamento Arqueológico como sendo uma expressão das práticas sociais, políticas e culturais do tempo em que se integram, sendo, por isso, para nós de maior interesse e utilidade; de entre muitas, destaque-se, como exemplos mais ‘panorâmicos’, as obras de Trigger (1989 e 2006, 2.ª ed.) e Daniel e Renfrew (1998), assim como, claro está, os restantes livros de Daniel (1963, 1967 e 1975) e de Klindt-Jensen (1975); do ponto de vista da epistemologia pós-moderna associada à Arqueologia, vd. Johnson (1999). Pretendemos, assim, afastar o nosso discurso geográfico de uma visão estrita que o associe quer a

132

Alternativamente o trabalho de Livingstone, defende uma ‘(…) more nuanced and fully fledged historical geography of science that will treat scientific knowledge as “placed” in a more diverse range of spatial arenas’. O nosso trabalho, creio, terá mais a ver com o segundo caso do que com o primeiro. É essa razão por que fazemos explicitamente alusão a uma ‘História da Ciência como Geografia Cultural’.

A concepção de uma História de Ciência como Geografia Cultural não está de modo algum descontextualizada no actual contexto das investigações em História e Filosofia da Ciência, pelo menos no mundo anglo-saxónico. Em Março de 1994, a British Society for the History of Science promoveu uma conferência sob o título de ‘Making Space: Territorial Themes in the History of Science’. A natureza dos temas ali tratados revela um programa de pesquisa em que ‘cultural geographers have pursued in contexts ‘other than’ that of scientific cultures, and (…) that historians of geography have scarcely gestured towards’ (Livingstone 1995: 15). Também revela uma preocupação idêntica com os temas da ‘territorialização da ciência’ o número especial da Science in Context, com o título significativo: ‘The Place of Knowledge: The Spatial Settings and its Relations to the Production of Knowledge’. Os editores do livro, Adi Ophir e Steven Shapin, este último, nome decisivo do ‘strong programme’ da ‘escola de Edimburgo’ de História da Ciência, rejeitam claramente uma visão idealista da História e da Ciência: A generation ago scientific ideas floated in the air, as historians [and geographers (JRP)] gazed up at them in wonder and admiration. From time to time, historians agreed, the ideas that made up the body of scientific truth became incarnate: they were embedded into the fleshly forms of human culture and attached to particular times and places. How did this incarnation occurred was a great mystery. How could spirit be made flesh? How did the transcendent and the timeless enter the forms of the mundane and the contingent? Platonist and providentialist perspectives offered ways of speaking about the mystery, but, in general, it remained unresolved at the core of orthodox idealist [geo-(JRP)]historiography. It is plausible that

um construtivismo natural, quer a uma simples ‘corografia’ dos elementos superficiais da sua expressão. Cf., para uma posição epistemológica semelhante, Aay (1981: 298)

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intellectuals are forever attracted to idealist orthodoxies. The picture of ideas floating free in the ether of transcendence is an appealing one, the more so to groups who make and trade intellectual goods, who prefer to portray those ideas as both timelessly true and potent, and who work to secure a position for themselves detached from the demands of mundane custom and commerce [Ophir e Shapin 1991: 3.].

Também D. N. Livingstone faz questão em demarcar-se da visão do papel tradicional que a História da Ciência atribuía ao poder simplesmente descritivo do lugar na produção do conhecimento científico: ‘Traditionally, local factors were only accorded and explanatory role insofar as they might explain deviations from universal scientific objectivity (...) sort of “locational pathology”’ (Livingstone 1995: 15). Do mesmo modo, e ao contrário da tradição idealista denunciada, os editores do ‘Place of Knowledge...’ pretendem especificamente incorporar no estudo da Ciência um género localista. E apresentam exemplos de inúmeras influências localistas anteriores que se podem detectar na História da Ciência, como sejam a Sociologia de Durkheim, a Linguística de Wittgenstein, a Filosofia da Ciência de Kuhn (cf. Pimenta 1997) e de Koyré, ou o anti-idealismo ‘localista’ do interaccionismo simbólico de Goffman, também já referido e por nós caracterizado em momento anterior. Em todos os casos se pretende vincular aos lugares de produção científica ‘the ontological status of scientific objects and the epistemological standing of scientific statements (…) [because] the emergence from the 1960s of strong anti-empiricist and anti-individualist tendencies in the sociology and philosophy of science (…) contributed to the perceived interest and legitimacy of studying the place of scientific activity’ (Ophir e Shapin 1991: 5). Não é de admirar o posicionamento relativista e localista dos editores daquele livro, uma vez que se inserem no programa de pesquisa de Sociologia de Ciência que veio a ser conhecido como o ‘strong programme’ da Escola de Edimburgo. Neste contexto, não se confunde necessariamente localismo, na História da Ciência, com relativismo científico, uma vez que não existem ‘(…) necessary links between the relativity of warranted credibility and relativism over substantive concepts of truth’ (Bloor 1976: 15 [Cf. Shapin 1982: 172 e Shapin e Schaffer 1985: passim]). Neste momento começa portanto a ficar já mais claro o que possa ser uma Geografia da Ciência. Como diz D. N. Livingstone: 134

Glimmerings of what a geography of scientific knowledge might amount to are thus indeed beginning to be glimpsed, as sociologists and historians of science have begun more explicitly to probe the role of the spatial setting in the production of experimental knowledge, the significance of uneven distribution of scientific information, the diffusion tracks along which scientific ideas and their associated instrumental gadgetry migrate, the management of laboratory space, the power relations exhibited in the transmission of scientific lore from specialist space to public space, the political geography and social topography of scientific subcultures, and the institutionalization and policing of the sites in which the reproduction of scientific cultures is effected. The cumulative effect of these investigations is to draw attention to local, regional and national features of science – an enterprise hitherto regarded as prototypically universal [Livingstone 1995: 16. Ênfase nossa].

Alguns exemplos práticos permitirão ilustrar as diversas expressões possíveis de uma ‘Geografia Cultural da Ciência’, ou como vamos passar a falar de História da Ciência, de uma Geografia (Cultural) Histórica da Ciência.118 A ‘regionalização teórica’ da Ciência é um fenómeno que tem sido objecto de estudo da História da Ciência e, mesmo no conjunto da historiografia da Arqueologia em Portugal, não faltam estudos que devolvem às práticas sociais ‘locais’ o papel que justamente detêm na forma final da prática científica.119 Porém, só muito recentemente se começou a fazer uso mais específico das teorias sociais-espaciais, como as que

118

Em obediência à autoridade de Livingstone, que seguimos de muito perto, com excepção da conceptualização

do ‘lugar de ciência’ que desdobramos em dois aspectos complementares, o conteúdo e o continente, que a nosso ver não estão tão analiticamente diferenciados no seu trabalho (o que não quer dizer que não estejam presentes as problemáticas associadas), optamos por manter a nomenclatura que é utilizada pelo próprio autor, que nos parece adequada como indicação breve do conteúdo dos conceitos relativos. 119

A ‘regionalização teórica’ pode encerrar uma regionalização empírica. Assim, por exemplo, Dickinson (1969,

1976; e cf. James 1972: 457) dedicou grande parte da sua actividade científica a tentar demonstrar que a organização humana se traduzia, necessariamente, em áreas dotadas de contiguidade sem continuidade. Na Epistemologia contemporânea este é um tema principal de debate entre ‘relativistas’ e ‘realistas’, i.e., entre os que defendem que a organização do conhecimento se estabelece dentro de áreas culturalmente diferenciadas que ‘naturalizam’ a sua relação interna com o objecto empírico e, fora das quais, o poder de comunicação se deprime acentuadamente (cf. Shapere (1980) e Sawyer (1984: 100 e ss.).

135

pudemos recensear algumas páginas atrás, nomeadamente em estudos de ‘recepção social e científica’ de alguns dos paradigmas mais importantes da ciência ocidental.120 Um campo em que essa incorporação deu resultados concretos foi o estudo feito por Glick da difusão diferencial do darwinismo na segunda metade do século dezanove, modelo de investigação que conheceu inúmero sucesso em vários áreas de investigação de História de Ciência, e a que a Geografia e a Arqueologia não ficaram naturalmente indiferentes.121 Glick incidiu a sua atenção sobre a penetração regional do paradigma darwinista em países não ocidentais e ocidentais. Foi possível, por exemplo, determinar que a razão primordial de abrandamento da difusão das ideias darwinistas na Noruega se deveu à posição filosófica e religiosa dominante que impediu a tradução do Origin of Species. Em Portugal, a recepção do darwinismo foi concomitante com o processo de afirmação das Ciências Naturais em geral, e da crescente importância das ciências auxiliares ou vizinhas da Arqueologia, nomeadamente a Geologia, com Carlos Ribeiro, Paul Choffat e Nery Delgado a iniciarem o estudo sistemático do Paleolítico. Ao processo se associam os nomes de vários arqueólogos que, em várias regiões de Portugal, puseram em marcha uma versão ‘positiva’ e ‘científica’ do estudo dos vestígios materiais do passado, entre os quais se encontra, naturalmente, Martins Sarmento, ao lado de nomes como Filipe Simões ou Estácio da Veiga. Convém, no entanto, notar que a afirmação de estudos científicos não implica, necessariamente, a admissão dos princípios evolucionistas de Darwin. Como veremos especificamente num dos subcapítulos da terceira parte deste trabalho, o conceito de ‘evolução’, tal como é concebido nas premissas darwinistas, pura e simplesmente não existe em Martins Sarmento.122

120

Cf. Berdoulay (1981), artigo que desenvolve especificamente esta problemática.

121

A obra principal do programa de investigação de Glick é The Comparative Reception of Darwinism (Glick

1974; e cf. Ghiselin 1969). Nós próprios apresentamos um trabalho sobre estas matérias, dentro de uma epistemologia comparada da Arqueologia e Geografia (Pimenta 1996); no contexto da História da Ciência em Portugal, é imprescindível a consulta da obra de Ana Leonor Pereira (Pereira 1992a; Pereira 1992b) e da equipa de investigação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa: Diogo et al. (2000); Simões et al. (2003); Simões et al. (2004). 122

Nada de semelhante, em termos de afirmação monista de um princípio evolutivo do Tempo, existe em

Martins Sarmento que se possa comparar, por exemplo, a Teófilo Braga, quando este afirma que a causalidade linear se insinua no Universo, fazendo-o mover-se, inapelavelmente, para um fim determinado, já contido em potência na

136

Um exemplo de variação regional à escala continental é o que podemos ver no volume editado por Goodman e Russell, onde se pretende comparar o desenvolvimento da Ciência da Modernidade em termos de contextos diferenciais de ‘cultura’ científica, nela incluindo todas as expressões de afirmação de uma prática social científica concreta.123 Foi possível ter assim a noção do modo como a Europa da Idade Moderna se constituía como um conjunto de ‘regiões’ díspares, em termos de produção, circulação e recepção das ideias científicas, bem como do modo como essa própria estruturação da prática científica se organizava intimamente com outras dimensões sociais com as quais pareceria, numa primeira análise, não se dever tomar em consideração no estudo da afirmação das qualidades generalistas do conhecimento científico. A questão geopolítica, associada à questão religiosa, provocou um ambiente de competição inter-regional e internacional, de que a Ciência foi apenas uma das esferas de combate, e nem sequer a mais importante, pelo menos nos primeiros séculos. Sabemos hoje que a Reforma e Contra-reforma da Igreja contribuiu decisivamente para um efeito de arrasto sobre as visões ‘do mundo’, ‘da Natureza’ e dos ‘povos’, sob cuja competição metaparadigmática (a polémica, por exemplo, mantida em redor da real ‘significação’ os tremores de terra, entre os quais o de Lisboa de 1755 foi exemplar) se dinamizou o conhecimento de base empirista que acabaria por fortalecer geopoliticamente a Europa setentrional, em desfavor da tradicional dominação cultural do Sul.124

sua actualidade primitiva (Braga 1884: 34). À História, encerrada neste ciclo tautológico, estava assim determinado assumir-se, não apenas como ‘fonte’ de conhecimentos sobre o Passado, mas dele também o lugar da sua própria ‘demonstração’, no sentido quase-laboratorial que o termo encerra (M. Garcia 1874: 145). 123

Goodman e Russell 1991. Cf., tb., e para o mesmo período histórico e âmbito geográfico, a obra de Malcolm

Oster (Oster 2002). 124

O ‘pesadelo’ de Oliveira Martins e de outros pensadores ‘decadentistas’ do Portugal do século dezanove era

habitado justamente por esta ‘lei histórica’ de substituição dos povos ibéricos (e mediterrânicos, em sentido mais lato) pelos germânicos ao qual, segundo Oliveira Martins, apenas escaparia a imensa China. Goodman pôde constatar, por exemplo, de que modo a Europa dos primeiros séculos da Idade Moderna se estruturava em ‘regiões’, cada qual caracterizada por uma determinada tradição científica e de que modo a produção científica se formulava num quadro de competição entre as próprias nações ou estados. A existência de múltiplos centros de produção veio a incrementar a economia capitalista e a promover concomitantemente a urbanização da Europa.

137

O conteúdo cognitivo de uma disciplina científica pode igualmente ser permeado por uma regionalização científica que, partindo de uma base concreta, empírica, esconde ordens interpretativas de natureza metafísica, de interpretação quási-teleológica do sentido da Criação ou da afirmação presentista do carácter ‘eleito’ de um povo. Se este tipo de incidência, propriamente metafísica, é facilmente reconhecida nos domínios da Ciência Social, pareceria mais difícil que pudessem exercer o seu poder ‘localista’ no contexto das Ciências da Natureza. É, porém, isso mesmo que Malcolm Nicolson reconhece ter sucedido no caso das duas propostas alternativas referentes à classificação taxinómica botânica, diferente e diferentemente fundamentada nos dois lados do Atlântico.125 O esquema taxinómico de Josias Braun-Blanquet (‘francês’ – na verdade o seu autor é oriundo da Suíça francófona) apresenta diferenças notáveis quando comparado com o de Frederick E. Clements (americano). Não pode negar-se que decerto algum construtivismo ‘natural’, i.e., a expressão concreta do objecto empírico possa ter feito aceder fenomenologicamente de um modo diverso às duas esferas de teorização (Nicolson 1989: 174). Porém, para Nicolson é claro que uma causalidade de ordem ‘natural’ não esgota as ordens de interferência metaparadigmática na forma final das teorias, sobretudo no diferente carácter, respectivamente concreto (‘orgânico’) e abstracto (‘formal’), dos modelos de Clements e Braun-Blanquet. Antes, deve necessariamente tomar em consideração a ordem construtivista social de formação da subjectividade presente em dois ambientes sociais e culturais bem diferentes, como o eram o Velho e Novo Mundo.126 Entre os factores metaparadigmáticos presentes na 125

O artigo referido de Malcom Nicolson é ‘National styles, divergent classifications: a history of French and

American plant ecology’ (Nicolson 1989). Este artigo iniciou uma série de estudos em História da Ciência, e especialmente no domínio das Ciências da Natureza, que se prendem com a constatação (e demonstração) do carácter social e culturalmente constituído dos produtos científicos, mesmo daqueles que se usava apresentar como ‘universais de realidade’. Cf, e.g., Fischedick 2000: 291-314; Lachmund 1999: 419-450 [examina a controvérsia ao redor da interpretação dos sons referentes à auscultação pulmonar, e ao carácter geográfico e cultural da sua enunciação: o método ‘francês’ e o método ‘vienense’, cada um deles vindo a consistir no modelo de trabalho das esferas francófona e germânica da Europa]; Jankovic 2004: 45-75 [examina o modo como a Jugoslávia no tempo de Tito desenvolveu um modelo de previsão meteorológica que pudesse colmatar o relativo embargo da ciência computacional do Ocidente e a dificuldade específica do terreno acidentado da maior parte do território]. 126

Nicolson (1989: 145). Para Nicolson, pelo contrário, é possível detectar incongruências dos sistemas ao nível

propriamente ‘ecológico’ que ele atribui a factores contextuais e que indiciam as esferas metafísicas e sociológicas

138

‘formação’ das diferenças das duas teorias, Nicolson refere o pendor eminentemente ‘prático’ da concepção científica americana do Midwest, face à formação mais ‘especulativa’ da ciência francesa, plasmada numa forma de racionalismo mais abstracto e cuja origem se pode pelo menos antecipar à tradição do racionalismo cartesiano. Este tipo de ‘regionalização’ científica, associada à ‘aderência’ da teorias a grandes esferas de representação metafísica da sociedade, de escala quase continental, tem uma expressão muito clara na geo-historiografia de Martins Sarmento. Teremos, nesse contexto, oportunidade de ver como a ‘geopolítica’ interpretativa da Arqueologia pré-histórica e da Linguística histórica e descritiva da Europa se estabelece entre dois pólos de tensão que reproduzem, no domínio da Ciência e da interpretação do passado, o enfrentamento cultural e até militar da França e da Alemanha.127 É impossível não ver, na propalada questão do ‘germanismo dos Celtas’, a influência decisiva, não apenas da essencialização e presentismo habituais em todas as formas de contaminação nacionalista da produção científica mas uma expressão específica da ‘racionalidade’ francesa e germânica na análise dos vestígios materiais e linguísticos do passado. Enquanto a França do Império,128 de Amedée Thierry e Paul Broca, desenvolve uma

que estruturam a relação interna e internacional das comunidades científicas envolvidas no processo de produção, circulação e recepção das diferentes teorias (Nicolson 1989: 174 e ss.). 127

Referimos Alemanha por facilidade de exposição. A unificação da Alemanha sob a mão de Bismarck sucede

apenas no terceiro quartel do século dezanove. Contudo, do ponto de vista da ‘representação’ das regiões culturais, a Alemanha apresenta uma unidade que não corresponde à desagregação em estados da sua fase pré-imperial. A importância do modus operandi da ‘colonização de vizinhança’ que a Alemanha desenvolve, na segunda metade do século dezanove, reproduz o mesmo tipo de violência epistemológica que caracteriza qualquer outro tipo de ‘great collective appropriation of a country by another’, seja no mesmo continente, ou em continentes diferentes (Said, 1995). 128

E não devemos esquecer que o próprio Imperador (Napoleão III) reconheceu a especial nobreza dos temas de

investigação da História Antiga e dedicou algum do seu tempo a escrever uma história de César – também neste caso a emulação teria sido porventura a expressão da influência de causas metaparadigmáticas. Será também este governante que determinará o estabelecimento do museu de antiguidades de Saint Germain-en-Laye, modelo de muitos outros congéneres na Europa, e especificamente do projecto de Leite de Vasconcelos. Também Jefferson, segundo presidente dos Estados Unidos da América, não desprezou os estudos científicos relacionados com a Arqueologia e a Geografia (Greene 1984: 6-7; Bedini 1990). Ser investigador das ‘antiguidades’ era, na topografia social do século dezanove, ser cosmopolita. Do ponto de vista estrito da história da geografia francesa da época imperial, a ‘geografia do império’ não pode compreender-se sem fazer menção a um equivalente ‘império da

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teoria ‘inclusiva’, que recolhe para uma ancestralidade comum e diversificada dos ‘Gauleses’ uma série de referências históricas, arqueológicas e linguísticas unificadas sob um putativo ‘ur-estado’ gaulês do tempo de César, a Alemanha de Grimm, Holtzmann e Penka apresenta, pelo seu lado, o mesmo passado como forma de relação mutuamente exclusiva das mesmas esferas mencionadas, de modo a advertir uma realidade etnicamente purificada dos Germanos.

Além da estruturação nacional (ou até supra-nacional) das teorias científicas e do conhecimento em geral, é possível reconhecer igualmente uma esfera de causalidade interpretativa guiada por contornos subnacionais, regionais ou locais. Um exemplo particularmente significativo do tipo de relações existentes entre a organização política e cultural das unidades regionais, dentro do todo nacional em que se integram, e a expressão da produção, circulação e recepção do conhecimento, pode muito bem ser o livro coordenado por Inkster e Morrel (1983), sobre a Ciência ‘provincial’ na Grã Bretanha do século dezanove. A convicção dos autores é afinal a que serve de axioma aos trabalhos da Escola de Edimburgo: a Ciência, não mais nem menos do que qualquer outro produto social, serve os grupos sociais que a usam, para atingir os seus propósitos em situações política e socialmente muito específicas This book reflects recent changes which have taken place in historian’s approaches to the study of past science. As an intended contribution to social history of science, it looks at science and scientific culture in their local contexts, whether metropolitan or provincial, examining where possible the relations between metropolitan and provincial science and savants [Inkster e Morrell 1983: 9].

Podemos compreender de imediato que a influência da desagregação política que subjaz à organização de um estado como a Grã-Bretanha justifica amplamente este tipo

geografia’ (Broc 1974; Berdoulay 1981; Emery 1984; Godlewska 1989). Pelo seu lado, para os geógrafos ingleses dos inícios do século vinte, a Geografia deveria mesmo ser uma disciplina obrigatória nas escolas militares (Herbertson 1904: 423; Holdich 1909: 593 ss., 1916: 477) e comerciais, uma vez que a questão principal se punha em saber como dominar ‘trópicos sem uma perda irrazoável de vidas por parte dos Europeus’ na organização do ‘trabalho’ da plantação (O’Neill 1885: 348; Holdich 1899: 477; Mill 1901: 410; J. Johnson 1896: 603; Johnston 1920: 9); cf. Hudson (1977: 12-19).

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de investigação ‘geográfica’ em História da Ciência. Porém, pensar que, por exemplo, em Portugal, este fenómeno não tem expressão porque a estabilidade de fronteiras e a relativa dissolução nacional das regionalidades o possa impedir, é absolutamente inexacto (Marques 1988: 91 e ss.). Pensamos poder demonstrar que grande parte do ‘drama’ científico de Martins Sarmento passa justamente pela diferencial expressão ‘geográfica’ em Portugal da produção, circulação e recepção das teorias científicas do século dezanove, diferencial esse que opõe estruturalmente as ‘cidades universitárias’ de Lisboa e Coimbra à ordem ‘tardo-antiquarista’ de Guimarães. Embora a ‘biblioteca’ sarmentiana esteja apetrechada com muitas das últimas novidades em matérias de Linguística, Arqueologia ou História Antiga, a sua produção científica, o seu ‘género discursivo’ nunca se torna conforme aos que, por exemplo, os ‘sábios’ positivistas do Curso Superior de Letras iam quase ao mesmo tempo produzindo; e queremos crer que essa diferenciação se estriba numa estrutura ‘geograficamente’ diferencial em termos de todos os três níveis de organização do conhecimento científico atrás enunciados.

Uma vez que se admite que a prática científica pode revelar variações e sobreposições regionais, pode-se, do mesmo modo, conceber que existam associados mecanismos de ‘persuasão’ científica.129 Isto é, pode admitir-se a Ciência como uma actividade política. 130

129

As preocupações de ‘regime’ ao nível da produção do conhecimento histórico, ao longo do regime totalitário

do Estado Novo, não só se estruturou em instituições de topografia social rigidificada, que pudessem permitir a sua reprodução em termos devidamente vigiados e controlados, como a História é trazida, enquanto projecto intelectual, para o centro das preocupações políticas. O carácter ‘neutro’ e ‘objectivo’ da ciência era supostamente mantido, mas organizado segundo uma grelha de referência ‘moral-histórica’ que fazia incidir os campos válidos de análise histórica com os temas de ‘exaltação da Nação’, ou pelo menos do seu não amesquinhamento. A este respeito não deixam dúvidas as próprias palavras do Presidente do Conselho: ‘[N]ão discutimos a pátria e a sua história (…)’ (Discursos, I, 303). A mesma ideia, pouco mais ou menos, viria a ser reproduzida entre os historiadores publicistas do regime: ‘A história nos fez – agora somos nós que a fazemos. Escrever a história, é buscar-nos, compreender-nos, definir-nos, sentir-nos solidários do imenso movimento que nos inclui e nos leva. Nada mais vivo, sem dúvida, visto ser aquilo que em nós é anterior a nós’ (Ameal 1940: X). 130

Neste contexto, pretender-se-á tomar em consideração as manifestações ‘pedagógicas’ da transmissão escolar

e académica do conhecimento do Passado como uma estratégia de socialização e de apropriação colectiva do lugar natural da ‘nação’ e do ‘território’, além da apresentação do ‘académico’ como uma função socialmente eficiente, longe portanto do estereótipo constantemente apresentado do ‘sábio desligado do mundo’ (cf. Capel 1981: 65).

141

São conhecidos diversos exemplos de modulação de factores políticos na difusão de várias teorias científicas. Um exemplo claro dessa modulação é a British Association for Advancement of Science (Morrell e Thackeray 1981). Esta foi uma instituição que, apesar da vocação científica evidente, possuía igualmente uma agenda propriamente política. A BAAS constituía, ao tempo da Revolução Industrial, um circuito ‘peripatético’ que cobria todas as grandes cidades industriais e dessa formulação geográfica teve origem a natureza e expressão, não só das redes interpessoais de produção, circulação e recepção do conhecimento, como a forma final do próprio produto científico. A topografia social dominante que está por trás deste tipo de organização das práticas científicas parece obedecer a um muito claro padrão de recrutamento social dos seus participantes: maioritariamente homens, ilustrados, oriundos de uma burguesia liberal, cujo tempo livre os tornou aptos a desenvolver quase como um gentleman’s hobby a ciência ‘de campo’ e as reuniões de apresentação dos trabalhos correspondentes (S. Rose et al. 1984: 12 e ss.; Russell 1983: 184). Para além do contributo propriamente científico é evidente que existe um programa fortemente moralista no tom e atitude, não só pelos temas preferidos como âmbito de estudo, quer pela organização ‘pedagógica’, quer dos trabalhos de exterior, quer das reuniões de associados – o suposto carácter ‘neutral’ e ‘objectivo’ de associação científica, simbolicamente plasmado na organização semicircular das ‘cadeira dos associados’ permitia, além do mais, a reunião de todas as classes sociais sob uma visão unificada da sociedade.131 Ao desenhar, no tecido social da época, as regras de produção e recepção de determinados trabalhos científicos, estes gentlemen of science propunham uma nova força reformista ao serviço da mobilidade social que o liberalismo e o individualismo contrapunham à estanquicidade da sociedade aristocrata dominante até o século anterior, inclusive (Morrell e Thackeray 1981: 11-12). 131

A ciência do século dezanove, mas especialmente o que se organiza em redor das instituições não académicas

parece concordar num princípio comum de que o conhecimento é o instrumento privilegiado de ‘pedagogia social’. A instrução pública (e popular) não obedece apenas a princípios ‘caritativos’ de ‘normalização social’ (promover o livre acesso de todos os indivíduos à esfera do conhecimento e das suas competências) mas, também, e cremos que é a sua prioridade, em considerar que é pela ‘doutrinação’ científica das massas populares que se garante o suporte social das modificações políticas. No caso dos anarquistas essa posição é, de resto, bem explicitada: para Kropotkin, por exemplo (1893, 1910), a educação concorria seriamente com a militarização da sociedade como forma de arregimentação dos defensores da ordem social progressista (Breitbart 1981: 145).

142

Na geo-historiografia sarmentiana, que nos propomos levar a cabo, será neste contexto que obrigatoriamente teremos de referir a organização dessa peculiar associação de ‘homens bons’, que é a Sociedade Martins Sarmento.132 Embora todo o século dezanove português tenha sido pródigo em dar origem a estes tipos de sociedades recreativas e vagamente científicas – ou científicas e vagamente recreativas – de que a Sociedade dos Conhecimentos Úteis, com a sua revista O Panorama, é o paradigma, a Sociedade Martins Sarmento, apesar de possuir inúmeros elementos em comum com todas as outras, possui também algumas particularidades. O facto do seu epónimo ser igualmente o seu patrono não é das menores e fazem dela um caso de estudo extremamente interessante, no contexto de afirmação das esferas locais na organização do liberalismo ‘fontista’. 133 Tentaremos, no lugar respectivo, dar conta das questões que interligam a teoria sarmentiana do passado e o facto de a ela se associar este tipo de topografia social. É igualmente possível detectar espaços de Ciência associados com certos ‘locales’ e com elementos mais radicais da estrutura social. Em Portugal, a topografia social da recepção do darwinismo demonstra, inequivocamente, que este esteve associado aos sectores mais republicanos da sociedade e que a sua gramática ‘naturalista’ e ‘evolucionista’ foi mesmo fixada no discurso político como elemento de argumentação retórica em favor da abolição da Monarquia.134 E embora não tenhamos recuperado 132

É usual que a pretensão de ruptura paradigmática exercida no domínio da comunidade científica se expresse

pela organização de um novo ‘areópago’ de discussão dos seus conteúdos. Essa criação é por vezes feita “ex-nihilo”, com a intenção explícita de marcar a descontinuidade que pretende ser testemunha; porém, quando as ‘velhas’ instituições são dotadas de elevada inércia ‘cultural’ (emblemáticas de um período áureo da investigação ou associada a uma lógica ‘de disciplinamento do conhecimento’ que a torne incontornável), então é comum ver-se dirigir contra elas argumentos de especial ‘virulência epistemológica’: ver, por exemplo, a crítica de Fidelino de Figueiredo à Academia das Ciências do seu tempo (Figueiredo 1915; e cf. Ferrão 1923). 133

Também Castilho, nos seus ‘Quadros’ (1839: I, 31) não deixava de fazer referência não só ao ‘amor da pátria

que foi’ mas também ao ‘dó da pátria que é’, como causa primeira de se ter convencido a escrevê-los. 134

Um exemplo claro da importância da topografia política e da geografia social do conhecimento científico

pode ver-se no trabalho de Adrian Desmond, The Politics of Evolution, sobre a difusão da ideia de evolução prédarwiniana (Desmond 1989). Desmond, quando se refere ao Lamarckismo, fala mesmo de uma ‘geografia social do debate’. Em Edimburgo a doutrina lamarckiana difundiu-se especialmente entre as classes operárias, laicas e socialistas, entre a classe médica emergente, grupos que claramente rejeitavam a autoridade feudal (Desmond 1989: 59 e 60). A mesma situação repetiu-se em Londres. Na grande cidade ‘the transformist, law-bound, deterministic science that was imported into Britain from Paris in the 1830’s spread like wildfire among those young doctors who,

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elementos decisivos de que esta linha de fractura política fosse central na polémica científica que Adolfo Coelho manteve com Martins Sarmento, ainda assim pensamos que alguns elementos circunstanciais dessa mesma polémica dão a entender que a questão estava implícita. O que nos interessa, especialmente, neste contexto, é expor este género de ‘geografia política’ do conhecimento que normalmente não é tida em consideração, sob as roupagens abstractas e universalizantes das histórias da evolução das ideias científicas.135 E quanto à dupla qualificação subentendida na expressão ‘geografia política’ queremos não apenas fazer menção das principais linhas de fractura política e social que estão por trás da diferente circulação e recepção das teorias científicas, mas também, e especialmente, mostrar que a organização política de uma região, de um país, assenta sobre realidades de diferencialidade espacial, entre as quais a oposição capital-província é uma delas, assim como o é, especificamente nas grandes cidades, as cinturas operárias, lugares privilegiados de circulação e recepção das teorias mais progressistas, quer as propriamente políticas, quer as científicas.

Os ‘sítios’ científicos, lugares físicos e sociais em que se procede a práticas científicas, reconhecidas como tal, podem ser considerados locales porque requerem um

marginalized within the medical establishment and outcasts [of the] gentlemanly science (…) mobilised (…) radical assaults (...) hierarchical social order boltered by priestcraft, providence, and Paleyan natural theology’ (Livingstone 1995: 19). Foca-se a atenção justamente sobre a medicina pobre e marginal, das escolas públicas de anatomia, em que o Lamarckismo ganhou facilmente reputação. Neste caso a ciência médica era também um instrumento político, um modo de questionar o enorme ascendente que detinham algumas instituições poderosas, tais como, o Royal College of Surgeons e o equivalente dos Pyhsicians. O Lamarckismo, detectável na sua marcha de difusão desde Paris até às cidades britânicas, configura uma verdadeira geografia social científica, no que implica de substituição do recrutamento social ao nível das instituições. Por outro lado, é impossível não reconhecer no conteúdo das proposições evolucionistas, uma afirmação concreta de um ‘optimismo’ triunfante que se opõe resolutamente à ‘melancolia romântica’ liberal e cujas origens podem ser reconhecidas já no materialismo progressista das últimas décadas do Iluminismo (Delâge 1985), mas que nos finais do século seguinte adquirirão um tom claramente providencialista: ‘A Idade do Ouro está para diante, a humanidade caminha sinceramente para o termo do seu destino sem jamais o atingir: (…) é preciso crer no dogma da perfectibilidade (Deusdado: 20-22) 135

Veja-se, por exemplo, o caso de Teófilo Braga (1882), que afirma peremptoriamente que o conhecimento da

história de Portugal não deve ser a última intenção do historiador, ainda que sirva os interesses do ‘sentimento pátrio’. Ao contrário a história de um país ou de um território serve apenas como demonstração ‘local’ das ‘leis gerais da história universal’ de que são uma expressão particular.

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determinado tipo de co-presença. Como exemplos, podemos considerar as sociedades científicas, as universidades, laboratórios, museus, ‘web-sites’, e até o mundo do naturalista explorador, especialmente nas épocas históricas em que, como no ‘longo século dezanove europeu’, a dominação colonial do mundo não europeu constituiu uma das mais importantes expressões de afirmação da Ciência e da Política.136 No contexto do nosso trabalho, não deixaremos de incidir a nossa atenção sobre os diversos tipos de ‘lugares de ciência’ que estruturam um programa de pesquisa científico e especificamente arqueológico como o de Martins Sarmento

O laboratório, lugar que ‘naturalmente’ corporiza um ‘sítio’ científico, com ressonâncias estéticas e deontológicas que se confundem com a própria concepção de Ciência, foi objecto de especial atenção por parte de Steven Shapin: I want to know where experimental science was done. In what physical and social settings? Who was in attendance at the scenes in which experimental knowledge was produced and evaluated? How were they arranged in physical and social space? What are the conditions of access to these places, and how were transactions across their thresholds managed? (...) This essay offers reasons for systematically studying the venues of knowledge. I want to display the networks of connections between the physical and social setting of inquiry and the position of its products on the map of knowledge. I shall try to demonstrate how the siting of knowledge-making practices contributed toward a practical solution of epistemological problems. The physical and symbolic siting of experimental work was a way of bounding and disciplining the community of practitioners, it was a way of policing experimental discourse, and it was a way of publicly warranting that the knowledge produced in such places was reliable and authentic. That is to say, the place of experiment counted as a practical answer to the fundamental question: why ought one to give one's assent to experimental knowledge claims? [Shapin 1988: 373-4].

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Driver (1994b). É claro que nem todos estes locales possuem as mesmas características sociais-espaciais.

Basta considerar a profunda diferença entre a ‘suspensão’ da realidade que existe num laboratório ou num ‘abaste’ com a exuberância do mundo do explorador-naturalista.

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A análise de Shapin está repleta de usos geográficos literais e metafóricos, a que não é alheia a sua filiação teórica nas propostas sociológicas de autores como Goffman, Sennett, Giddens, que são igualmente as referências centrais do programa ‘forte’ de Edimburgo. De acordo com estas propostas, como já pudemos antever, existem limites física e socialmente inscritos no espaço, que determinam a natureza das relações sociais de um e outro lado da ‘fronteira’ do lugar autorizado de ‘produção de ciência’.137 Esta constatação pode parecer a muitos ingénua ou desnecessária, ou por concordarem com ela intimamente, ou por considerarem que, ao contrário, a validade das propostas científicas não se compadece com lugares ‘privilegiados’ e ‘ostracizados’ de produção científica. Contudo, não é decerto por acaso que vemos Alexandre Herculano a escrever ao reitor da Universidade de Coimbra, a apresentar a sua História de Portugal e, tacitamente, a requerer um aval por parte do ‘lugar privilegiado de produção científica’, a uma obra escrita por alguém que a ela era inteiramente exterior. Isto significa, essencialmente, que a produção do conhecimento científico é uma actividade eminentemente ‘espacial’. Mais a mais, o laboratório determina um tipo de conhecimento que se baseia em observações e testemunhos de algumas pessoas ‘geograficamente privilegiadas’. No limite, o laboratório – e todos os lugares genericamente comparáveis, como escavações, museus, universidades – não passa, porque com essa função foi construído, de um lugar em que é possível controlar a assertividade e o consenso com o mínimo de ‘ruído’ do mundo (Shapin 1988: 375). Não basta afirmar, como o fez Vitorino Magalhães Godinho (1959), que, numa determinada época e sobre um determinado tema – a historiografia do século vinte sobre as Descobertas – tenha sido levada a cabo por não-universitários. É necessário compreender em que medida inúmeros casos de boa investigação, segundo um critério estritamente científico, são sistematicamente ignorados por terem origem ‘fora’ dos

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O laboratório consistia assim num novo lugar, um novo tipo de espaço que ‘had necessarily to be carved out

of rearranged from existing domains of accepted public and private activity and existing stipulations about the proper use of spaces’. A análise de Shapin, incidindo sobre os casos específicos da ciência experimental levada a cabo nos laboratórios de Boyle, Hooke, ou da Royal Society, chegou à conclusão de que os ‘direitos’ espaciais eram objectivo de uma rigorosa regulamentação (cf. tb. Hacking 1984: 154 e ss.). Do ponto de vista social, e com traduções de ordem espacial, havia desde logo uma distinção entre os ‘técnicos’ e os ‘cientistas’. Os primeiros ‘had skill but lacked the qualifications to make knowledge…’ (Shapin 1988: 386).

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limites exercidos pelo policiamento epistemológico a que se dão direito as instituições consagradas a esse efeito. A ‘respeitabilidade científica’ atribuída a pessoas, elementos e produtos concretamente ‘situados’ num lugar e tempo específicos permite a universalização de pontos de vista originariamente locais, numa metamorfose cuja eficácia é tanto de origem propriamente científica, social e até ‘histórica’, uma vez que nem todas as fases da filosofia do Ocidente tomaram esta deriva universalista e indutiva que vem a caracterizar a Modernidade. Ainda que com as dúvidas legitimamente levantadas pelo ‘problema de Hume’, a que Popper daria consistência metodológica concreta no seio do seu ‘racionalismo científico crítico’, a verdade é que a história epistemológica da Modernidade parece consistir, fundamentalmente, numa atitude mental (e capacidade geopolítica) de dotar de universalidade os resultados científicos feridos de alteridade geográfica, antropológica e histórica – i.e., aplicando ao mundo e à sociedade, resultados de experimentações feitas num determinado lugar, sociedade e tempo.138 O processo ‘laboratorial’ de produção de conhecimento só se torna socialmente eficaz e completo, com a apresentação num lugar ‘público’ da sua operatividade, o momento da persuasão. Só quando ‘sai para a sociedade’ o processo iniciado no seio do espaço restrito do laboratório se torna completo e se pode considerar que se ‘produz conhecimento’. Assim, a construção do conhecimento científico está fundamentada na circulação entre o ‘espaço privado’ da sua definição e o ‘espaço público’ da sua difusão. Porém, quando a experiência laboratorial chega ao momento de ser apresentada em público já foi sujeita ao apuramento necessário para apresentar um único tipo de resposta, de modo a não correr o risco de mostrar em público a eventual ‘má vontade’ da Natureza, em seguir os ditames da experimentação (Shapin 1988: 399).

138

Esta descrição de Shapin assemelha-se ao que Giddens chama de mecanismos de ‘desinserção’

[disembedding] próprios da Modernidade. Por esse termo Giddens quer significar a desimplantação [lifting out] das ‘social relations from local contexts of interaction and their restructuring across indefinite spans of time-space’ (Giddens 1990: 21 Giddens 1990: 29). Esta ‘desinserção’, se é evidente na produção científica de hoje, não o era, porém, menos nos laboratórios do século dezassete. Em ambos os casos se fundamentavam naquilo a que Giddens chama ‘confiança’ [trust] que detinham algumas pessoas ‘geograficamente privilegiadas’, ausentes enquanto dentro do laboratório do espaço-tempo das pessoas comuns.

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Mais uma vez, um partidário da História da Ciência em moldes tradicionais poderia questionar qual a relevância dos mecanismos sociais de persuasão e validação do conhecimento científico face às garantias ‘técnicas’ da sua apresentação sob a forma de relações instrumentais precisas. Uma passagem apenas circunstancial da vida científica de Martins Sarmento permitiria, porém, mostrar como a qualidade ‘técnica’ do conhecimento científico tem obrigatoriamente de contar com as esferas interpretativas e até geopolíticas da desinserção local desse mesmo conhecimento. Trata-se da interpretação veiculada por Hübner, na sua Alemanha natal, de que as habitações de Briteiros eram constituídas por casas em ‘tronco de cone’ e mais ainda constituídas por duas partes distintas, uma base mais larga sobre a qual se erguia o corpo mais estreito das paredes. Ora, esta ‘visão’ que Hübner detinha sobre Briteiros era ‘tecnicamente’ correcta, pois havia tido origem numa fotografia das muitas que Martins Sarmento, decerto um pioneiro desta técnica de ‘arqueografia’ na história da Arqueologia em Portugal, havia enviado a várias publicações, como ilustração de um texto de apresentação dos resultados das suas escavações. E contudo, nenhuma das duas interpretações de Hübner correspondia à realidade ‘local’ de Briteiros, pela simples razão de que a fotografia colapsava em perspectiva duas habitações, dando assim a ilusão visual de ser apenas uma! A questão que levantaria um historiador de ciência com sentido de humor é o de saber até que ponto a ‘realidade’ divulgada por Hübner não teria tido muito mais incidência nas diversas sínteses sobre Kulturen que se foram fazendo pela Alemanha do que a simples e verdadeira realidade que só Sarmento conhecia e não podia com autoridade divulgar nas mesmas condições de ‘visibilidade’ geopolítica do seu amigo alemão.

As sociedades científicas podem igualmente ser objecto de uma análise geográfica. Devemos, sobretudo, ter em conta que elas são um lugar privilegiado para detectar o carácter ‘estatutário’ do recrutamento, isto é, uma configuração social específica, e as mais das vezes explícita.139 Trata-se sobretudo de lugares em que as regras de ‘demarcação’ são muito evidentes e explicitados. O seu carácter de ‘sociedade’, de club, parte justamente dessa intenção 139

Não é inoportuno fazer lembrar a identidade semântica de status e estatutos.

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de evidenciar a diferença entre ‘nós’ e os ‘outros’, criando espaços de inclusão e exclusão nitidamente inscritos na geografia social. Fundamentalmente, as sociedades são um instrumento de ‘controlo de acesso’ [gate-keeping] (Shapin 1983: 155). O exemplo da Geological Society of London pode fornecer-nos algumas pistas interessantes. O recrutamento dos elementos desta associação parece ter como base um rigoroso perfil social, a que se chamou de ‘gentleman code’. A fundação da sociedade incluía como elemento constitutivo determinante o de poder providenciar um ‘gentleman's geological dining club to other informal groups of London men of science’ (Rudwick 1985: 20). O contexto ideológico e político é evidente. O ‘amadorismo’ do recrutamento fica, por exemplo, garantido pelo preço elevado das refeições, de modo a garantir que os técnicos dos serviços geológicos ali não tenham entrada. Por outro lado, a organização do espaço, recriando o espaço da Câmara dos Comuns, visava traduzir o mesmo espírito ‘democrático’ de confrontação das opiniões científicas. O mesmo se passaria no Congresso de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas de Lisboa, onde se procedeu à ‘votação’ sobre a identidade dos vestígios ósseos da Serra da Furninha. A sociedade do século dezanove, liberal e democrática parlamentar, atribui um sentido essencializado ao voto, à contribuição individual, e à representatividade da ‘maioria’ em todos os domínios, até no da Ciência. Um aspecto muito especificamente ‘geográfico’ pode também detectar-se no recrutamento da Geological Society of London: a área da residência, que se caracterizava pela possibilidade de caminharem a pé até ao clube. Deste modo, reforçava-se espacialmente a proximidade social, de modo a garantir a ‘intellectual congeniality and institutional co-presence’. Neste caso, numa instituição que indubitavelmente produziu conhecimento científico reconhecido, a produção de ciência resultava de um sancionamento social e de uma vizinhança espacial. Algo que se assemelha muito distintamente ao programa estatutário da Academia Portuguesa de História, fundada sob a égide do Estado Novo e da afirmação ‘historicista’ do nacionalismo, cujo recrutamento obrigava serem os seus sócios moradores em Lisboa. Se pensarmos que o essencial da produção histórica da Associação sempre privilegiou o carácter ‘nacional’ das instituições – mesmo das pré-históricas – já se pode entrever o tipo de poder mutuamente constitutivo entre as 149

diversas escalas geográficas no que diz respeito à ordem ‘prática’ de produção do conhecimento científico.140

A organização espacial dos lugares de produção científica não se resume aos exemplos ilustrativos apresentados, emblemáticos de práticas que ocorrem em muitos outros lugares similares. Os trabalhos de Bruno Latour incidem especificamente sobre esta problemática. Latour dá o nome de ‘centros de controlo’ aos lugares que controlam à distância os programas de pesquisa científica.141 Um exemplo do próprio Latour são as viagens de La Pérouse e os objectivos cartográficos que lhe subjazem. A uma primeira vista a cartografia de La Pérouse pareceria apenas uma maneira de como uma ‘(…) “implicit” geography of the natives is made “explicit” by the geographers; the “local knowledge” of the savage becomes the “universal” knowledge of the cartographers’ (Latour 1987: 216). Para Latour trata-se, porém, de algo mais; aquilo a que se assiste é a uma ‘mobilização de mundos’: Through natural history museums, botanical and zoological gardens, statistical offices, and so on, the domination of distant local ethnoknowledges is effected just as efficiently as the way ‘the cartographer dominates the world that dominated La Pérouse’ [Latour 1987: 224].

Para Latour, a ‘cientificização’ do mundo não poderia levar-se a cabo sem a sua ‘maquetização’ espacial. Num certo sentido, não pode falar-se que tenha existido a Botânica enquanto não se construíram os ‘jardins botânicos’ do Rei. São estes ‘centros de controlo’ que permitem administrar localmente a pluralidade de outros

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Não pretendemos afirmar, longe disso, que, porque a historiografia da Ditadura privilegiasse alguns tipos

genéricos de narrativa histórica de timbre nacionalista, não tenha a História-ciência desenvolvido alguns dos campos de investigação com argúcia e imparcialidade epistemológica. No caso premente de Martins Sarmento, e da sua ‘desassombrada’ tese etnogénica, veja-se, por exemplo, o lúcido comentário de Vergílio Correia (1933, republ. 1934), um dos que mais bem distingue o que de verdadeiramente inovador Martins Sarmento trouxe à historiografia portuguesa. 141

O nome de ‘centro de controlo’ remete para a imagem tipificada de representação dos centros de terra das

‘viagens espaciais’. A vantagem retórica desta representação é a de nos informar de que o facto de se encontrar ‘à distância’ não impede que se produza um controlo efectivo sobre todas as fases do processo técnico a que diz respeito; de facto, qualquer resultado de um produto científico exige um controle minucioso e directo sobre a ‘espacialidade’ da sua produção (Fife e Law 1998).

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conhecimentos ‘locais’ que se vão recolhendo. Os conhecimentos científicos não correspondem, assim, a verdades universais mas apenas à universalização da verdade. O encontro de La Pérouse com o Extremo Oriente, isto é, das práticas de recolha imperialista da ciência moderna em lugares distantes ‘(…) it is not the local knowledge of the Chinese [opposed] to the universal knowledge of the European, but only two local knowledges, one of them having the shape of a network, transporting back and forth immutable mobiles at a distance’ (Latour 1987: 229).142

Em conclusão, deseja-se uma reformulação (‘pós-moderna’?) do conceito de espaço, que possa dar conta dos fenómenos sociais-científicos a várias escalas. A determinação da escala apropriada de reconhecimento do carácter ‘fixado’ da produção científica parece ser mesmo o ponto mais importante dessa reformulação. Só a sobreposição das escalas presentes num determinado ‘sítio’ científico permitirá reconhecer todos os fenómenos sociais que são relevantes na produção de conhecimento. Ao contrário do que a tradição estritamente ‘geográfica’ da Modernidade consagrou (com origem na ciência geográfica dos gregos), o espaço é fundamentalmente opaco. O espaço tem de ser considerado, de acordo com a expressão de Thrift, como ‘reservas de conhecimento’, disponíveis a diversas e multiformes modos de curiosidade e científica. E também de responsabilidade; a simples consideração das questões de ‘género’ traz para a interpretação do espaço a metade da humanidade, a feminina (para além de outras minorias ‘realmente’ minoritárias) que não estava presente, por exemplo, no ‘gentlemen code’ de produção científica do início do século dezanove.

Depois das considerações anteriores estamos agora em condições de apresentar os contornos de uma Geografia Cultural da História da Arqueologia e, especificamente, da

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Tal como Latour, George Basalla também incidiu a sua atenção no carácter de ‘mobilidade’ da Ciência da

Modernidade, isto é na capacidade de reprodução ‘maquetizada’ do mundo do imperialismo. O trabalho de Basalla tem vindo a ser progressivamente enriquecido através de reavaliações e reelaborações que põem em destaque o carácter de reciprocidade das relações científicas imperiais. Em todos estes exemplos, contudo, o carácter ‘geográfico’ do circuito de circulação é destacado. E de entre todos, o mais evidente talvez seja o ‘arquivo vitoriano’ que ‘appears as a prototype for a global system of domination through circulation, an apparatus for controlling territory by producing, distributing, and consuming information about it’ (Richards 1993: 17).

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historiografia da tradição de investigação de Martins Sarmento. É relativamente comum a expressão de uma ‘História da Arqueologia’, já o sendo menos a de uma ‘Geografia Histórica da Arqueologia’. É neste espaço intersticial comum às duas disciplinas, a Geografia e a Arqueologia, que pretendemos estabelecer os contornos dominantes do nosso trabalho. Não são abundantes os exemplos da incorporação de uma ‘inflexão geográfica’ nos estudos da História da Arqueologia, pelo menos de modo a considerar os efeitos propriamente constitutivos dos lugares e do espaço na produção científica. Por isso, a nossa proposta é contribuir para uma tradição de investigação que já tem tempo em outros campos da História. Pela própria natureza da abordagem a que nos propomos não é de esperar da nossa parte a criação de ‘paisagens muradas’ na concepção da historiografia da arqueologia portuguesa e especificamente da ‘cultura castreja’. Creio mesmo que os exemplos que se fundamentam em inclusões e exclusões desse género estão afinal a incorporar-se do poder constitutivo, social e político, do seu ‘lugar disciplinar’.

A historiografia da Arqueologia tem, desde logo, uma tendência para ser construída dentro de fronteiras nacionais que podem, em muitos casos, criar uma artificialização sociológica da análise da investigação. Os próprios manuais de divulgação seguem esta tendência. É quase desnecessário sublinhar como este tipo de restrições ‘nacionais’ e ‘regionais’ abundam na Historiografia. Estas abordagens têm ainda um efeito complementar de distorção da análise histórica. São apresentadas de um modo essencialista, determinando como válidas apenas algumas formulações do estudo arqueológico do passado, e presentista, narrando a sua concatenação como se se tratasse de uma desenvolução de um projecto articulado evolucionista. Porém, o modo como de facto o espaço regional ou nacional, do ponto de vista político e social, interfere com a produção científica, esse, na maioria dos casos, fica por examinar. Uma Historiografia que se assuma profundamente ‘geográfica’ terá necessariamente de ser diferente, passando mesmo por abandonar os pressupostos normativos da história teleológica, para fixar a atenção nos elementos mais ‘localizados’ e contingentes que dão forma a uma prática científica contextualizada, a partir do escrutínio do modo como as teorias e hipóteses científicas, as representações do Passado e as escolas de pensamento partilhado detêm um contexto intelectual, uma difusão espacial e um 152

estacionamento físico concretos. As teorias são sempre feitas por alguém e em algum lugar e não se podem compreender inteiramente fora desse contexto de autorização e localização. Trata-se, fundamentalmente, de evitar a criação de ‘sinédoques excessivas’ que pretendem, a partir de um pequeno (ou grande) número de exemplos locais, inferir a essência de um ‘povo’ ou de uma ‘região’. Aplicamos também à realidade arqueológica o que Geertz afirmou para no domínio da Antropologia: The notion that one can find the essence of national societies, civilizations, great religions or whatever summed up and simplified in so-called ‘typical’ small towns and villages is palpable non-sense [Geertz 1973: 22].

Em toda a historiografia de Martins Sarmento, e, de um modo geral, no programa de investigação da ‘cultura castreja’, é possível detectar várias expressões deste tipo de sinédoque excessiva: desde logo, o poder fixador de Briteiros e Sabroso em Martins Sarmento mas, também, a ‘genealogia’ de Teodósio, duque de Bragança, a formulação ‘linguística’ de Leite de Vasconcelos ou o ‘desvario antropo-sociológico’ de Mendes Correia, para apenas citar os primeiros tempos do programa referido, alguns dos quais não puderam resistir à usura do tempo epistemológico. A ‘Lusitânia’ de Martins Sarmento, em termos de uma ‘filiação’ geo-historiográfica em Portugal, pode considerar-se como uma etapa intermédia entre a atribuição ‘genealogista’ própria de uma historiografia dos ‘grandes senhores’, dentro da qual representa uma ‘classe’, e uma ‘republicana’, no sentido romano do termo, em que pertence já a uma geografia determinada (cf. os mapas da figura seguinte). Uma história do conhecimento arqueológico, como a que queremos contribuir com este trabalho, deve, como princípio, rejeitar qualquer tentação presentista e essencialista. A historiografia da ‘cultura castreja’ é pródiga, como qualquer outra tradição de historiografia, em processos de ‘controlo de acesso’ [gate-keeping]. A definição do seu território teórico (e até mesmo cartográfico) é tão pouco inocente como a ‘nominação’ de que Carter fala, no contexto da colonização (linguística) da terra Australis incognita.143 143

O papel da Geografia como ciência especialmente vocacionada com a relação colonial não se extingue nas

viagens de Cook aos mares do sul, nem à descoberta da Austrália. Contudo, este é de facto um campo especialmente

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Figura 2 – ‘Lusitânia’ como construção geo-historiográfica Lugar de musealização das epígrafes dedicadas a divindades indígenas e evolução do ‘sentido de lugar’ e da geo-historiografia do programa de investigação da Lusitânia proto-histórica: 1) Séc. XVI: Igrejas da Boa-Nova (Terena) e do Convento dos Agostinhos (Vila Viçosa); 2) 1880: Museu da Sociedade Martins Sarmento; 3) 1905: Museu Etnológico Português. Fonte: Pimenta 2004. Servimo-nos destes mapas de modo a servir de ilustração do poder estruturante do lugar da prática científica na esfera metaparadigmática das teorias etnogénicas do Passado: a cada ordem ‘espacial’ de acumulação de vestígios materiais (Teodósio de Bragança, Martins Sarmento, Leite de Vasconcelos) corresponde uma diferente concepção ‘geográfica’ da Lusitânia.

Também a ‘cultura castreja’ é um processo histórico longo de ‘nominação’ arqueológica, uma terra incognita, neste caso o noroeste da Península Ibérica ao longo do primeiro milénio a.C.. A tradição de investigação da ‘cultura castreja’ poderia, assim, ser considerada como um processo secular de ‘nominação’ de teorias e conceitos apto a compreender-se como a organização latouriana do centro de comando de Greenwich não pode ser desligado da institucionalização disciplinar (e progressivamente académica) de uma disciplina do ‘espaço’ a que viriam a associar-se, com toda ‘a naturalidade’, uma ciência da ‘cultura’, a Etnologia e a Antropologia, e uma que as fundisse às duas, a Arqueologia (cf. Goetzmann 1986: 44 e ss.).

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que são, num determinado espaço-tempo, postos, para usar as palavras de Carter, ‘into cultural circulation’. Deste modo, os nomes de uma Historiografia como a que defendemos não seriam apenas os usuais, Martins Sarmento, Leite de Vasconcelos, Alves Pereira, Ricardo Severo, Mendes Correia, Rui de Serpa Pinto, etc., mas, também, os que são incontornáveis na compreensão do espaço-tempo em que aqueles arqueólogos trabalharam, como, por exemplo, entre muitos, Alexandre Herculano, Consiglieri Pedroso ou Fidelino de Figueiredo, no caso da Historiografia em Portugal, ou Darwin, Spengler, ou Bergson, na Filosofia da Natureza e da História, além dos esperados Lubbock, Montelius, Kossinna ou Childe no campo do Pensamento Arqueológico internacional. Não é nossa intenção menosprezar a historiografia que se faz de carácter marcadamente intra-disciplinar. Temos, de resto, a consciência clara de que não é possível fazer História, ou mais propriamente, neste caso, Geografia Histórica, sem que se proceda à construção de um ‘povoado’ no território da teoria. Mas a questão central é que os povoados teóricos podem ser ou não ‘fortificados’, podem constituir ou não ‘paisagens muradas’. E tal como o objecto material que aqui nos serve de metáfora, o castro, foi durante muito tempo exclusivamente apresentado como inacessível, vindo depois a constatar-se que muitos dos seus exemplares desciam suavemente até aos vales ou mesmo até às praias, também a Historiografia que aqui se pretende levar a cabo se espera que seja disponível, dialogante e multiforme.144

Uma historiografia deste género exige a identificação de ‘momentos nucleares’ da teoria, que são naturalmente diferentes em cada tempo-espaço específico mas que se pretende não detenham uma relação ‘totalitária’ com as restantes instâncias de caracterização do objecto de interpretação. A preocupação de não assumirmos uma continuidade essencializada e presentista entre as várias épocas de um determinado programa científico está presente no nosso trabalho. Se a Geografia é sempre uma 144

Como já o afirmámos noutro lugar, ‘temos a profunda convicção de que embora, a maior parte das

abordagens epistemológicas da história se preocupe fundamentalmente com o viés ideológico do presente no estudo do passado, a sua recíproca parece-nos ser, apesar de tudo, mais preocupante. É preciso deveras cuidado no modo como tratamos os nossos ancestrais: do bem ou do mal que lhes fizermos, sairá a justa medida do bem e do mal que poderemos fazer a nós próprios’ (Pimenta 1996: 122).

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exploração, a Geografia Histórica é, para usar mais uma vez as palavras de Said, uma expedição à História. E deve sê-lo, porque só quando as teorias estão impregnadas da sua própria história, e são marcadas pelos momentos decisivos da sua evolução, quando as afirmações que fazemos são postas à prova pela realidade vívida dos factos históricos contingentes e particulares, das biografias e dos momentos psicológicos, conscientes ou inconscientes, do desejo, só então nos podemos libertar de dois extremos igualmente perniciosos: o dogmatismo totalitariamente egocêntrico e o cepticismo falsamente modesto.

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II – O passado do Lugar O mundo ariano que a migração ‘atlante’ havia derramado pelo Ocidente da Europa viria, segundo Martins Sarmento, a ser conhecido no Mediterrâneo oriental por ter sido com este povo que os Tírios haviam contactado, no lançamento das rotas atlânticas do mercado do estanho, metal necessário à indústria do bronze, e cujo comércio estes povos ocidentais dominariam: Sobre este mundo misterioso, que as ciências arqueológicas forcejam ressuscitar, poderiam lançar uma viva luz os documentos fenícios. É sem dúvida alguma com estas mesmas populações pré-célticas, e dominantes na vasta zona dos dólmens, que do século XII em diante começam a lidar os tírios no seu comércio com o país do estanho e do âmbar. Infelizmente este povo é o menos comunicativo da terra, e a sua reserva parece obedecer além disso a um cálculo de mercador, que lucra em envolver no maior mistério a fonte de riquezas incalculáveis que quer monopolizar. Afora o documento do século VI [a Ora maritima], que um verdadeiro milagre nos salvou, as informações sobre o Ocidente que devemos aos fenícios, andam dispersas e desfiguradas pelos mitógrafos e outros escritores antigos, sendo ainda um desideratum o destrinço e a colecção destes materiais, feito com a crítica severa que eles estão exigindo. Para alguns investigadores, por exemplo, Albion e Dercynus, filhos de Neptuno, Ligus e Bergion, adversários de Hércules, nada mais são que os insulares do mar do norte e outros povos do noroeste da Europa, que receberam pouco amigavelmente a primeira visita dos filhos de Melkart. [Sarmento 1880a: 51-2]

Os Argonautas (1887) são um dos elementos mais importantes da obra de Martins Sarmento, e certamente o mais extenso. Neste trabalho, o autor propõe aquela que será a mais arrojada de todas as suas hipóteses, diríamos mesmo proposições científicas, uma vez que, do seu ponto de vista, são inúmeras as demonstrações que a justificam e provam como válida – referimo-nos à sua interpretação das narrativas épicas dos Gregos como testemunhos de uma geografia fenícia que daria conta da ‘primeira viagem’ dos Tírios ao norte da Europa, por volta do século doze. Neste contexto, Martins Sarmento irá propor uma análise de conteúdo dos textos que se referem a várias lendas gregas, de modo a identificar os elementos recorrentes que permitam afirmar que são todas elas, 157

afinal, versões de uma única narrativa. Da importância no contexto da sua obra, tem-se plena consciência, quer pela profundidade da análise, quer pela extensão do texto; cremos mesmo que o próprio autor a quis significativamente afirmar dessa maneira, quando a dedica à ‘Sociedade Martins Sarmento, especialmente aos seus sócios fundadores’. É a obra que, de certo modo, ‘cumpre’ a historiografia de Martins Sarmento, a vários níveis, e de que é ao mesmo tempo remate e símbolo. A evidente consciência que o autor detém do carácter ‘desassombrado’ de uma tal proposição é bem expressa na ‘geografia retórica’ de oposição que o autor faz gravar no frontispício da obra: ‘Os Argonautas – Subsídios para a História do Ocidente’. Pela sua data, Os Argonautas intercalam-se entre as duas versões do estudo do autor sobre a Ora maritima de Avieno (1880 e 1896). As diferenças entre elas explicam-se justamente pela evolução paradigmática que o estudo das lendas gregas irá introduzir no espírito do autor. Na primeira versão da Ora maritima, ainda o conjunto de referências, sobretudo de toponímia sacra do Ocidente, era atribuído à colonização fenícia; na obra de 1896, já são consideradas como fazendo parte de um sistema mitológico anterior, ‘ligúrico’, que os Fenícios haviam encontrado já organizado no Ocidente, e de que teriam sido apenas vulgarizadores. A evolução paradigmática corresponde justamente na identificação de uma ‘voz’ narrativa fenícia que transmite um mundo económico e ideológico ligúrico, que lhe é inteiramente alheio. É um movimento no sentido da total ‘arianização’ da geografia antiga, a expensas de uma eventual filiação semita que ainda chegou a habitar parcelarmente a obra de Martins Sarmento. Do ponto de vista da geo-historiografia de Martins Sarmento, esta é a obra que mais concorre aos elementos que a constituem; porque é a que mais directamente afronta a geo-historiografia sua contemporânea, nomeadamente o filo-helenismo alemão, porque é a que inclui o Entre-Douro-e-Minho no passado mais ‘respeitável’ e, finalmente, porque, no contexto da psicologia da pesquisa, a que fecha o círculo da biografia do próprio Martins Sarmento, autor que, se por um lado fora dos primeiros a expulsar os ‘Gregos’ do passado e História de Portugal, lugares para que tinham sido trazidos pela tradição ‘humanista’ e continuada pelos académicos que se seguiram, será agora quem

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de novo resgata a sua presença nos tempos da Idade do Bronze.145 Com Os Argonautas, e a biunivocidade de interpretação de Martins Sarmento, o Ocidente servirá de cenário às aventuras dos companheiros de Jasão, além de que, e talvez mais importante, porque se exprime na deriva do desejo inconsciente, quando olhamos com atenção para o cenário que o autor nos descreve, vemos que Portugal é afinal uma ‘geografia imaginária micénica’! II. 1. A leitura intertextual d’Os Argonautas Os Argonautas de Martins Sarmento serão o pretexto (no sentido literal de ‘pré-texto’) a partir do qual não só designaremos os elementos constituintes da sua teoria etnogénica do Passado, como interpretaremos o modo como esses elementos são especialmente convocados no presente. As razões de preferência desta obra (e não de outra das que pertencem à bibliografia científica de Martins Sarmento – e que contêm títulos tão importantes quanto Os Lusitanos [1880], Lusitanos, Lígures e Celtas [1891-1894], as duas referidas versões do estudo crítico da Ora maritima, etc.) prendem-se com alguns atributos que apenas ela possui, e sem as quais ficaria incompletamente caracterizada a análise geo-historiográfica deste investigador. Antes, fomos já referindo algumas delas, porém, gostaríamos, neste momento de as sistematizar de modo a não restarem dúvidas da necessidade de consignar a’Os Argonautas o privilégio de ‘obra primaríssima’ da hermenêutica sarmentiana. Os Argonautas de Martins Sarmento são, em muitas dimensões, uma obra sui generis, mas desta designação recolhemos nós, não apenas o sentido comum de ‘originalidade’ mas também o conceito associado de ‘autoria’. De facto, nenhuma obra de Martins Sarmento possui, como esta, um carácter ‘estilístico’ tão acentuado, i.e.,

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As versões materialistas da história da Ciência tendem a deprimir o alcance que os universos culturais de

representação possam ter na organização do produto científico final. E, contudo, existem elementos suficientes associados a este campo do saber que permitem aferir do poder efectivo da esfera cultural na organização individual da relação com o objecto de estudo. Veja-se em Crone (1970: 19 e ss.), por exemplo, como as diferenças entre dois indivíduos contemporâneos, como são Humboldt e Ritter, são de tal modo abissais, e tendo origem na organização propriamente ideológica da respectiva psicologia de pesquisa, que mais parecem pertencer ‘a dois mundos inteiramente diferentes’.

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nenhuma nos parece ‘inscrever’ em texto tão perfeitamente a inefabilidade existencial que é afinal a identidade do seu próprio autor. E fá-lo, como veremos, por ‘concreção’ de características elementares que existem singularmente em muitas das suas outras obras, mas que em nenhuma outra, como nesta, convivem em tão grande número e extensão. Pela ‘quantidade’ de elementos discerníveis e pela ‘qualidade’ com que estes se expressam, esta é, de facto, a ‘obra’ de Martins Sarmento. Alguns níveis complementares de caracterização extensa e intensa desta obra nos permitirão justificar as razões por que escolhemos Os Argonautas como ur-text da obra sarmentiana. Não queremos dizer que a nossa escolha fosse a única possível; naturalmente ela obedece aos propósitos da nossa própria análise, e se esta fosse de outra natureza, necessariamente ‘requereria’ provavelmente outro texto ‘inicial’. Mas também não pensamos que esta escolha possa ser arbitrária: de facto, embora a obra de Martins Sarmento seja extensa e nela se incluam inúmeros textos que versam o tema da etnogénese da Lusitânia ‘primitiva’, nem todos adquirem a profundidade conceptual, a extensão documentada e a apresentação desassombrada de propostas interpretativas que existe na obra por nós escolhida. Outras, porém, poderiam ombrear com esta, e providenciar igualmente um campo de análise rico e fecundo: desde logo os estudos sobre a Ora maritima, especialmente a versão de 1896, que, de resto, reproduz em muitas passagens as ideias dominantes d’Os Argonautas, ou esse extraordinário libelo de polémica científica que são os ‘Lusitanos, Lígures e Celtas’. Neste último, como em nenhum outro, temos acesso à real ‘geografia’ de recepção das teorias históricas no terceiro quartel do século dezanove, assim como das regras tácitas de aceitação individual na estrutura ‘citacional’ académica a nível nacional. Em todo o caso, repetimos, nenhuma obra individualmente considerada contém em tão grande número e em modo fenomenologicamente tão intenso a presença dos elementos essenciais que configuram o ‘paradigma’ sarmentiano do passado, nesta expressão incluindo não apenas os elementos propriamente ‘científicos’, i.e., enunciados no contexto explícito da organização das ciências históricas de então, mas igualmente, o pano de fundo em que afloram e se distinguem as influências concretas da sociologia de pesquisa e do universo plenamente psicológico do autor. Vejamos, pois, quais os elementos que iremos destacar neste verdadeiro ur-text da obra sarmentiana, e 160

em que sentido, a partir dele mesmo, ele desenvolve relações conceptuais e citacionais com os restantes elementos da sua obra. Em primeiro lugar, Os Argonautas são uma das mais ‘cartográficas’ obras do autor. Este não deveria ser um elemento justificativo em si próprio para a atribuição de um ‘locus’ inicial a uma obra particular no contexto da obra global, mas admitir-se-á que a um geógrafo de formação esta especial incidência por parte do autor numa hermenêutica de ‘restituição’ da geografia antiga, possa ter aparecido como um elemento de enorme poder apelativo. Esta ‘imaginação cartográfica’ não existe apenas n’Os Argonautas. De facto, os estudos críticos da Ora maritima são, eles também, duas fases de um intenso escrutínio da geografia antiga de ‘Ophiussa’, e não desmereceriam em poder de restituição quando comparados com a obra d’Os Argonautas. E mesmo em outros artigos do autor não é impossível reconhecer a influência do ‘mapa do passado’ na organização das narrativas científicas sobre a etnogénese da Lusitânia. Porém, Os Argonautas contêm, para além de todos os traços em comum com os outros textos, uma particularidade interpretativa que não é de somenos importância e que só por si poderia bem justificar a sua escolha como fonte ‘primaríssima’ da nossa análise. É que, ao contrário da Ora maritima, as fontes escolhidas por Martins Sarmento no sentido de proceder à restituição geográfica, são convocadas numa rede muito mais apertada e fazendo referência a uma genealogia de investigação muito mais imbricada do que a do poema de Avieno. A Ora maritima é uma obra singular, e embora contasse já com uma tradição hermenêutica no tempo de Martins Sarmento, o lugar da polémica era relativo e a escala da sua restituição relativamente localizada. Os seus intérpretes coincidiam em grande parte da restituição e, tomado no todo, não ultrapassava os limites ocidentais da Europa; ao contrário, a restituição operada por Martins Sarmento no contexto da restituição da geografia ‘argonáutica’ implica uma ‘convocação’ substancialmente mais importante de elementos e pessoas do que aquela. A geografia ‘argonáutica’ de Martins Sarmento estende o seu poder de convocação às mais antigas fontes históricas da Europa, insere-as numa das tradições antiquaristas mais importantes do tempo do autor – a restituição fidedigna do ‘cenário homérico’ – e exige como ‘fundo de mapa’ toda a Europa e, ainda, as regiões adjacentes da Ásia e da 161

África. A restituição geográfica d’Os Argonautas será, em Martins Sarmento, a versão cartográfica da narrativa inteira da Antiguidade. Em segundo lugar, não podemos deixar de referir o ‘poder de convocação’ da obra d’Os Argonautas. Já fizemos referência à extensão ‘cartográfica’ da sua restituição histórica; o seu ‘poder de convocação’, porém, não se esgota aí. A obra Os Argonautas de Martins Sarmento exibe uma estrutura que revela bem especificamente os ‘níveis’ diversos de sobreposição conceptual, geográfica e histórica que determinam a sua função estilística no contexto da obra do autor. Os primeiros capítulos são principalmente ‘hermenêuticos’, e neles o investigador pretende não apenas preencher o ‘fundo de mapa’ da Europa com as narrativas das ‘lendas gregas’, que considera pertinentes para a compreensão ‘positiva’ do passado – e é com este intuito que reproduz, com uma enorme minúcia e riqueza de pormenores, as lendas relativas às aventuras de Jasão, Ulisses e Hércules –, como também isolar os elementos de ‘crispação hermenêutica’ mais significativos que lhe permitirão sustentar a contradição interna da estrutura e ordem narrativa daquelas diversas efabulações. Este propósito, atinge-o o autor de duas maneiras diversas mas complementares: pela ‘redução ao absurdo’ das séries internas de contradições em cada narrativa e pela comparação ‘cruzada’ entre narrativas diferentes que, considera serem afinal versões diferentes de uma mesma viagem concreta. Ao sobrepor as muitas versões presentes (mas mais especialmente três, os Trabalhos de Hércules, as Deambulações de Ulisses e, centralmente, a viagem dos Argonautas), Martins Sarmento fará uso de uma estratégia hermenêutica muito particular: usará os elemento de contradição propriamente ‘interna’ de cada uma das narrativas como sendo equivalentes ‘directos’ do mesmo passo narrativo das outras lendas com que se confronta. Os capítulos finais excedem largamente esta preocupação hermenêutica inicial e servirão para o autor enunciar a sua própria tese etnogénica da Lusitânia primitiva (e, a uma escala mais abrangente, de toda a Europa): é a este nível que a qualidade ‘genérica’ ou estilística da sua obra adquire mais proficiência e faz da obra d’Os Argonautas uma especialmente natural candidata ao estatuto de ur-text. Nos capítulos finais da obra d’Os Argonautas, Martins Sarmento dedicar-se-á a sobrepor ‘cartograficamente’ as regiões ‘históricas’, ‘linguísticas’ e ‘arqueológicas’ da Europa, que lhe foram providenciadas pela participação elementar das ‘objectividades’ 162

de cada uma das disciplinas correspondentes, a História antiga, a Linguística descritiva e histórica, a Arqueologia pré-histórica e proto-histórica, no fundo de mapa recortado pela restituição ‘atlantista’ da geografia homérica. A fixação, ‘ponto a ponto’ dos elementos de todas estas ‘regiões’ conceptuais provê a obra, no todo, de uma carga retórica, mesmo considerando-a ao nível ‘positivo’ da demonstração científica, difícil de recusar. Os Argonautas são, em termos estritamente ‘genéricos’, uma expressão inegável de ‘demonstrabilidade’ científica, e nela toma especial relevo a ‘contiguidade’ cartográfica como expressão argumentativa da ‘continuidade histórica’ que o autor pretende a todo o custo demonstrar. Um terceiro aspecto ‘genérico’ da obra de Martins Sarmento que torna irrecusável o estatuto de ‘pré-texto’ a’Os Argonautas é a sua qualidade de ‘romance histórico’. Só por si, este atributo diferencia-a nitidamente de todas as suas outras obras ‘científicas’, pois em nenhuma outra esta característica é levada tão longe como ali. Num certo sentido, esta será mesmo a ‘grandeza e a miséria’ deste trabalho, pois o risco de entretecer, quer elementos lendários numa narrativa ‘histórica’, quer pequenas ‘estórias’ individuais das personagens com o fluir dos eventos colectivos da longue durée da história antiga, se revela, por um lado, uma das mais contribuições do investigador ao nível da ‘filosofia da história’, não deixa, por outro, de expor decisivamente o flanco às críticas ‘cientificistas’ dos historiadores seus contemporâneos.146 A possibilidade de apresentação da obra histórica sob a forma ficcional não é, evidentemente, sem contexto no tempo de Martins Sarmento. O próprio Herculano havia defendido a sua prática, a exemplo do que fazia alguma historiografia europeia da primeira metade do século dezanove. Porém, a retórica ‘estilística’ de apresentação de um romance histórico era, para o ‘grave historiador’, oposta à que Martins Sarmento estabelece na sua obra Os Argonautas: se, para Herculano, o ‘romance histórico’ era propriamente um ‘romance’ com um fundo de verosimilhança (e até documentação) histórica, em Martins Sarmento esta fusão é total, e nunca se compreende inteiramente até que extensão, por exemplo, Jasão e Medeia são personagens de uma lenda ou actores concretos de eventos históricos de grande alcance (cf. Reis 1982: 104). Para Martins

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Para uma crítica equivalente da filosofia da história em Oliveira Martins, cf. Maurício (1995).

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Sarmento, pelo menos no que concerne Os Argonautas, e ao contrário de Herculano, um ‘romance histórico’ é propriamente história. Finalmente, não podemos deixar de fazer referência a uma das características centrais da geo-historiografia de Martins Sarmento, um dos alicerces mais fundos da ordem metaparadigmática de estruturação da sua teoria etnogénica da Lusitânia, e que é, a nosso ver, o ‘motor imóvel’ da erotica archaeologica que habita a sua obra – o filo-helenismo. Gostaríamos de demonstrar inequivocamente, no termo deste trabalho, aquela que é para nós a principal premissa da análise geo-historiográfica da obra de Martins Sarmento e, especialmente, da sua teoria etnogénica dos Lusitanos – a vontade de incluir o território que viria a ser Portugal na esfera cultural do helenismo. A prová-lo estaria, também, a desassombrada estratégia hermenêutica que está por trás do esforço de redacção d’Os Argonautas – a transposição inteira da geografia mediterrânica das narrativas lendárias da antiga Grécia para o Atlântico. Porque, de facto, se isolarmos o travejamento principal da obra e o aligeirarmos da prodigalidade de elementos descritivos meramente adjacentes, essa é a visão que podemos ter do carácter essencial da obra: Martins Sarmento convoca Hércules e os seus companheiros, Ulisses e os seus marinheiros, Jasão e toda a ‘assembleia’ dos Argonautas a navegar nas costas da Lusitânia. A determinação filo-helénica de Martins Sarmento tem expressão em outros elementos da sua obra: está presente na crítica ‘anti-humanista’ das geografias lusitanas dos monges alcobacenses; é o pano de fundo dominante no primeiro, e em certo sentido o mais importante trabalho da sua ‘obra científica’, aquele que o autor escreve para uma recepção académica internacional – Os Lusitanos (1880); será o tema de um dos últimos trabalhos a publicar no fim da vida, em 1899, defendendo a presença da ‘Arte Micénica no Noroeste da Espanha’. Porém, em nenhum outro lugar esse mesmo filo-helenismo adquire ‘espessura’ metaparadigmática que se reconhece na obra d’Os Argonautas; nos outros seus trabalhos a presença ‘grega’ na Península Ibérica ‘explica-se’ e ‘demonstra-se’ – n’Os Argonautas, saboreia-se, escuta-se, sente-se e vive-se! Existe uma contradição elementar (a que no lugar respectivo faremos referência) no quadro de ‘restituição de longiquidade’ que Martins Sarmento estabelece para a ‘geografia homérica’ no Atlântico. Ela diz respeito ao facto de os marinheiros 164

‘argonautas’ que para o investigador são fenícios e, portanto, semitas, procederem ao enterramento dos seus companheiros mortos em viagem em mamoas, após serem os seus corpos reduzidos a cinzas em piras, como era timbre dos povos arianos. É uma contradição de tal modo ‘áspera’ que custa a crer que um leitor erudito como era Martins Sarmento não tenha intimamente dado por ela. Este é um dos níveis em que um crítico ‘positivista’ da obra de Martins Sarmento gostaria de focar todo o seu ‘aparato’ lógico de desmantelamento do tema e dos propósitos de investigação daquele investigador; mas, claro está, um crítico puramente ‘positivista’ nada tem a ganhar com a leitura da obra Os Argonautas de Martins Sarmento, e talvez seja por isso que esta obra é regularmente ignorada pela maior parte dos seus biógrafos científicos. Nós gostaríamos de contribuir para uma visão diferente do que é a contribuição de Martins Sarmento no contexto das ideias do seu tempo, da ‘cultura’ do seu lugar, da mentalidade do seu século. Não deixaremos de esmiuçar e tentar isolar elementos ‘concretos’ (‘científicos’) da sua obra; mas, com o intuito de respeitar elementos ‘de sublime’ que a sua obra encerra, iremos permitir que um fundo metafísico geral não abandone nunca a nossa análise – porque em Martins Sarmento existe uma recusa tão terminante da esterilidade, uma tão forte perseverança de convicções propriamente científicas, um compromisso tão definitivo entre a biografia e o pensamento que fazem dele, inegavelmente, um crítico feroz da ‘Modernidade’, e um venerando prenunciador da estética e ética da cientificidade contemporânea. Dentro do quadro geral da produção científica de Martins Sarmento, Os Argonautas, obra de 1887, detém, como nenhuma outra das suas obras considerada particularmente, o maior número de elementos, e em mais qualidade, do que é o conjunto de pessoas, lugares, ideias e materiais que o autor convoca no sentido de produzir uma (pré-)História do Ocidente. As referências bibliográficas, usadas como crítica do pano de fundo em que consiste a restituição da ‘geografia argonáutica, permitem-nos que ver qual a historiografia de que Martins Sarmento fazia uso preferencial, e assim mergulhar na verdadeira ‘biblioteca sarmentiana’, para usarmos uma expressão de um dos principais biógrafos científicos de Martins Sarmento – Mário Cardoso. De facto, uma ‘biblioteca’, mais do que uma realidade material, o conjunto das obras que o fundo da Sociedade Martins Sarmento contém, é uma ‘biografia científica’, i.e., um conjunto diferencial de escolhas 165

e filiações que só a leitura circunstanciada da obra de um investigador pode revelar. No caso de Martins Sarmento, iremos ver como sob a seca denominação das referências bibliográficas e das citações, surgem os seus verdadeiros ‘heróis científicos’, aqueles com que o autor se identifica; entre eles cremos que brilham, de um modo especial, os ‘românticos’ da fase pré-darwiniana da historiografia europeia – Grimm, Davies, Jubainville ou, ‘o maior de todos’, Belloguet, enquanto que os autores da geração seguinte, Mortillet, Lubbock, Bertrand, Reinach, ainda que merecedores de enorme respeito e consideração por parte de Martins Sarmento, não detêm, no seu espírito, o lugar de eleição dos primeiros.

1) A convocação de ‘pessoas’ por parte do investigador Martins Sarmento não se restringe, contudo, aos autores dos livros da sua biblioteca, mas igualmente a pessoas ‘de carne e osso’ que vão surgindo em Guimarães e em Briteiros, seus hóspedes, homens de ciência que o investigador vai aproximando e tornando cúmplices do seu próprio projecto. São especialmente dois os momentos em que esta convocação toma um aspecto especialmente ‘científico’, no contexto da produção do Passado por parte de Martins Sarmento. Referimo-nos, naturalmente, às duas grandes reuniões de ‘sábios’ com o intuito de visitar as suas exumações arqueológicas: a conferência ‘nacional’ de 1877 e a ‘internacional’ de 1880. Do ponto de vista de uma geo-historiografia científica de Martins Sarmento, estes são dois elementos que têm necessariamente de ser tidos em conta (Lemos 1985, 1988). Existem ainda dois conjuntos de ‘pessoas’ que devem ser valorizados quando se pretende dotar a geo-historiografia de Martins Sarmento de uma ‘topografia social’ heuristicamente eficiente: a rede de contactos pessoais de escala regional, e a sua relação com os ‘populares’. Não se pode, de facto, compreender o tipo de acumulação de materiais arqueológicos e tradições populares que estão no cerne da teoria etnogénica do Passado por parte de Martins Sarmento, se não se tiver em conta o modo como aquela acumulação tinha subjacente a recolha, em cada local do Entre-Douro-e-Minho, e até de mais longe, levada a cabo por cada um dos inúmeros amigos e familiares de Martins Sarmento. A Arqueologia deste investigador é verdadeiramente o reflexo de um certo modo ‘antiquário’ de conviver com os vestígios arqueológicos que animava toda a região, naquela época, um certo grupo social associado a um determinado gentleman 166

code, que o Romantismo, como modelo cultural, e a fruição dos tempos livres, como resultado da evolução técnica e social, tornaria um verdadeiro speculum das relações sociais e científicas ao longo de todo o século dezanove, mas especialmente da sua primeira parte pré-darwiniana. Neste sentido, Martins Sarmento está longe de ser um caso isolado no seu tempo e no seu lugar. Existe um ‘antiquário’ em cada aldeia e vila que o investigador visita em busca dos materiais que pretende recolher – apenas, Martins Sarmento, desenvolveu mais longamente essa actividade e a ela dedicou tanto do seu tempo e, não menos importante, da sua fortuna, que o resultado dessa acumulação foi verdadeiramente singular. A relação que Martins Sarmento estabelecia com as pessoas de condição modesta, lavradores, almocreves, muitos idosos, a maior parte das vezes pessoas iletradas, mas fontes preferenciais das lendas populares que a tradição oral havia ‘guardado’, mostra, de uma forma absolutamente nítida, a representação que o investigador detinha do ‘povo’, e do modo como ela influenciava decisivamente a sua própria constituição da teoria etnogénica do Passado. Dentro de uma relação de classe claramente enunciada, este ‘povo’ de Martins Sarmento é o detentor do não-Tempo. Todas as suas narrativas, tirando alguns elementos de ‘cristianização’, forçados pela aculturação que Igreja foi promovendo ao longo dos séculos, são, para Martins Sarmento, a expressão pura da esfera religiosa, ideológica e simbólica da ‘arianidade’ inicial, da matriz original do povoamento milenar do Ocidente pelas ‘migrações vindas do Oriente’. Ainda que este seja um traço comum da ciência etnológica europeia daquele tempo, não deixa de ser impressionante, ainda hoje, o tipo de negação ‘histórica’ que é atribuído por estes investigadores a uma camada tão significativa da população. Todos estes ‘populares’, habitando os lugares excêntricos à vida urbana, são vistos como representantes ‘actuais’ dos habitantes de há três milénios atrás! É exactamente o mesmo tipo de transferência cultural que podemos ver, à escala global, entre os povos ‘primitivos’ contemporâneos, que a colonização da América, África e Ásia ia progressivamente designando, e os representantes pré-históricos dos mesmos europeus que a Arqueologia ia revelando desde o horizonte do Paleolítico. O grande alcance cultural desta estratégia conceptual resume-se, afinal, a uma diferenciação essencializada dos elementos dominantes de uma classe burguesa, urbana, europeia e 167

branca, em relação a todas as esferas de convívio eventual: os não-urbanos, não-europeus e não-brancos. Também em Martins Sarmento podemos ver todas as características essenciais desta relação cultural de ‘alterização’ essencializada. Onde esta estratégia revela mais nitidamente os pontos de apoio da ideologia de que parte, é o carácter ‘esquizóide’ da relação que é representada pelos investigadores deste mesmo ‘povo’ com as suas ‘antiguidades’. Se por um lado, este ‘povo’ é o lugar essencializado da verdadeira origem da espiritualidade e até da nacionalidade do território a que pertencem – e por isso mesmo podemos ver Martins Sarmento a deplorar a sobreposição de elementos cristãos nas narrativas que ele acredita provirem directamente dos migrantes arianos iniciais –, por outro lado, é-lhes inteiramente negada uma relação directa com os materiais, os vestígios arqueológicos, que seriam os representantes concretos dessa mesma esfera espiritual. Para Martins Sarmento, os populares são os ‘terríveis caçadores de tesouros’, ciprianistas sem qualquer formação, que ‘desejam apenas, na avidez do lucro imediato’, destruir os depósitos de materiais associados a mamoas, castros e dólmens.147 É a este nível, cremos nós, que melhor se desenha o papel específico do ‘arqueólogo’, perfil cultural e social em ascensão ao longo de todo o século dezanove, cujas origens propriamente ‘românticas’ mais o denunciam – o ‘arqueólogo’ é o último elo desta grande cadeia de essencialização do Tempo: contra a onda de industrialização e urbanização que progressivamente corre toda a Europa, resgatar a essência do Passado diferencial; contra os ‘populares’, detentores da tradição oral, o único que, pelo estudo positivo de todas as ciências a que os não-‘sábios’ não podem ter acesso – a Linguística, a Mitologia, a História, a Arqueologia, etc. – pode restituir o Passado de um modo inquestionável e permitir vê-lo refulgir no presente em toda a sua inteira verdade. Não é demais advertir que este lugar ‘intersticial’ detido pelo arqueólogo romântico, como é Martins Sarmento, se adequa notavelmente a uma mesma ‘intersticialidade’ que lhe é garantida pela sua condição dupla de ‘senhor rural’: da primeira condição advém a 147

Convém referir que, apesar da ‘nacionalização’ ou ‘regionalização’ a que os ‘castros’ vão ser sujeitos na

tradição geo-historiográfica arqueológica portuguesa (e galega), desde os inícios do estabelecimento de uma disciplina científica do Passado, estes povoados fortificados não diferem na sua posição, estruturação e aspecto, de muitos outros exemplares da Península Ibérica e da Europa (Álvarez Sanchís 1999: 55-57).

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facilidade de convivência com os centros de produção científica; da segunda, a facilidade em recolher os materiais, as tradições e a essencialização de um certo sense of place associado às ruínas que se visitam. Como teremos oportunidade de ver, também em Martins Sarmento habita uma espécie de ‘autoridade local’, que o autor faz questão de sublinhar por diversas vezes, e pela qual faz questão de diminuir a autoridade ‘de sistema’ que, na sua opinião, habita as grandes teorias que fazem moda pela Europa do seu tempo.

2) Em relação às ideias do seu tempo, Martins Sarmento é prisioneiro, como qualquer outro investigador, das modas interpretativas do momento em que vive e do lugar em que habita. Ser europeu em meados do século dezanove, significa participar de um mundo ideológico específico, cujas representações culturais se insinuam igualmente na produção científica, do mesmo modo que o fazem na vida artística ou nas relações pessoais. Não existe maior preconceito do que pensar que a Ciência, porque detém mecanismos de salvaguarda de uma certa caracterização interna baseada na positividade e na universalidade das suas proposições, seja de algum modo impermeável à presença de elementos propriamente culturais resultantes da esfera ideológica própria do tempo e espaço em que é produzida. Basta recordarmos a incidência que a origem ‘oriental’ da civilização deteve na interpretação arqueológica dos séculos dezanove e vinte, e compararmos com igual incidência que se fez sentir na produção dos espectáculos que passaram na Ópera de Paris pela mesma época, para termos uma noção muito clara de como uma e outra têm origem numa esfera ‘orientalista’ comum, que desde a invasão do Egipto, por parte de Napoleão, vinha a consumir a paisagem de representação e alteridade do Passado entre os intelectuais europeus oitocentistas. Associado ao ‘orientalismo’ romântico, que atravessou incólume todo o século dezanove, uma outra ideia surge, no mesmo século, e virá a deter uma importância igual ou superior àquela: a ideia de ‘evolução’. Os dois conceitos aqui referidos, a origem oriental e o carácter endémico da evolução da Humanidade, não são antitéticas, e ver-se-á como o século dezanove se esforçará por produzir interessantes sínteses das duas; numa versão ainda de fundo idealista, é justamente uma destas sínteses que podemos adivinhar na filosofia histórica hegeliana. 169

O conceito de ‘evolução’ admite diversas expressões entre as várias disciplinas científicas do século dezanove. A História da Ciência tendeu sempre a dar maior visibilidade à ‘versão darwiniana’ da evolução e selecção natural, mas a verdade é que com ela co-existiram, como o demonstram inúmeros estudos algo revisionistas sobre o tema, muitas outras versões que detinham como lugar central das suas proposições a capacidade de a Humanidade progredir em ritmos diferenciais, i.e., tendo como resultado que os povos que a constituem não sejam entre si comparáveis e, portanto, com um grau de ‘responsabilidade política’ muito diversa, elemento conceptual muitíssimo adequado para dar conta da situação colonial e imperial que o mesmo século dezanove vê agudizar-se. Se a ideia de evolução é quase universal no pensamento europeu do século dezanove e inícios do século vinte, existem outras que, de âmbito mais específico, detêm igualmente uma grande visibilidade no contexto em que Martins Sarmento se insere. Uma delas diz respeito ao liberalismo e à correlativa crença no poder do indivíduo considerado enquanto tal. A este respeito, o liberalismo romântico é um exemplo claríssimo de transição entre o mundo teísta da religião natural dos séculos que o precedem e os diversos horizontes socializantes que se lhe seguem. Intercalado entre as últimas expressões de uma teleologia do desígnio e da harmonia divina, característica de quase todo o Iluminismo, mesmo do de fundo mais inequivocamente naturalista (como o que anima o Cosmos de Humboldt),148 e os movimentos de massas que dão o tom aos momentos finais do século dezanove, cuja expressão mais inequívoca será, já na segunda década do século vinte, a revolução russa de Outubro, o credo liberal mantém 148

Não se pode compreender a obra de Humboldt, nem complementarmente a psicologia de pesquisa que anima

a sua epistemologia da Natureza, sem que se faça menção à ‘ordem harmoniosa’ que para os primeiros românticos se podia entrever em tudo o que rodeava o ser humano. Não é tanto a insinuação da divindade na criação, mas talvez mais da criação na divindade: tudo se passa como se o espírito humano, ‘sublimado’ pela ordem, número e hierarquia que encontra na Natureza não possa prescindir de uma entidade que lhe dê sentido e finalidade. Estamos, assim, muito longe da concepção ‘violenta’ e ‘competitiva’ que virá a animar as interpretações darwinistas das décadas finais do mesmo século. Veja-se o que nos diz sobre este aspecto o próprio Humboldt: ‘I have this crazy notion to depict in a single work the entire material universe, all that we know of the phenomena of heaven and earth, from the nebulae of stars to the geography of mosses and granite rock – and in a vivid style that will stimulate and elicit feeling (…). Every great and important idea in my writing should here be registered side by side with facts. It should portray an epoch in the spiritual genesis of mankind [s.n.] – in the knowledge of nature’ (Humboldt apud Botting 1973: 257).

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uma intrínseca capacidade de acreditar na ventura da acção humana individual que, na História da Ciência, associa um cunho muito particular de isolacionismo aos ‘sábios’ do século dezanove (cf. Matos 1878: 31). Não é que não exista investigação em equipa (e algumas de grande dimensão e extensão de trabalho; basta pensarmos na que Mommsen reúne, com o intuito de proceder ao levantamento do corpo epigráfico em todas as regiões da Europa dominadas por Roma), apenas afirmamos que existe, sobretudo no que diz respeito à ‘representação’ do trabalho do investigador, uma ideia de esforço individual, quando não assumidamente ‘solitário’. Este tipo de concepção detida sobre si próprios, leva a que estes ‘sábios’, e muito especialmente os do ‘primeiro romantismo’, favoreçam uma relação intimista com o objecto de estudo.149 É um tipo muito característico, o destes investigadores, quase todos homens, mas em cujas fileiras começam justamente a surgir também algumas mulheres, o que não pode ser alheio ao facto de o trabalho se poder justificar no âmbito individual.150 Martins Sarmento é, em todos os sentidos, um investigador solitário. É-o, desde logo, porque valoriza os longos passeios ‘wertherianos’ pela paisagem do Passado que o seu território ainda conserva, e onde recolhe os vestígios materiais e verbais da ‘arianidade’ essencializada de que se julga herdeiro. É-o também, e este aspecto não é

149

Cabe dizer que não é possível estabelecer, em Portugal, uma distinção muito nítida entre um ‘primeiro

romantismo’, pré-darwinista, teleológico ou providencialista, face a um ‘segundo romantismo’, da ‘geração de setenta’, republicano ou socialista, dotado de uma concepção evolutiva do Tempo. De facto, em muitos dos cultores do positivismo de fim-de-século corre, mais ou menos explícito, um ideal humanista de perfectibilidade que é claramente de fundo neo-lamarckiano e assim, em contradição insanável com os pressupostos da Biologia darwinista. Cf., e.g., o opúsculo de Teixeira Bastos (1878) ou o de A. S. Cordeiro em que a própria analogia ‘mecanicista’ (1882: 220 e ss.) da organização evolutiva do Tempo remete para os fundamentos metaparadigmáticos do industrialismo então dominante, e enuncia a crença ideológica de um certo ‘paraíso social’ inevitável, em que os cientistas cumpriam uma função determinante: ‘a ordem por base, o progresso por meio, a ciência por fim – eis o lema da sólida e sã filosofia (Id. 221). 150

O facto de fazermos referência a um ‘tom’ teleológico na geo-historiografia romântica não deve levar-nos a

pensar que a geração que se lhe segue não disponha igualmente o tempo romântico segundo uma ordem ‘materialmente providencialista’, passe a voluntária quase-contradição. Muito do Positivismo se tecia com considerações claramente teleológicas, admitindo como causas explicativas dos fenómenos uma ordem de ‘organização’ sintética que só o conjunto dos dados, considerados em perspectiva, poderia deixar conhecer com proximidade, ainda que nunca na totalidade. Ao reconstituir o ‘sistema da natureza’ o Homem deveria, por isso, respeitar escrupulosamente as ligações originais entre os factos, pois só a organização completa de uma ciência assim estabelecida se adequaria perfeitamente a uma ordem equivalente da Natureza e da Sociedade (J. Arriaga 1911: 8).

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menos importante, porque é um investigador ‘epistemologicamente obstinado’; ao nível paradigmático não existe mesmo uma característica mais marcante do pensamento científico de Martins Sarmento do que esta que consiste em escolher como expressão da teoria interpretativa do passado cenários em profunda contradição com os que são dominantes no seu tempo. Algumas passagens colhidas entre os seus biógrafos assinalam traços de uma personalidade que deixam antever este seu mesmo perfil de investigador obstinado. Mais, ou porque a estrutura psicológica do homem o predispusesse a isso, ou porque tal tenha surgido apenas da objectiva interpretação dos dados que ia coligindo entre mãos, chega a ser extraordinário o modo como sistematicamente Martins Sarmento opõe as suas ideias ao conjunto dos paradigmas dominantes da sua época: a geografia fenícia das lendas gregas, a fusão ‘civilizacional’ de ‘dólmens’ e ‘castros’, o ligurismo linguístico do ocidente da Península Ibérica, a longinquidade das lendas britânicas (de Gales e da Irlanda), a superficialidade da romanização, etc.

3) A relação que Martins Sarmento detém com os materiais arqueológicos que convoca para a produção da sua teoria científica do Passado deve compreender-se à luz do carácter pioneiro de escavador arqueológico em Portugal. Esta não é, claro está, a única fonte de recolha de materiais a que o investigador tem acesso – já antes nos referimos ao modo sistemático como o autor estruturou, a partir da sua rede de contactos pessoais, um levantamento e recolha de materiais de todo o Entre-Douro-e-Minho, de volume e representatividade consideráveis que, ainda hoje, constituem uma parte não negligenciável do núcleo museológico da Sociedade Martins Sarmento. Porém, os materiais arqueológicos extraídos de Sabroso e Briteiros permitirão a Martins Sarmento algo de absolutamente inovador no contexto das teorias interpretativas do passado, algo que, no domínio da historiografia portuguesa desse tempo, apenas tem paralelo na catalogação documental com que Herculano dotara a fase ‘histórica’ da História de Portugal, a partir dos Portugaliae Monumenta Historica. Tal como no caso de Herculano, Martins Sarmento dotará a fase ‘pré-histórica’ da História de Portugal de uma profundidade diferencial no Tempo e, a partir de documentos positivos, alumiará os períodos constituintes dessa evolução. 172

O que a escavação conjugada de Briteiros e Sabroso vai pela primeira vez permitir, no seu tempo, e este é ainda hoje talvez o maior título científico de Martins Sarmento, é o de reconhecer uma realidade polimorfa, dotada de grande ‘espessura’ histórica, no que até então era uma simples linha de distinção entre o mundo romano e pré-romano, e ainda dentro deste; a dupla articulação de um ‘Sabroso’ não-romano com uma ‘Citânia’ romanizada é um leitmotif constante da historiografia arqueológica relacionada com a ‘cultura castreja’ desde então. Será ela que permite a apresentação, por parte do investigador, de elementos inovadores na sua teoria interpretativa do passado, nomeadamente a genealogia evolutiva que unifica quase todas as expressões de vestígios arqueológicos de relevo no seu território: dólmens e mamoas, castros e ‘cidades romanas’, capelas e igrejas.151 O sucesso da genealogia sarmentiana associada à ‘cultura castreja’ não depende apenas da lógica interna que a sustém, mas também, e a nosso ver especialmente, da visibilidade ‘arqueológica’ com que ele a apresenta. Se a grande parte da argumentação ao nível de crítica histórica e linguística, levada a cabo por Martins Sarmento, é desconsiderada por um grande número de investigadores seus contemporâneos (por exemplo, a sua teoria ‘ligurista’ sobre a língua lusitana, revelada nas fontes históricas e na toponímia, foi desde logo contrariada por dois dos nomes mais sonantes da ‘Glotologia’ da época em Portugal, Adolfo Coelho e Leite de Vasconcelos, este usando de toda a cordialidade, aquele com a proverbial agressividade que o caracterizava nas disputas científicas), já a genealogia ‘cultural’ que associa os ‘castros’, ‘romanos’ e ‘pós-romanos’ deterá uma visibilidade e influência historiográfica que irá ultrapassar largamente o tempo do próprio autor. Esta genealogia não teria sido nunca possível sem o testemunho material e ‘exemplar’ (no sentido kuhniano do termo) das escavações dos dois povoados fortificados.

151

A simplicidade universal do modelo de Martins Sarmento não é hoje naturalmente aceite pelo estado actual

da investigação sobre a arqueologia do primeiro milénio no noroeste da Península Ibérica. Contudo, e ainda que saindo do âmbito estrito deste trabalho, parece claro que a sobre-imposição da organização territorial da administração romana ao território conquistado tomou em consideração a organização indígena prévia (Brañas e González 1995: 241).

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4) Finalmente, não poderíamos deixar de fazer referência aos inúmeros lugares que Martins Sarmento convoca para o interior da sua teoria. Eles são, afinal, o ‘fundo de mapa’ necessário, em que o investigador fixará os momentos fulcrais da sua narrativa, da sua ‘geografia imaginativa’ do Passado. Aqueles são de diversa natureza e cumprem papéis diferentes, variando na importância e no papel que cumprem no todo cartografado. O conjunto de todos estes lugares, distribuídos pelas diversas cronologias a que pertencem, pelas genealogias que estabelecem entre si, pelas diversas escalas em que se integram, são o elemento metodologicamente mais atraente para quem se propõe restituir a geografia do passado pré-histórico através dos olhos de um investigador de outro tempo. Martins Sarmento não usará muito de mapas, nem sequer as técnicas de impressão do seu tempo o favoreciam. Assim, na sua obra destacam-se apenas os exemplares cartográficos que ilustram Os Argonautas (1887) e os dois estudos críticos da Ora maritima (1880 e 1896). Porém, enganar-se-ia quem pensasse que estes são os únicos ‘mapas’ que habitam a imaginação e a ciência de Martins Sarmento. Toda a sua obra é, a este respeito, profundamente ‘geográfica’: as descrições das movimentações de povos na Europa; as permutas de pequeno alcance entre os povos do Ocidente; as pervivências e filiações étnicas entre os povos da Península; a organização do povoamento no Entre-Douro-e-Minho, ao longo das várias cronologias da sua pré-história; as próprias descrições dos ‘passeios científicos’ pela ‘sua’ região de Guimarães; tudo revela uma dominação ‘vertical’ do espaço considerado. Martins Sarmento, cremos nós, não apenas terá utilizado abundantemente mapas e atlas como instrumentos auxiliares do seu trabalho de hermenêutica histórica, como apresenta uma visualidade abertamente geográfica na descrição do território: se pudéssemos isolar algumas das suas passagens mais distintamente ‘espaciais’, não hesitaríamos em dizer que Martins Sarmento foi, além de muitas outras coisas, um notável geógrafo. De entre todos os mananciais em que se podem recolher topónimos da obra de Martins Sarmento, e no contexto do nosso trabalho, a geografia ‘argonáutica’ é, sem dúvida, o ponto de partida para a fixação cartográfica da ‘geografia imaginária’ sarmentiana do Passado. Será a partir dela que se desenvolverão as genealogias que põem em contacto este mundo da voz narrativa ‘fenícia’ com as restantes etapas cronológicas da narrativa ‘completa’ de Martins Sarmento – esta estende-se desde antes 174

do século quinze. até, pelo menos, à desagregação ‘germânica’ do mundo romano e à interpretatio cristã do Olimpo ‘ariano’ das populações da ‘Lusitânia primitiva’. Neste sentido, todos os lugares que estruturam a obra de Martins Sarmento tem como lógica de apresentação tanto o lugar concreto da sua existência espácio-temporal (alocação num mapa e numa cronologia, num ‘corte sincrónico’), como a rede de causalidades ‘históricas’, anteriores e posteriores, em que se inserem.152

Figura 3 – A ‘genealogia cartográfica’ de Martins Sarmento A Pré-história de Martins Sarmento é uma ‘geografia do luto’, da perda inexorável da matriz civilizacional da ‘arianidade’ comum da Europa, e especialmente das suas mais vivas expressões históricas da Antiguidade: Grécia e Roma.

A primeira ‘ordem espácio-temporal’ que se pode cartografar em Martins Sarmento é a da colonização ariana do Ocidente. Apresenta similitudes óbvias com a geografia argonáutica mas, supostamente, dado o ponto de vista hermenêutico que regula a ‘restituição geográfica’ levada a cabo pelo investigador, está desligada do ‘véu de fantasia’, da efabulação narrativa, que cobre a narrativa dos Apolónios, Homeros e

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A ‘genealogia cartográfica’ que podemos detectar na obra de Martins Sarmento não é apenas característica da

sua obra. Sob formas diversas, e sob a aparência de uma ‘continuidade narrativa’ parece ser uma preocupação comum a outros nomes da intelectualidade oitocentista portuguesa, especialmente no contexto da historiografia científica. Disso é mesmo exemplo a ‘Biblioteca’ de Oliveira Martins, que pretendia reproduzir na estante, a organização do conhecimento histórico e social de Portugal; também o mesmo se pode detectar em José de Arriaga, historiador dos movimentos liberais do início do século, e que defendia que a representação do Passado deveria estar plasmada na própria organização dos livros de História, supondo-se, por isso, que as linhas de fractura narrativa textual deveriam apoiar-se nas modificações verdadeiramente estruturais do objecto social de estudo (Arriaga, J. 1886-1889: xii).

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Apolodoros que pretendem fixar no Mediterrâneo oriental e no Mar Negro os eventos que teriam decorrido nas margens africana e europeia do Atlântico. Nela se reconhecem os indícios que, em diversas lendas e tradições populares – as já mencionadas, da órbita cultural helénica, mas também dos ‘Lígures’ sobreviventes da Europa contemporânea do autor: os povos da Bretanha, de Gales e da Irlanda –, permitem fixar os itinerários das grandes correntes migratórias ‘arianas’ desde a Ásia até o Ocidente e a sua divisão nos ramos principais de difusão associados às três grandes vias fluviais do continente europeu, o Danúbio, o Reno e o Ródano. Este é um mapa em que os lugares convocados se revelam através de ressonâncias míticas – ‘País de Af’, ‘País dos Lagos’, ‘País dos Cimérios’, ‘País de Gargoris’, ‘Ilha do Sol’, ‘Mar de Saturno’… – aos quais o investigador vai fazendo corresponder lugares concretos da geografia europeia, de modo a entretecê-los com a geografia mais concreta das fontes clássicas e, sobretudo, do elencamento ‘cartaginês’ da Ora maritima. São relativamente escassos os topónimos recolhidos pelo autor que se refiram a esta ‘ordem espácio-temporal’, e, contudo, é neste horizonte de grande obnubilação histórica que Martins Sarmento estabelece os alicerces etnicistas de toda a restituição histórica e etnogénica da Europa da Lusitânia. A segunda ‘ordem espácio-temporal’ que se pode detectar na restituição histórico-geográfica levada a cabo em Martins Sarmento é o da organização do espaço ‘ligúrico’ do Ocidente. Os lugares nela convocados têm diversas origens, mas são, para o autor, ressonâncias de um mesmo fenómeno, transportado por diversas fontes narrativas e sofrendo a ‘usura da efabulação’, ao ponto de apenas uma hermenêutica muito paciente e sistemática – fazendo uso, inclusive, de diversas ‘ciências auxiliares’ da História – poder resgatar a ordem comum de todos eles. De entre essas fontes ganha uma especial importância a geografia ‘tíria’ que corre sub voce no poema da Ora maritima. Para Martins Sarmento, o poema de Avieno contém não uma mas duas ordens narrativas, correspondentes à subposição na geografia cartaginesa do périplo (que Avieno, segundo a hermenêutica sarmentiana, estropia) de referências a tradições herdadas pela marinha de Cartago que teriam origem nos conhecimentos muito mais antigos que os Fenícios de Tiro deteriam sobre a navegação atlântica. Martins Sarmento está especialmente atento a recolher todas as expressões que no texto da Ora maritima possam permitir aceder a este mundo anterior ao 176

desvanecimento de Tiro e à afirmação de Cartago no Mediterrâneo ocidental, e deles se permitirá desenhar a organização étnica e toponímica do Ocidente ao redor do século doze a.C. A terceira ‘ordem espácio-temporal’ da genealogia histórico-geográfica de Martins Sarmento corresponde à enunciação cartográfica dos teónimos e etnónimos presentes na Ora maritima de cronologia contemporânea do autor cartaginês do périplo. Este é um mapa ‘dilecto’ de Martins Sarmento, porque o é também a fonte histórica que ilustra. Neste mapa são inúmeros os lugares convocados e muitas as razões por que o são. A Ora maritima, quando singularmente considerada, e aceitando os pressupostos ‘atlantistas’ da sua interpretação, como são os que governam a hermenêutica sarmentiana, é estritamente a primeira ‘história’ do território que viria a ser Portugal, o primeiro documento escrito sobre as terras do ocidente da Península Ibérica. Após a restituição efectuada por Martins Sarmento, ver-se-á que o mapa correspondente ao ‘arco atlântico’ da Europa, i.e., às regiões vizinhas daquele mar que se estende desde as Ilhas Britânicas e mesmo da Escandinávia até ao golfo de Cádiz, reentrância ainda atlântica mas que prenuncia já o carácter ‘mediterrânico’ do mar de antes das Colunas de Hércules, é abundantemente preenchido de lugares e povos, divindades e personagens, de que Martins Sarmento fará abundante uso no sentido de determinar a ‘arianidade’ essencial de todo o Ocidente. A cronologia fixada ao redor do século sexto a.C., para este mapa, é de uma grande importância ‘histórica’ na configuração da teoria etnogénica da Europa e da Lusitânia. E é-o porque representa o ‘momento imediatamente anterior’ à invasão céltica do Ocidente e também da Hispânia. No documento pressente-se já a presença atemorizante deste povo longínquo que vem quebrar a ‘harmoniosa civilização’ do Ocidente ‘ligúrico’; alguns movimento de povos – permutas territoriais entre (ainda assim) povos irmãos – são já atribuídas à pressão da violência céltica na fronteira do Reno, mas, no essencial, este é o mapa que as fontes clássicas gregas e romanas não poderiam conhecer senão através de geografias fenícias mais antigas: é o mapa que directamente vincula a Lusitânia ao passado ‘ariano’ que permitirá a Martins Sarmento assumir desassombradamente a ‘pureza genealógica dos Lusitanos’ e assim, sublimadamente, dos Portugueses. 177

A quarta ‘ordem espácio-temporal’ da genealogia histórico-geográfica de Martins Sarmento é porventura, de entre todas elas, aquela que é mais reveladora de todas as problemáticas presentes na teoria etnogénica do autor – num certo sentido, este é o mapa de Martins Sarmento! Nele o autor inclui as informação que recolhe sobretudo das fontes greco-romanas que dizem respeito aos momentos mais recuados do conhecimento dos autores clássicos sobre a Europa, a Península Ibérica e especialmente a ‘Lusitânia primitiva’. É claro que este mapa, de resto como qualquer outro, não pode ser compreendido sem a sua inclusão na genealogia histórico-geográfica completa que estrutura a teoria etnogénica levada a cabo por Martins Sarmento. Porque o intuito central deste elemento sincrónico da ‘geografia imaginária’ sarmentiana consiste em identificar os ‘Lusitanos’, etnónimo ainda desconhecido nas ordens cronológicas anteriores, com os ‘Lígures’ da ‘ordem’ anterior, através dessa corajosa restituição linguística do intermediário Ligusitanos. Porém, este mapa revela algo mais das preocupações metaparadigmáticas de Martins Sarmento, além da filiação ‘ariana’ dos habitantes do noroeste da Península Ibérica. Nele iremos ver também como Martins Sarmento ‘isola’ convenientemente o litoral ocidental da Hispânia, prefiguração portanto da nacionalidade portuguesa, que integra na esfera ‘ligúrica’ da Europa, do resto da Península Ibérica em que habitam os ‘Iberos’ e ‘Bascos’, povos de origem pré-ariana, de cuja organização civilizacional o autor, ainda que nunca o enuncie de um modo definitivo, tem grande suspeitas.153 Este isolamento permitirá, como veremos, afirmar uma espécie de relação privilegiada com o norte da Europa, e especialmente com as Ilhas Britânicas, elemento de substância histórica fundamental para afirmar o ‘ligurismo’ das tradições populares de ambas as regiões, e poder assim comparar o romanceiro do Entre-Douro-e-Minho com as recolhas ‘chamadas célticas’ de Gales, Irlanda e Bretanha.

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Não pretendemos cometer o ‘anacronismo científico e historiográfico’ de fazer coincidir limites

arqueológicos da Idade do Ferro mais tardia com a fronteira que Martins Sarmento desenha para as esferas respectivas dos povos ‘ligúricos’ e ‘célticos’ da Península Ibérica. Assim, apenas indicamos a convicção de alguma crítica contemporânea de que as cadeias montanhosas do interior do noroeste da Península Ibérica parecem de facto consistir numa fronteira ‘cultural’ especialmente vinculativa no quadro das relações dos povos do primeiro milénio a.C. (García 1993).

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Finalmente, este é o mapa da ‘expansão céltica’, dos povos ‘germânicos’ da Idade do Ferro sobre a Europa ligúrica da Idade do Bronze.154 Teremos oportunidade de ver como é virulenta a oposição entre estas duas esferas culturais e o papel que essa oposição estrutural e abjectiva detém na organização da ‘identidade lusitana’ em Martins Sarmento. Não só o autor se afadiga em demonstrar que, com a excepção singular do Alentejo, e uma muito ténue presença junto do cabo Nério, nunca os Celtas dominaram o ocidente da Hispânia e muito menos a região ‘bracarense’ do EntreDouro-e-Minho.155 Por outro lado, veremos também como a região da Gália permitirá ao autor decidir de um modo muito particular da relação entretecida entre estes ‘bárbaros’ da Idade do Ferro e os ‘civilizados’ da Idade do Bronze. A ‘solução gaulesa’, i.e., a convivência no mesmo ‘estado’ de uma aristocracia ‘céltica’, ‘germânica’, e de uma nação ‘gaulesa’, ‘ligúrica’, servirá como paradigma de interpretação, no momento de explicar a pervivência espiritual da ‘arianidade’ dos Lusitanos sob a dominação germânica que se segue à dissolução do Império romano. O mapa ‘romano’ da Lusitânia serve de pano de fundo à quinta ‘ordem espácio-temporal’ da genealogia histórico-geográfica de Martins Sarmento. É um mapa que se enriquece de topónimos, etnónimos e nomes de divindades, uma vez que se refere a uma cronologia posterior à dominação romana da Península Ibérica, nele podendo lançar-se

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Martins Sarmento admite que a invisibilidade de vestígios de ferro nos ‘castros’ do noroeste (especialmente

em Sabroso, uma vez que o que surge em Briteiros o autor há-de associá-lo à romanização) é justamente a demonstração de que a introdução do ferro pelos Celtas não pôde ser levada a cabo no noroeste da Península Ibérica. Este ponto assume uma especial importância porque nos adverte, de imediato, para uma concepção do Tempo não evolucionista, uma vez que a sê-lo, necessariamente o ferro representaria uma fase posterior no curso da civilização neste território. Ainda que marginal a este trabalho, não se deixará de advertir que a crítica contemporânea prescinde já de uma caracterização estrita da Idade do Ferro, entendida como horizonte cultural de integração europeia, e a presença específica de artefactos deste metal no recinto ou vizinhança dos povoados fortificados (Carballo 1990: 165). 155

Não é uma prioridade deste trabalho discutir a possibilidade de se terem os ‘Celtas’ ou não difundido pelo

noroeste da Península Ibérica, tema que naturalmente está fora do alcance da nossa competência. A questão, porém, é ainda hoje de enorme polémica entre a crítica contemporânea autorizada, que além de tentar distinguir cuidadosamente o que seja ‘céltico’ nos diversos contextos (linguístico, histórico, arqueológico, etc.), tem também alguma dificuldade em afirmar ou refutar absolutamente a sua presença neste território (García Quintela 2000: 11 e ss.; García e Santos 2000), sendo que, mesmo internamente, os vestígios arqueológicos estão longe se enunciar uma visão homogénea do território (García e Perea 2001).

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por isso, as informações presentes nas Geografias e Corografias, nas quais Estrabão detém, naturalmente, posição de relevo. Martins Sarmento, porém, não se dedica especialmente a restituir esta geografia antiga de fundo romano, que será, por exemplo, uma das actividades preferenciais de um Leite de Vasconcelos no que concerne à proto-história e história romana do território. E se Martins Sarmento não investe demasiadamente neste tipo de hermenêutica, tal deve-se fundamentalmente a que o âmbito da sua ‘história lusitana’ está a chegar ao termo.

Figura 4 – Povoados fortificados (‘castros’) explorados por Martins Sarmento Fonte: Obras de Martins Sarmento: passim. Note-se a concentração esperada de povoados na região de Entre-Douro-eMinho e especialmente na ‘comarca’ de Guimarães. Os povoados da Beira são, na quase totalidade, os que foram objecto de reconhecimento na Expedição da Sociedade de Geografia de Lisboa à Serra de Estrela.

Martins Sarmento é um ‘historiador’ da ‘Lusitânia primitiva’, não da ‘romana’, e, nesse sentido, a dominação imperial de Roma servir-lhe-á apenas como elemento de explicitação da organização tardia dos ‘castros’: por um lado, pela afirmação de um paradigma, ‘comum ao Entre-Douro-e-Minho e à Beira’, de substituição dos povoados resolutamente ‘ligúricos’, do tipo-Sabroso, pelos que demonstram já influência romana, do tipo-Briteiros, mas destacando sempre a superficialidade local da dominação romana, pela apresentação das semelhanças, mais do que das diferenças, entre aqueles dois tipos; por outro lado, pela apresentação de um modelo de substituição progressiva do povoamento ‘castrejo’ por uma povoamento de ‘sopé’, através do qual os ‘castros’ 180

intemporais são abandonados para dar lugar a ‘cidades romanas’ nas suas vizinhanças.156 Os lugares convocados por Martins Sarmento conhecem ainda um desenvolvimento posterior ao da presença romana no território. Em certo sentido, esta última convocação poderia mesmo constituir uma última ‘ordem espácio-temporal’ da genealogia histórico-geográfica de Martins Sarmento – a germânica. Está presente na ‘geografia imaginativa’ do autor mas apenas como o ‘fim da história’. Refere-se ao momento em que o mundo ligúrico, que ainda pôde perviver em cima de alguns montes ao tempo da dominação romana, é irremediavelmente destruído pela invasão ‘germânica’ (conjugada entretanto com a conversão ao Cristianismo), a mesma que, para o autor, se havia prefigurado na invasão céltica da Península Ibérica muitos séculos antes. A partir daqui o mundo ‘ariano’ dos Lusitanos deixa de existir materialmente, para se refugiar no mundo espiritual das tradições e crenças populares

Resta, por fim, caracterizar o modo específico como a leitura d’Os Argonautas nos irá permitir designar e desenvolver todas as instâncias da geo-historiografia de Martins Sarmento. Se, como dissemos, esta obra serve sobretudo como ‘pretexto’, em relação ao qual, a partir de uma leitura ‘intertextual’, se referirão os elementos presentes na restante obra do autor e as características sociais e epistemológicas do seu tempo, esta mesma obra indica, pela sua constituição própria os contornos dessa caracterização. Do encontro entre a substancialidade da obra d’Os Argonautas e a concepção teórica explicitada na introdução toma corpo o travejamento deste nosso próprio trabalho. Da primeira retiraremos os grandes conteúdos históricos a serem tratados, da segunda a articulação que especificamente lhes dê uma iluminação geográfica cultural que possa sublinhar as espácio-temporalidades características de um período histórico, de um lugar, e de uma personalidade.

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Em nota absolutamente marginal ao âmbito estrito deste trabalho, cumpre dizer que a visão ‘superficial’ que

Martins Sarmento detém da organização romana no noroeste da Península Ibérica não é contraditada pela crítica contemporânea; por exemplo, parece claro que a economia pré-monetária foi mais uma regra que uma excepção neste território, ao ponto de o maior número de achados associados a numismas dizerem respeito aos momentos da ‘conquista’ mais do que aos da eventual integração administrativa no Império (Centeno 1987).

181

Esta dupla articulação será expressa, neste nosso trabalho, por uma estrutura que tenha justamente em conta o carácter ‘duplo’ e ‘articulado’ que a leitura intertextual d’Os Argonautas permite. Em primeiro lugar, apresentaremos a tese do próprio autor, seguindo de perto a sua própria narrativa, deixando desde logo em aberto os pontos de ligação que nos permitirão articulá-la com os outros elementos da sua obra e da nossa própria interpretação geo-historiográfica. Chamamos a esta fase, ainda ‘intratextual’, o passado do lugar. A seguir, tentaremos delinear, a partir das ‘pistas’ levantadas pela leitura ‘intratextual’ do ponto anterior, e aferir as diversas escalas de identidade que estão presentes n’Os Argonautas, bem como o modo como são desenvolvidas nos outros elementos da sua obra. Neste contexto, deterá uma especial importância a caracterização dos níveis teóricos enunciados na introdução deste trabalho: i) a ‘regionalização teórica’ proposta pelo investigador, i.e., a alocação diferencial dos mesmos elementos ‘factuais’ de que dispõe e a comparação que pode fazer-se com interpretações equivalentes de investigadores nacionais e internacionais seus contemporâneos; ii) a ‘topografia social’ em que insere e que o acompanha, uma determinada produção científica do passado, i.e., tentar compreender de que modo uma determinada maneira de fazer ciência se apoia e fortalece uma determinada geografia das relações sociais; finalmente, iii) compreender qual o ‘lugar do passado’ no presente, i.e., qual a cronotopia que emerge da narrativa do passado como speculum do posicionamento no presente detido pela genealogia de que essa própria narrativa faz parte. No caso de Martins Sarmento, interessar-nos-á, sobretudo, delinear as influências, directas e indirectas, que a sua narrativa pré-histórica detém, na própria afirmação de uma determinada ‘portugalidade’ do século dezanove, perfil cultural em que a própria narrativa está presente através da intermediação ‘lusitana’. Finalmente, reservaremos para a conclusão deste trabalho a configuração especial que é representada por um investigador considerado como um ‘centro de convocação’ dos diversos elementos constituintes de uma interpretação do Passado. O ‘lugar do Passado’ é, neste caso, a ‘pessoa-em-si-mesma’. Se a caracterização sistemática que fazemos dos lugares de construção do Passado em Martins Sarmento situa a sua produção científica detiver alguma materialidade, então cremos que ao chegar ao ponto 182

final deste trabalho poderemos afirmar que o Passado proposto pelo investigador é, em grande medida, ele mesmo, Francisco Martins Sarmento. Martins Sarmento, na materialidade específica do seu corpo e do seu espírito, é o centro de convocação de todo um enorme conjunto de lugares, pessoas, ideias e materiais, que se articulam numa teoria organizada do Passado. E se é certo, por um lado, que a articulação interna da teoria final de um investigador possui um carácter universal que lhe é dado pela ‘exterioridade’ dos materiais, ideias, e pessoas que são por si convocados para definirem a ossatura da hipótese formulada, essa mesma convocação é feita a partir de um ponto central absolutamente único na superfície infinita de todos os espaços-tempos geradores de outros centros possíveis de organização dessa imensa convocatória. Ser Francisco Martins Sarmento, viver entre a terceira e a última década do século dezanove, e habitar em Guimarães e Briteiros, tais são os elementos que fixam a teoria do investigador ‘ao chão’, e a dotam com uma individualidade que a torna única, ao mesmo tempo símbolo e remate de uma biografia científica.

A hipótese histórica fundamental que subjaz à hermenêutica sarmentiana das lendas gregas é a de que na narrativa efabulada corre, sub voce, a verdadeira ‘argonáutica’ fenícia, um verdadeiro ur-text que descreveria a ‘primeira viagem’ dos marinheiros de Tiro ao Norte da Europa, e especialmente às Ilhas Britânicas, destino escolhido pelo facto de aí supostamente se situarem as principais jazidas de estanho que alimentavam a civilização do bronze de toda a Europa. Martins Sarmento desenvolve a sua teoria de uma ‘argonáutica fenícia’ a partir da análise das várias lendas gregas que incidem sobre o tema da ‘viagem’, comparando o seu valor ‘mediado’ com o das informações providenciadas pelas ciências ‘positivas’ auxiliares da História. E da correspondência assim estabelecida fixará, ponto a ponto, a contiguidade da idealidade da efabulação passada com a materialidade dos vestígios concretos do presente. O primeiro, considerando uma ordem cronológica do tempo mítico-histórico, das expressões lendárias da Grécia antiga que versam sobre as viagens dos Tírios ao Atlântico, são os Trabalhos de Hércules. A partir da análise dos três últimos Trabalhos do semi-deus, Martins Sarmento recolhe a argumentação necessária para a localização das viagens fenícias e do seu suposto encadeamento temático com as narrativas 183

homéricas e de Apolónio. As Hespérides e o gado de Gerião, a viagem ao Lago Tríton, a viagem pela Ligúria, a aventura na gruta de Caco, todos estes elementos serão renovados no cenário norte-atlântico das Ilhas Britânicas e na costa atlântica do Saara, no contexto dos quais alguns elementos ganham uma respeitabilidade ‘fenomenológica’ que o autor não deixará de destacar. Também Ulisses será forçado por Martins Sarmento a abandonar os lugares familiares das penínsulas itálica e grega, ao redor das quais a tradição escoliasta fazia localizar

as

principais

etapas

das

suas

deambulações,

para

transitar,

desassombradamente, para o mar Atlântico, também, como Hércules, em latitudes europeias e africanas; e até a terrífica viagem que o marinheiro de Ítaca faz à morada de Hades, será, para Martins Sarmento, devidamente restituído ao seu valor histórico de uma viagem ao ‘país dos Cimérios’, à terra em que a ‘noite se sucedia à noite’, enfim às latitudes escandinavas. Será, porém, na viagem dos Argonautas, que justamente dá o título ao estudo crítico, que o essencial da hermenêutica de Martins Sarmento se afirma. O investigador embarca na divina Argo e com ele leva também os seus leitores. A experiência, como se verá, é ‘fantástica’, sob todos os significados que esta palavra pode encerrar. Já não se trata, como nas obras anteriores de apenas fixar os pontos da nova geografia restituída, e assim identificar as principais etapas da viagem dos marinheiros do mediterrâneo oriental ao Atlântico, desde as Canárias ao Mar do Norte; é bem mais do que isso. Agora convive-se intimamente com Jasão e Medeia, como Aetes e Argus, com o ‘divino’ Alcínoo. De imediato nos apercebemos que a viagem dos Fenícios é apenas um pretexto para exautorar toda uma tradição ‘orientalista’ de interpretação da civilização antiga e propor alternativamente, a noção de um ‘Ocidente ignoto’, pleno participante da vocação civilizadora dos povos arianos. A ‘argonáutica fenícia’ estabelecida por Martins Sarmento possui, assim, alguma características reveladoras do seu propósito último de afirmar uma nova ‘filosofia da história’. É uma antecipação do ‘ocidentalismo’ hegeliano, provendo aos Lusitanos as qualidades que a teoria histórica do filósofo alemão guardaria para momentos bem mais tardios do desenvolvimento do Zeitgeist europeu. A restituição geográfica é elaborada pacientemente por Martins Sarmento através da identificação assumida entre as etapas da ‘primeira viagem’ dos Fenícios com os 184

elementos vestigiais do presente. Mas o passado que se desoculta é, ao mesmo tempo, o dos marinheiros fenícios, narradores desta argonáutica restituída, e dos povos ignotos do Ocidente, sobre os quais a mesma narrativa incide. Martins Sarmento não esconde a preferência pelos segundos, e afadigar-se-á em isolar, dos elementos de efabulação grega propriamente dita, aqueles que pensa poderem referir-se aos povos ‘arianos’ do Ocidente. A ‘estratégia hermenêutica’ não varia: uma gigantesca ‘interpretatio inversa’ providencia os fundamentos de uma restituição generalizada do fundo ariano do Ocidente. As personagens, os lugares, os eventos da narrativa argonáutica, são reinvestidos de uma nova qualidade; Jasão é um marinheiro fenício que conquista Medeia, uma princesa dos Albiões; as Sereias de Ulisses são os rochedos do Golfo da Biscaia e a sua ‘vencibilidade’ é afinal a determinação de estabelecer uma rota marítima directa entre a Corunha e a Bretanha. A substituição hermenêutica a que podemos assistir na obra Os Argonautas de Martins Sarmento é ‘formidável’, no sentido próprio desta palavra; é excessivo, totalitário e, porém, a elegância narrativa, a determinação paradigmática, a estética da ‘longinquidade’, tudo concorre, se não num fundo de verosimilhança da formidável interpretação, pelo menos para um terreno sustentado pela dúvida histórica metódica. O mapa dos ‘lugares do passado’ não se esgota na ‘restituição argonáutica’ da viagem dos marinheiros de Tiro. O objectivo de Martins Sarmento vai bem para lá dessa caracterização. O que o autor pretende, desde o início d’Os Argonautas (desde o início da sua obra científica?), é ‘chegar a casa’. Com esse intuito explora todas as minudências das narrativas efabuladas das lendas gregas e confronta-as com as providenciadas pelo seu estudo crítico da Ora maritima. As vagas referências dos primeiros documentos ‘argonáuticos’ são agora tornadas mais visíveis, irrefutáveis, quando se vêem coincidir com os que o périplo ‘cartaginês’ menciona desde o golfo de Cádiz até o Mar do Norte. O território que vem a constituir Portugal, com tão escassas referências em Apolodoro, Homero e Apolónio, vê-se agora repleto de informações sobre cidades, povos, divindades e personagens. Se Os Argonautas narram ‘quem vê’, a Ora maritima descreve ‘quem é visto’. E aos Albiões, presentes já na etnonímia escassa de Apolónio e Homero, junta-se agora uma série infindável de novos actores colectivos da primeira ‘História’ do litoral ocidental da Península Ibérica: Lígures e Draganes, 185

Cempses e Sefes, Tartéssios e Cinetes; dentre estes caberia aos primeiros, aos Lígures do noroeste, a especial honra de neles se filiarem os Lusitanos da fontes posteriores. A filiação que Martins Sarmento vai enunciar directamente entre estes Lígures do Mar do Norte e os Lusitanos do noroeste da Península Ibérica deve desde logo alertar-nos para a concreção metaparadigmática essencial que estrutura a sua obra. Todos são representantes do ‘glorioso’ povo do Bronze, desses ‘Lígures’ que são o representante ariano do Ocidente da Europa, e que reaparecem, sob diversos nomes, a dominar quase inteiramente o continente europeu, desde a sua origem asiática até o litoral ocidental.

Além do ‘passado do lugar’, da espessura cartográfica com que veremos Martins Sarmento dotar a sua teoria etnogénica dos Lusitanos, incidiremos a nossa atenção igualmente na elucidação dos vários níveis de ‘regionalização teórica’ que estão presentes na obra de Martins Sarmento.

Figura 5 – ‘Geopolítica’ da estrutura citacional dos Argonautas Fonte: Lugar de edição das obras citadas na obra Os Argonautas (Sarmento 1887). No caso dos autores clássicos, quando a informação não existia, optou-se por cartografar o lugar em que o respectivo escritor viveu a sua vida pública.

A ‘regionalização teórica’ d’Os Argonautas pode inferir-se pela citação dos autores nela presentes. Da estrutura citacional assim determinada desenvolveremos algumas ligações preferenciais com a esfera citacional da obra completa de Martins Sarmento, naquilo que nos permita compreender de que modo e que papel cumprem estas diversas personagens que habitam a sua obra. Existe aqui uma diferença essencial entre esta 186

recolha e a ‘convocação de pessoas’ a que fizemos referência em momento anterior. Decerto que ambos se sobrepõem, mas neste momento a nossa intenção é designar especificamente a estrutura citacional d’Os Argonautas. Como se pode ver no mapa respectivo, existe uma história ‘geopolítica’ no que diz respeito aos autores que são fundamentais para que se compreenda a regionalização teórica a que Martins Sarmento tem de submeter. Esta estruturação ‘geopolítica’ replica-se, além do mais, numa ‘topografia social’ do tempo do autor, pois, ao criar uma determinada estruturação propriamente espacial da investigação, irá contribuir para criar tradições de investigação no seio da História da Antiguidade que são ainda vivazes no tempo do autor. Ao propor as suas teorias ‘atlantistas’ e ‘ocidentalistas’, Martins Sarmento terá de enfrentar, não apenas o tempo longo de afirmação dessas tradições mas também a concreção social que elas manifestam entre os investigadores seus contemporâneos. Por um lado, podemos ver um núcleo de autores da ‘biblioteca sarmentiana’ que se dispõem ao redor de Atenas e Alexandria. Este é, por isso, o primeiro ‘combate’ que Martins Sarmento tem de travar no contexto da topografia social sua contemporânea. Trata-se, naturalmente, dos autores ‘gregos’, dos quais o investigador recolhe não apenas as relações histórica e geográfica do mundo antigo, mas especialmente das lendas referidas às viagens de Hércules, Jasão e Ulisses. A ‘geografia imaginativa’ da crítica contemporânea de Martins Sarmento é homóloga à própria origem dos escritos e dos seus centros de difusão. Dizem respeito a um filo-helenismo pervivente no ‘século romântico’, que fixa inapelavelmente a ‘geografia homérica’ na península egeia e espaços circundantes, com os limites extremos do Mar Negro e da península itálica e ilha da Sicília. No momento em que Martins Sarmento se afadigue em demonstrar que a ‘viagem argonáutica’ é de fundo fenício e que o cenário das suas aventuras é o Atlântico, basta um olhar sobre esta parte do mapa para que se tenha noção da dificuldade ‘geográfica’ que necessariamente essa posição teria de enfrentar. O ‘arianismo’ é um elemento central de afirmação ‘civilizada’ do Ocidente a que Martins Sarmento fará referência.157 Porém, deverá confrontar-se com uma organização

157

O arianismo enquanto afirmação eurocêntrica associada aos principais fundamentos culturais do território que

viria a ser a Europa das nacionalidades do século dezanove tem uma história muito longa, e que poderia ser narrada

187

prévia e sua contemporânea do mesmo conceito e veremos que a sua argumentação não deixará de, em inúmeras situações, tomar em consideração a ameaça de tradições interpretativas que colidem mais ou menos frontalmente com a sua, e das quais destacaremos duas, por serem as que mais repercussão e aceitação tiveram na ‘topografia social’ da época: a ‘germanicocêntrica’ e a ‘eurocêntrica’.158 A primeira delas, com expressão explícita em Penka e Zeuss, enunciava a possibilidade de serem os ‘Arianos’, mesmo aqueles que teriam dado origem à civilização superior da Grécia, elementos de uma raça cujos atributos físicos os aproximariam da descrição dos Germanos em César e Tácito. Tanto bastou para que se insinuasse uma ‘teoria nórdica’ do arianismo que, embora em tempos posteriores a Martins Sarmento, é verdade, veio a constituir uma das mais fortes proposições etnogénicas de fundo racial dos inícios do século vinte.159 Martins Sarmento pôde ainda,

em episódios distintos no tom, mas idênticos na intenção. Desde os trabalhos iniciais de Winckelmann que a História da Antiguidade se compraz em desenhar uma filiação quase directa do fundo civilizacional do passado nas formulações políticas do Presente. Estas podem variar nos destinatários, que vão sendo ora os ‘mediterrânicos’ (na qual claramente se irá inserir Martins Sarmento) ora os ‘nórdicos’, ora os ‘eslavos’ (através da conveniente ligação do Império Romano bizantino), ora a Europa considerada no seu todo (cf. Bernal 1987). 158

Deve dizer-se, desde logo, que Martins Sarmento não está isolado na concepção europeísta ‘ariocêntrica’ do

Passado e da evolução histórica da Europa; na sua ‘História Universal’, Teófilo Braga (VI, 312-3) do mesmo modo afirma que a história universal, é afinal o percurso dos Árias até atingirem a hegemonia perpétua da humanidade. O mesmo tipo de pensamento estrutura muito nitidamente a história ‘de pequena escala’ em Oliveira Martins. 159

As teorias racialistas de meados para fins do século dezanove, e até em momentos já bem entrados do século

vinte, assumiam a diferença irredutível das diversas ‘raças’ não apenas baseando-se em critérios ‘étnicos’ (a mesma ‘espécie’ mas diferentes ‘subespécies’), mas até admitindo a possibilidade de ‘poligenismo’, isto é, que as diferentes ‘raças’ do Mundo corresponderiam a ‘actos criativos especiais’ da Natureza, de acordo com a mesologia de cada região (cf. a obra ‘cartográfica de Griffith Taylor [1930, 1936 e 1937, como formulações de uma teoria da irredutibilidade racial com um propósito geopolítico específico associado também à colonização ‘interna’ da Europa]), tema e problemática com antecedentes fecundos na teleologia criacionista, sobretudo na que pretendia determinar quais os povos que poderiam ascender ao estatuto de ‘animados’, i.e., com alma (Hanke 1959). Convém recordar que no contexto de uma teoria assim definida, se essencializava a diferença cultural em rupturas ainda mais fundas e de convivência inultrapassável (Gould 1978: 503-509). O receio da ‘contaminação’ ‘poligénica’ resultante da miscigenação racial assim entendida leva, inevitavelmente, a uma representação cultural de irredutibilidade e a uma prática social e política (e policial) de “apartheid” (e.g.: Shaler 1888: 1-2; 1904: 183; Gregory 1924: 270; para uma crítica histórica, vd. Haller 1963 e 1971). Também, o facto de uma região africana em particular ter ficado associada a esta política de segregação humana, não deve fazer esquecer que esta foi uma prática comum em democracias ocidentais, sobretudo antes da Segunda Guerra Mundial (cf. Higham 1975). No domínio da Arqueologia geológica, esta tentação é antiga, e encontra-se já formulada naquele que é considerado justamente um dos ‘founding

188

contudo, conhecê-la e rebatê-la, sem que intuísse, ainda assim, o perigo real que o ‘germanismo ‘arianidade’.

dolicocéfalo’

viria

a

provocar

nas

teorias

mediterranistas

da

160

Da segunda, já Martins Sarmento intuiu ser o perigo mais real, e por isso dedicou, nas últimas páginas do seu ‘Lusitanos, Lígures e Celtas’, bem como no ‘A Arte Micénica no Noroeste da Espanha’, algumas páginas a rebatê-la. Trata-se da teoria ‘arqueológica’ de Salomon Reinach que defendia serem ‘indígenas’ da Europa as manifestações da iconografia da Idade do Bronze, que Martins Sarmento pretendia à

fathers’ da geologia do Quaternário, Guyot (1849: 251; mas cf. Prichard 1841): ‘[T]he creator has placed the cradle of mankind in the midst of the continents of the North, so well made, by their forms, by their structure, by their climate, as we shall soon see, to stimulate and hasten individual development and that of human societies; and not at the centre of the tropical regions, whose balmy, but enervating and treacherous atmosphere would perhaps have lulled him to sleep, the sleep of death in his very cradle’. A mesma posição seria defendida mais tarde, no contexto estrito da colonização dos trópicos: ‘In the real Tropics like India, Cochin China, the Malay Archipelago, and Central Africa, the whole perplexing and urgent problem of European colonization turns on the difficulty or impossibility of acclimatization [...] This means that the conquering white race of the Temperate Zone is to be excluded by adverse climatic conditions from the productive but underdeveloped Tropics, unless it consents to hybridization [s.n.], like the Spaniards and Portuguese of tropical America’ (Semple 1914: 628; cf. Garcia e Pimenta 2004). Escusado será quase referir que a tradição arqueológica ‘etnológica’ segue de perto esta versão providencialista da arqueologia ‘geológica’ (Heizer 1962: 69 e ss.; Kendrick 1950: 3 e ss.) 160

Existem diversas formulações oitocentistas do papel que é cumprido pela ‘raça’ na estruturação da dinâmica

históricas das nacionalidades e da ‘mesologia’, isto é, o papel do ambiente, na conformação dos caracteres da ‘raça’. Isto significa que a visão dominante da ‘antropogeografia’ ratzeliana que veio a constituir, através do filtro histórico dos críticos espiritualistas do século dezanove, não foi a única dessas formulações (Ratzel 1896). Em todo o caso, no contexto do ratzelianismo e da tradução forçada que lhe foi movida, sobretudo por Huxley, no sentido de afirmação da irredutibilidade das diferentes ‘raças’ entre si foi-se perdendo uma das características mais genuinamente presentes no pensamento do investigador alemão – a noção de que o próprio ‘acto de migração constituía um acto de salvaguarda da espécie’, por implicar, mesologicamente, variação (Sulloway 1979). Este elemento wagneriano (Moritz) do pensamento de Ratzel veio a ser posteriormente invisibilizado, até quase se perder a sua formulação original, sob uma crítica de consenso generalizado, mas imperfeitamente demonstrado, de que aquele autor defenderia, à outrance, a superioridade propriamente ‘biológica’ da ‘raça’ nórdica (Mayr 1972a: 981-989; 1972b: 562-566); a ‘des-racialização’ estrita do pensamento ratzeliano não pôde ser completado até que Mark Bassin estabelecesse um revisionismo científico (Bassin 1987). Quase é necessário fazer referência que o quadro de inteligibilidade em que se inserem actualmente os mecanismos de movimentos de povos e de migração de traços de cultura material se refere directamente ao da estruturação das relações sociais, e se a ‘raça’ ou a ‘etnia’ poder ser tomadas em consideração, são-no sempre, não como construtos naturais em si mesmos mas sim como mais uma ordem de estruturação social e cultural dessas mesmas relações; cf. as introduções respectivas aos livros de Anthony (1997) e Chapman e Hamerow (1997).

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viva força incluir entre as manifestações artísticas da grande migração asiática dos Arianos. Não é impossível ver na preocupação ‘diferencial’ de Martins Sarmento face a estas duas teorias alternativas uma replicação da ‘geopolítica diferencial’ da comunidade académica do tempo do autor. De facto, a proposta de Reinach não só tinha origem entre a comunidade francesa, a que mais prestígio deteria entre a comunidade científica nacional, como o facto de Reinach ter exercido a sua ‘regionalização teórica’ no domínio da Arqueologia, no qual Martins Sarmento esperava legitimamente exercer algum tipo de autoridade pelo facto de ter exumado Sabroso e Briteiros, tornava mais premente a resposta. Um outro ‘núcleo’ de autores e obras polariza-se ao redor de Roma. São os geógrafos, os historiadores, os cronistas do Império, que congregam a informação dos povos indígenas com que Roma estabelece contacto. O ‘romanismo’ acentuado que estes autores revelam constituirá, também, um problema de afirmação ‘epistemológica’ para Martins Sarmento. Neste caso, e ao contrário do que sucedia com a órbita helénica, é mais um problema de ‘antropologia’ que de ‘geografia’, mas este mesmo não está ausente. O ‘ligurismo’ de Martins Sarmento está, desde o início, ensombrado pelo ‘ligurismo histórico’, o das fontes romanas, que o situam, inequivocamente, no recôncavo de Génova. Será da inadequação deste dialecto regional à língua dos ‘neo-célticos’, que Martins Sarmento considera ‘ligúrica’, que Jubainville, justamente sugestionado por Adolfo Coelho, despedirá secamente os argumentos de Martins Sarmento sobre a possibilidade de uma língua comum a todo o ‘povo do Bronze’.161 Não é, pois, só no domínio do ‘arianismo’ que Martins Sarmento tem de inserir a sua ‘geografia imaginativa’ do passado numa rede regional de interpretação já estruturada e diferenciada. O ‘ligurismo’ de Martins Sarmento (um dos domínios em que a sua teoria

161

Não pretendemos sair do âmbito estrito deste trabalho e intrometermo-nos nas questões e problemáticas

associadas ao eventual carácter ‘transnacional’ das culturas da Idade do Bronze, sobretudo quando comparadas com a ‘fragmentação’ que se lhe segue ao longo da Idade do Ferro. Ainda assim, não podemos deixar de notar a actualidade do pensamento de Martins Sarmento neste domínio, quando afirmava que a Idade do Bronze parecia apontar para uma única gramática decorativa da sua cerâmica e bronzes, e compará-la com o reconhecimento, por parte da crítica contemporânea, de um ‘pervasive style’ na cerâmica e ourivesaria da I Idade do Ferro ‘atlântica’ (De Boer 1999).

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etnogénica será justamente mais ‘fustigada’) exigia uma sobreposição perfeita entre este ‘povo’ e os vestígios arqueológicos dominantes na Idade do Bronze, além de exigir, também, que uns e outros fossem entendidos como manifestações de ‘arianidade’. Numa e noutra das exigências não seria o autor ouvido; e em ambas a investigação sua contemporânea pretendeu desacreditá-lo. No plano propriamente ‘antropológico’, a luta foi igualmente árdua. No contexto oposicionista que habita as descrições romanas dos povos indígenas, estes são apresentados, ora como ‘bons’, ora como ‘maus selvagens’ – em todo o caso, sempre selvagens (cf. Guerra 1995). Para Martins Sarmento, porém, a intenção maior da sua obra é demonstrar a equivalência civilizacional entre Lusitanos e Gregos e Romanos, pelo menos ao nível dos fundamentos espirituais; daqui se imagina a luta tenaz que o autor tem de sustentar, quer com as origens das tradições romanistas, quer com a longa escolástica delas derivada. Pertence a este contexto, por exemplo, a afirmação de Martins Sarmento sobre a pervivência de povoamento nos ‘castros’, ao longo da dominação romana, ao contrário dos que, dotados de um ‘romanismo exclusivista’, viam na descida para as planícies’, comentada por César, a única visão possível da organização do Entre-Douro-e-Minho.162 O terceiro ‘núcleo’ que se desenha nitidamente na geografia da estrutura citacional é o que reúne as publicações mais recentes ao redor de Paris. Nem todos os autores aí incluídos se apresentarão como defensores das mesmas teorias científicas; mas também facilmente se compreende que entre eles não deixará de insinuar-se uma visão ‘francocêntrica’ sobre a etnogénese dos povos da Europa e especificamente das suas regiões ocidentais; ora, ser-se ‘francocêntrico’ em relação à ‘geografia imaginativa’ da pré-história ocidental europeia implica precisamente ser ‘celtocêntrico’, uma vez que os 162

Não só do Entre-Douro-e-Minho mas também da Galiza, do mesmo modo (Pisón 1979: 55 e ss.). Apesar de

Martins Sarmento estruturar o seu modelo de ‘evolução cronológica’ do fenómeno castrejo numa periodização hoje reconhecida como demasiado rígida e ‘idealista’, ainda assim a crítica contemporânea não veio a desmentir em absoluto aquele modelo sarmentiano, de uma certa ‘conspicuidade’ dos povoados iniciais, e de um relativo ‘deslizamentos’ destes ao longo das encostas até organizarem a economia de ‘vale’ (Criado 1992: 250; 1993: 38; Parcero 1995; 2000; sobre as relações coloniais estabelecidas entre romanos e a esfera indígena num contexto de exploração de recursos e mão-de-obra e determinação de um mercado dirigido, cf. Sastre 1999: 358-359; 2001: 67, 291 e ss., 2002: 215). É, porém, justo dizê-lo que os limites cronológicos desta realidade não coincidem em absoluto com a periodização idealista de Martins Sarmento.

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Gauleses, desde os primeiros humanistas, e já em versões mais científicas do passado, sempre vinham sendo apresentados como os directos antecessores dos Franceses. É também por esta razão ‘geopolítica’ que veremos, mais uma vez, Martins Sarmento a pretender inserir a sua ‘geografia imaginária’ do passado europeu num ‘fundo de mapa’ já preenchido por muitos concorrentes, no contexto de uma ‘geopolítica epistemológica’ que lhe deixa pouco espaço de visibilidade para uma teoria ‘ligúrica’ dos ‘neo-célticos’, a que adicionaria a ‘impertinência científica’ de considerar os Gauleses como povos germânicos! A plêiade de lugares de publicação pelos territórios da Alemanha garantirá, a Martins Sarmento, que não está sozinho nessa determinada menorização do papel dos ‘proto-Franceses’ na Pré-História da Europa. E será por isso mesmo que se acompanhará de autores alemães no momento de a fazer desacreditar – trata-se apenas de uma manobra de ‘diplomacia epistemológica’.

Em último lugar desta ‘sub-introdução’, replicando a mesma posição que ocupa na secção mais teórica em que propusemos a ‘afirmação de um ponto-de-vista geográfico’, e antecipando também uma posição equivalente que irá deter na apresentação final deste nosso trabalho, gostaríamos de fazer referência ao ‘cronotope’ bakhtiniano e, especificamente, ao modo como ele será traduzido na espessura da narrativa sarmentiana. Após termos ‘viajado’ com Martins Sarmento através das suas diversas ‘geografias imaginárias’ dos Argonautas, termos desenhado o mapa ‘atlântico’, por si delineado, percorrido por Ulisses e Hércules e Jasão, termos procedido à caracterização da estruturação ‘espacial’ da sua historiografia, desde a essencial ‘europeidade’ ariana de fundo mítico oriental, passando pelas escalas necessariamente mais próximas do seu lugar-corpo – o ‘arco atlântico’, de ressonância burguesa e liberal, o ocidente de Espanha conquanto prefiguração da nacionalidade, a região dúrio-minhota repleta de vestígios pré-romanos –, até desvendarmos a própria esfera de identidade, dedicaremos então algumas páginas a tentar compreender qual o estilo discursivo da narrativa histórica em Martins Sarmento. Em suma, procuraremos compreender qual o ‘cronotope’ dominante da sua obra, o que constituirá a conclusão deste trabalho. 192

Nesse momento, queremos acreditar, estaremos em condições de apresentar aquela que foi para nós uma das características mais impressivas da leitura detida da obra sarmentiana: a metáfora ‘antropomórfica’ e ‘masculinista’ que faz uso para descrever a etnogénese da ‘Lusitânia’, e a sua organização em função do ‘lugar’ e do ‘tempo’ que são os do autor. A ‘Lusitânia’ (a ‘primitiva’, entenda-se – i.e., a que se estende entre o Tejo e mar Cantábrico) é, para Martins Sarmento, um organismo vivo, uma personalidade, e especialmente, uma mulher. As fases históricas que o autor desenha na sua evolução no tempo são apresentadas, descritas e sentidas como momentos significativos da vida de um ser humano querido. Toda a narrativa sarmentiana se inicia com esse momento singular, de ressonância mítica (e equivalência antropomórfica) do nascimento. É uma exigência ideológica do autor aquela que apresenta ex-nihilo a presença dos ‘Arianos’ ‘vinda do nada’: de facto, estamos em presença de uma ‘criação’, de um ‘parto’, e em que as constantes referências à ‘luz ariana’ permitem tão bem reconhecer simbolicamente. Seguir-se-lhe-á esse momento historicamente imponderável, a longa ‘Idade do Bronze’, em que por toda a Europa – ao longo dos seus principais rios, nas três penínsulas do Mediterrâneo (a grega, a itálica, a hispânica), nos países remotos do norte da Europa, nas Ilhas Britânicas, na Gália… – todo o continente é de uma só ‘família’; os atributos considerados (e os adjectivos utilizados) remetem invariavelmente para sentimentos de harmonia, vidas de conforto, convívio de familiaridade: é de uma infância que se trata. O ‘mal’ está ausente, a dor e a guerra não existem; como no tempo humano de que é equivalente, este é um tempo narrativo ‘sem tempo’, uma geografia em que o ‘tempo’ passa muito devagar ou não flui de todo; e, por isso, Martins Sarmento condensará todas as manifestações arqueológicas pré-romanas nesta vasta ‘infância do Bronze’, em que tudo se mantém, por séculos, e em todos os lugares, uniforme e inalterado. Subitamente, porém, um perigo incerto insinua-se, vindo de longe; nas fronteiras mais distantes daquele vasto solar ‘lígure’ surgem as ameaças das hordas invasoras dos povos ‘celtas’. Estes são guerreiros intrépidos, que associam à coragem física o prazer da guerra, da conquista, a ignorância da civilização, trazendo consigo uma ‘nova espada de ferro’, dura de aço, enorme, desconhecida dos pacíficos povos ‘lígures’, que 193

levantam contra uma terra ‘ligúrica’, assim precipitada no termo da sua infância. Os sentimentos

de

Martins

Sarmento,

como

veremos,

quando

descreve

estas

movimentações de povos e as invasões delas decorrentes, replicam, simbolicamente, um pai receoso que vê aproximarem-se da sua filha, quase núbil, o espectro da violência, a que a longa espada de ferro empresta mesmo uma ressonância freudiana adequada.163 É a puberdade de uma ‘Lusitânia’ ameaçada que Martins Sarmento descreverá nos mais ‘abjectivistas’ termos que na sua obra se podem recolher. Os Celtas são a sua ‘bête-noire’, e a descrição que deles faz, mostrando-os, sempre, em oposição estrutural aos povos ‘lígures’, demonstra que entre estes dois mundos é impossível qualquer tipo de convivência para lá do contexto da violência, da guerra, do estupro da terra. A ‘Lusitânia’, ‘pela sua posição’ (e aqui se detecta também o ‘idealismo geográfico’ de ressonância ritteriana que habita a obra de Martins Sarmento) escapa quase milagrosamente à destruição que os Celtas infligirão sucessivamente nos vales do Reno, do Danúbio, do Ródano, na Padânia, na Gália e, finalmente, nas regiões orientais da Península Ibérica. A ‘Lusitânia’ é assim apresentada como o ‘lugar eleito’ pela própria história, para que nele convirjam, vindos de norte, das Ilhas Britânicas, e do sul, escapando à pressão fenícia que se exerce sobre os litorais do golfo de Cádiz e da terra tartéssica, os ‘últimos descendentes’ da ‘velha raça do Bronze’; sob o nome conjectural de ‘Ligusitanos’, Martins Sarmento estabelece a genealogia dos povos do noroeste da Península Ibérica, e apresenta, imaculada, a ‘noiva lusitana’ que a horda celta não pôde blasfemar. Ei-la, pois, na sua pureza virginal, a terra lusitana que só a um pretendente de 163

Teremos oportunidade de constatar a ausência de metáforas masculinistas ‘agressivas’ em Martins Sarmento,

assim como a ausência de valorização do fundo guerreiro dos Lusitanos. Este ponto é tanto mais curioso quanto as estátuas ‘galaicas’ permitiriam largamente uma leitura desse teor, que de resto será tentada, contemporaneamente ao autor, por Figueiredo Guerra e, no momento de afirmação nacionalista dos inícios do século vinte, por Mendes Correia; este será de resto um trope narrativo comum na apresentação do passado proto-histórico da ‘cultura castreja’, e transferido quase directamente para a ordem ‘histórico-filosófica’ da consciência ‘nacional’ (Carvalho 1954). Em Martins Sarmento, contudo, a ‘linguagem corporal’ da agressividade e da violência ‘masculina’ será sempre reiterada na figura do ‘guerreiro celta’, numa oposição estrutural de oposição entre duas ordens de masculinidade, cuja pertença / ausência remete para a ordem social da prática da própria diferença (cf. Bourdieu 2001: 120 e ss.). Em todo o caso, e ainda que o conteúdo concreto da questão da ‘celticidade’ do registo arqueológico do primeiro milénio a.C. no noroeste da Península Ibérica esteja fora do âmbito do nosso trabalho, sempre diremos que esse mesmo problema, o de poder equivaler uma realidade material arqueológica ‘camponesa’ (Fernández e Sánchez-Palencia 1998) a uma sociedade eminentemente guerreira, aflora nalguma crítica contemporânea (Brañas 1995 e 2000; García 1990).

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igual estirpe pode ser recomendada: sê-lo-á, justamente, quando o Romano, descendente orgulhoso da mesma ‘arianidade’ que dominara toda a Europa pré-céltica mas tornado mais forte pela conquista, pela expansão pela luta vitoriosa contra os Celtas e os Germanos, vem e toma virilmente, como um dote, a terra Lusitana, é de um casamento consentido que se trata, de uma união natural entre povos do mesmo sangue, porque apesar de serem distantes os lugares de origem, no ‘tombo genealógico’ de Martins Sarmento, ambos são infantes do mesmo solar, que o investigador quase inconscientemente reproduz quando narra a prodigiosa profecia que aclama Galba entre os Cântabros. A ‘noiva lusitana’ é, porém, orgulhosa, se se submete ao conquistador romano, fá-lo-á com o denodo de quem possui os mais antigos pergaminhos da genealogia ‘ariana’ da Europa. Para Martins Sarmento, o Romano conquistará, naturalmente, pela força cosmopolita, pela urbanidade, o território que lhe é destinado em dote; as melhores terras, os melhores caminhos, as melhores cidades; a Lusitânia (a primitiva, a quem desapoderam do nome para o atribuir a uma ficção geográfica de Roma), porém, não se submete servilmente. Recolhe ao cimo dos montes, aos caminhos dos bosques, aos ‘castros’ de antigamente, e faz perviver, na tradição esquecida desses lugares, o esplendor da sua ‘idade de ouro’. Finalmente, até os lugares recônditos lhe serão negados; a chegada simultânea das ‘hordas germanas’, vindas das fronteiras mais distantes do Império, e dos cultos da nova religião, estes vindos do seu próprio seio, ditarão a morte desta matrona lusitana entretanto envelhecida. Uma vez o Império dissolvido, quase mais nada restará. O mundo ‘ligúrico’ que Martins Sarmento descreve, desde o seu luminoso nascimento conhece o fim irreversível; a barbárie germana destruirá os fundamentos da civilização romana; o cristianismo crescente substituirá para sempre as divindades do Olimpo lusitano. Aparentemente, é o fim, e esperar-se-ia que a narrativa de Martins Sarmento terminasse aqui. Porém, Martins Sarmento guardará ainda, como veremos, um último alento para a personagem favorita da sua narrativa histórica, e para esse mundo ‘ligúrico’ que vê desaparecer com evidente nostalgia, Quase irreconhecível sob o peso dos séculos, o ‘povo humilde’ do seu Entre-Douro-e-Minho vai transmitindo, quase sem se dar conta, os últimos testemunhos da grandeza perdida da distante ‘Idade do Bronze’. E ele próprio, Martins Sarmento, se convida a si próprio a integrar a longa narrativa do 195

Passado; ele é o intérprete da linguagem do passado, o demiurgo da aparente regeneração de um povo inteiro. Recolhe infatigavelmente, romanticamente, nostalgicamente, os vestígios materiais, linguísticos, etnológicos desse passado e traz de novo à luz o fundo pagão da espiritualidade ‘ariana’. Eventualmente, o ciclo fecha-se, e a ‘Lusitânia’ renasce pela pena do seu autor. II. 2. A hermenêutica ‘fenícia’ Na mitologia da Grécia antiga existiam versões contraditórias do trajecto e localização das aventuras dos Argonautas. Martins Sarmento tomará partido dessa indecidibilidade inicial para sublinhar a verosimilhança da sua própria interpretação, que fará coincidir parcialmente com uma das geografias míticas enunciadas. Da existência de versões contraditórias, conclui justamente o autor que se está em presença de um fenómeno de ‘aculturação’ de uma aventura ‘gloriosa’ que pertence não aos Gregos mas aos Fenícios: a expedição dos Argonautas era ‘uma das maiores glórias da Grécia heróica’ não só pelas ‘peripécias que a caracterizavam’ mas também, e é este ponto que é conveniente sublinhar para se poder ver em toda a extensão a influência que naturalmente exerce no filo-helenismo da época, ‘pelo tempo em que fora efectuada’ (Sarmento 1887a: viii). Nela se narra a aventura marítima de um grupo de heróis marinheiros que, tendo partido de Iolcos à procura de um ‘velocino de ouro’, e tendo-o enfim encontrado, no exacto momento em que pretendem regressar a casa com o produto dessa demanda, vêm sublevar-se contra si o povo dos Colquídios que os perseguem incessantemente por todo o Ponto Euxino. ‘Encurralados neste mar’, porque o estreito que o ligava ao Mar Mediterrâneo havia sido tomado pelos seus inimigos,164 os marinheiros da Argo vêem-se obrigados a procurar outro caminho. É sobre o percurso desta fuga que a geografia mítica das narrativas antigas já divergiam entre si. De entre versões mais creditadas,

164

Para Martins Sarmento a informação de que o estreito se encontrava em mãos dos ‘Colquídios’, para ele os

Albiões, é um dos pontos mais significativos da narrativa argonáutica e a demonstração de que ela se refere ao Mar do Norte, em que se identificava com o canal da Mancha, passagem marítima que o périplo de Avieno afirmava ter estado sob domínio de um mesmo povo.

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uma, a do Pseudo-Orfeu, vulgarizada por Timeu,165 com o recurso a informações de outros historiadores, os fugitivos dirigir-se-iam à Palus Meotide e, tomando pelo Tanais e por outro rio anónimo, viriam ter ao Mar Crónio, Mar do Norte, voltando a Iolcos pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo. É a versão do falso Orfeu.

Uma outra versão, apoiando-se numa geografia mais ‘egeia’,166 a epopeia dos heróis argivos teria como cenário as regiões do Mediterrâneo oriental: [D]o Euxino vieram eles sair ao Adriático pelo Danúbio e por outro rio, que do Danúbio trazia a este mar, entrando em Iolcos, depois de vários incidentes, de que só importa nomear aqui a travessia pelo Pó e pelo Ródano. É a versão de Apolónio de Rodes, o poeta que tratou este assunto com verdadeiro amor. [Sarmento 1887a: viii]

A estratégia crítica de Martins Sarmento será o de desmentir no essencial qualquer uma destas versões, mas retendo de cada uma delas o que possa servir-lhe para reconfigurar a viagem dos Argonautas como sendo a viagem dos Fenícios ao norte da Europa. Para isso socorre-se das autoridades da crítica histórica sua contemporânea, com o intuito de demonstrar que quer um quer o outro dos destinos não estavam ao alcance das competências náuticas dos Gregos da época heróica. Martins Sarmento é claro nesse aspecto: não é apenas o Oceano Atlântico que está fora da sua órbita, mas o próprio Mar Negro, que a esta época ainda não era um lugar de colonização dos Gregos, o que apenas viria a suceder mais tarde.167 Mas se a viagem marítima era quase uma

165

‘Beaucoup d’historiens, tant anciens que modernes (de ce nombre est Timée), prétendent que les Argonautes,

après avoir enlevé le toison d’or, apprirent qu’Aétès tenait l’entrée du Pont fermée par ses navires, et que cette circonstance fournit aux Argonautes l’occasion de faire une action étrange et mémorable: ils remontèrent jusq’aux sources du Tanaïs, tirèrent leur navire à terre, le traînèrent jusq’à un autre fleuve qui se jette dans l’Océan, et arrivèrent ainsi dans la mer; ayant la terre à la gauche, ils continuèrent leur navigation du nord au couchant, et, arrivés prés du détroit de Gadès, ils entrèrent dans la Méditerranée’ (Diodoro [1851]: 320). 166

Sarmento (1887: x) chama-lhe ‘geografia homérica’.

167

A região da Propôntida foi colonizada pelas cidades de Mileto e Megara, especialmente pela primeira, cuja

colonização do seu hinterland estava directamente ameaçada pela vizinhança do império persa. Ao longo do século oitavo e sétimo a.C. seriam fundadas as cidades de Cyzicus, Parium e Abydus. Os colonos de Megara seriam responsáveis pela fundação de Byzantium, Chalcedon, Selymbria e Astacus, também pela mesma época. O Euxino seria, por sua vez, ocupado ao longo de todo o século sétimo, na sua margem meridional, especialmente pelos

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impossibilidade para a época a que são atribuídos os sucessos das viagens dos Argonautas, ‘o itinerário da volta, um dos acontecimentos mais característicos da empresa, era absolutamente impossível, porque nem entre o Euxino e o Adriático, nem entre o Euxino e o Mar do Norte havia as comunicações sonhadas pelos crendeiros gregos’ [Sarmento 1887a: viii-ix]. Porém, o carácter minucioso de algumas das descrições, a íntima relação que os seus pormenores apresentam com a geografia ‘ocidental’, e a ‘desconstrução’ a que se prestam para quem neles supuser uma geografia fenícia, irá permitir a Martins Sarmento a edificação de uma teoria que, de uma das versões aproveitará o cenário ‘atlântico’ e de outra a série de sucessos propriamente narrativos. Da fusão parcelar das duas, surgirá o contexto em que o autor irá inserir a sua própria interpretação historiográfica. Martins Sarmento tem a plena consciência das dificuldades ao nível propriamente geo-historiográfico por que a sua teoria tem de passar. Como ele próprio reconhece, nenhum dos autores que se dedicavam à crítica da viagem da Argo, se deu ao trabalho de discutir se os Argonautas eram gregos e o teatro do grande feito o Euxino’ (Sarmento 1887a: ix). A sua visão alternativa da Argonáutica não se inclui, portanto, na ‘ciência normal’ da crítica histórica sua contemporânea. É uma proposta de ‘ruptura paradigmática’ total, porque exige o desmantelamento prévio de uma certa visão do mundo e do passado. Porém, como sucede em muitas outras teses da sua teoria interpretativa da história antiga da Europa, será este caminho da ruptura que será por ele escolhido. Este é mesmo uma característica propriamente psicológica da historiografia de Martins Sarmento, a recusa em integrar as suas análises em programas de pesquisa mais estáveis e estabelecidos. Desde o momento em que abandona a tese do celtismo, o autor distancia-se progressivamente da ‘ciência normal’ do seu tempo.

colonos milésios. Os habitantes indígenas com que os Gregos contactaram em toda a região, incluindo (para referir especificamente os que são nomeados pela Argonáutica) os Mariandinos, os Colquídios ou os Trácios, foram descritos por Heródoto como sendo de costumes radicalmente diferentes dos Gregos. A colonização do Mar Negro teria ocorrido, assim, vários séculos antes do declínio de Micenas, cidade a quem Martins Sarmento atribui a esfera de civilização do bronze helénico, embora alguns autores considerem que as viagens de Ulisses possam referir-se a um período protocolonial de cronologia ligeiramente anterior. Cf. Orrieux e Pantel (1995: 53 ss.) e Malkin (1998: 10).

198

O facto de estar sozinho com a ‘sua razão’ (este ‘isolamento epistemológico’ de Martins Sarmento, associado a uma valorização dos materiais que recolhe na região em que trabalha, é uma constante no seu trabalho) não o impede de apresentar a sua teoria nos termos em que a historiografia sua contemporânea o permite. Martins Sarmento escreve para os seus ‘pares’, ainda que as suas teses sejam em grande medida incompatíveis com as que a historiografia do fim do século dezanove vai produzindo. Acontece assim com a atribuição da língua céltica a povos ‘ligúricos’, do tipo físico moreno aos habitantes que no bronze ocupam a Grã-Bretanha, à geografia ‘ibérica’ das tradições irlandesas e galesas, etc. A confrontação de Martins Sarmento com as teorias equivalentes que são produzidas pela historiografia sua contemporânea são inúmeras e dão-se em quase todos os domínios científicos. Contudo, talvez em nenhuma delas (a única excepção poderia talvez fazer-se em relação ao pretenso ‘ligurismo’ da língua céltica), seja tão evidente a força ‘geopolítica’ com que tem de enfrentar-se como neste caso da crítica das lendas gregas. A própria designação de ‘lendas gregas’ encerra a dificuldade do programa de Martins Sarmento, uma vez que a sua intenção é demonstrar que aquelas não são ‘lendas’ nem são ‘gregas’: Mas os Argonautas eram gregos? O teatro geográfico da sua expedição foi o Euxino? Aqui estão as duas questões que vamos examinar (…), tanto para justificar as promessas do nosso escrito, como a pouca importância que nos merecem as soluções, até hoje propostas. Começaremos pela última, porque resolvida ela, a primeira se resolve por si mesma [Sarmento 1887a: ix].

Iremos analisar pois, detidamente, qual a argumentação que Martins Sarmento desenvolve no intuito de ‘devolver’ os Argonautas ao Ocidente, quais os elementos que a constituem, e que tipo de efeitos geo-historiográficos irá provocar na sua teoria histórica do NW da Península Ibérica e, especificamente, da etnogenia dos Lusitanos.

A intenção de Martins Sarmento, quando procede à hermenêutica dos textos das narrativas épicas gregas, é ‘restituir’ a geografia fenícia que lhes teria dado origem, e que a apropriação por parte da cultura grega havia desfigurado ao ponto de não ser mais possível reconhecer os lugares e povos que ali são nomeados. É por isso perfeitamente natural que a sua estratégia da crítica desses textos passe pela reconstrução propriamente cartográfica das viagens de Jasão, Ulisses e Hércules. 199

A história da colonização marítima dos Gregos mostrava ser impossível que, numa cronologia tão alta como a da Odisseia, lugar em que vem já referida a aventura dos Argonautas, a margem oriental do Mar Negro,168 a Cólquida, pudesse já ser conhecida pelos Gregos, que, no entanto, ali localizam o país dos Aetes, povo com que Jasão e os companheiros terão de se enfrentar. Nesta mesma passagem vê Martins Sarmento uma referência inequívoca ao facto de a viagem da Argo se localizar num ponto ‘para além’ do limite de navegabilidade para os próprios Gregos, ou seja, para um ponto a ocidente:169 Vê-se pois que uma ilha Ea nas extremidades do mar e da terra, tem em lugar próprio nas regiões do Ocidente; e notando que o velho mitógrafo da Odisseia nos aconselha a procurá-la nesta direcção (não esqueça que o país de Aetes e Ea são a mesma coisa), acode a suspeita se Apolónio, entre outros, não translocaria para as margens do Euxino uma ilha, que a legenda ante-homérica colocava no Ocidente, e isto porque o obcecava uma grande ilusão (…) – obcecação tal, que nem lhe permitia ver como a sua identificação geográfica era formalmente desmentida pela topografia, que reproduzia fiel, mas inconscientemente. (…) Não hesitamos por isso em afirmar que Apolónio fez à geografia do itinerário de Argus o mesmo que fez à geografia de Ea, tanto mais que estão bem à vista as razões que o levaram à deturpações com que a desfigurou [Sarmento 1887a: xi e xix-xx].

O primeiro elemento da argumentação de Martins Sarmento prende-se assim com a identificação do ‘limite de navegabilidade’ a que as lendas gregas faziam referência. O nome de ‘Colunas de Hércules’ tinha justamente entre os antigos esse carácter de fronteira entre o mundo conhecido e desconhecido, entre o mar navegável e aquele de que apenas se conheciam vagas informações, entremeadas com lendas de animais fabulosos e destino trágico das embarcações que neles se aventurassem. Entre os Antigos, esta denominação, e sobretudo a realidade que lhe andava associada, foi 168

‘One seafaring ship alone has passed thereby, that Argo famed of all, on her voyage from Aeetes (…)’

(Homer, The Odyssey, XII, 69-70, vol. I, p. 437 da ed. utiliz.). 169

Martins Sarmento apoia esta sua interpretação no facto de, entre os autores gregos mais antigos, a expressão

‘confins da terra’ ser utilizada sobretudo quando se referiam a pontos localizados a ocidente, como é o caso de Hesíodo, quando se refere à localização do Atlas: ‘Atlas sostiene el vasto cielo a causa de una imperiosa fatalidad allá en los confines de la tierra, a la entrada de las Hespérides de fina voz (…)’ (Hesíodo: 93).

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evoluindo com o tempo, conforme a localização da fronteira ia progredindo à frente da colonização das regiões cada vez mais ocidentais do Mar Mediterrâneo. Assim, a sua nomenclatura e a sua localização, dependiam de dois factores intimamente relacionados: do tempo em que são instituídos, e do povo a que dizem respeito, pois que Gregos e Fenícios, como, mais tarde, Romanos e Cartagineses, não navegavam nas mesmas regiões marítimas. É na conjugação destes dois componentes, cronológico e geopolítico, da nomenclatura da fronteira da oecumena, que Martins Sarmento irá propor a substituição da ‘geografia homérica’ que a maior parte dos investigadores fazia coincidir com a Sicília, e que se tratava de facto do limite de navegabilidade dos Gregos por muito tempo, por uma ‘geografia fenícia’, que estendia para o Atlântico toda a narrativa da Argonáutica, referida aos limites expansivos que a navegação dos Tírios havia marcado já no Oceano Atlântico. Na ‘mundividência fenícia’ as ‘Colunas de Hércules’ deveriam fazer referência a um ponto ‘na costa do Atlântico, e para além do qual os seus navios não podiam avançar mais’. Porém, dado que a expansão marítima dos Fenícios, tanto quanto informavam os fragmentos históricos que se podiam recolher das fontes clássicas e das lendas gregas, se tinha efectuado quer no sentido de África, quer no sentido da Europa setentrional, Martins Sarmento defende que existem não um mas dois destes limites.170 A homologia que o autor estabelece entre as duas nominações permitir-lhe-á inclusive concluir da origem geográfica de cada uma delas. Na nomenclatura grega, as duas ‘colunas’ situavam-se frente a frente, uma na costa africana e outra na costa 170

‘[N]ão havia um, mas dois pontos, em que as extremidades do mar, assim entendidas, coincidiam com as

extremidades da terra – o que não é para estranhar, desde que se observa que as navegações fenícias no Atlântico eram em duas direcções divergentes, uma para o Mar Austral, ao longo da costa líbica, outra para o Mar do Norte, ao longo da costa europeia’ (Sarmento 1887a: xi-xiii). O carácter ‘liminar’ das Colunas de Hércules é indiscutível, e não é nossa intenção entrar em considerações que ultrapassam os limites deste trabalho; contudo, não deixaremos de sublinhar a pertinência da opinião de Martins Sarmento, no que se refere não tanto à ‘nacionalidade’ do mito, como à sua evidente ‘fluidez’. Na própria interpretação grega do feito de Héracles se referem duas versões: na primeira, o semi-deus abriria um canal entre a Europa e África, continentes até aí ligados; numa segunda, porém, faria exactamente o contrário, adelgaçaria uma saída muito maior, de modo a impedir a entrada de ‘baleias e outros monstros marinhos’ (Graves 2004: 501). Nesta última versão, não é impossível reconhecer uma prática ‘geopolítica’ de ocultamento do já descoberto, opondo-se à primeira delas, em que o carácter de terra incognita é talvez mais claro.

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europeia, assumindo-se, contudo, como derivada da ‘geografia mediterrânica’ de que faziam parte, que eram os limites de um estreito, que veio a ser situado, em momentos que a expansão grega cobriu todo o Mediterrâneo, no limite do mar interior, entre o sul da Península Ibérica e o norte de África. Aqui, o autor detecta uma das muitas contradições que uma geografia desta natureza encerraria obrigatoriamente. A ser a margem africana do Estreito de Gibraltar o limite da navegação de Hércules (e supondo que Hércules e os seus mitos consistem numa alegoria das navegações que historicamente se efectuaram no Mediterrâneo), não se poderia explicar como num dos seus trabalhos o semi-deus atingiu o Atlas, promontório exterior ao Mediterrâneo e já em pleno Oceano Atlântico.171 Um problema, porém, subsistia ainda, mesmo quando se admitia como certo que o limite de navegação ultrapassava os limites do próprio Mar Mediterrâneo e se os localizava no Atlântico: era o de saber em qual das duas direcções se deveria procurar a região que a Argonáutica supostamente confundia com a Cólquida. A possibilidade de a situar no limite norte da navegação atlântica apoia-a Martins Sarmento na ‘geografia argonáutica’ do Pseudo-Orfeu, que dava como cenário das aventuras dos marinheiros da Argo o Mar Crónio, denominação que na Antiguidade Clássica se referiria inevitavelmente ao Mar do Norte. Este mar seria, para o investigador, o limite da navegação dos Fenícios ao longo do Atlântico setentrional, e nela poderia naturalmente localizar-se o país de Aetes.172 A possibilidade de situar os Argonautas no cenário do Mar do Norte não era, pois, desconhecida entre os historiadores antigos, e Timeu, vulgarizador desta versão, não a

171

‘Os Gregos colocavam uma na costa da Líbia, outra na costa europeia, e até aqui muito bem; mas com a sua

leviandade do costume fixavam-nas nas margens do Estreito de Gibraltar, sem repararem, por exemplo, que marcando a coluna líbica o nec plus ultra da navegação de Hércules para a Líbia, tendo ele nesta navegação chegado ao Jardim das Hespérides, nas imediações do Atlas, era perto do Atlas, e não no Estreito de Gibraltar, que ele poderia erguer um monumento, que comemorava aquele feito e indicava os limites que nenhum outro navegador se atreveria a ultrapassar’ (Sarmento 1887a: xiii). 172

Esta hipótese é tomada em consideração, mas rejeitada, em muitos trabalhos de crítica da restituição da

geografia argonáutica, sobretudo entre historiadores da Antiguidade. Convém tomar em consideração que a ordem de argumentação raramente se estriba em pormenores de ordem geográfica, ou da ‘fenomenologia’ do lugar; contudo, essas são preocupações que, ainda que minoritárias, não abandonam completamente o espírito dos restituidores; cf., e.g., J. H. S. (1931: 311-316)

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despreza. Porém, a necessidade de atribuí-la a uma realidade propriamente grega é que teria levado alguns autores subsequentes, entre os quais, e mais decisivamente, Apolónio de Rodes, a transferi-la para cenários que pudessem ser reconhecidos como sendo as regiões em que os Gregos pudessem reconhecê-la como propriamente sua. Segundo Martins Sarmento, teria sido uma estratégia de aculturação deste género que seria responsável pela substituição do Mar do Norte pelo Adriático, Egeu e Mar Negro. Segundo a narrativa de Apolónio, os Argonautas ‘fogem subitamente de Ea’, quando se deram conta dos ‘sinistros projectos que Aetes medita contra eles’ [Sarmento 1887a: xiv]. Estando impossibilitados de utilizar o caminho por onde tinham chegado, o estreito, por este se encontrar sob o domínio dos seus inimigos (facto a que Martins Sarmento dá uma enorme importância por ver nesta informação a demonstração do povoamento de povos ‘irmãos’, em que reconhece os diversas colónias ‘ligúricas’ a norte e a sul do canal da Mancha, e a que o nome posterior de ‘Oestrymnios’, presente na geografia de Avieno, daria uma corroboração histórica), os Argonautas são informados de um caminho alternativo pelo qual poderiam fazer regressar os seus barcos: Aqui estão agora as instruções dadas por Argus, para que os seus amigos levem a bom termo a navegação que lhes inculca: – Nas regiões da noite, não muito longe dos Montes Ripheus, nasce um rio, que chegando aos limites da Trácia e da Scyhtia, se separa em dois braços. Um destes braços desagua no “último corno do Oceano”, o outro no Mar da Sicília. É por estes dois rios que os fugitivos hão de efectuar a sua escápula do mar em que se vêem, começando por subir o rio que desemboca no “último corno do Oceano”, e chegando por ele ao segundo rio, que os trará ao Mar da Sicília – mar, diz Argus, que os “aproxima da sua terra” [Sarmento 1887a: xv].

Assim, segundo a ‘geografia argonáutica’ que Martins Sarmento pretende combater, os Argonautas teriam de internar-se pelo Danúbio, atingir as suas nascentes, passar daí a um outro rio (o Ródano) que, na foz, os poria em contacto com o Mediterrâneo. A proximidade das nascentes do Ródano e Danúbio, a norte dos Alpes, daria alguma

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credibilidade ‘geográfica’.173 Credibilidade que já não surge quando se constata o caminho que de facto foi seguido pelos Argonautas, segundo a versão de Apolónio. Os Argonautas teriam seguido o Danúbio, mas deste rio passariam ao Adriático, ponto este já desautorizado pela geografia física da região;174 do Adriático subiriam o Pó até à sua nascente e daí tomariam então as nascentes do outro rio (o Ródano) que os ligaria de novo ao Mediterrâneo, ponto que ainda mais que o curso para o Adriático teria contra si toda a evidência da geografia física.175 Para Apolónio, os rios que teriam as suas nascentes coincidentes numa mesma região, e que assim permitia a livre comunicação entre todos eles seriam, portanto, o Danúbio, o Ródano e o Pó. Será nesta contradição que Martins Sarmento irá reconhecer o mecanismo de transfiguração que, na sua opinião, a apropriação grega produz numa geografia originalmente fenícia. O mesmo mecanismo que transforma igualmente as narrativas épicas de Hércules e de Ulisses, todas com a intenção comum de dotar o imaginário grego com um passado que não lhe pertence. Propõe-se, por isso, o autor a fazer uma ‘viagem hermenêutica’ oposta àquela que, na sua opinião, terão efectuado os desvirtuadores gregos da geografia fenícia, ‘desprezando as identificações geográficas, e interpretando no seu sentido óbvio as indicações que ele dá’ [Sarmento 1887a: xvii]. Uma contradição ainda perturbaria a geografia argonáutica de Martins Sarmento, quando considerada no cenário em que a colocava a narrativa de Apolónio. A fuga pelo Danúbio, Pó e Ródano, e por este rio para o mar da Sicília, mar que os ‘aproximaria da sua terra’, traduz um caminho quase ‘torturadamente’ complicado, que afinal os vai levando sempre para mais longe do objectivo de regressar a casa. Essa contradição desapareceria imediatamente, se se considerasse que era do Mar do Norte e não do Mar Negro, que a expedição iniciava o seu regresso, como era a opinião dos que, com Timeu, professavam a versão do Pseudo-Orfeu.

173

Martins Sarmento admite alguma credibilidade histórica no registo poético da Argonáutica, e assim vê na

proximidade das nascentes o principal argumento da navegabilidade das estradas fluviais do centro da Europa. 174

‘Já Estrabão e Plínio, que parecem partilhar as opiniões de Apolónio, confessavam que o pseudo-Ister que

trouxera, segundo o poeta, os Argonautas ao Adriático, era coisa que não existia’ (Sarmento 1887a: xvi). 175

‘Aprecie-se o tamanho deste absurdo, lembrando que as fontes do Pó estão separadas do País dos Lagos e do

Bosque Hercínio nada menos que pelo enorme maciço dos Alpes’ (Sarmento 1887a: xvii).

204

A principal substituição que, na opinião de Martins Sarmento, terá sido levada a cabo pelos poetas gregos, seria a de incluir o Pó na parte da narrativa que originalmente faria referência a um outro rio. O informador dos Argonautas referira-se a um rio que desaguava no “último corno do Oceano” e que Apolónio identificava positivamente com o Danúbio (Ister); porém, neste passo, Martins Sarmento, detecta uma outra contradição evidente, no recinto da própria ‘geografia argonáutica’ de Apolónio: o Danúbio desaguava no Ponto, isto é, o Mar Negro, inúmeras outras vezes identificada na narrativa argonáutica. Para Martins Sarmento, o rio que verdadeiramente desaguava no ‘último corno do Oceano’ e que a apropriação grega da geografia fenícia tinha ‘invisibilizado’ de modo a não poder pôr em risco o cenário ‘mediterrânico’ da viagem da Argo era o Reno: Se pois interpretamos no seu sentido mais óbvio as instruções, que Apolónio põe na boca de Argus, o caminho que ele aconselhava aos seus amigos não era o do Ister e Ródano, mas o do Reno e Ródano; e claro é então que o ponto de partida da volta não era Euxino, mas o Mar do Norte, o Mar Crónio de Orfeu. (…) O leitor decerto não acredita, como nós não acreditamos, que seja por um milagre do acaso que o itinerário de Argus, visto à luz de uma interpretação que não pode ser mais óbvia, se torne tão simples e natural, tão exacto nas suas particularidades, quando se vê nele uma travessia do Mar do Norte para o Mediterrâneo pelo Reno e Ródano, que ninguém, encarregado de a descrever a traços largos o faria melhor.176

A inclusão do Reno na ‘geografia argonáutica’ é pois o principal argumento de Martins Sarmento, no sentido de recuperar o cenário original da sua evolução. Para isso, tem de efectuar uma outra substituição, também esta em confronto directo com a crítica sua contemporânea. O nome ‘Erídano’ era tradicionalmente referido ao rio Pó. Porém, o investigador português não deixa de fazer lembrar que, entre os autores antigos, o mesmo nome tinha em tempos designado o rio Reno.177 A partir da reposição do Reno

176

Esta posição de Martins Sarmento é reforçada pelo facto de, na geografia grega mais antiga, e.g., Hesíodo, o

Mar do Norte ser nomeado como ‘o corno do Oceano’, e considerado o lugar da foz do Reno: ‘En abundancia bajo la anchurosa tierra mana del río sagrado por la negra noche, brazo de Océano’ (Hesíodo: 106). 177

‘[A]o Pó chama ele [Apolónio] porém Erídano e nós sabemos positivamente que foi Pherecydes o primeiro

que identificou o Erídano com o Pó; antes dele o Erídano era o Reno’ (Sarmento 1887a: xxi, nota 24). ‘Não esquecer

205

no seu lugar próprio, e retirando o Pó do lugar que havia usurpado, Martins Sarmento efectuará a ‘re-narração’ da viagem dos Argonautas, em busca de indícios de corroboração dessa substituição, de modo a poder apresentá-la liberta de todos os preconceitos ‘grecocêntricos’ de que, na sua opinião, Apolónio havia partido. Reposto o rigor da geografia inicial, os ‘absurdos da navegação do Pó’, tornam-se não só possíveis, mas de ‘um rigor verdadeiramente surpreendente’ (Sarmento 1887a: xxii). A geografia que se esconde por trás das contradições de Apolónio torna-se, para Martins Sarmento, mais clara, quando se expõem as razões dos preconceitos grecocêntricos que lhes dão origem. O cenário da fuga dos Argonautas seria então o Mar do Norte. São informados de que um caminho fluvial os põe em contacto directamente com o Mar Mediterrâneo, e que esse caminho é constituído pelos rios Erídano (Reno) e Ródano. A partir deste pressuposto, Martins Sarmento expõe o mecanismo voluntário de ocultação da verdadeira ‘geografia argonáutica’ levado a cabo pela efabulação grega da história fenícia. Na primeira passagem, o Erídano que desagua no “último corno do Oceano” é a única saída de um mar em que se encontram prisioneiros. Na segunda passagem os Argonautas são informados de que pelo Erídano podem atingir, passando o País dos Lagos, o Mar Mediterrâneo. Apolónio, ao seguir a opinião de Ferecides, substituindo o Reno pelo Pó, põe em contradição insanável as duas informações, pois delas resultaria que o mar em que os Argonautas se encontravam encerrados pelos seus inimigos seria o próprio Adriático, ‘o que para o nosso poeta deveria soar a heresia’ (Sarmento 1887a: xxiv).178 Apolónio estaria assim diante de uma dupla dificuldade: por não admitir que o Erídano possa desaguar no Mar do Norte, que a legenda é anterior a Homero e que Pherecydes escreveu no séc. v a.C.’ (Sarmento 1887a: xxi, nota 25). A referência a Ferecides vem citada em Jubainville (1989: 335): ‘Le rapprochement fait par Hygin entre l’Éridan et le Pô est emprunté à Phérécyde: c’est que signifie le passage où le mytographe latin, parlant de l’Éridan, ajoute: quem Pherecydes primus vocavit’. 178

‘É também decerto por isso que ele dá ao Adriático o nome de Mar Satúrnio (Crónio), que a legenda devia

dar ao mar, onde saía o verdadeiro Erídano, e que aplicado ao Adriático é um disparate, que alguns intérpretes têm querido explicar com outros disparates’ (Sarmento 1887a: xxv, nota 30). A passagem correspondente em Apolónio é a seguinte: ‘So he spoke, and the young men approved the words of the son of Aiakos. They quickly embarked and rowed with all their strength until they reached the holy island of Elektris, the last of the islands, near the mouth of the river Eridanos. When the Colchians realized that their leader had been killed, they hastened to search for the Argo and the Mynians over the whole area of the sea of Kronos (…)’ (Apolónio de Rodes, Argonáutica, IV, 507-9, p. 110-111 da edição por nós utilizada).

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substitui-lhe o nome pelo do Danúbio (Ister) que adequadamente desagua no cenário desejado para a narrativa épica, o Ponto; ao fazê-lo, e aceitando o texto da segunda passagem, permite que os Argonautas atinjam o Danúbio pelo Pó, para ele o verdadeiro Erídano: ‘Como venceu ele a dificuldade? Cortou-a sem dó nem consciência’, e os ‘fugitivos sobem o Ister até um certo ponto e de aí hão-de vir, seja como for, para o Adriático, onde os espera o Erídano de Ferecides’ (Sarmento 1887a: xxv). A restauração de Martins Sarmento pode pois cumprir-se, uma vez libertada a narrativa de Apolónio de todas as alterações nela inseridas com o intuito de a referir a um cenário grecocêntrico: Argus, um neto do rei Aetes, diz-lhes que hão de subir por um rio que desagua no último corno do Oceano, o Erídano (…), e que daí passarão para um segundo rio, o Ródano, que os trará a um mar que os aproximará da sua terra, o Mar da Sicília. Os heróis sobem efectivamente pelo Erídano (Reno); mas, em vez de tomarem a tempo o rio que os traz ao mar que os aproxima da sua terra, o Ródano, enganam-se e vão parar ao País dos Lagos e ao Bosque Hercínio, onde estiveram para tomar um rio, o Danúbio, que os levaria a um mar de perdição (o Euxino) [Sarmento 1887a: xxvi].179

Uma vez reconhecida a deturpação que a tradição cultural grega havia introduzido na verdade histórica que se esconde sob a narrativa de Apolónio, Martins Sarmento retirará todas as consequências necessárias para a etnogeografia do Ocidente. Numa ilha do Mar do Norte, em tempos ainda anteriores à cronologia da Guerra de Tróia, vive uma população que detém um invulgar conhecimento da geografia da Europa, e especialmente dos principais rios que a cruzam. A essa ilha assomaram uns marinheiros vindos do Mediterrâneo; com eles confraternizaram primeiro os habitantes dessa ilha, porém, mais tarde, sobreveio uma perigosa perseguição que obriga os marinheiros 179

Existe por parte de Martins Sarmento a convicção de que a sua teoria podia não explicar convenientemente

por que razão o Mar Negro, desaparecida a ameaça colquídia, transferida para o Mar do Norte, continuava sendo um mar perigoso para os Argonautas. Esta é porém uma realidade que seria efectiva se os Argonautas fossem marinheiros fenícios: ‘É muito de crer que, quando acentua que o Mar da Sicília os aproximava muito da sua terra, Argus acrescentasse que a observação não era inútil, por haver grande facilidade em irem parar a um mar que os distanciava muito dela, o Euxino; que os premonisse, enfim, contra a possibilidade do engano, em que estiveram a cair, e que remediaram, retrocedendo pelo caminho, que os levou ao País dos Lagos, pelo Reno, e vindo a ganhar o Ródano.’

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mediterrâneos a fugir; a circunstância de o estreito por que tinham penetrado esse mar ter ficado entretanto inavegável por nele dominarem os perseguidores, aqueles são informados de um caminho alternativo ao caminho marítimo, caminho esse que consiste na larga estrada fluvial que o Reno lhes oferece, e pela qual podem atingir o Mar Mediterrâneo, e assim as costas de onde partiram. Para Martins Sarmento não há qualquer dúvida: ‘O mar em que os expedicionários se viram encurralados, foi o Mar do Norte; a ilha nas extremidades do mar e da terra, próxima de um estreito, é a Inglaterra’, e nela, especificamente na sua costa oriental, ficaria a cidade de ‘Cytaia’, a capital do reino de Aetes (Sarmento 1887a: xxvii-xxviii). Recuperado o cenário original da viagem dos Argonautas, pode então Martins Sarmento responder à segunda das perguntas com que retoricamente inicia Os Argonautas. Se na primeira delas, ‘ser ou não o Euxino o cenário da viagem dos Argonautas’, Martins Sarmento, ao escolher a versão do Pseudo-Orfeu, se coloca numa confrontação directa com a historiografia sua contemporânea (e, diga-se, a de hoje em dia180), mais o fará em relação à segunda que então formula: ‘são os Gregos os seus protagonistas?’ A resposta é negativa: Que é então a Argonáutica? Para nós é a legenda das primeiras explorações marítimas dos Fenícios para o Atlântico, atribuídas pelos Gregos a compatriotas seus, como sucedeu com muitas outras em que eles puseram a mão, e deturpada na parte geográfica, sobretudo quando os semi-eruditos começaram a notar que o campo dos feitos dos seus primeiros marinheiros não podia deixar de ser uma região facilmente acessível aos seus navios, acrescendo que certas coincidências topográficas e históricas (…) davam uma plausibilidade tal qual às suas erradas interpretações [Sarmento 1887a: xxix].

Tal como o fará em relação ao périplo do suposto anónimo cartaginês que se esconde por trás do poema de Avieno, também neste caso, Martins Sarmento lança mão de um ‘documento fenício’, que se vai deturpando sucessivamente ao longo do tempo, até se fixar nas formulações com a que a poesia grega o vai vulgarizar. Este é um estratagema que vemos o investigador utilizar para os que virão a ser os dois corpos

180

Vd., e.g., a introdução de Richard Hunter à obra de Apolónio (Hunter 1993: ix-xxxi, e mapas anexos).

208

documentais mais importantes na estruturação da sua etnogenia do ocidente e, especificamente, do noroeste da Península Ibérica. Na Ora maritima, na Argonáutica e nos outros documentos com ela relacionados,181 a convicção de Martins Sarmento é de que existe um ‘proto-documento’, que a crítica pode restituir pelas próprias contradições internas das deturpações de que foi alvo, em confronto com o rigor ‘realista’ das descrições nelas presentes.182 E, tal como o faz na edição crítica da Ora maritima, de que deriva uma etnogeografia do Ocidente da Europa de cronologia ao redor do século sexto, também a relação das primeiras viagens dos Fenícios ao Mar do Norte virá a constituir a principal fonte de caracterização etnogeográfica do Ocidente, alguns séculos antes daquela. Será no contexto destas restituições que Martins Sarmento se confrontará com outros investigadores do seu tempo, numa altura em que o filo-helenismo dominante dificilmente permite a visibilidade alternativa dos Fenícios como o povo marinheiro que é narrado na epopeia dos Argonautas. II. 2.1. Heracleia No relato mais comum do mito do Décimo Trabalho de Hércules, Gerião é o Rei de Tartessos, e é aí que tem início a aventura do herói grego. O desafio consistiria em ir buscar o gado de Gerião, a Erítia, uma ilha cuja localização é, no contexto da historiografia de Martins Sarmento, a questão que verdadeiramente importa. Segundo este relato, quando Hércules chegou a Tartessos, ergueu as colunas que vieram a ter o seu nome e que marcariam o limite da terra conhecida, da oecumena, acessível à esfera de navegação dos Gregos. Para Martins Sarmento, este é um ponto que merecerá especial atenção, pois o autor vê no nome de Hércules das colunas, o nome do ‘Hércules tírio’ (Melkart), e a partir desta substituição sentir-se-á autorizado a poder deslocá-las para os limites de navegação, não dos Gregos mas dos Fenícios. Também será significativa, na leitura que Martins Sarmento fará deste relato mítico, a passagem em que Hércules, não suportando os raios intensos com que Hélio o atingia, respondeu apontando uma flecha ao deus-Sol. O mesmo deus lhe providenciaria uma 181

O facto de os Argonautas habitarem igualmente outras narrativas épicas faz com que a convicção de Martins

Sarmento e as conclusões que dela deriva possam aplicar-se também à viagem de Ulisses e aos mitos de Hércules

209

taça de ouro, na qual o herói navegaria finalmente para a ilha Erítia, destino da sua tarefa. Para Martins Sarmento esta será uma prova da localização plenamente africana da acção deste episódio, o que lhe permitirá estabelecer conclusões importantes com referências equivalentes das viagens dos Argonautas e de Ulisses, deslocando-as, deste modo, da geografia ‘de proximidade’ que quer os escoliastas gregos quer alguns dos hermeneutas seus contemporâneos defendiam. Também a viagem de Tartessos para Erítia será objecto de especial atenção por parte de Martins Sarmento. Nesta viagem, Hércules sofreu a oposição de Oceano (de quem, genealogicamente, Gerião descendia), que encrespou as ondas do mar a um ponto de pôr em risco a sua viagem. Também este ponto servirá de argumento para Martins Sarmento apoiar a sua tese de uma ‘geografia da longinquidade’, por ver nela a alegoria de uma longa travessia de um mar difícil e ‘estranho’ à navegação do Mediterrâneo, é dizer o Oceano Atlântico. A localização de Erítia, ponto central do esforço crítico de Martins Sarmento, não era consensual mesmo entre os mitógrafos e escoliastas clássicos. Numa versão, a ilha localizar-se-ia ‘para lá do Oceano’, o que para alguns referir-se-ia especificamente às costas ocidentais da Península Ibérica.183 Noutra versão, referir-se-ia a uma ilha próxima onde se levantaria a cidade de Gades, e que tivera antes o nome de Cotinussa. Aí se consagravam dois templos, um a Crono e outro a Hércules.184 Como antes se referiu, Martins Sarmento não hesitará em considerar verdadeira a primeira das hipóteses, no contexto da ‘geografia de longinquidade’ atrás referida.

182

Esta apropriação poder-se-ia reconhecer, segundo Martins Sarmento, no facto de a nau Argo ser considerada,

entre os Gregos, ‘a primeira de quantas houve no mundo’ (Sarmento 1887a: xxix, nota 35). 183

‘Pégaso, levantando el vuelo y abandonando la tierra madre de rebaños, marchó a la mansión de los

Inmortales u allí habita, en los palacios de Zeus, llevando el trueno y el rayo el prudente Zeus. Crisaor engendró al tricéfalo Gerión unido con Calírroe hija del ilustre Océano; a este lo mató lo fornido Heracles por sus bueyes de marcha basculante en Eritea rodeada de corrientes. Fue aquel día en que arrastró los bueyes de ancha frente hasta la sagrada Tirinto, atravesando la corriente del Océano (…)’ (Hesíodo [1990]: 84). De um modo equivalente, em defesa da localização atlântica da Erítia, podemos ler em Pompónio Mela: ‘En Lusitanie il y a Érythia qui, selon la tradition, fut habitée par Géryon, et d’autres îles sans nom particulier (…)’ (Pompónio Mela [1988]: p. 80-81). 184

‘Il semble (…) que les anciens aient appelé le Bétis ‘Tartessos’ et Gadéira, ainsi que les îles avoisinantes,

Érytheia (…)’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 45).

210

Outras versões do mito, porém, localizam o gado de Gerião não numa ilha mas nas encostas escarpadas da ‘parte mais distante de Espanha’, o que se relaciona provavelmente com a hipótese que trazia a sua localização para as costas da Península Ibérica e especialmente da Lusitânia. Nesta versão, Gerião era já não o filho mas tão só o cognome do próprio Rei Crisaor, cujos três filhos o ajudaram na defesa do reino contra a investida de Hércules. Este relato inclui toda a travessia que o semi-deus tem de fazer pela costa africana e de que Martins Sarmento recolherá importantes indícios para a sua hipótese de tomar como equivalentes todas as narrativas que considera como versões diferentes do mesmo sucesso histórico, nomeadamente, a passagem dos Argonautas pelo lago do interior de África. Na viagem entre Creta e Tartessos, Hércules navega para a Líbia, onde mata Anteu e derrota as feras; visita o Egipto e mata Busíris; já no Norte de África elimina as Górgonas e Amazonas, funda cidades (Hecatompilos), e alcança de novo o mar em frente a Tartessos, onde levanta as proverbiais colunas. Atravessa para Tartessos, enfrenta os três exércitos dos filhos de Crisaor e consuma finalmente o rapto do seu gado.185 Em geral, as ‘Colunas de Hércules’ eram identificadas com as duas margens do Estreito de Gibraltar, havendo portanto uma coluna europeia, Calpe, e uma africana, Ábila, que corresponderiam ambas a moles rochosas imponentes. Noutros relatos de mitógrafos e escoliastas, porém, estas colunas diriam respeito apenas a uma marca propriamente ‘locacional’, um limite de navegação, que em alguns casos eram situados nas ilhas de Gades, lugar em que teriam sido materializadas em duas imponentes estruturas em bronze erigidas pelos gaditanos, associadas ao esforço inicial de colonização do Atlântico pelos Fenícios de Tiro. Teriam sido enviados três grupos sucessivos de homens com a intenção de fundar uma colónia para além do limite do Mar Mediterrâneo; o primeiro deles ergueu a cidade dos ‘Exitani’ no próprio estreito; o segundo penetrou já no mar Atlântico e fundou uma colónia numa ilha em frente de Onoba, cidade espanhola; finalmente, o terceiro grupo atinge a região de Tartessos e funda, na foz de um rio, numa ilha, a cidade de Gades.186 185

Le dixième travail qu’Eurysthée ordonna à Hercule, fut d’amener les vaches de Géryon qui passaient alors sur

les côtés de l’Ibérie, baignées par l’Océan [s.n.]. 186

‘[L]es Gorgonnes ainsi que la race des Amazones furent exterminées par Hercule, lorsque, dans son

expédition dans l’Occident, il posa une colonne dans la Libye (…)’ (Diodoro [1851]: 234).

211

Contudo, a nominação das Colunas de Hércules, já no tempo dos escoliastas e mitógrafos não reunia o inteiro consenso que a tradição ‘gibraltarina’ veio posteriormente a reunir. E será justamente neste espaço intersticial de dissensão que Martins Sarmento vai especialmente focar a sua atenção crítica. Para uns não teria sido Hércules o autor da façanha, e demonstram-no com o facto de aquelas se terem chamado anteriormente ‘Colunas de Crono’ e também de ‘Briareu’ ou ‘Egéon’. Nesta interpretação, o limite do Mar Mediterrâneo só viria a adoptar o nome com que veio posteriormente a ser conhecido, a partir do momento em que a cidade de Tartessos, que sacrificava a Hércules, por considerar ter sido por ele fundada (e de que os gregos posteriores pretendiam reconhecer ainda vestígios), as rebaptizou.187 Ainda mais conveniente para a hipótese da ‘geografia da longinquidade’ de Martins Sarmento, é, porém, a convicção entre os escritores antigos de que as Colunas de Hércules pudessem não restringir-se apenas às que a tradição indicava no extremo do Mar Mediterrâneo,188 podendo ser identificadas em regiões muito distantes do Mediterrâneo, no Mar Negro, Índia e, sobretudo nas regiões próximas do Mar do Norte, o que para o investigador correspondia integralmente às suas expectativas.189 O próprio cabo de S. Vicente, limite da Europa e início do grande Oceano ocidental foi apreciado como um lugar possível de localização das Colunas de Hércules, com o que se relacionaria um templo a Hércules ali situado, ao qual estaria ligado o culto num determinado recinto a que seria proibido aceder durante a noite.190

187

‘Quelques auteurs prétendent même que cette ville avait été fondée par Héraclès. Timosthène, qui est de

ceux-ci, affirme quelle s’appelait dans l’antiquité Héraclée et qu’on montre un grand mur d’enceinte et des cales couvertes’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 28). 188

O número de Colunas, na Antiguidade, não estava obrigatoriamente reduzido à localização de Gibraltar, nem

tão pouco ao número de duas, existindo igualmente referências a uma localização atlântica de ‘proximidade’, que chega a recolher a preferência de Martins Sarmento, antes que as redireccione para localizações mais abertamente ‘atlânticas’. A fala de Prometeu, na tragédia de Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, refere-se a isto mesmo, quando se compara com Atlas: ‘Je souffre assez déjà du sort de mon frère Atlas (…)’ (Ésquilo: 173 e 176, nota 2). 189

‘To the North follow the Frisii: they are called the Greater or Lesser Frisii according to the measure of their

strength: these two tribes border the Rhine down to the ocean, and also fringe the great lakes which the fleets of Rome have navigated. Nay, in that quarter we have essayed the ocean itself, and rumour has published the existence of pillars of Hercules beyond our range (…)’ (Tacitus, Germania, 34, p. 183-5 da edição por nós utilizada). 190

‘Mais si par sa beauté et ses exploits qui lui ressemblent | Il accède aux plus hautes noblesses | Le fils

d’Aristophane, plus loin | franchir l’interdit Salée outre les colonnes d’Héraklès n’est pas loisible, | elles que le Héros

212

O Décimo Trabalho de Hércules não termina, porém com o roubo do gado de Gerião; a narrativa completa-se com a viagem de regresso a Micenas, de que Martins Sarmento retirará igualmente algumas indicações geográficas. Em alguns relatos, o semi-deus teria unido de novo as Colunas para assim construir uma terra firme sobre a qual passou o gado roubado para África; noutros, é narrada uma passagem por Abdera, uma cidade fenícia da costa mediterrânica da Península Ibérica, tendo continuado a sua viagem através da Espanha, aproveitando para ir colonizando parte do território.191 Na Gália, Hércules envolve-se com Pirene, princesa bebrícia que daria o nome à grande cadeia montanhosa que separa a Hispânia da Gália, e a uma cidade perto da qual se localizariam as nascentes do Danúbio. No coração da Gália, o herói fundaria Alésia, a cidade que doravante se tornaria a cidade-mãe de todos os Gauleses, povo que nas suas tradições reconheceria descender da união de Hércules com a princesa Gálata.192 Na Ligúria, região que participa de uma ‘duplicidade geográfica’ fundamental na geo-historiografia de Martins Sarmento, e da qual a sua teoria interpretativa do passado etnogénico da Europa ocidental propriamente se alimenta, Hércules tem de enfrentar dois filhos de Posídon, Ialébion e Dercino. No primeiro, povo em que Martins Sarmento reconhece o nome de Albion, o povo que a tradição posterior localizaria na Inglaterra, e no segundo os Draganes, povo que viria, segundo a Ora maritima de Avieno, a Dieu a posées, de sa course ultime témoins illustres (…)’ (Píndaro [1990]: 281). Estrabão, contudo, discorda da tradição: ‘Il ne serait pas vrai, selon lui [Artémidore], qu’on y montre un sanctuaire d’Héraclès – assertion mensongère d’Éphore – ou un autel, ni le sanctuaire ou l’autel d’aucun autre dieu’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 24). 191

‘Em outro tempo a Grécia chamou Herma a este lugar. Herma é, portanto, um baluarte de terra que, de um e

de outro lado, protege um lago interior. Outros, pelo contrário, designam-no por via de Hércules, já que se conta ter o herói separado as águas, a fim de dispor de um fácil caminho para o gado capturado’ (Avieno, v. 326 e ss., p. 26 da ed. utiliz.). ‘On raconterai encore (…) que quelques-uns des compagnons d’Héraclès et des émigrants de Messénie ont colonisé l’Ibérie, tandis q’une partie de la Cantabrie (…)’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 62). Esta última passagem de Estrabão é um argumento suplementar para o ponto de vista de Martins Sarmento, para quem o nome ‘Ibéria’ entre os geógrafos já contemporâneos da presença romana na Espanha não diria respeito a toda a Península Ibérica. 192

Terá passado despercebido a Martins Sarmento, e talvez por isso não tenha produzido em seu favor o

argumento compósito, presente em Diodoro, sobre a existência simultânea de um elemento edificado (um ‘castro’) em que a região gaulesa estabelecia culto a um herói da ‘Ligúria’ ibérica: ‘Hercule donna le royaume des Ibères aux plus vertueux des indigènes. Quant à lui il se mit à la tête de son armée, et pénétra dans la Celtique (…). Dans l’endroit où ses vaches avaient imprimé leurs traces, il consacra au héros Géryon une enceinte qui est encore aujourd’hui en vénération auprès des indigènes’.

213

colonizar o noroeste da Península Ibérica após esta região se ter tornado uma vacua gleba devido a uma ‘invasão de serpentes’; com este povo teriam vindo, na mesma migração, uns Lígures que seriam os antepassados directos dos Lusitanos. A coincidência tornar-se-ia completa quando se tinham em conta o nome do irmão de Ialébion, Lígis, o epónimo dos Lígures, povo que chefiava contra a investida de Hércules. Um dos sucessos que acompanha a passagem de Hércules na terra dos Lígures será determinante para Martins Sarmento concluir da localização setentrional destes Lígures: quando a batalha atingia o seu máximo, uma chuva de pedras, enviada por Zeus, permite a Hércules desbaratar os seus inimigos; numa estratégia de ‘interpretação fenomenológica’, que veremos ser muito comum em Martins Sarmento, e de que fará uso em outras situações, o investigador reconhece uma tempestade boreal, a que, porque não habitualmente observada entre os povos do Mediterrâneo, foi garantido um lugar especial na narrativa mítica dos Gregos, com uma correspondente fixação na representação do texto da paisagem da terra e do firmamento.193 Hércules abriu uma estrada nos Alpes da Ligúria por onde passar com o seu gado e exércitos; penetrou a Etrúria e Cisalpina; percorreu, equivocado, toda a costa ocidental da Itália e passou à Sicília. Neste trajecto, o herói teria um dos encontros que Martins Sarmento irá igualmente valorizar no seio da sua geo-historiografia; ao chegar à região em que corria o Albula, posteriormente conhecido como Tibre, foi surpreendido por Caco, um pastor que habitava uma cova que protegia lançando para fora dela enormes labaredas, e em que recolhia os destroços das suas vítimas, e a que juntaria então algumas cabeças do gado de Gerião, roubadas a Hércules enquanto este dormia. A descida de Hércules à cova de Caco, no intuito de reaver o gado perdido, compara-a Martins Sarmento a outras narrativas de submissão de ‘heróis solares’ ao mundo das trevas, como Faetonte, Hiperião e Hélio, e interpreta-as a todas como expressões de uma alegoria naturalista que representaria o ocaso do sol e a revolução cíclica do dia e da noite. Como já se viu em outro lugar, esta interpretação naturalista do Inferno servirá a

193

‘Entre Massalia et l’embouchure du Rhône (…) s’étend une plaine de forme circulaire (…) [qu’]on appelle La

Pierreuse en raison de son aspect particulier. En effet elle est recouverte de pierres grosse comme le poing, sous lesquelles pousse un chiendent qui fournit une abondante pâture eu bétail. (…) Eschyle (…) a préféré la transposer en un mythe.’ (Estrabão [1969]: Liv IV, p. 133).

214

Martins Sarmento como um dos pontos de suporte de uma ‘fenomenologia do ocidente’ entre os povos ‘arianos’, especialmente como tendo origem no Mar do Norte.194 Na região do Tibre governava o rei Evandro, homem letrado, cuja genealogia o fazia originário da Arcádia, de onde teria sido expulso, antes de partir para a Itália com um grupo de Pelasgos, tendo fundado uma cidade na colina mais tarde chamada Monte Palatino. Esta referência tem uma especial importância na geo-historiografia de Martins Sarmento na medida em que pode interpretar-se como a expressão de uma realidade histórica associada à migração do ramo italiota dos povos ‘arianos’, que por esta mesma razão deteriam referências mitológicas comuns com os que primitivamente teriam colonizado a Grécia.195 Na região dos Latinos, associada ao regresso de Erítia, refere-se a existência de uma estrada cuja construção é atribuída a Hércules com o intuito específico de conduzir por ali o gado de Gerião.196

A hermenêutica da lenda do Décimo Trabalho de Hércules, levada a cabo por parte de Martins Sarmento, consiste, como já referimos, numa tentativa de demonstrar que aquele é um dos relatos das primeiras viagens dos Fenícios às costas do Mar do Norte, e que, por isso, é um relato comparável ao da Argonáutica. Como na aventura dos Argonautas, o herói é também grego, Hércules, cuja presença entre os marinheiros da Argo é, para Martins Sarmento, também um indício claro de que se trata da mesma viagem.197

194

‘Hercule attendit les Centaures de pied ferme et engagea un combat digne de ses premiers exploits. Néphélé,

mère des Centaures, vint à leur secours, en faisant tomber une masse de pluie; cette pluie ne gênait nullement les Centaures, qui avaient quatre pieds, mais elle faisait glisser celui qui ne se soutenait que sur deux’ (Diodoro [1851]: 272). 195

‘Romulus’s first act was to fortify the Palatine, the scene of his own upbringing. He offered sacrifice to the

gods, using the Alban forms except in the case of Hercules, where he followed the Greek ritual as instituted by Evander’ (Tito Lívio [1971]: 40). 196

‘[O]n raconte que les Géants dits Leuternians qui survécurent à la bataille de Phlégra en Campanie,

pourchassés par Héraclès, se réfugièrent à cet endroit et s’y dissimulèrent sous terre (…)’ (Estrabão [1969]: VI, p. 180). 197

‘Como se vai entrevendo, a viagem a Erítia é a legenda da primeira expedição dos Fenícios para o Mar do

Norte, uma variante da expedição a Ea, e não pode ficar esquecido que na opinião de alguns escritores antigos o chefe da expedição a Ea fora Hércules e não outro’ (Sarmento 1887a: 4). A importância deste facto reside, naturalmente, na identificação costumada entre o Héracles dos Gregos e o seu equivalente fenício, Melkart. O que

215

O ponto de partida da viagem de Hércules à ilha Erítia é Tartessos. E nesta singularidade compreende Martins Sarmento desde logo um conjunto de argumentos no sentido de tornar impossível que esta seja uma geografia grega. Tartessos pertencia à esfera de dominação tíria da Península Ibérica, e localizava-se já para além do Estreito de Gibraltar, ponto-limite da navegação dos Gregos no Mediterrâneo. O ponto de chegada, a ilha Erítia, será, neste contexto, translocada do âmbito da geografia ‘de proximidade’ em que a situavam os mitógrafos e escoliastas gregos, que a consideravam como sendo Gades, para o cenário do Mar do Norte, exigido pela hermenêutica da ‘longinquidade’ exercida por Martins Sarmento. O argumento central que o investigador irá utilizar será providenciado pela própria narrativa lendária que, numa aparente contradição interna, afirma que para ir de Tartessos a Erítia, Hércules teria de atravessar o Oceano198, e que nesse trajecto seria tentado de forma particularmente violenta por tempestades com que o deus Oceano pretendeu experimentar a coragem do herói. Martins Sarmento fará notar, dentro do quadro da hermenêutica fenomenológica da narrativa lendária que o vemos a utilizar sistematicamente, que ‘é evidente que ninguém poderia dizer sem ridículo que para ir de Tartessos a Gades, da foz do Guadalquivir a Cádiz, Hércules teve de atravessar todo o Oceano e que nesta navegação lhe foi dado afrontar os perigos do grande mar’ (Sarmento 1887a: 2). A esta aparente contradição haveria de juntar-se, também, a já referida localização das Colunas que levam justamente o nome do semi-deus. A lenda relata que seria antes de chegar à ilha de Erítia que Hércules levantaria as colunas, como marca do limite da navegação, um desafio a todos os que pensassem atingir o que só ele próprio havia atingido. Martins Sarmento apoia-se na autoridade dos autores antigos199 quando afirmavam que umas colunas situadas no estreito de Gibraltar não poderiam, sem perigo Martins Sarmento propriamente insinua é que vai existindo uma diluição progressiva do nome que por sinédoque representa os Fenícios, Melkart, passando por sucessivas deturpações, a primeira apenas de nome (Héracles), a segunda e definitiva, de nome, atributos e genealogia (Jasão), que incorpora definitivamente a história fenícia na narrativa épica dos Gregos. 198

Ver, acima, a passagem já citada de Hesíodo (Hesíodo [1990]: 84).

199

‘D’après ce récit, les Colonnes seraient pour les uns les contreforts qui dessinent le détroit, pour d’autres

Gadéira elle-même. D’autres encore les situeraient plus loin que Gadéira, dans la Mer Extérieure’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 86).

216

de contradição, conter o país de Tartessos ou Gades como cenários de navegações gregas, e que, por isso mesmo, as situavam já em pleno Atlântico.200 Deste modo, as Colunas de Hércules haveriam de estar nas regiões do Atlântico que pudessem ser consideradas como limite de navegação não dos Gregos, mas dos Fenícios. Sendo, para Martins Sarmento, o Mar do Norte o limite da navegabilidade dos Fenícios na direcção do Atlântico setentrional, e dando-se a coincidência de as mesma Colunas que os Gregos atribuíam a Hércules terem anteriormente sido dedicadas a Saturno, tradição que alguns autores gregos transmitiram, ‘só o Passo de Calais à entrada do Mar do Norte está nestas condições’ (Sarmento 1887a: 3).201 Da localização das Colunas de Hércules no Canal da Mancha, e especificamente no Pas-de-Calais, deriva a correspondente atribuição da identidade da ilha Erítia. Uma ilha que se seguia a esta Colunas, e cujas riquezas pudessem atrair as embarcações tírias, aqui chegadas na mira de um comércio lucrativo, tão lucrativo que obteve, entre as narrativas lendárias dos Gregos, atributos de tesouros abundantes, de que o Gado de Gerião e o Velo de Oiro são a expressão alegórica, teria, sem dúvida, de ser a Inglaterra.202 200

Não é só em relação ao Décimo Trabalho de Héracles que Martins Sarmento nota a contradição entre os

destinos de navegação dos Gregos e o limite reconhecido das Colunas de Hércules no extremo ocidental do Mediterrâneo. Também no Décimo Primeiro Trabalho de Héracles, a lenda relativa às Maçãs das Hespérides, localizava o Jardim de Hera junto ao Atlas, em pleno Atlântico, mas na costa africana. 201

É curioso que Martins Sarmento, neste contexto, não utilize em seu favor, uma vez que a cita, e a considere

mesmo ‘estranha’, a informação presente numa crónica inglesa de que as Colunas de Hércules se poderiam avistar de um ponto da Cornualha [apud Sarmento 1896d: 82, nota 2]. 202

Na geografia greco-romana, a localização relativa da Inglaterra e da Península Ibérica é sujeita a um erro

significativo. Já antes vimos que Tácito as considerava como estando esta a poente daquela. Quando vemos que Pompónio Mela situa a Erítia defronte da Lusitânia e que Ptolomeu (2. 5, p. 58 da edição de Stevenson) coloca as Cassitérides em frente do NW da Península Ibérica, levanta-se a legítima dúvida, como o faz de resto Martins Sarmento, se todos estes autores não estão a reproduzir elementos de uma mesma geografia histórica. As ilhas Cassitérides, em número de dez, formariam um arquipélago em redor de uma ilha central situada nas coordenadas 4 W, 45 30 N, i.e. à mesma latitude de Corunha. Sobre a localização atlântica da Erítia, e relação com as Cassitérides, podemos ler em Pompónio Mela: ‘En Lusitanie il y a Érythia qui, selon la tradition, fut habitée par Géryon, et d’autres îles sans nom particulier; leur terres sont si fertiles qu’il leur suffit du produit d’un seul ensemencement pour que, avec les grains qui, en retombant sur le sol, renouvellent aussitôt le semis, elles donnent au moins sept moissons, parfois même davantage. Chez les Celtiques il y a quelques îles qui, parce qu’elles abondent en étain, sont toutes appelées du nom unique de Cassitérides’ (Pompónio Mela [1988]: p. 80-81). A identificação de Erítia com Inglaterra tem também a vantagem ‘fenomenológica’ de dar sentido à narrativa da fúria dos mares com que Oceano

217

No regresso de Erítia, Hércules sofre a perseguição por parte de Albion e Dercino, que tentam roubar o gado que o semi-deus havia trazido daquela ilha. Já antes fizemos referência a estes Albion e Dercino, nomes em que Martins Sarmento vê a expressão etnológica dos povos que ali habitavam no momento em que os Fenícios fazem chegar as suas embarcações ao Mar do Norte. É no âmbito desta luta que se dá a chuva de pedra enviada por Zeus no intuito de proteger Hércules,203 luta essa que, mau grado a tradição dominante que, entre os mitógrafos e escoliastas antigos, a faziam localizar no Mediterrâneo, havia quem defendesse dever situar-se no Mar do Norte, antecipação que Martins Sarmento não deixará de referir.204 Eram pois Lígures os adversários de Hércules, mas não os Lígures do Mediterrâneo, ‘que nada podiam ter a ver com uma expedição de Tartessos ao Mar do Norte’, mas os Lígures que as fontes documentais posteriores justamente referiam como tendo habitado naquelas regiões, antes de serem expulsos pelos Celtas vindos da Escandinávia. A estes Lígures pertenciam assim dois povos insulares205, Albion e Dercino; dos segundos não é conhecida mais nenhuma referência entre a geografia greco-romana206, mas nos primeiros não tem dúvidas Martins Sarmento em reconhecer os Albiões que viriam a dar justamente o nome por que viria a ficar conhecida a ilha da Inglaterra entre os

supostamente pretendia experimentar a coragem do semi-deus: ‘[V]ê-se então que nada tem de imaginário o dado da legenda, dizendo que para ir de Tartesso a Erítia, Hércules teve de atravessar o Oceano e se não apavorou com os perigos desta longa navegação’ (Sarmento 1887a: 4). 203

‘Puis tu rencontreras du peuple des Lygiens | La cohorte intrépide. El le combat qui vient, | Je le sais, je le

vois, quel que soit ton courage, | Il faut que sans dédain bientôt tu l’envisages. | Oui, là-bas, sous ta main, par un décret du sort, | Les flèches manqueront, et si tu veux, alors, | Sur le champ de bataille empoigner quelque pierre, | Tu n’en trouveras point car la contrée entière | N’est que tendre terreau. Mais, dans ton désarroi, | Tu sera vu de Zeus et, par pitié pour toi, | De cailloux arrondis formant une nuée, | Il la fera neiger [s.n.] sur la terre embrumée. | Alors, les projetant, tu pourras aisément | Des Lygiens ennemis chasser le régiment’ (Ésquilo, apud Estrabão [1969]: Liv. IV, p. 133). 204

‘[M]erece particular atenção a [versão] do Scutum Herculis de Hesíodo, por entenderem alguns críticos que o

teatro do combate foi o Mar do Norte’ (Sarmento 1887a: 5, nota 13). Veja-se, por exemplo a opinião de Jubainville sobre a referida passagem: ‘La poésie hésiodique admet encore la doctrine populaire rejetée par Hérodote, par Phérécyde et par la plupart des auteurs du cinquième et quatrième siècle avant J.-C.: elle place dans l’Océan, à l’extrémité ouest ou nord-ouest de l’Europe, l’embouchure de l’Éridan (…)’ 205

Para admitir o carácter insular destes dois povos, Martins Sarmento socorre-se de uma passagem de

Pompónio Mela em que eles são referidos como ‘filhos de Neptuno’ (Sarmento 1887a: 6, nota 14). 206

Porém, ‘Mr. de Jubainville pensa nos Draganes da Ora maritima’ (Sarmento 1887a: 6, nota 15).

218

antigos, e nomeadamente antes do nome ‘Britânicas’ o que serviria, por assim dizer, de atestado da anterioridade da primeira denominação. A perseguição de Albion e Dercino a Hércules, é, para Martins Sarmento, equivalente à perseguição que os habitantes de Ea fazem aos Argonautas, que são enfim as versões efabuladas de um sucesso bem real da perseguição dos Albiones aos Fenícios, no momento em que eles pretendiam regressar a casa: Não é pois quase certo que os Albiões, localizados por Apolodoro na costa do Mediterrâneo, em virtude dos prejuízos correntes no seu tempo, são os Albiões do Mar do Norte, os próprios habitantes da ilha dos Albiões e que se não conta aqui o incidente casual duns povos que pretendem espoliar Hércules da presa que ele fez numa ilha, a que tais povos eram estranhos, mas a reivindicação de uma presa, feita pelo herói numa certa ilha, e que os seus naturais pretendem realizar a todo o custo? E, pois que os Albiões são insulares, e a luta entre eles e Hércules se dá depois que o herói saiu de Erítia, é claro que a perseguição de Hércules pelos seus inimigos é feita pelo mar, e só um cego deixaria de ver nestes Albiões perseguindo Hércules pelo Mar do Norte, os pseudo-Colquídios perseguindo os Argonautas pelo mesmo mar [Sarmento 1887a: 7].

A ‘chuva de pedras’ do Campus Lapideus da Ligúria do Mediterrâneo, pode agora Martins Sarmento translocá-la para o cenário do Mar do Norte, juntamente com o argumento propriamente geográfico de que a ela corresponderia uma das normais tempestades que assolam com frequência aquelas regiões, e cuja violência e espectacularidade propriamente ‘boreal’ seria desconhecida dos povos originários das latitudes subtropicais do Mediterrâneo. Para Martins Sarmento fica assim claramente demonstrado que a viagem de Hércules à ilha de Erítia é uma outra versão da expedição dos Argonautas à Cólquida, sobre a qual deteria uma especial vantagem, a de a efabulação levada a cabo pelos mitógrafos gregos não poder ter dissimulado totalmente os povos a que de facto se referem, os Albiões, ‘nome histórico do povo, sobre quem reinava o famoso rei Aetes’ (Sarmento 1887a: 8). No âmbito da equivalência que faz entre as duas narrativas, Martins Sarmento pretende ainda dar conta de uma expressão na lenda relativa a Hércules de uma 219

descrição do trajecto de regresso que, a partir da interpretação da lenda dos Argonautas, reconhecia ter sido levada a cabo pela estrada fluvial do Reno-Ródano. Para o autor, os indícios desse regresso não ‘são tão claros’ no Décimo Trabalho. Aqui, a descrição207 de Hércules não é decerto a de alguém em fuga, mas a de um verdadeiro conquistador, particularidade que ainda mais servirá de oposição aos ‘dois Hércules’ aqui presentes, o semita, Melkart, e Hércules, o grego, e em geral ‘ariano’, mas ‘entre este Hércules e o da velha tradição há já um mundo de ideias inteiramente diferentes. Estamos longe do Hércules navegador, que nunca fez conquistas ruidosas, muito menos à frente de um exército pedestre’. Quem transforma um no outro é a efabulação levada a cabo pelos mitógrafos gregos, e assim, embora a semelhança entre a narrativa dos Argonautas dificilmente se possa comparar com a do Décimo Trabalho, quanto à viagem do regresso, ‘é bem possível que o facto tão estranhamente desfigurado por Diodoro não deva a sua origem senão à misteriosa travessia dos dois rios, que corriam pela Gália e Ibéria.208 Para esta convicção concorreria a similitude entre a fundação de Alésia por Hércules, na Gália, circunstância explicitamente expressa por Diodoro, e a equivalente de uma cidade no Reno por Ulisses209, personagem em que Martins Sarmento vê igualmente a personificação da viagem de regresso dos Tírios, rio em que também entre os Argonautas poderia ter uma expressão equivalente, com a deposição de um talismã de que a tradição posterior faria memória persistente.

O Décimo Primeiro trabalho de Hércules, tal como o Décimo, apresenta-se com uma estrutura narrativa de uma viagem. Neste caso, o herói procura as Maçãs das

207

Cf. Diodoro, especialmente a partir do capítulo 17 do Livro IV. Como exemplo da retórica triunfante :

‘Passant de la Celtique en Italie. Hercule traversa les Alpes. Il rendit la route, de rude et difficile qu’elle était, accessible à une armée avec tout son bagage. Les Barbares qui habitaient ces montagnes avaient coutume de piller et de massacrer les troupes qui les traversaient. Hercule soumit cette nation, et, après avoir puni les chefs des brigands, il assura pour toujours la sécurité de ces passages’ (Diodoro, o.c.: 280). 208

Martins Sarmento faz uso, neste contexto, da concepção de Ibéria entre os geógrafos da antiguidade clássica.

Esta denomina uma região no Mediterrâneo ocidental que, ainda no tempo de Cílax, atingia a margem direita do Ródano. 209

‘Ulysses also – in the opinion of some authorities – was carried, during those long and storied wanderings,

into this ocean, and reached the countries of Germany. Asciburgium, which stands on the banks of the Rhine and has inhabitants today, was founded, they say, and named after him (…)’ (Tacitus, Germania, 3, p. 135 da ed. utiliz.).

220

Hespérides, os pomos de ouro que se encontram à guarda das filhas de Atlas. A importância da hermenêutica deste mito, no contexto da geo-historiografia de Martins Sarmento, prende-se com a proposição do autor sobre o fundo histórico que lhe deu origem. Para isso, o autor incide a sua atenção crítica no problema de identificação do Jardim das Hespérides ‘situado nas encostas do Monte Atlas, o local onde descansam os cavalos do carro do Sol’. A questão da localização do monte Atlas em que habitavam as Hespérides não é exclusiva da historiografia do século de Martins Sarmento, e de facto, tal como sucedia quer em relação à viagem dos Argonautas, quer em relação à viagem de Ulisses, os elementos vários das viagens associadas aos Trabalhos de Hércules eram, já entre os diversos comentadores e narradores antigos, motivo de controvérsia. Especificamente em relação ao Jardim de Hera as opiniões dividiam-se entre os que localizavam o monte Atlas ou junto dos Hiperbóreos, ou na Mauritânia, ou ainda numas ilhas em pleno Oceano, junto ao continente africano.210 Num dos relatos mais vulgarizados, Hércules percorre a Ilíria até à foz do Erídano, trajecto em que se cruza com Cicno, o mesmo que Martins Sarmento reconhece como o amigo de Faetonte, rei dos Lígures do Báltico que, mais tarde, são expulsos para o sul da ilha da Grã-Bretanha e finalmente para a Lusitânia, quando os Belgas ali entram e os expulsam da metade oriental da ilha. Este é mais um exemplo da ‘geografia de substituição’ operada por Martins Sarmento, uma vez que aquele Erídano, como já se referiu, ficou sendo para os antigos o rio Pó, enquanto que o investigador português o considerava como sendo o Reno. Nesta etapa há ainda uma informação do tipo de que Martins Sarmento sublinha repetidamente a relevância; ao longo das narrativas são referidos muitas vezes os informadores, deuses, oráculos ou simples mortais, a quem o herói recorre no sentido de conhecer o caminho para determinado lugar. Neste tipo de

210

‘Parió la Noche al maldito Moros, a la negra Ker y a Tánato; parió también a Hipnos y engendró la tribu de

los Sueños. Luego además la diosa, la oscura Noche, dio a luz sin acostarse con nadie a la Burla, al doloroso Lamento y a las Hespérides que, al otro lado del ilustre Océano, cuidan las bellas manzanas de oro y los árboles que producen el fruto’ (Hesíodo [1990]: 80). A referência ao extremo do mundo como morada de Atlas é explícita em Ovídio: ‘Enfin, au déclin du jour, craignant de se confier à la nuit, il [Persée] s’arrête sur les cimes de l’Hespérie, dans le royaume d’Atlas; il demande à y prendre un peu de repos (…). Là vivait ce souverain qui surpassait tous les hommes par sa taille gigantesque, Atlas (…); il tenait sous ses lois les extrémités de la terre’ (Ovídio [1980]: 116-117).

221

referências, o investigador reconhece a existência de colónias de povos-irmãos, de quem por isso mesmo se comunica conhecerem a localização de cidades e terras mesmo se mais ou menos longínquas; nelas vê, Martins Sarmento, uma vez que se trata, na maior parte dos casos, de viagens marítimas, igualmente a demonstração de que os povos que habitavam as costas da Europa ocidental no tempo em que os marinheiros do Mediterrâneo com eles contactam, já deteriam uma capacidade de navegação que os poria em contacto uns com os outros, mesmo quando localizados em regiões muito distantes entre si. Nesta parte da narrativa de Hércules, o informador é o próprio Nereu, significativamente o deus do mar. No regresso do Jardim das Hespérides, Hércules atravessa de novo a Líbia, momento em que a narrativa da sua viagem se relaciona com a dos Argonautas. Ao sentir sede, Hércules faz jorrar da areia uma nascente de água que será a mesma que irá permitir que os Argonautas sobrevivam aquando da sua travessia pelo inclemente deserto líbico. Como na aventura do rapto do gado de Gerião, também neste caso o destino final do herói é Micenas. Começa por atravessar a Líbia, em cujo trajecto se narra o encontro com Anteu, soberano daquela terra.211 A importância deste episódio para a hermenêutica de Martins Sarmento prende-se com o facto de ele ser situado na costa atlântica do deserto africano, especificamente em Lixo, cidade que se situava a sul de Tingi, e ao pé da qual uma das interpretações geográficas do mito localizava as ilhas das Hespérides, portanto em pleno Atlântico, e com grande probabilidade as Canárias. Dali Hércules dirige-se ao Templo de Ámon, no Egipto, o que pressupõe, no contexto de uma ‘geografia da proximidade’ a travessia de toda a costa norte-africana. Ainda no Egipto, Hércules dirige-se ao sul e funda Tebas, lugar em que o herói termina com os sacrifícios de Busíris. Atravessa a Ásia até chegar à ilha de Rodes, e daí passa às montanhas do Cáucaso.212

211

‘Parti de cette île [Crète], Hercule relâcha en Libye. A son arrivée, il provoqua au combat Antée, qui, fameux

para la force de son corps et son habileté dans la lutte, faisait mourir tous les étrangers qu’il avait vaincus; mais il fut enfin lui—même tué en se battant contre Hercule corps à corps’ (Diodoro [1851]: 278). 212

‘Such Egyptians as possess a temple of the Theban Jove, or live in the Thebaïc canton, offer no sheep in

sacrifice, but only goats (…). “At length, when Hercules persisted, Jove hit on a device – to flay a ram, and, cutting off his head, held the head before him, and cover himself with the fleece. In this guise he showed himself to

222

Tal como a viagem à Erítia, também a viagem de Hércules ao Jardim das Hespérides é por Martins Sarmento considerada como a efabulação de um sucesso histórico real. No primeiro caso tratar-se-ia da viagem de reconhecimentos dos Fenícios às regiões de onde tinha origem o estanho, ao Mar do Norte; a viagem ao Jardim das Hespérides diria respeito às viagens de reconhecimento marítimo que os mesmos Fenícios teriam efectuado às costas africanas do Atlântico. A importância desta viagem reside não apenas no facto de contribuir para a caracterização do esforço de colonização marítima do Mediterrâneo ocidental e do Atlântico, mas também porque permite, no contexto da teoria interpretativa de Martins Sarmento, clarificar algumas das passagens da viagem dos Argonautas, fazendo com que a hermenêutica desta última se apresente mais solidamente e fixadamente suportada no maior número possível de pontos de apoio. O lugar de partida do Décimo Primeiro Trabalho de Hércules é também Tartessos. Daqui, o herói dirige-se ao Jardim das Hespérides, situado algures no Mar Austral. E tal como na narrativa do Décimo Trabalho, também neste caso Martins Sarmento providenciará uma hermenêutica que visa desmontar a efabulação que a apropriação cultural grega inculcou na história fenícia que foi deturpando: ‘O que eram porém as Hespérides e onde ficavam?’.213 A interpretação geográfica que Martins Sarmento propõe para determinar a posição geográfica do Jardim das Hespérides deriva do facto de serem elas, as Hespérides, na genealogia mitográfica grega, filhas de Atlas, o que o investigador assume como uma contiguidade ou vizinhança geográfica. Deste modo, a questão da sua localização dilui-se na questão mais abrangente de saber qual a localização do Atlas.214

Hercules”. Therefore the Egyptians give their statues of Jupiter the face of a ram. (…). Such, then, is the reason why the Thebans do not sacrifice rams, but consider them sacred animals.’ (Heródoto [1993]: 58). Também em Ovídio: ‘[Péris, les héros] comme le frère d’Antée teignit justement de son sang les autels et mourut lui-même selon les exemples qu’il avait donnés’ (Ovídio [1963]: 399 ss.); cf., em nota crítica a esta mesma passagem: ‘Antée, géant libyen et lutteur remarquable, qui contraignait les étrangers à se mesurer avec lui et ornait de leurs crânes les temples de son père Poséidon’ (Ib., p. 42, nota 10) 213

‘É de ver que vamos encontrar o mesmo amálgama de fábula e de história, que encontramos na viagem ao

norte, e que temos de entrar num outro labirinto’ (Sarmento 1887a: 12). 214

A ideia de Martins Sarmento em inferir um sentido propriamente geográfico de uma genealogia mítica parece

ter tido origem em Aristóteles: ‘As Hespérides da Argonáutica fenícia eram certamente as Canárias e a sua posição

223

Para Martins Sarmento, e indo ao encontro de grande parte da historiografia sua contemporânea, o Atlas seria um promontório da costa ocidental de África, ‘notável por estender-se pelo mar dentro’, e constituindo um limite de navegação dos Fenícios na costa atlântica de África, como a entrada do Mar do Norte constituía o limite do Atlântico setentrional. Simetricamente disposta a primeira em relação à segunda, mas muito distantes uma da outra, e não frente a frente, como ‘os Gregos levianamente localizaram no Estreito de Gibraltar’ (Sarmento 1887a: 12). Quanto à localização específica desta coluna de Hércules ‘líbica’ na costa atlântica do continente africano, Martins Sarmento dedu-la de uma passagem de Cílax, em que é feita uma referência a um ‘mar inavegável’. Também neste caso é necessário que a hipótese do investigador se confronte com interpretações outras que a crítica sua contemporânea ia propondo. Exemplo disso é a inclusão da discussão sobre a localização exacta do limite de navegabilidade dos Fenícios na costa atlântica, a correcção que alguns historiadores faziam da distância descrita no périplo de Hanão, documento cartaginês que narra uma suposta viagem de um dos seus almirantes na mesma costa, entre Lixus (cidade que distava tanto do estreito de Gibraltar para sul quanto Gades o fazia para norte) e Cerne. A correcção consistia em substituir por três os treze dias que a editio princeps do périplo de Hanão atribuía à duração da viagem entre Lixus e Cerne, o que deslocava para sul esta última localização, numa distância apreciável, permitindo assim que fosse coincidir com a latitude do cabo Bojador, identificação tão mais sintomática quanto seria essa mesma localização que a tradição, e a história, referiam como a que as embarcações portuguesas mais dificuldade tiveram em vencer. Nisto vê Martins Sarmento mais do que uma coincidência: vê a demonstração de que o mar do cabo Bojador, o mar inavegável de Cílax e a coluna de Hércules de África dizem respeito a uma mesma realidade: o limite de conhecimento de navegabilidade da costa ocidental africana ao longo de toda a Antiguidade, perpetuada

perto do Bojador explica a razão por que elas eram chamadas filhas do Atlas. Isto queria dizer, nem mais nem menos, que eram consideradas como filiadas no grande promontório líbico, que penetrava pelas profundidades do mar’ (Sarmento 1887a: 16). A referência a Aristóteles é provavelmente a que se pode ler no fim do capítulo 8.º do II Livro: ‘Les îles situées en pleine mer sont moins sujettes aux tremblements de terre que celles qui sont proches du continent. (…). Les îles proches du continent sont une portion de celui-ci (…)’ (Aristóteles [1982]: 99).

224

nas tradições na Idade Média, e que só a expansão portuguesa do século quinze viria finalmente a ultrapassar: Principalmēte porque no rosto do cábo [Bojador] acháuã hũa restinga q lançáua pera o mesmo rumo da loeste óbra de seis legoas: onde por razam das ágoas q aly córrem naquelle espaço, o baixo as móue de maneira, que parecem saltar & ferver: a vista das quáes éra a todos tam temerósa q nam ousáuam de as cometer, & mais quãdo viã o baixo (...) [S]ómente cõ a vista do feruer destas ágoas & baixo q achauã, cõcebiam que o már daly por diãte era todo aparcellado, & nam se podia nauegar: & q esta fora a causa porque os pouoadores desta parte da Európa nam sestenderam a nauegar contra aquellas regiões.215

Martins Sarmento aceita a lição da editio princeps do périplo de Hanão e recusa a correcção de Muller e Vivien de Saint Martin. Para o autor, que vê nas correcções dos dois investigadores referidos uma estratégia de demonstração de pontos de vista preconcebidos216, é ‘claro que o mar inavegável de Scylax e o mar inavegável de Barros são uma e a mesma coisa’ (Sarmento 1887a: 15). Uma vez estabelecido o limite de navegabilidade, está também, para Martins Sarmento, descoberto o próprio monte Atlas tal qual o consideravam os antigos: nada menos do que o próprio Bojador, internando-se profundamente no mar.217

215

Cf., a mesma ‘idiossincrasia’ em Zurara: ‘ “Isto é claro – diziam os mareantes – que depois deste cabo não há

aí gente nem povoação alguma; a terra não é menos arenosa que os desertos da Líbia, onde não há água, nem árvore, nem erva verde; e o mar é tão baixo que a uma légua da terra não há de fundo mais que uma braça. As correntes são tamanhas, que navio que lá passa, jamais nunca poderá tornar” ’ (Zurara [1978-1981]: 49-50). 216

‘Salvo o devido respeito aos dois sábios, quer-nos parecer que o desejo de localizar a célebre Cerne segundo

o modo de ver de cada um [s.n.] (não há concordância entre eles) os obrigou a levantar dúvidas onde as não pode haver’ (Sarmento 1887a: 14, nota 4). 217

Compreende-se de imediato a dificuldade desta identificação, quando a opinião historiográfica dominante

considerava o Atlas como as montanhas elevadas de Marrocos, bem a norte do cabo Bojador. Claro está que Martins Sarmento não ignorava essa identificação, antes considerava que tendo sido feita pelos marinheiros fenícios durante as suas primeiras viagens, viria mais tarde, e com a vulgarização da navegabilidade da parte norte do Atlântico africano, a margem meridional do golfo de Gades, a identificar-se com a enorme mole cuja saliência se vislumbrava do mar. Se não erramos na interpretação que fazemos do pensamento do investigador, o autor considera que existe aqui uma espécie de ‘metonímia’ geográfica associada ao nome do Atlas.

225

Se o Atlas era o Bojador, as ‘filhas do deus’ seriam alguma entidade geográfica cuja contiguidade ou vizinhança notória com o promontório desse razão a essa representação simbólica. Martins Sarmento vê por isso nas ninfas, que as narrativas gregas apresentavam como habitando o sertão africano, meramente as saliências rochosas que seguiam, para dentro do mar, a própria direcção do promontório.218 Em suma, as ‘Hespérides não eram senão ilhas do Mar Austral’ e dadas as condições em que a sua relação é descrita com o promontório que as domina do continente, ‘nós escusamos de gastar tempo a identificá-las, quando vemos os geógrafos, sem embargo dos devaneios dos poetas, identificá-las francamente com as Fortunatae, as Canárias’ (Sarmento 1887a: 16). A partir da fixação dos pontos principais da geografia histórica subjacente à narrativa mítica da lenda grega do Décimo Primeiro Trabalho de Hércules, Martins Sarmento já pode, em novos moldes, apresentar a sua restauração do sentido daquela lenda. Trata-se afinal de uma viagem entre Tartessos e o Bojador, limite meridional da navegação fenícia, irmão gémeo do Mar do Norte, com quem partilha o verdadeiro título de ‘Colunas de Hércules’. Como na viagem ao Atlântico norte, também neste caso a efabulação grega recolhe a informação histórica mais preciosa da viagem real dos Fenícios: no primeiro caso, destaca a aventura do Gado de Gerião (ou, equivalentemente, no caso da viagem dos Argonautas, o Velo de Oiro), porque o elemento mais impressivo da viagem teria sido a conquista dos mercados de estanho; no caso da aventura para o sul, a lenda encarregar-se-ia de valorizar, simbolicamente, no episódio das Maçãs do Jardim das Hespérides, o que de mais importante teria sucedido na viagem, isto é, a descoberta das próprias ilhas Canárias. Um outro elemento merece ainda a atenção de Martins Sarmento, no contexto da viagem de Hércules ao Jardim das Hespérides. A lenda grega transmite um episódio de uma especial carga dramática que, ainda em tempos romanos, agitava a imaginação dos

O facto de serem conhecidas terras para além deste cabo, na Antiguidade, não retira, na opinião de Martins Sarmento, nada de verosímil a esta identificação. O mesmo, de resto, nota o autor, sucedia com a lenda ainda pervivente na Idade Média para as mesmas regiões, de que é testemunho a Crónica de Zurara (ver nota anterior). 218

No que se apoiava em Ferecides, autor que, já entre os antigos, considerava a hipótese de as Hespérides serem

uma ilha no Oceano atlântico e não entidades divinas.

226

guerreiros.219 A luta de Hércules e Anteu seria a referência efabulada de um desastre de grandes dimensões, um provável naufrágio, para o que concorre a genealogia ‘marinha’ do adversário de Hércules. O mais importante, contudo, para Martins Sarmento, de todo este episódio, é a possibilidade de o relocalizar, também neste caso, em confronto com a historiografia dominante, quer a que a tradição clássica havia estabelecido, quer a que no seu próprio tempo a reproduzia. Para o autor, apoiando-se na autoridade de Ferecides, o cenário das dificuldades de Hércules teria sido o Lago Tríton, no ocidente do deserto líbico, e como o episódio se situa narrativamente antes da chegada às Hespérides, Martins Sarmento não duvida em localizá-lo entre o Bojador e o estreito de Gibraltar. Esta localização seria indirectamente sancionada pela narrativa dos Argonautas de Diodoro Sículo220, que identificava o Lago Tríton nas vizinhanças do Atlas. Uma vez que a tradição da geografia ‘de proximidade’ assumia que o Lago Tríton se localizava nas imediações da Cirenaica221, já se vê as implicações que a hipótese de Martins Sarmento teria de provocar na interpretação geográfica das várias lendas associadas.

219

Sertório teria descoberto, em redor de Tingis, lugar em que os mitógrafos e escoliastas admitiam estar os

vestígios da luta entre Anteu e Héracles, as ossadas do derrotado: ‘Después de vencer a su ejército se lo atrajo y ganó mediante asedio Tingis, donde se había refugiado Ascalis con sus hermanos. Cuentan los libios que allí está enterrado Anteo y Sertorio excavó su tumba (…). Encontró el cadáver, de sesenta codos de longitud, según se dice, y quedó estupefacto’ (Plutarco, Vidas de Sertorio y Pompeio, p. 63-64). 220

‘On rapporte qu’aux confins de la terre et à l’occident de la Libye habite une nation gouvernée par des

femmes, dont les moeurs sont toutes différentes des nôtres (…). Selon la tradition, les Amazones habitaient une île appelée Hespéra et située à l’occident, dans le lac Tritonis. Ce lac, qui est près de l’Océan (…) tire son nom du fleuve Triton, qui s’y jette’ (Diodoro [1851]: 231-232). 221

Apolónio de Rodes é um dos mitógrafos que localiza a aventura do Lago Tríton na Cirenaica: ‘On the seventh

day they left Drepane. At dawn the weather was clear and a strong breeze blew; they sailed quickly on, propelled by the strength of the wind. It was not yet fated, however, for the heroes to step upon the Achaian land: first they must undergo further sufferings on the borders of Libya. Already they had left behind the gulf named after the Ambracians, already – the sail spread wide – the land of the Kouretes and the chain of narrow islands together with the Echinades themselves were behind them, and the land of Pelops had just come into view. Then the North Wind came in deadly gust and swept them off course towards the Libyan sea; for nine whole nights and as many days it drove them until they were deep within Syrtis from where ships can no longer return once they have been forced into this gulf.’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 128). Outros autores, ao contrário, fazem-no no litoral atlântico do deserto do norte de África.

227

O Lago Tríton participava assim duplamente na fixação geográfica das narrativas lendárias da viagem de Hércules e da dos Argonautas. Nesta última, os heróis regressavam a Iolcos, quando uma tempestade os lançou para o pleno interior do deserto da Líbia. Neste episódio Martins Sarmento fará questão de identificar uma das contradições que, na sua opinião, dirigem a atenção do crítico para a impossibilidade de uma geografia ‘de proximidade’ que pretendesse situar os eventos em cenários do Mediterrâneo oriental. No intuito de conseguir repor a embarcação em condições de navegar, os Argonautas não recuperam o caminho anterior, antes buscam, através do Lago Tríton, o Jardim das Hespérides, com uma fonte que o próprio Hércules havia feito jorrar; do Lago Tríton acabariam eventualmente por recuperar o caminho de volta para o mar alto. Da coincidência geográfica e até propriamente narrativa (a coincidência entre a acção de Hércules e dos Argonautas) retira Martins Sarmento mais um argumento no sentido de identificar as duas narrativas lendárias como dizendo respeito a um mesmo sucesso histórico; e dessa identificação pretende o autor resolver a indecisão que os autores antigos faziam sobre a identificação dos elementos geográficos ali presentes. Na hermenêutica ‘geográfica’ de Martins Sarmento habita um princípio ‘fenomenológico’ que veremos ser utilizado em inúmeras outras das suas análises. Também n o episódio do Lago Tríton podemos assistir a esse princípio em acção:222 Com efeito é preciso desconhecer absolutamente a topografia da Grande Syrte da Cyrenaica, para escrever que, naufragando nos baixios da Grande Syrte, os mareantes não acharam outro meio de safar o seu navio senão trazendo-o aos ombros para o Lago Tríton de Berenice. A imaginação mais desregrada não podia inventar um tal itinerário, conhecendo a posição dos baixios e a do Lago [Sarmento 1887a: 20-1].

A acção do episódio, há que procurá-la pois em outro lugar. O conjunto de contradições que ocorrem no trajecto associado à geografia ‘de proximidade’ é enorme: intercala entre a Cirenaica e Creta uma ilha, Cárpatos, que num trajecto sem 222

Da adequabilidade da topografia narrada e a dos lugares que são por ela supostamente representados, retira

Martins Sarmento grande parte da sua argumentação crítica; esta proximidade com as características físicas dos lugares não deve estranhar se considerarmos que o autor é, por vocação, um ‘explorador’, e de que as viagens a pé pelos lugares que pretendia conhecer são uma das componentes mais fortes da sua maneira de trabalhar.

228

descontinuidades estaria no fim do caminho que liga as três; diz que as Hespérides habitavam perto do lago de Berenice, ao mesmo tempo que as situavam nas vizinhanças do Atlas223; identificava-se o Lago Tríton com o de Berenice.224 Para Martins Sarmento não restam, porém, dúvidas. Os mitógrafos da Argonáutica, como os que narram as aventuras de Hércules, desfiguraram inteiramente a ordem histórico-geográfica que subjaz à efabulação épica. E do mesmo modo que o Mar do Norte se transforma, por esse processo, na parte oriental do Ponto Euxino, também no caso do Décimo Primeiro Trabalho de Hércules, uma geografia real que serviu de cenário a um evento histórico, a viagem dos Tírios pelo Atlântico sul, foi substituída por uma geografia fantasiosa das margens do Mediterrâneo, a única acessível à esfera de navegabilidade dos Gregos.

As composições das viagens dos Argonautas e de Hércules funcionam, no contexto da hermenêutica de Martins Sarmento, como mutuamente iluminadoras. A partir dos elementos comuns em uma e outra, e, sobretudo, das deturpações do carácter imperfeito dessa sobreposição, o investigador procederá a uma restituição da geografia da viagem dos Argonautas. A narrativa dos Argonautas é constituída, segundo a hipótese de Martins Sarmento, por uma ligação de duas narrativas históricas independentes, uma que diz respeito à viagem ao longo da costa atlântica da Europa, e outra, equivalente, no litoral africano. A fusão das duas numa única epopeia é, para o autor, fruto da imaginação poética dos mitógrafos gregos, que supostamente pretendiam criar uma narrativa referente à 223

‘They did not roam in vain, for they reached a holy place where still on the previous day Ladon, a serpent

born from the earth, guarded golden apples in the territory of Atlas; around him the Hesperid nymphs used to sing in their lovely voices as they worked. Now, however, the snake had been destroyed by Herakles, and it lay against the trunk of the apple tree; only the tip of its tail moved freely, as it sprawled lifeless from its head to the end of its dark spine. The arrows had left the angry poison of the Lernaian hydra in its blood, and flies withered on the rotting wounds. Nearby, the Hesperides lamented in shrill voices, their silvery hands placed on their fair heads. All the heroes approached, and instantly the Hesperides became dust and earth as they rushed up. Orpheus understood this divine wonder and sought to win them over with his prayers (…)’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 131). 224

Em relação a esta contradição podemos ver um exemplo concreto da argúcia hermenêutica de Martins

Sarmento, quando acusa alguns tradutores da Argonáutica de deturparem o sentido inicial da narrativa, iludidos pela geografia ‘de proximidade’ que inconscientemente perfilhariam (Sarmento 1887a: 22, nota 17).

229

‘fundação ancestral’ da sua própria civilização, compreendendo os dois maiores feitos da expansão geográfica da oecumena no seu tempo, as duas viagens que os Fenícios haveriam efectuado para além do Mar Mediterrâneo.225 O investigador justamente chama a atenção para o carácter ‘instrumental’ que as tempestades cumprem na estruturação da narrativa, como ligadores preferenciais entre esses elementos que seriam originalmente estranhos entre si. A tempestade deus ex machina, que Martins Sarmento considera que Apolónio introduz para transformar as duas viagens historicamente independentes numa só narrativa épica, é a seguinte: On the seventh day they left Drepane. At dawn the weather was clear and a strong breeze blew; they sailed quickly on, propelled by the strength of the wind. It was not yet fated, however for the heroes to step upon the Achaean land: first they must undergo further sufferings on the borders of Libya [s.n.226]. Already they had left behind the gulf named after the Ambracians, already – the sail spread wide – the land of the Kouretes and the chain of the narrow islands together with the Echinades themselves were behind them, and the land of Pelops had just come into view. Then the North Wind came in a dreadly gust and swept them off course towards the Libyan sea; for nine whole nights and as many days it drove them until they were deep within Syrtis from where ships can no longer return once they have been forced into this gulf. All around are stagnant shallows, all around clumps of seaweed cover the depths, and over them the wave’s foam washes noiselessly. As far as the eye can see stretches sand; there is no movement of animal or bird [Apolónio de Rodes, IV, p. 127].

Assim sendo, o autor propõe, como na viagem de Hércules ao Jardim das Hespérides, que também a ‘metade africana’ da viagem dos Argonautas teria tido início em Tartessos. Logo no início da viagem, os marinheiros da Argo se vêm quase a braços

225

‘Escusado será advertir que esta viagem nada tem de comum com a viagem do Mar do Norte. Ambas são tão

independentes uma da outra como o 10.º e 11.º trabalho de Hércules. A sua ligação é obra dos Gregos’ (Sarmento 1887a: 25, nota 1). 226

Sublinhamos esta passagem, porque o tom providencialista que lhe está associado é inteiramente a favor da

interpretação de Martins Sarmento.

230

com um naufrágio, tendo a sua embarcação ficado presa nuns baixios, de onde são reencaminhados por umas ninfas protectoras para o Lago Tríton.227 Será justamente nas imediações deste lago que Jasão e os seus companheiros encontrarão as Hespérides, nas imediações do Atlas, e em que sofrem com a ardência excessiva dos ventos que corriam no Mar Austral. Entre a primeira e a última destas paragens, os homens da Argo são obrigados a levar a embarcação por terra, numa distância que lhes cobra doze dias.228 De acordo com a ‘geografia de longinquidade’ que lhe é garantida pela interpretação prévia que faz da viagem de Hércules, Martins Sarmento infere uma localização idêntica para as aventuras dos Argonautas. Os ‘baixios de Sirte’, em que a tempestade havia feito encalhar a embarcação, e que a liberdade poética de Apolónio fizera localizar no norte de África, na região da Cirenaica, são afinal o mesmo mar inavegável que Cílax já referia, e que João de Barros mais tarde descrevia nas imediações do Bojador, mas a que a descrição minuciosa que Apolónio, nas palavras do piloto Anceu, positivamente identifica.229 Na hipótese geográfica de Martins Sarmento, a viagem dos Argonautas narra afinal a situação concreta por que haveria de passar uma embarcação que tivesse inadvertidamente abandonado o mar alto para encontrar os baixios que vizinhavam o 227

‘There and then they would have all departed from life, the best of heroes with their task uncompleted,

leaving no name or trace by which mortal men might know of them; but as they wasted away in helplessness, the heroines, guardians of Libya, took pity on them. Once when Athena had leapt resplendent from her father’s head, it was they who welcomed her and bathed her in the waters of Lake Triton. It was the middle of the day; all around the rays of the sun at their fiercest were burning Libya.’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 129). 228

‘This report too I heard in all truth that you, much the greatest sons of kings, by your strength and by your

courage placed the ship and all that your ship contained aloft upon your shoulders, and carried it for twelve whole days and an equal number of nights through the sandy deserts of Libya.’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 131) 229

Descrição que Martins Sarmento explicitamente compara com a de João de Barros, numa estratégia

hermenêutica de fundo fenomenológico que já surpreendemos neste autor em outras ocasiões: ‘ “Surely the most awful death awaits us; there is no way to escape disaster. Now that we have been thrust ashore into this desert, we shall have to endure the most terrible sufferings, even if offshore winds come up. As I gaze all around, a sea of shallows meets my eyes in every direction, endless water broken up as it runs over the white sand. This holy ship would long ago have been most wretchedly shattered far off from the shore, but the tide lifted it up and brought it here. Now the tide hurries back to the open water, and all that is left is this swirling foam; we cannot sail over it, it barely covers the ground (…)” ’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 128).

231

cabo Bojador. A impossibilidade de demandar o mar Atlântico pela navegação normal, mesmo esperando pelo dia seguinte (ponto sublinhado por Martins Sarmento porque referido explicitamente pelo poeta grego [cf. Apolónio de Rodes, IV, p. 129]), leva os marinheiros a tomar a decisão de, na versão poética de Apolónio, por conselho de umas divindades benfazejas do deserto, se internarem por um curso de água que os levaria a um lago no interior do deserto. Martins Sarmento não soçobra perante a dificuldade que tal passagem de uma embarcação pelo interior do continente possa representar. Este Lago Tríton, por onde Hércules havia igualmente passado, seria assim, para o autor, uma entidade geográfica concreta, e deveria ser procurado pelas imediações do Bojador. A vizinhança com o Bojador infere-a o autor da descrição que da viagem dos Argonautas é feita após terem deixado o Lago Tríton. De acordo com a narrativa de Apolónio, quando a Argo abandona o Lago Tríton, navega, tendo à vista, do lado direito, uma terra deserta que os acompanha até que deparam com o promontório que penetra largamente o mar, e que é, segundo a geografia sarmentiana, o próprio Bojador. Nesta latitude um vento apropriado, de sul, leva-os a Cárpatos e a Creta, e levando, finalmente, os Argonautas à sua pátria sem que mais tempestades ou perigos os supliciem. At dawn, however, they spread wide the sail and, with the same desert land on their right, they ran on before the breezes of the Zephyr. On the following morning they caught sight both of the jutting headland and of the recess of the sea lying beyond it. Suddenly the Zephyr dropped and the bright south wind blew up; their hearts rejoiced at the sound of this coming. At the time when the sun has set and the homing-star which brings rest to long-suffering ploughmen has risen, then the wind dropped in the dark night; they took down the sail and let down the long mast, and vigorously plied their well-planed oars all night and the nest day and the night which followed that day. Rocky Karpathos appeared next far off, and from there they were to cross over to Crete which rises above all other islands in the sea [Appolonius, IV, p. 137].

232

Esta é, para Martins Sarmento, uma descrição minuciosamente precisa da costa ocidental da África do Norte, e as ilhas que a efabulação de Apolónio transfigurou nas egeias Cárpatos e Creta são afinal as Ilhas Canárias.230 No âmbito da argumentação da localização africana ocidental de parte da viagem dos Argonautas, Martins Sarmento faz uso de elementos documentais posteriores, referentes às viagens dos almirantes que, séculos mais tarde do que as viagens que supostamente os Tírios teriam efectuado por estas paragens, Cartago haveria de repetir.231 Esta ‘sobreposição’ quase perfeita que Martins Sarmento desenha entre as viagens de Tírios, em redor do século doze, e dos Cartagineses, muitos séculos mais tarde, é talvez mais uma das manifestações da temporalidade a-histórica que habita em toda a sua filosofia da história. Cabe pensar se esta ‘facilitação geográfica’, que os Tírios imprimiriam nas estradas marítimas do Atlântico e que os Cartagineses haveriam de seguir, não é afinal uma visão essencializada que Martins Sarmento faz aplicar retrospectivamente dos Cartagineses nos Tírios, tanto mais que o périplo de Hanão daria conta de uma viagem ao longo do litoral atlântico da África do Norte que um almirante cartaginês teria efectuado às ordens de Cartago, no intuito não só de fundar colónias, mas de ‘restaurar outras, que os Tírios haviam aí fundado, e das quais os Cartagineses se consideravam herdeiros’ (Sarmento 1887a: 29). Na interpretação mais lata que o périplo oferece, e que Martins Sarmento parece tentado a aceitar, ‘a esquadrilha de Hannon passa muito além de Cerne e do mar inavegável’ (Sarmento 1887a: 29). Porém, ao passar por esta região, algumas particularidades geográficas chamam a atenção do narrador cartaginês. Depois de ter alcançado Lixus, cidade da costa africana que, segundo a tradição, distaria tanto do

230

Contudo, deve dizer-se que na perífrase que Martins Sarmento faz desta passagem de Apolónio omite, não

sabemos se intencionalmente, que a primeira parte deste trajecto, enquanto a embarcação tem à sua direita a costa desértica, é feita sob os auspícios de Zéfiro, o vento de oeste, situação que seria mais adequada num cenário mediterrânico que num atlântico. 231

Outras manifestações de ‘facilitação geográfica’ entre povos de que assume uma identidade civilizacional

estão presentes nas hipóteses etnogénicas que Martins Sarmento propõe para os dois outros grandes actores da sua narrativa histórica: os ‘Celtas’ e os ‘Lígures’. Os primeiros propiciariam os caminhos da expansão, efectuada muitos séculos depois, dos Germanos; os segundos, teriam proporcionado vagas sucessivas de migrações usando os mesmo caminhos desde o tempo da pedra polida até à Idade do Bronze, assim como seriam os responsáveis pela facilidade com que o Império romano viria a conquistar, pelo menos o Ocidente da Europa.

233

estreito de Gibraltar, para sul, quanto Gades o fazia para norte, a frota navega primeiro para sul, depois para nascente, até chegar a uma enseada, onde, numa ilha, os Cartagineses fundam a colónia de Cerne.232 Mas a particularidade que mais importa a Martins Sarmento sublinhar é a que segue, narrativamente, o estabelecimento da colónia de Cerne. Segundo o narrador cartaginês, tendo Hanão deixado em Cerne parte dos seus barcos, desce ao longo da costa até atingir, em estreito paralelo com a narrativa dos Argonautas, um lago que se comunicava com o mar: Daí [de Cerne], após termos navegado através de um grande rio chamado Cretes, chegámos a um lago; o lago tinha três ilhas maiores do que Cerne. A partir delas, tendo navegado um dia inteiro, atingimos a extremidade de um lago, que era rodeado por altas montanhas, habitadas por homens selvagens, vestidos com peles de animais, que nos atacaram lançando pedras e impediram de desembarcar. Daí, continuando a navegação, entrámos em um outro grande e largo rio, cheio de crocodilos e de hipopótamos. Em seguida, refizemos o caminho e regressámos a Cerne [Périplo de Hanão, ix e x, p. 93 e 95 da ed. utiliz.].

O que mais impressiona Martins Sarmento na narrativa de Hanão é a similitude de eventos e de singularidades geográficas que entre este périplo e a narrativa dos Argonautas se podem encontrar. Para o investigador, a coincidência está longe de ser casual. Ela reside na intenção que subjazeria à navegação de Cartago de justamente ‘estudar minuciosamente o célebre Lago, para apurar o que havia de verdade no meio daquelas fábulas’ (Sarmento 1887a: 31), convicção tão mais reforçada porque em Heródoto havia uma referência às colónias ‘fundadas pelos descendentes dos Argonautas’ nas margens do Lago Tríton, pelo historiador consideradas como localizando-se na Cirenaica, mas em que Martins Sarmento vê afinal uma referência às

232

‘Tendo tomado entre eles intérpretes, bordejámos o deserto, em direcção ao meio-dia, durante dois dias;

dirigimo-nos em seguida para o sol nascente, viajando um dia. Encontrámos, então, na parte mais profunda de um golfo, uma pequena ilha, tendo cinco estádios de perímetro, na qual deixámos alguns colonos, tendo-lhe chamado Cerne. Julgámos que esta, de acordo com a viagem, estava situada em oposição a Cartago: na verdade, é idêntica a viagem de Cartago às Colunas e destas a Cerne.’ (Périplo de Hanão, viii, p. 91).

234

viagens e colonizações que os Cartagineses fizeram em territórios em que os antigos Tírios, de que aqueles se consideravam descendentes, haviam estado anteriormente.233 São eles, como cartagineses, os descendentes dos verdadeiros Argonautas; são os companheiros de Hannon os que podiam visitar o Lago Triton dos Argonautas, o Triton, próximo do Mar Austral; são eles que podiam apoderar-se da trípode, que os seus antepassados ofereceram ao Génio do Lago e fundar colónias pelos seus domínios, e Hannon não se esquece de dizer-nos que fundou uma colónia em Cerne [Sarmento 1887a: 32].

A restituição da Argonáutica como uma viagem antiga dos Fenícios, que a lenda havia cristalizado em efabulações mais ou menos míticas, recolheria assim uma importante corroboração, quer da descrição histórica das viagens posteriores dos navegadores cartagineses, quer da reapresentação dessas viagens pelos geógrafos gregos, numa contínua interpenetração de história e de fábula, em que o investigador vê mesmo a inclusão de novos elementos.234

233

‘When Jason had finished building the Argo at the foot of Mount Pelion, he took on board the usual

hecatomb, and moreover a brazen tripod. Thus equipped, he set sail, to coast round the Peloponnese, and as to reach Delphi. The voyage was prosperous as far as Malea; but at that point a gale of wind from the north came on suddenly, and carried him out to the coast of Libya; where, before he discovered the land, he got among the shallows of Lake Tritônis. As he was turning in his mind how he should find his way out, Triton (they say) appeared to him and offered to show him the channel, and secure him in a safe retreat, if he would give him the tripod. Jason complying, was shown by Triton the passage through the shallows; after which the god took the tripod, and, carrying it to his own temple, seated himself upon it, and, filled with prophetic fury, delivered to Jason and his companions a long prediction: “When a descendant”, he said, “of one of the Argo’s crew should seize and carry off the brazen tripod, then by inevitable fate would a hundred Grecian cities be built around Lake Tritônis”. The Libyans of that region, when they heard the words of this prophecy, took away the tripods and his it’; ‘The Carthaginians also relate the following: – There is a country in Libya, and a nation, beyond the Pillars of Hercules, which they are wont to visit, where they no sooner arrive but forthwith they unlade their wares, and, having disposed them after an orderly fashion along the beach, leave them, and, returning aboard their ships, raise a great smoke. The natives, when they see the smoke, come down to the shore, and, laying out to view so much gold as they think the worth of the wares, withdraw to a distance. The Carthaginians upon this come ashore and look. If they think the gold enough, they take it and go their way; but if it does not seem to them sufficient, they go aboard ship one more, and wait patiently. Then the others approach and add to their gold, till the Carthaginians are content. Neither party deals unfairly by the other: for they themselves never touch the gold till it comes to the worth of their goods, nor do the natives ever carry off the goods till the gold is taken away’ (Heródoto [1993]: 155, 158). 234

É este mecanismo duplo de génese da história e da fábula, que leva Martins Sarmento a interrogar-se sobre se

não haveria alguma influência de emulação na narrativa de Hanão, sobre o ataque de pedras lançadas de que são alvo

235

Na tentativa de identificação do Lago Tríton, nas costas de África, Martins Sarmento tem de se confrontar com as interpretações de investigadores seus contemporâneos, que viam nas referências a crocodilos e hipopótamos alusões a um cenário mais meridional do que o que poderia ser o das costas do Saara. Porém, Martins Sarmento rebate os argumentos desses intérpretes, com o auxílio, de novo, das descrições geográficas que se podem recolher das crónicas das primeiras viagens que os Portugueses do século quinze efectuam pela costa africana. Muito ao norte do rio Senegal, Zurara regista que os marinheiros portugueses depararam com ‘uma enorme quantidade de lobos marinhos’, que o investigador português não duvida em reconhecer como o mesmo lugar em que o périplo cartaginês identifica todos os outros animais, isto é o rio de Ouro, nas vizinhanças do Bojador.235 Para Martins Sarmento, o rio Cretes de Hanão seria, portanto, um braço de água estagnada que, a norte do rio do Ouro, ligava o mar ao Lago Tríton, e em cuja desembocadura se deveria procurar a colónia de Cerne. O investigador tem noção da aparente contradição que se desenha entre as descrições ‘argonáuticas’ destes leitos fluviais, pouco mais do que esteiros insalubres, nos quais a ardência e a sede são sistematicamente evocadas por Apolónio. As descrições dos rios no périplo de Hanão, pelo contrário, deixam pensar em cenários mais luxuriantes, razão pela qual a crítica de alguns historiadores seus contemporâneos os posicionava mais para sul. Mais uma vez, o autor fará uso do carácter empírico que lhe é providenciado pelas descrições que os cronistas portugueses fazem da costa de África; para remover da sua hipótese essa dificuldade, convoca Martins Sarmento o regime instável dos rios que estão sob a influência de um característico regime pluviométrico subtropical ou subdesértico236,

os marinheiros cartagineses nas margens do Lago, e o ataque equivalente a Canto, na narrativas dos Argonautas: ‘Kanthos, in Libya the deadly Keres overtook you. You came upon grazing flocks followed by their shepherd. In defending his sheep which you wished to take back to your comrades who were in need, he hurled a stone at you and killed you’ (Apolónio de Rodes, IV, 1485-9, p. 133). 235

‘E porque viu em uma coroa, que estava à entrada do rio, grande multidão de lobos marinhos, os quaes,

segundo estimação de alguns, seriam até cinco mil, fez matar aqueles que pôde, de cujas peles faz carregar o seu navio; que, ou por serem ligeiros de matar, ou por o engenho daqueles ser auto para tal feito, fizeram em aqueles lobos mui grande matança’ (Zurara [1978-1981]: 60). 236

‘Nas regiões tropicais os rios no espaço de poucos dias podem apresentar os dois aspectos’ (Sarmento 1887a:

35, nota 18).

236

vendo nele a contradição aparente que existiria também na descrição do Rio de Ouro, que João de Barros, apesar do nome dele, afirmava não passar de um braço de água de pouca extensão.237 É no âmbito da caracterização do Lago Tríton na costa ocidental da África do Norte que um curioso argumento de índole propriamente cartográfica vai ser apresentado por Martins Sarmento: Seria preciso um mapa minucioso desta parte de África, para verificar sobre ele a existência de um Lago numa relação tal qual com o Rio do Ouro e tendo uma comunicação mais directa com outro rio, a norte deste, pois só assim podíamos assentar as provas positivas, que faltam à nossa interpretação, isto admitindo que a topografia daquelas regiões não tenha sofrido consideráveis alterações. Nós baldamos todo o trabalho em procurar semelhante mapa; chamamos no entanto toda a atenção do leitor para uma carta de Ptolomeu, que parece ter sido expressamente composta para favorecer o nosso modo de ver [Sarmento 1887a: 35-6].

A singularidade deste argumento, e a sua força estratégica, reside na dupla capacidade que detém de, por um lado, utilizar uma hipótese que nada tem de inverosímil – a obliteração de um curso de água naquelas condições climáticas e gemorfológicas238 – e, por outro, de se apoiar na cartografia antiga de uma região desenhada a partir das informações presente nas sucessivas reelaborações da geografia Ptolomeu. Aqui, mais uma vez, podemos observar os contornos nítidos da tautologia hermenêutica de Martins Sarmento: a referência, em mapas associados à geografia ptolomaica, a um ‘lago’ na costa ocidental de África, à latitude do Bojador, terá decerto

237

Chegádo Antam Gõçalvez onde os mouros aviã de vir fazer o resgáte (…) lançou em térra o próprio mouro q

aly o fez vir (…). Sómēte parece q nas pouoações da chegáda do nauio, e como trazia os mócos para resgatar: porq sendo já passádos oyto dias vierã mais de cem pesóas ao resgáte deles, por serē filhos dos mais nóbres daquelles alárues. A troco dos quáes derã dez negros de terras differētes, e hũa boa quãtidade douro em poó (…) dõde ficou a este lugar por nome rio do ouro; sendo sómēte hú esteiro dagoa salgada q entra pela térra óbra de seis legoas (Barros, João de [1932]: 31). 238

Hipótese que reforça com uma informação de Diodoro Sículo, que refere que no seu tempo já o Lago Tríton

estava desaparecido; parece claro que o autor grego se refere à costa atlântica do continente africano: ‘[D]ans son expédition de l’Occident, il posa une colonne dans la Libye (…). On rapporte que le lac Tritonis a entièrement disparu par suite des tremblements de terre qui ont fait rompre des digues du côté de l’Océan’ (Diodoro [1851]: 234).

237

mais a ver com a ‘geografia imaginária’ tardo-romana e medieval do que com o conhecimento positivo das primeiras viagens atlânticas dos inícios dos tempos modernos.

Vejamos, então, o modo como Martins Sarmento irá proceder à restituição completa da narrativa historicamente concreta a partir da efabulação do episódio do Lago Tríton. Os Argonautas encontram-se bloqueados no ‘mar inavegável de Scylax’ e Barros, junto à restinga do Bojador. Como única saída, internam-se num braço de rio, dificilmente navegável, pelo qual atingem o Lago Tríton. A navegabilidade deste esteiro, e a sua dependência da maré, reconhece-a o investigador na própria efabulação que dela faz Apolónio, quando se refere que o caminho foi mostrado aos marinheiros da Argo pelas pegadas de um cavalo de Posídon.239 Uma vez no Lago Tríton os marinheiros viriam a descobrir uma saída para o mar, que seria afinal o rio do Ouro. Daqui tem início a viagem de regresso a Tartessos. Com o deserto à sua direita, remontam de novo a costa africana e avistam o promontório. Na expressão usada por Apolónio – ‘sail off from the headland’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 136) – vê Martins Sarmento a comprovação de que os marinheiros, na viagem de ida, pretenderam fugir aos baixios que tão nefastos haviam sido na primeira passagem, e seguem com o vento de feição até às ilhas de Cárpatos e Creta, que, como já referimos, o investigador identifica com duas das Canárias.240

239

‘I declare that the chariot of Poseidon has just now been loosed by the hands of his dear wife; our mother I

interpret to be none other than the ship itself, for it has constantly had us in its belly and has suffered pain in our grievous adventures. With unbreakable strength and unwearing shoulders let us lift her up and carry her into the heart of the sand-filled land in the direction in which the swift horse’s legs carried it. It will not lose itself in a dry place, but I believe that its steps will reveal some gulf of the sea which lies above us’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 131). 240

As ilhas de Cárpatos e Creta seriam afinal as Hespérides, que, segundo Martins Sarmento, Apolónio teria

desligado do lugar que a narrativa histórica lhes concedia, para as intercalar na narrativa do Lago Tríton. Para o investigador, a liberdade poética que teria suportado essa violação prender-se-ia com a fusão mitográficas das Hespérides com as ninfas do deserto: ‘Esta fantasia talvez fosse autorizada até certo ponto pelas indicações da tradição fenícia; porque as deusas “protectoras desta parte da Líbia”, que já atrás apareceram aos náufragos, com todas as probabilidades pertencem àquela tradição. O papel que as Hespérides representam com relação aos Argonautas limita-se a indicar-lhes uma fonte, em que possam matar a sede. Esta graça, como a primeira, quadra bem com as deusas líbicas, que se compadeceram dos infelizes, como protectoras que eram daquela parte de África. Não podendo colocar as Hespérides nas ilhas, aonde vão ter os navegantes depois da saída do Triton, porque para o poeta

238

Na parte final da viagem, quando de Creta os Argonautas se dirigem a Iolcos, a narrativa de Apolónio faz ainda referência à katoulas [‘no stars penetrated the deadly darkness, no beams of the moon; down from the heavens spread a black emptiness’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 138)]. Segundo a geografia dos mitógrafos e escoliastas clássicos, a ilha que se lhes depara quando emergem da impenetrável escuridão dessa noite de breu, é Anafe, uma das Espórades, mas o conhecimento íntimo que os Fenícios deteriam de todas estas ilhas do Mediterrâneo dificilmente justificaria a euforia inadequada com que os marinheiros a reconheceram. O caso seria bem diferente se, como pensa Martins Sarmento, este episódio tivesse ocorrido no Atlântico; aqui, compreender-se-ia melhor o terror que os marinheiros sentiam por verem a sua embarcação a correr sobre a água sem que nenhum vento enfunasse as suas velas, o que só ‘uma dessas formidáveis correntes’ que dominam naquele mar podia justificar (Sarmento 1887a: 42).241 No próprio nome de Anafe, Martins Sarmento confronta as autoridades que diversamente querem ver nela uma etimologia grega ou fenícia. Na mitografia de Apolónio, o nome de Anafe teria origem no mesmo facto de ela ter surgido de repente aos olhos dos marinheiros, e, nesse sentido, significaria ‘aparecida’, Porém, Martins Sarmento, contraporá uma etimologia fenícia, que daria justamente conta do aspecto que teria, vista pelos marinheiros que dela se aproximassem vindos do mar.242 Uma ilha que, no Atlântico, se interpusesse entre as Hespérides (Canárias) e Tartessos, e que

estas ilhas já não têm nada com a Líbia, e não podendo deixar de falar naquelas entidades, depois de fazer passar os seus heróis pelo país que elas habitavam, Apolónio compôs todo aquele episódio, como lhe foi possível [s.n.], amalgamando as suas fantasias com as tradições fenícias, mas ainda assim de um modo, que umas e outras se podem estremar menos mal’ (Sarmento 1887a: 37, nota 23). Entre as ilhas, referiria a narrativa efabulada o encontro com um monstro vociferante, episódio no qual Martins Sarmento não vê mais do que a alegoria de um fenómeno natural, a invariável dificuldade de travessia junto a rochedos proeminentes ou correntes traiçoeiras. 241

Em favor da sua hipótese naturalista, Martins Sarmento destaca a própria narrativa de Apolónio, que de facto

parece indicar que a principal razão do medo sentido pelos marinheiros, mais do que a escuridão, se deveria ao facto de a embarcação navegar sem que eles a pudessem controlar: ‘They had no idea whether they were moving in Hades or over the waters. They handed over their hopes pf return to the power of the sea, helpless to control where it might lead them’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 138). 242

‘The rugged island they called Anaphe [‘Appearance’] because Phoibos had caused it to appear to them in

their wretchedness’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 139). ‘(…) Bochart insiste em que Anafe é uma palavra fenícia que significa – opaca, ramosa, indicando uma ilha coberta de arvoredo’ (Sarmento 1887a: 42-3).

239

causasse tanta euforia a uns marinheiros que navegavam desgovernados, levados por uma corrente do Atlântico, levam a que Martins Sarmento considere muito seriamente a hipótese de que os Tírios pudessem ter então aportado a ilha da Madeira, e fosse a ela que se referisse a etimologia de Anafe. De Anafe a Egina, ponto quase culminante da viagem do Argo, nada de mais notável há que seja narrado pelas diversas versões da viagem dos Argonautas. Contudo, a crítica minuciosa de Martins Sarmento haveria ainda de questionar-se como se poderia, no cenário povoado de inúmeras ilhas, cada uma à vista de uma outra que lhe fica vizinha, se poderia utilizar a expressão ‘atravessar um largo mar’ para descrever a viagem entre Anafe e Egina, expressão que mais bem serviria ao tramo final de uma viagem atlântica com destino a Tartessos ou Gades. Martins Sarmento não tem dúvidas sobre a singularidade do ‘geografia atlântica’ como cenário para a viagem dos Argonautas. A tradição clássica, e a historiografia sua contemporânea, a isso se opõem terminantemente, razão pela qual, lhes associará uma autoridade mais – Homero: A novidade da nossa interpretação deixará ainda indecisos muitos leitores, estamos certos disso, sobre o valor das nossas considerações, porque as desejariam apoiadas por uma autoridade qualquer. Vamos oferecer-lhes um autoridade respeitável, nada menos que a do mitógrafo dos Errores de Ulisses [Sarmento 1887a: 43].

II. 2.2. Errores de Ulisses

Os Errores de Ulisses, nome que Martins Sarmento dá à parte da Odisseia que narra as aventuras do marinheiro de Ítaca desde o momento em que inicia o regresso, após o termo da guerra de Tróia, até ao momento em que aporta à costa da sua terra, contêm, para o autor, do mesmo modo que as viagens dos Argonautas e de Hércules, elementos efabulados de um relato propriamente histórico que diria respeito a viagens marítimas dos Fenícios às regiões atlânticas. Também neste caso veremos que Martins Sarmento, em confronto com as interpretações dominantes da sua época, irá propor uma ‘geografia da longinquidade’ em oposição aos partidários da ‘geografia da proximidade’ que 240

situavam a acção quase exclusivamente dos mares Egeu, Adriático e Tirreno, considerando-o especificamente como um périplo em redor da ilha da Sicília. A primeira etapa da viagem de Ulisses é Ísmaro, cidade da Cicónia. Daqui, um forte vento de nordeste levará a sua frota até às costas de Cítera.243 Quando tentava, a partir daí, recuperar a rota que o levava a Ítaca, de novo a força dos elementos244 o redirecciona para o país dos Lotófagos, na costa africana.245 Do país dos Lotófagos, Ulisses e os seus marinheiros dirigiram-se a uma ilha onde pastava um número abundantíssimo de cabras e na qual habitavam os ferozes Cíclopes. Estes seriam trogloditas, pois ainda não conheciam outro tipo de habitação que não fossem as grutas e abrigos que a natureza providenciasse, circunstância que será de grande importância para a teoria interpretativa de Martins Sarmento, uma vez que o autor reconhecerá nesse facto uma indicação da verdadeira natureza civilizacional dos povos com que os marinheiros mediterrânicos contactavam. O encontro entre as duas realidades culturais, providenciada pela expansão marítima destes últimos, viria a ser efabulada no proverbial episódio de Polifemo. Da ilha dos Cíclopes, Ulisses dirige-se para norte, até alcançar a ilha Eólia, lugar em que tem lugar o episódio dos ventos, em que Martins Sarmento reconhece alguma

243

‘From Ilios the wind bore me and brought me to the Cicones, to Ismarus (…). Thence we sailed on, grieved at

heart, glad to have escaped from death, though we had lost our dear comrades (…). But against our ships Zeus, the cloud-gatherer, roused the North Wind with a wondrous tempest, and hid with clouds the land and the sea alike (…) and drove me from my course past Cythera’ (Homer, The Odyssey, IX, vv. 39-66, p. 309 da ed. utiliz.). 244

‘Trope’ narrativo muito comum nas viagens de Ulisses, e de cujo carácter Martins Sarmento fará referência,

ao considerá-lo como um deus ex machina que permite ao mitógrafo justapor os fragmentos dos textos propriamente históricos que, do ponto de vista do autor, se reconhecem por trás das páginas da epopeia. 245

‘I sent forth some of my comrades to go and learn who the men were, who ate bread upon the earth; two men

I chose, sending with them a third as a herald. So they went straightway and mingled with the Lotus-eaters, and the Lotus-eaters did not plan death for my comrades, but gave them of the lotus to taste. And whosoever of them ate of the honey-fruit of the lotus, had no longer any wish to bring back word or to return, but there they were fain to abide among the Lotus-eaters, feeding on the lotus, and forgetful of their homeward way’ (Homer, The Odyssey, IX, vv. 82104, p. 309 da ed. utiliz.). ‘A promontory jutting out into the sea from the country of the Gindanes is inhabited by the Lotophagi, who live entirely on the fruit of the lotus-tree. The lotus fruit is about the size of the lentisk berry, and in sweetness resembles the date. The Lotophagi even succeed in obtaining from it a sort of wine’ (Heródoto [1993]: p. 155). Também em Plínio, o que demonstra a filiação longa destas narrativas (o que servirá de argumento retrospectivo para Martins Sarmento): ‘La même Afrique, dans sa partie tournée vers nous, produit un arbre remarquable, le lotos (…). Il abonde surtout aux environs des Syrtes’ (Plínio [1950]: 51).

241

importância, por configurar, na sua opinião, uma ‘fenomenologia do ocidente’ que virá a usar como apoio da sua própria argumentação a favor de uma localização atlântica da viagem.246 De Eólia, e após muito tempo de navegação, Ulisses atinge o país dos Lestrigões, que a tradição dos escoliastas e mitógrafos fazia situar na região noroeste da Sicília, enquanto que em outros relatos parece atribuir-se à costa continental italiana. Este trajecto é um dos que merece mais atenção crítica por parte de Martins Sarmento. Tal deve-se ao facto de nele se conjugarem algumas informações de carácter estritamente geográfico, que servirão de pontos de apoio da sua geografia ‘atlântica’ da viagem de Ulisses. De facto, é-nos dito que a noite no país dos Lestrigões era tão curta, que os pastores que traziam os rebanhos ao fim da tarde se podiam cruzar com os que saíam pela manhã para os levar de novo para as pastagens. Uma referência a uma noite tão curta leva a que se considere a hipótese de o carácter efabulado da narrativa poder esconder informações sobre a duração da noite, em período do solstício, em regiões de latitude francamente setentrional.247 Por outro lado, esta passagem inclui também a travessia de um estreito de difícil navegabilidade, que é por norma um dos elementos geográficos com que o autor pretende fixar a narrativa ao mapa da Europa, que, sem dúvida, tem diante dos olhos, conforme vai escrevendo a sua própria interpretação da narrativa.248 246

‘Then to the Aeolian isle we came, where dwelt Aeolus, son of Hippotas, dear to the immortal gods, in a

floating island (…). But when I, on my part, asked him that I might depart and bade him send me on my way, he, too, denied me nothing, but furthered my sending. He gave me a wallet, made of the hide of an ox nine years old, which he flayed, and therein he bound the paths of the blustering winds; for the son of Chronos had made him keeper of the winds, both to still and to rouse whatever one will. And in my hollow ship he bound it fast with a bright cord of silver, that not a breath might escape, were it never so slight’ (Homer, The Odyssey, X, vv. 19-26, p. 347 da ed. utiliz.). 247

Esta é também a opinião do tradutor e comentador da edição Loeb do clássico de Homero: ‘The meaning

appears to be that the interval between nightfall and daybreak is so short that a herdsman returning from his day’s task meets his fellow already driving his flock forth for the following day. Thus a man who could do without sleep could earn a double wage. The passage is plainly due to some vague knowledge of the land of the midnight sun’ (Murray, A. in Homer, The Odyssey, p. 351, nota 1). Ênfase nossa. 248

‘So for six days we sailed, night and day alike, and on the seventh day we came to the lofty citadel of Lamus,

even to Telepylus of the Laestrygonians, where herdsmen calls to herdsmen as he drives in his flock, and the other answers as he drives his forth. There a man who never slept could have earned a double wage, one by herding cattle, and one by pasturing white sheep; for the outgoings of the night and of the day are close together. When we had come

242

O carácter traumático do episódio do país dos Lestrigões mostra-nos um Ulisses, a quem resta apenas uma embarcação, a dirigir-se para leste, até atingir Ea, a ilha de Circe, irmã de Aetes, o rei da Cólquida, circunstância com importância na etnogenia ‘ligúrica’ de todos os povos com que estes marinheiros do Mediterrâneo vão contactando. O registo ambíguo de hospitalidade e animosidade que anima toda a narrativa da Odisseia tem na ilha de Ea mais um desenvolvimento proverbial, que é o de Ulisses ser inicialmente indesejado para mais tarde se tornar o hóspede preferido. Para Martins Sarmento, tal ambiguidade é justamente a reprodução efabulada do que teriam

thither into the goodly harbour, about which on both sides a sheer cliff runs continuously, and projecting headlands opposite to one another stretch out at the mouth, and the entrance is narrow, then all the rest steered their curved ships in, and the ships were moored within the hollow harbour close together; for therein no wave ever swelled, great or small, but all about was a bright calm. But I alone moored my black ship outside, there on the border of the land, making the cables fast to the rock. Then I climbed to a rugged height, a point of outlook, and there took my stand; from thence no works of oxen or of men appeared; smoke alone we saw springing up from the land. So then I sent forth some of my comrades to go and learn who the men were, who here ate bread upon the earth – two men I chose, and sent them with them a third as a herald. Now when they had gone ashore, they went along a smooth road by which wagons were wont to bring wood down to the city from the high mountains. And before the city they met a maiden drawing water, the godly daughter of Laestrygonian Antiphates, who had come down to the fair-flowing spring of Artacia, from whence they were wont to bear water to the town. So they came to her and spoke to her, and asked her who was king of this folk, and who they were of whom was lord. And she showed them forthwith the highroofed house of her father. Now when they had entered the glorious house, they found there his wife, huge as the peak of a mountain and they aghast at her. At once she called from the place of the assembly the glorious Antiphates, her husband, and he devised for them woeful destruction. Straightway he seized one of my comrades and made ready his meal, but the other two sprang up and came in flight to the ships. Then he raised a cry throughout the city, and as they heard it the mighty Laestrygonians came thronging from all sides, a host past counting, not like men but like the Giants. They hurled at us from the cliffs with rocks huge as a man could lift, and at once there rose throughout the ships a dreadful din, alike from men that were dying and from ships that were being crushed. And spearing them like fishes they bore them home, a loathly meal. Now while they were slaying those within the deep harbour, I meanwhile drew my sharp sword from beside my thigh, and cut therewith the cables of my dark-prowed ship; and quickly calling to my comrades bade them fall to their oars, that we might escape from out our evil plight. And they all tossed the sea with their oar-blades in fear of death, and joyfully seaward, away from the beetling cliffs, my ship sped on; but all those other ships were lost together there’ (Homer, The Odyssey, X, 30-132, vol. I, p. 351-355 da ed. utiliz.). ‘[I]t is evident that the country now called Hellas had in ancient times no settled population; on the contrary, migrations were of frequent occurrence, the several tribes readily abandoning their homes under the pressure of superior numbers. Without commerce, without freedom of communication either by land or sea (…) they cared little for shifting their habitations (…)’ (Tucídides [1993]: 349). Ainda em Horácio: ‘From whom [Lamus] a sacred line of kings | Shines through the long records of fame | From whom th’illustrious race arouse | Who first possest the Formian towers (…)’ (Horácio [1907]: 149).

243

sido as primeiras reacções dos povos ‘ligúricos’ do ocidente da Europa à chegada dos povos do Mediterrâneo, oscilando entre o receio de serem espoliados do comércio do estanho por estes povos distantes, e a convicção posterior de que também teriam a ganhar com a sua intermediação no mesmo comércio. Não menos importante será o reconhecimento, por parte de Ulisses, de que a ilha Ea era coberta por uma floresta tão cerrada, facto que não deixa de o mencionar. Esta seria uma indicação possível de se estar em presença de uma cobertura vegetal abundante, já rara no Mediterrâneo, região em que a desarborização, associada à agricultura e à urbanização, é muito precoce, mas que poderia existir com mais probabilidade em regiões em que essas duas actividades humanas não existissem ou fossem de expressão mais restrita.249 Da ilha de Circe, Ulisses retoma a viagem para rumar ao país de Hades, o Inferno, episódio em que, segundo Martins Sarmento, se fundem duas narrativas históricas independentes que fazem referência a viagens de povos mediterrâneos às costas do Atlântico. Será na viagem de demanda do Tártaro que a narrativa da Odisseia faz alusão aos Cimérios, povo que viveria numa região que desconhecia a luz do Sol, uma indicação mais de que se possa estar em presença de uma descrição de regiões de latitudes elevadas, e onde Martins Sarmento se sente tentado a ver a primeira referência aos povos que as fontes mais tardias, especificamente o périplo cartaginês utilizado por Avieno para a elaboração da Ora maritima, dão o nome de Celtas. Tratar-se, assim, do primeiro contacto entre as duas esferas civilizacionais de cuja confrontação se alimenta toda a dinâmica interpretativa da historiografia do autor. É a região do Tártaro, que alguma teogonia situava já em regiões do Mar do Norte, e em que se dará o episódio da descida de Ulisses ao mundo dos mortos. Também o ‘trope’ narrativo dos informadores, em que Martins Sarmento reconhece uma expressão dos conhecimento geográficos das costas ocidentais entre os povos de origem ‘ligúrica’, está presente neste episódio, alegorizado nas profecias de Tirésias, como o estava também no episódio de Circe. A uma passagem deste episódio será dado algum relevo por Martins Sarmento, aquela em que a sombra de Elpenor, um dos seus marinheiros, suplica a Ulisses que lhe

249

‘So I climbed to a rugged height, a place of outlook, and there took my stance, and I saw smoke rising from

the broadwayed earth in the halls of Circe, through the thick brush and the wood’ (Homer, The Odyssey, X, vv. 147 e ss.); cf. Hesíodo [1990]: 114).

244

construa um monumento fúnebre, o que o marinheiro faz quando aporta de novo à ilha de Circe, no qual o investigador reconhece as marcas ‘arianas’ que os aproximam das mamoas que vinha exumando por todo o Entre-Douro-e-Minho. Este elemento da teoria de Martins Sarmento não é isento de dificuldades. Para que a integridade da sua teoria interpretativa não seja posta em causa, o autor vê-se obrigado a cindir a realidade dos Argonautas em duas metades irreconciliáveis: por um lado, a narrativa histórica, pretensamente fenícia, que daria conta unicamente dos pormenores geográficos da epopeia; por outro, os pormenores etnológicos, como é o caso deste sobre o culto dos mortos, de origem ‘ariana’, impostos sobre aqueloutra pelos mitógrafos gregos. A estratégia teórica é ousada, e ver-se-á que é justamente a esse nível que incidirão algumas das críticas de que a sua teoria virá a ser alvo. Do país de Hades, Ulisses regressa a Ea. Circe, de novo a informadora antecipada dos sucessos a esperar nas etapas que se seguiriam à viagem, alerta Ulisses de que terá de passar pela região em que habitam as Sereias, lugar em que muitos barcos acabam por naufragar. Também este elemento da narrativa épica, como veremos, será usado como ponto de apoio da teoria geográfica de Martins Sarmento, que não só vê nesta referência uma alusão aos perigos de uma determinada rota de navegação, como se esforçará por demonstrar que essa é uma mitologia que, associada ao golfo da Biscaia, atravessará os séculos e pode ainda ser reconhecida nos tempos históricos no mesmo lugar:250 As Sereias do Golfo da Gasconha conservaram a sua celebridade até muito tarde, e talvez a conservem ainda. Certo é que o cruzado, que no tempo de

250

‘“To the Sirens first shalt thou come, who beguile all men whosoever comes to them. Whoso in ignorance

draws near to them and hears the Sirens’ voice, he nevermore returns, that his wife and little children may stand at his side rejoicing, but the Sirens beguile him with their clear-toned song, as they sit in a meadow, and about them is a great heap of bones of mouldering men, and round the bones the skin is shrivelling”’ (Homer, The Odyssey, XII, vv. 23-15, vol. I, p. 435, da ed. utiliz.). ‘A moderate wind carried the ship forward, and soon they saw the lovely island of Anthemoessa where the clear-voices Sirens, daughters of Acheloos, destroyed all who moored beside them with the enchantment of their sweet songs’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 119). É estranho que Martins Sarmento não tenha feito uso da referência, presente em Ovídio, dos atributos de ‘pássaro’ das Sereias, que tão adequadamente correspondem à proposta interpretativa do autor em ver nelas as Hárpias de Apolónio: ‘Mais vous, filles d’Achéloüs [les Sirènes] d’où vous viennent vos plumes et vos pattes d’oiseaux, quand vous avez un visage de vierge? (…)’ (Ovídio [1980]: I, 143).

245

Afonso Henriques veio à conquista de Lisboa, diz tê-las ouvido muito distintamente no meio de uma tempestade, que o salteou naquele golfo. [Sarmento 1896d: 80]

A seguir ao mar das Sereias, o navio de Ulisses é obrigado a passar entre dois rochedos que abrigavam os monstros Cila e Caríbdis. A fenomenologia da descrição destes monstros leva imediatamente a considerar que se referem a um estreito ou uma região de águas revoltas, elemento de identificação geográfica que, como já referimos, é especialmente usado por Martins Sarmento no sentido de fixar os ‘pontos-vértice’ da sua própria leitura geográfica da epopeia. A historiografia contemporânea de Martins Sarmento, e a dos próprios escoliastas clássicos, tendiam a considerar esta descrição como aplicando ao estreito de Messina, no contexto da ‘geografia de proximidade’ que as conforma. O investigador português translocará aquela descrição para um cenário plenamente atlântico.251 Chegados à ilha em que pastava o gado de Hiperião, que a historiografia escoliasta identifica dominantemente com a Sicília, em que se repete a história do gado roubado, em que Martins Sarmento não deixa de reconhecer uma referência mais ao comércio do estanho, os marinheiros mediterrânicos são obrigados a fugir por serem perseguidos pelos naturais. Uma tempestade, porém, destrói a embarcação, e será agarrado a destroços que Ulisses poderá finalmente atingir a ilha de Ogígia. Também esta ilha encerra uma fenomenologia geográfica de que Martins Sarmento não deixará de fazer uso. Nela, podemos reconhecer uma região ‘deliciosa’, noção que acompanha também as descrições das Ilhas Afortunadas, com as quais, de resto, alguma tradição hermenêutica não hesita em identificar. A hipótese de Martins Sarmento será outra, porém equivalente, para a qual convoca igualmente a dupla qualidade que caracteriza o mito do Mundo dos Almas do Atlântico sul: o carácter edénico e ao mesmo tempo distante, alegoricamente representadas pela disponibilidade de Calipso e a melancolia de Ulisses, desejando navegar na direcção da sua pátria longínqua. Desta ilha, o

251

‘ “Now on the other path are two cliffs, one of which reaches with its sharp peak to the broad heaven, and a

dark cloud surrounds it. (…). But the other cliff, thou wilt not, Odysseus, is lower – they are close to each other; thou couldst even shoot an arrow across – and on it is a great fig tree with rich foliage, but beneath this divine Crarybdis sucks down the black water” ’ (Homer, The Odyssey, XII, vv. 72 e ss, vol. I, p. 437-439 da ed. utiliz.).

246

marinheiro atingiria, não sem passar por mais um proverbial naufrágio, a região dos Feácios. Na cidade de Alcínoo, lugar em que mais uma vez a narrativa da Odisseia se funde com a da viagem dos Argonautas, Ulisses é recompensado de todo o esforço da sua viagem e inicia finalmente o regresso a Ítaca. Na excelência dos tesouros com que o monarca obsequia Ulisses, vê Martins Sarmento, como se esperaria, a expressão metafórica do triunfo económico destes marinheiros mediterrânicos que vinham em busca da origem do comércio do estanho. O contraponto a esta corrente colonial assim estabelecida pode ser reconhecida no castigo que Posídon (não por acaso a representação do mar cuja travessia estes povos indígenas primitivamente dominavam e acabariam por perder para a marinha mais possantes dos meridionais) inflige, para castigar a prodigalidade da recepção aos estrangeiros, ao transformar em pedra a nau de Ulisses no exacto momento em que este iniciava a viagem de regresso. Este ponto é de uma enorme importância na construção da teoria interpretativa de Martins Sarmento. Ele é para o autor a representação mítica da mesma realidade histórica que também reconhece na viagem dos Argonautas, i.e., a perseguição dos naturais aos visitantes e a razão pela qual o regresso da primeira viagem dos marinheiros mediterrânicos à Europa do Norte se fará já não por mar mas pelas estradas fluviais que, através do Reno e do Ródano, punham em contacto o Mar do Norte e o Mediterrâneo. Martins Sarmento não está sozinho na convicção de que a mitografia da viagem dos Argonautas não é alheia à de Ulisses, nomeadamente, na parte em que se narra o regresso a Ítaca (Seaton 2006: xiii). Como na Argonáutica, também na viagem de Ulisses se descrevem duas viagens distintas, ligadas pela proverbial tempestade, sendo a principal diferença a ordem por que ocorrem. Entre as narrativas das viagens de Ulisses e dos Argonautas, postas segundo a conveniente equivalência, vê Martins Sarmento não só analogias como uma inteira coincidência de episódios e factos. Porém, Martins Sarmento não tem dúvidas de que, também neste caso, a tradição dos

mitógrafos

e

escoliastas

gregos,

bem

como

dos

investigadores

seus

contemporâneos, partidários da ‘geografia homérica’, i.e., de uma geografia ‘de proximidade’, fixam todos os pormenores da segunda viagem de Ulisses (Ítaca, a Eólia, o país dos Lestrigões, a ilha de Circe, a Trinácia, as Sereias, etc.,), a um périplo em 247

redor da ilha da Sicília, cenário que dificilmente o investigador português poderia transpor para o Mar do Norte, região onde, segundo a sua hermenêutica, deveria colocar-se a segunda parte das deambulações de Ulisses. E, no entanto, essa é a estratégia de confrontação que o autor irá, a transe, defender: É extraordinário que estas identificações sejam ainda hoje quase geralmente aceites, quando a verdade é que não encontram na Odisseia texto algum a seu favor, mas às vezes são desmentidas pelas indicações mais terminantes [Sarmento 1887a: 48].

O país dos Feácios ficaria junto a um mar nevoento e obscuro, característica suficiente para Martins Sarmento considerar adequado situá-lo no Mar do Norte e não na Córcira, tanto mais que a mesma mitografia homérica referia que este país se encontrava ‘longe de todo o comércio e nas extremidades do mar’ (Sarmento 1887a: 49).252 A corroboração da localização dos Feácios num mar de nevoeiros, especificamente identificado com o Mar do Norte, vê-a Martins Sarmento na revelação que sobre este povo faz a narrativa da viagem dos Argonautas, em que os identifica como se situando no Mar de Cronos, o nome que na antiguidade clássica se dava habitualmente àquele mar.253 Perto da Feácia situar-se-ia a Trinácia, ilha à vista da qual Ulisses naufragou, depois que a cólera divina lhe destruíra a embarcação. Além da vizinhança necessária com a Feácia, esta ilha, que a mitografia clássica identificava abertamente com a Sicília, continha, tal como a Erítia de Hércules, o gado de Hiperião (o Sol), símile do de Gerião (cognome de Crisaor, o ‘dourado’, i.e., o Sol). Num caso como noutro, Martins Sarmento não duvida em ver a ilha da Inglaterra e no gado valioso de Gerião ou de Hiperião o estanho cujo comércio os Fenícios tão resolutamente procuravam dominar. 252

‘For seventeen days then he sailed over the sea, and on the eighteenth appeared the shadowy mountains of the

land of the Phaeacians, where it lay nearest to him; and it shewed like unto a shield in the misty deep’ (Homer, The Odyssey, V, 279-281, p. 189 da ed. utiliz.). ‘He said [Nausithous] that some day, as a well-built ship of the Phaeacians was returning from a convoy over the misty deep, Poseidon would smite her and would fling a great mountain about our city’ (Homer, The Odyssey, VIII, .v 568 e ss., p. 299 da ed. utiliz. 253

‘When he [Herakles] left the boyhood behind, he did not wish to dwell in the same island under the proud

gaze of Nausithoos the king, and so he gathered together a force of the autochthonous Phaeacians – for the hero Nausithoos assisted him in the expedition – and he went towards the sea of Kronos. He settled where the city later stood (…)’ (Apolónio de Rodes, IV, p. 111).

248

Assim, se bem que não possa seriar-se uma correspondência absoluta entre as estações das viagens atlântica e africana, que são alternadamente descritas nas viagens de Ulisses e dos Argonautas, Martins Sarmento não tem dúvida de que, para além das interpolações e deturpações que lhe foram infligidas pelos mitógrafos e escoliastas, as viagens de Ulisses revelam, como o faz a Argonáutica, a mesma narrativa histórica que subjaz à Argonáutica.254 Na narrativa da Odisseia, Martins Sarmento reconhece todos os elementos que constituem o relato dos Argonautas, mas dispostos de tal modo truncados e interpolados que, a uma primeira vista, se diria não se tratar da mesma narrativa. Os pontos de ligação que a estrutura narrativa do mitógrafo havia separado, mas que inicialmente não poderiam deixar de estar juntos, dizem respeito à promessa de vingança de Posídon, por um lado, e a sua execução, por outro. Estes dois elementos seriam, segundo crê Martins Sarmento, contíguos na narrativa ‘inicial’, que reproduziria a viagem histórica dos Fenícios, enquanto que o mitógrafo que havia composto a narrativa épica dos ‘errores’ de Ulisses as teria separado para dois lugares muito distintos do texto: Aqui porém oferece-se uma dificuldade de outra ordem. A coordenação actual das aventuras à Líbia, e, por consequência a coordenação das estações deste roteiro, é a mesma que lhe deu o mitógrafo desta parte dos Errores? Inquestionavelmente não, como vamos ver pela simples exposição dos sucessos. (…). No trajecto de Ogygia para a Feácia, lá nos aparece então Neptuno e a sua vingança, e nas condições mais burlescas do mundo. Pondo de lado o capricho do deus em deixar de vingar-se numa viagem em que não foi ofendido, para vingar-se noutra em que não recebeu o menor agravo, nada mais cómico que este vingador incubando por muitos anos a sua cólera e devendo a um acaso o poder manifestá-la, porque é de notar que o encontro de Neptuno com Ulisses à volta de Ogygia foi meramente casual [Sarmento 1887a: 50 e 51-2].255

254

‘Não é pois porque os Gregos de certa época se lembraram de identificar os Cíclopes com os habitantes da

Sicília, e a Eólia com uma das Liparas, que havemos de admitir o Mediterrâneo, e não o Atlântico, como teatro das aventuras de Ulisses (…)’ (Sarmento 1887a: 50). 255

A ofensa de Ulisses a Posídon (Neptuno) teria ocorrido no episódio de Polifemo, um dos filhos daqueles

deus, pelo que, para Martins Sarmento, seria de esperar ‘a infalível manifestação das iras de Neptuno (…) logo ou

249

É a partir desta hipótese, a da religação num mesmo fio narrativo, de elementos que o mitógrafo separou artificialmente, que Martins Sarmento pretende restituir o sentido original da narrativa histórica da ‘viagem africana’ dos Fenícios. A interposição da ilha de Ogígia, pelos atributos e descrição, uma ilha claramente atlântica e africana,256 na viagem entre duas ilhas, Trinácia e Feácia, que o autor supunha no Mar do Norte, levantava a hipótese de duas variantes narrativas no contexto da viagens de Ulisses. Vejamos detidamente quais as estações dessa viagem e qual a ordem por que foram acedidas à luz da hipótese interpretativa de Martins Sarmento. A primeira estação a que Ulisses chega, saído do Cabo Maleu, é o país dos Lotófagos, povo que, na opinião de Martins Sarmento, deveria ser procurado nas imediações do Atlas, opinião que tinha já defensores entre os geógrafos da antiguidade.257 A partir desta identificação, o promontório a que a mitografia grega chamava Maleu teria de procurar-se numa esfera de vizinhança do Atlas, a que pudesse aceder-se numa singradura de dez dias de navegação: ‘Muito mais claramente que na Argonáutica de Apolónio, o Cabo Maleu está aqui por Tartesso’ (Sarmento 1887a: 54). A vingança de Posídon, a realizar-se, deveria ter lugar a seguir à ofensa a Polifemo, seu filho. Assim, a crítica de Martins Sarmento exigirá incluir neste preciso ponto o episódio de uma tempestade. E, de entre todos os episódios de tempestades e naufrágios que se encontram na Odisseia, o que mais verosimilmente pode situar-se nas regiões do

pouco depois que ele larga do país dos Cíclopes’; a vingança não acontece, e aquele deus só viria a castigar o marinheiro na viagem de regresso de Ogígia. 256

Em Ogígia, uma ilha no centro de um vasto mar, habitava Calipso, filha de Atlas. Estas dois atributos faziam

que muitos dos comentadores da Odisseia, mesmo entre os geógrafos antigos, e.g. Estrabão, supusessem a ilha de Ogígia situada no Atlântico: ‘Et d’ailleurs, Ératosthène lui-même a eu le soupçon de tout cela, semblerait-il, quand il prête au Poète [Homère] l’intention de placer le périple d’Ulysse dans les régions du couchant; s’il s’est écarté de son projet par la suite, ce serait faute d’information exacte, ou bien de propos délibéré, dans le désir de tout tirer vers le terrible et le merveilleux.’ (Estrabão [1969]: Liv. I, p. 107). 257

Estrabão, fundado nas notícias positivas dos mercadores de Gades, não punha em dúvida alguma que os

Lotófagos da Odisseia eram um povo histórico habitando pelas imediações do Atlas, e admitia despreocupadamente corrigir o Poeta de acordo com as novas informações geográficas que a expansão ocidental vinha proporcionando: ‘Et pourtant j’estime qu’il est possible et de défendre la plus grande partie de leurs assertions, et de corriger les autres, en particulier celles pour lesquelles ils on cru les déclarations mensongères de Pythéas dans leur ignorance des régions occidentales et septentrionales du littoral océanique. Mais laissons ce sujet, qui demanderait à lui seul un long développement’ (Estrabão, Liv. III, p. 63).

250

mar Austral, região em que o investigador situa os Lotófagos e Cíclopes, é o que termina numa ilha cuja descrição física e em que a referência à filha de Atlas melhor definem a condição de ‘atlântica’, a ilha Ogígia. A etapa entre o país dos Lotófagos e dos Cíclopes, uma vez determinado o carácter atlântico dos primeiros, inevitavelmente obrigará a idêntica relocalização dos segundos. É justamente neste ponto que a hermenêutica de Martins Sarmento restitui uma suposta ordem perdida da narrativa original: [A] deturpação consistiu em intercalar na passagem do Livro XII os episódios de Ogygia, e fundir a tempestade que levou o navegante a Ogygia, suscitada por Neptuno, com a tempestade que o levou à Feácia, suscitada por Júpiter, às exigências de Hélios (…). Desejaria em todo o caso ver-se uma razão clara que determinasse aquela intercalação. Esta razão não foi outra senão o deplorável erro de dar a todos os Errores uma unidade, i.é, fazer deles uma série contínua de aventuras, quando é fora de dúvida, que mesmo esta parte da Odisseia se compunha primitivamente de poemetos independentes e sem ligação alguma, contendo não somente a narrativa de duas viagens, uma para a Líbia, outra para a Trinácia, mas de três (embora duas delas se possam considerar como simples variantes), cada uma com o respectivo ponto de chegada.258

Esta frase permite muito claramente aferir o carácter ‘paradigmático’ da ciência hermenêutica de Martins Sarmento, no que diz respeito à crítica que faz das lendas gregas. A partir do momento em que o seu espírito escolhe acreditar que as lendas replicam uma narrativa histórica original – a das viagens dos Fenícios pelo mar Atlântico – todos os elementos que possam ser iluminados a esta luz serão destacados e todos os que a ponham em questão não são tidos em conta. Um exemplo claro disto mesmo é a facilidade com que o investigador prescinde do vento Zéfiro quando, no regresso de Hércules, após a saída do Bojador (saída do Lago Tríton), se dirige às Canárias (Creta e Cárpatos). Na Odisseia veremos algo de muito semelhante na

258

‘Quem ler a descrição desta tempestade, onde há actores de mais, Neptuno, Leucothea e Minerva,

reconhecerá nela sinais evidentes do amálgama que supomos; mas tal é ele, que se torna impossível fazer um destrinço satisfatório, porque alguns dos seus elementos primitivos foram sem dúvida sacrificados’ (Sarmento 1887a: 55 e nota 13).

251

necessidade de recorrer a duas variantes da viagem africana, para poder encerrar num mecanismo interpretativo todas as instâncias da viagem de Ulisses e dos seus companheiros. Mas é justamente por apresentar esta invulgar persistência que, cremos nós, a ciência de Martins Sarmento acaba por adquirir uma força ‘paradigmática’ invulgar. No caso da Odisseia, a feição paradigmática da hermenêutica de Martins Sarmento consistirá, pois, em aferir todos e quaisquer dos elementos narrativos da viagem de Ulisses em função da restituição de uma narrativa histórica original.259

A restituição que Martins Sarmento propõe para a viagem de Ulisses às costas africanas apresenta as estações que vêm referidas na narrativa lendária numa nova ordenação cronológica e em diferentes cenários geográficos: A crítica (…) está muito no caso de resolver estes enigmas e de poder afirmar com plena certeza que na coordenação primitiva dos Errores, as estações e episódios da viagem à Líbia eram: Ponto de partida; Lotófagos; Ilhas das Cabras e país dos Cíclopes; Tempestade à saída do país do Cíclopes, levando Ulisses a Ogygia; Estada em Ogygia; Trajecto de Ogygia, perturbado por uma ligeira borrasca, que obriga o navegante a arribar à Eólia; Eólia; Trajecto de Eólia para Ítaca (Tartesso) [Sarmento 1887a: 60].

A narrativa da viagem africana de Ulisses é, para Martins Sarmento, a reprodução quase exacta da viagem dos Argonautas. Em ambas as narrativas, a viagem ‘africana’ inicia-se por uma tempestade que leva as embarcações dos navegantes para as costas da Líbia; dali dirigem-se a uma primeira ilha (Ilha das Cabras | Cárpatos) e desta passam a

259

Como refere Thomas Kuhn, em variadas passagens de alguns elementos da sua obra, a ‘ciência normal’, que é

o modo que justamente dá à ciência um carácter diferente de outras manifestações do saber humano, e de que resulta o seu próprio sucesso, não se caracteriza tanto por ‘estar certa’ (a verificação é, na opinião deste autor impossível) mas por ‘ser determinada’, por aprofundar, sem se deixar interferir por dúvidas que não tenham origem nos seus próprio resultados (e, dentro de certos limites, nem destes), uma determinada parte dos mistérios da natureza cognoscível a uma única luz e sempre com os mesmos critérios realistas de replicação (cf. tb. Beckinsale [1981], para a exposição específica do poder da divulgação no estabelecimento da ciência normal). O carácter motivado e envolvente de uma hermenêutica assim determinada pode muito bem ver-se nas próprias palavras de Martins Sarmento: ‘[N]ós veremos que os incidentes mencionados pelos Errores de Ulisses nunca são insignificantes (…)’ (Sarmento 1887a: 57).

252

uma outra (Cíclopes | Creta). Quando a embarcação deixa a segunda das ilhas mencionadas, uma nova tempestade obriga a procurar refúgio numa terceira ilha (Ogígia | Anafe); desta ilha à costa do continente, ainda uma ligeira alteração dos elementos vem perturbar a navegação, o que fará com que os marinheiros não possam seguir directamente para o destino final da viagem (Ítaca | Iolcos) sem que tenham de acostar ainda a uma estação do litoral (Eólia | Egina). O ponto de partida da viagem africana de Ulisses é Tartessos, como também foi por Martins Sarmento considerado no caso da viagem africana de Hércules dos Argonautas. Após terem navegado alguns dias na direcção do sul, Ulisses e os seus companheiros acostam ao litoral ocidental do deserto africano, o país dos Lotófagos.260 O paralelismo minucioso, proposto por Martins Sarmento, da viagem de Ulisses com a viagem dos Argonautas, exigiria neste ponto que Jasão e os companheiros encontrassem igualmente uma cidade nas costas do deserto líbico para onde a tempestade os havia feito dirigir. Nada de semelhante, porém, se passa com esta narrativa, onde a Argo vai directamente prender-se nos baixios de um mar inavegável, sem que contacte com quaisquer populações antes de o fazer.261 Com os Lotófagos, Martins Sarmento identifica os Lixitas do périplo de Hanão, povo que os marinheiros fenícios de Gades afirmavam conhecer, e em cujo território posteriormente se edificou uma cidade fenícia.262 Com a já reconhecida tendência para a identificação minuciosa de paralelos históricos com os lamentos de carácter lendário das narrativas gregas, Martins Sarmento não deixará de ver na lenda da flor-de-lótus que dava o nome àquele povo, e que induziria em

260

‘So they went straightaway and mingled with the Lotus-eaters, and the Lotus-eaters did not plan death for my

comrades, but gave them of the lotus to taste’ (Homer, The Odyssey, IX, v. 91-102, vol. I, p. 309 da ed. utiliz). 261

‘Mais uma vez se pode ver como o carácter de ‘ciência normal’ escurece ou menoriza os factos

individualmente considerados quando estes estão em contradição com a teoria geral: para Martins Sarmento ‘a versão da Odisseia é sem dúvida nenhuma a verdadeira e, fosse por que motivo fosse, Apolónio saltou aqui uma estação’’ (Sarmento 1887a: 65). 262

‘Tendo daí partido, atingimos o grande rio Lixo, que corre da Líbia. Junto a ele, nómadas, os Lixitas, faziam

pastar os seus rebanhos; ficámos junto deles durante algum tempo, tendo-nos tornado amigos’ (Périplo de Hanão, VI, p. 87).

253

esquecimento quem a comesse, uma referência ao carácter amistoso do povo dos Lixitas, informação que decorre da paisagem citada do périplo de Hanão.263 O método comparativo que permite a dilucidação mútua da viagem dos Argonautas e de Ulisses, será de grande utilidade, segundo Martins Sarmento, no episódio da ilha dos Cíclopes e da Caverna de Polifemo, ‘que tanto tem embaraçado os intérpretes’ (Sarmento 1887a: 67). Na viagem dos Argonautas, o seu símile é o episódio em que estes ficam inicialmente sem saber sair do Lago Tríton, mas de que conseguem escapar por um caminho diferente daquele por que tinham sido forçados a entrar. O Génio do Lago, por um lado, os Cíclopes e Polifemo, por outro, mais não são, na geografia fenícia proposta por Martins Sarmento, do que alegorias mais ou menos veladas dos povos selvagens que os marinheiros saídos de Gades encontrariam pela costa africana a sul dos Lixitas, e cujo carácter francamente inamistoso se manteria pelos séculos seguintes, pois que, na sua costumada desenvolução a-histórica da sua narrativa, Martins Sarmento ainda os vê a maltratar os marinheiros de Hanão.264 Na representação simbólica dos povos pouco amistosos com que os marinheiros fenícios se teriam encontrado a sul dos Lixitas, os mitógrafos gregos não deixaram de reproduzir, através da efabulação das personagens, que a verdadeira natureza histórica do evento deixasse de se revelar. Quer o Génio do Lago Triton quer Polifemo eram filhos de Posídon, e ambos dominavam ameaçadoramente uma passagem marítima de importância. Neles (como em Anceu, que se interpõe a Hércules na sua viagem africana), Martins Sarmento vê tão somente a alegorização do conjunto de povos ‘etíopes’, com que os Fenícios teriam tido encontros violentos, e cuja costa adquiriu daí em diante a fama inóspita.265 263

‘Esta “fábula”, como todas as outras, tem uma explicação óbvia: significa simplesmente que os nossos

exploradores acharam a terra tão boa e a gente tão hospitaleira, que não fariam grande sacrifício em se domiciliar por ali. E provavelmente este incidente tem por base uma informação histórica’ (Sarmento 1887a: 66-7). 264

‘Acima deles [Lixitas] habitavam os inospitaleiros Etíopes, ocupando um território cheio de animais

selvagens, atravessado por altas montanhas, das quais dizem que corre o Lixo; em redor destas montanhas, diz-se que habitam uns homens de aspecto diferente, os Trogloditas; os Lixitas afirmam que aqueles são mais velozes na corrida que os cavalos’ (Périplo de Hanão, VII, p. 89). 265

A Mitologia contemporânea de Martins Sarmento não podia deixar de apresentar outras versões do mito de

Polifemo, cuja relação com o imaginário grego era mais óbvia. Contudo, não havia quem identificasse o gigante

254

Claro está que o carácter minucioso com que Martins Sarmento pretende estruturar a leitura paralela das viagens de Hércules, Jasão e Ulisses, é constantemente posto em questão pelos pormenores narrativos de cada uma delas. Já o vimos na ausência inexplicável do encontro com os Lixitas na narrativa de Apolónio e vemo-lo igualmente na diferente localização dos inamistosos etíopes. Porém, como já foi dito, o carácter fortemente motivado da ‘metafísica paradigmática’ que preside a esta leitura, tende a menorizar a importância dessas contradições, ou a dar-lhes um valor meramente residual. De facto, o Lago Tríton dos Argonautas e de Hércules é claramente situado na costa de um continente, de um deserto, enquanto que a aventura de Polifemo é localizada numa ilha. Martins Sarmento tem a plena noção de que são contradições que podem de algum modo escurecer a evidência da sua demonstração, pelo que as trata sempre da mesma maneira, i.e., atribuindo-as à efabulação dos mitógrafos, e pondo a ênfase explanatória da teoria mais na ordem do que na existência ou ausência dos episódios. Ao investigador, uma vez definido o fio da narração, são idênticos os episódios que por ela são obrigados a coincidir, estejam explícitos ou não nas narrativas fabulosas: Se se pergunta o que pode ter de comum a Ilha dos Cíclopes com o Lago Tríton e com os Etíopes do continente africano, nós respondemos sem hesitação que há aqui uma deslocação idêntica à que notámos em Apolónio e devida também a causas desconhecidas (…). A sequências das aventuras não deixa sombra de dúvida a tal respeito [Sarmento 1887a: 71].

Justamente, a sequência da narrativa histórica restituída por Martins Sarmento reconhece a existência de um fenómeno natural que veio, nas viagens de Ulisses e dos Argonautas, a obrigar os heróis a acostar, respectivamente, nas ilhas de Ogígia e Anafe. Para Martins Sarmento, já o vimos, trata-se de uma forte corrente oceânica (de facto a corrente das Canárias poderia exercer a sua influência nestas latitudes), que os Fenícios, cuja experiência de navegação era primitivamente do cenário mediterrânico, não poderiam intimamente conhecer.

cíclope com a esfera civilizacional dos Fenícios: segundo Bochart, autoridade que Martins Sarmento traz em sua defesa, a etimologia de Cíclope guardaria a memória de um significado próximo de ‘enseada da Líbia’, em tudo adequada à teoria interpretativa do autor português.

255

A identificação de Ogígia com a ilha da Madeira266 deriva do facto de Calipso afirmar que esta ilha se encontrava largamente no meio do Oceano. Dela, Ulisses só poderia regressar a casa267 se navegasse ‘com a Ursa sempre à mão esquerda’. Além disso a já referida etimologia de Anafe, ilha símile de Ogígia, seria também, na opinião de Martins Sarmento, adequada a uma descrição da ilha da Madeira, e estaria presente também na descrição de Ogígia.268 Quando, desta ilha, Ulisses pretendia regressar definitivamente ao destino da sua viagem (Ítaca | Tartessos), foi impelido por uma nova alteração dos elementos a acostar em Eólia. A Eólia da Odisseia é o lugar em que habita o deus ou rei dos ventos que proporciona a Ulisses um saco de pele em que prende todos os ventos excepto o de Oeste. Nesta singularidade vê Martins Sarmento a indicação de que este lugar deveria situar-se a ocidente do ponto final da viagem, para o qual uma embarcação se dirigiria naturalmente se impelido por um vento vindo daquela direcção. A Eólia seria, portanto, uma localidade a ocidente de Tartessos. A identificação plena, atinge-a o investigador quando recolhe do périplo da Ora maritima a informação de que, nas proximidades do rio Anas, havia um templo dedicado a Zéfiro, justamente o vento em questão.269 Ainda que o episódio não seja explicitado na viagem dos Argonautas, ainda assim Apolónio

266

Antes de se render à ‘geografia fenícia’ das lendas de Ulisses e dos Argonautas, Martins Sarmento

considerava a ilha Ogígia como sendo a Irlanda. 267

A distância entre Ogígia e Ítaca seria de dezoito singraduras: ‘Therefore she [Calypso] put abundance of

dainties to satisfy his heart, and she sent forth a gentle wind and warm. Gladly then did goodly Odysseus spread his sail to the breeze; and he sat and guided his raft skilfully with the steering-oar, nor did sleep fall upon his eyelids, as he watched the Pleiads, and late-setting Bootes, and the Bear, which men also call the Wain, which ever circles where it is and watches Orion, and alone has no part in the baths of Ocean. For this star Calypso, the beautiful goddess, had bidden him to keep on the left hand as he sailed over the sea. For seventeen days then he sailed over the sea, and on the eighteenth appeared the shadowy mountains of the land of the Phaeacians, where it lay nearest to him; and it shewed like unto a shield in the misty deep’ (Homero [2004]: 190). 268

‘ “But my heart [Athene’s] is torn for wise Odysseus, hapless man, who far from his friends has long been

suffering woes in a sea-girt isle, where is the navel of the sea. ‘Tis a wooded isle, and therein dwells a goddess, daughter of Atlas (…)” ’ (Homero [2004]: 7). 269

‘Contíguo fica o território dos Tartéssios, cuja terra é banhada pelo rio Tartesso. Em seguida estende-se o

cabo consagrado a Zéfiro. Por fim o cume da elevação chamada Zéfiris, cujas altas cristas sobressaem no cimo da montanha.’ (Avieno, v. 225-227, p. 23 da ed. utiliz.)

256

não deixa de referir que após a saída de Egina, os homens da Argo pretendiam aproveitar um vento favorável.270 A admitir um paralelismo minucioso com a viagem dos Argonautas, seria após a saída da Eólia que terminaria a ‘viagem africana’ de Ulisses; porém, como já se referiu anteriormente, a narrativa de Ulisses retrocede, através de uma tempestade, de novo a Eólia, episódio em que Martins Sarmento vê a mão do mitógrafo que, porque inverteu a ordem da Argonáutica de Apolónio, se vê agora obrigado iniciar a narrativa da viagem fenícia ao Mar do Norte. O exame comparado das três lendas gregas é para Martins Sarmento a demonstração que os Gregos fantasiaram sobre um único roteiro fenício que daria conta de uma viagem que aquele povo, a partir da sua colónia da Península Ibérica, teria feito às costas africanas do Atlântico. Tendo retirado todos os elementos mais ou menos fabulosos que aquelas incluem, o périplo geográfico surge em toda a sua inteira originalidade: [O]s Fenícios, depois que reconheceram toda a costa africana até os Lixitas, tentaram prosseguir para o sul, mas, sendo arrojados às restingas do Bojador, escaparam do perigo quase por milagre, indo ter ao Lago Triton através de muitas fadigas e trazendo dessas regiões longínquas um certo número de informações, que a imaginação popular foi avultando e desfigurando com o tempo. Podendo encontrar a recôndita comunicação do Lago com o mar, vêm sair a uma enseada a sul do Bojador e, tratando de voltar para Tartesso, vão costeando o promontório até o ponto, onde começam a aparecer-lhes sinais dos baixios em que tinham naufragado. Para os evitar, tomam por largo e é assim que descobrem as Canárias (Hespérides), duas das quais foram reconhecer. Saindo daí, dirigem-se provavelmente para a costa, já sua conhecida, quando são surpreendidos por uma corrente atlântica, que os arroja para a Madeira. Bem que os apavore a lembrança de abandonar aquele asilo e de atravessar a solidão do alto mar, não há outro remédio senão fazê-lo; e, calculando que a sua navegação devia ser de poente a nascente (com a Ursa à mão esquerda), tiveram a fortuna de efectuar a grande travessia sem

270

‘There [Aegina] they engaged in a playful contest to see who would be the first to draw water and return to

the ship, for both need and a stiff breeze enjoined haste’ (Apolónio de Rodes: 140).

257

perigo. Apenas ao aproximarem-se Tartesso, um pequeno temporal do sul os obrigou a arribar a uma localidade do sudoeste da Espanha, o Zephyridos da foz do Anas [Sarmento 1887a: 76].

A restituição da viagem fenícia ao Mar do Norte a partir da narrativa da Odisseia exige uma maior habilidade hermenêutica a Martins Sarmento. Para levar a cabo a sua intenção de designar as mesmas estações, trajectos e acidentes de percurso que paralelamente o autor indica nas viagens dos Argonautas e do Décimo Trabalho de Hércules, o autor ver-se-á obrigado a cindir a viagem de Ulisses naquilo a que ele próprio chamará ‘variantes’. Da viagem ‘norte-atlântica’ de Ulisses contam-se as seguintes estações: partida de Eólia; Lestrigónia; Ea (ilha de Circe); mar das Sereias; o encontro com os monstros marinhos de Cila e Caríbdis; Trinácia; Feácia; regresso a Ítaca. A Trinácia é para Martins Sarmento a designação, na Odisseia, da ilha da Inglaterra, e é a partir desta fixação fundamental que tem de compreender-se o desenvolvimento da restante geografia da segunda parte da viagem de Ulisses. Desde logo, a identificação de Cila e Caríbdis, os rochedos que fechavam o trânsito dos barcos num estreito, só pode fazer-se com o estreito que imediatamente antecedia a entrada nos estuários da parte oriental do sul da Grã-Bretanha, isto é, o Pas-de-Calais. Fixados assim dois pontos da viagem, Trinácia e a já identificada Eólia, lugar em que uma embarcação, partindo de Tartessos para a costa atlântica da Europa, necessariamente haveria de tocar, resta porém a necessidade de identificar todas as restantes estações que a Odisseia refere nessas viagens, e assegurar o necessário paralelismo com as narrativas das viagens dos Argonautas e de Hércules. Martins Sarmento não duvida em afirmar que a localização da ilha de Ea ‘é um dos mais obscuros enigmas da geografia homérica’ (Sarmento 1887a: 78). A Ea dos Argonautas, considerava-a o autor como sendo a Inglaterra, enquanto que na Odisseia esta seria a Trinácia, dando origem a uma geografia que atribuía a um lugar dois nomes, ou, o que seria pior, a dois lugares o mesmo nome. A necessidade de resolver este enigma é que levará Martins Sarmento a identificar duas variantes da mesma viagem histórica no relato de uma só viagem efabulada: 258

As aventuras de Ulisses na viagem à Trinácia, tais como no-las oferecem hoje os Errores, são duas versões de uma mesma legenda com nomes geográficos diferentes e peripécias aparentemente diversas, de que os coordenadores dos cantos homéricos fizeram uma série contínua. Formam portanto um verdadeiro duplicado, porque uma parte muito importante da geografia de uma das versões perdeu o seu carácter positivo, a ponto de ser considerada como uma criação inteiramente fantástica, senão mesmo como um hors d’œuvre. Falamos da viagem de Ulisses ao Inferno [Sarmento 1887a: 79].

A habilidade hermenêutica a que antes nos referíamos, e que será exigida a Martins Sarmento, para poder equivaler todas as lendas gregas referentes a esta viagem, cumpre-se neste passo, a abolição da viagem de Ulisses ao país de Hades, a sua concepção como um episódio autónomo e intercalado numa linha narrativa que o não reconhece, mas sem que se prescinda do seu valor informativo histórico e geográfico; o trajecto de Ea para o Inferno é uma replicação da viagem da ilha da Trinácia ao país dos Feácios. Ao considerar como real a geografia da viagem de Ulisses ao Inferno em frente da Ea de Circe, Martins Sarmento obrigar-se-á a identificar os nomes verdadeiros das estações que possam corresponder ao templo de Prosérpina, à Lagoa Estígia e aos Cimérios que ali são nomeados. A proximidade do país de Hades a Ea (que é para Martins Sarmento a Inglaterra), o facto de as árvores estéreis do jardim de Prosérpina serem associadas às lágrimas de âmbar, lenda situada na foz do Erídano, e de este mesmo rio ser designado como um dos rios do Inferno, tudo se conjuga para permitir a Martins Sarmento (para quem, relembre-se, o Erídano era Reno e não o Pó, no que contrariava quer a tradição dos escoliastas, quer a maior parte da crítica sua contemporânea) identificar o trajecto entre Ea e o país de Hades como uma versão do trajecto entre a Inglaterra e a foz do Reno.271

271

A identificação deste trajecto deve muito à importância que Martins Sarmento dá, no âmbito da sua

‘hermenêutica fenomenológica’, aos pormenores realistas da descrição dos lugares: ‘O trajecto de Ea para o Inferno é pois o trajecto da Inglaterra para a foz do Reno, e, assim compreendida, diga-se se a descrição homérica, mostrando o navegante num ponto da costa de Ea, largando daí para atravessar o mar, e chegando ao fim de um dia ao Bosque de Prosérpina, à Lagoa Estígia e aos Cimérios—Feácios, não é a descrição mais exacta e positiva [s.n.] de uma travessia feita de um ponto da costa oriental da Inglaterra para a foz do Reno’ (Sarmento 1887a: 82-3).

259

Assim, a Odisseia retém duas versões da mesma viagem fenícia ao Mar do Norte; numa delas, a Inglaterra (Trinácia) aparece como o lugar em que pasce o gado do Sol, e ela própria tem um nome (nas versões de Hércules e dos Argonautas) que remete para uma fenomenologia da luz e do brilho, e onde os nevoeiros do Inferno apenas se avistam longinquamente; pelo contrário, na segunda versão, a Inglaterra é já a morada de uma deusa infernal (a Ea de Circe) e todo o trajecto que a medeia até que se atinja a foz do Reno é ligado a uma fenomenologia das trevas e a uma paisagem de nevoeiro. Esta duplicidade de versões tem, para Martins Sarmento, uma explicação. A descrição das regiões do Mar do Norte como paisagens de desalento, lugares sombrios, de nevoeiros persistentes, seria a mais adequada, e quase inevitável, quando a esses lugares teriam chegado povos do meio-dia, para quem aquelas realidades deveriam impressionar profundamente; o que se torna mais difícil de explicar é como podia, em outras versões da mesma viagem, a ilha da Inglaterra ser nomeada como a ilha ‘vermelha’ (Erítia), do Sol, ou do gado do Sol? A explicação de Martins Sarmento passa por considerar este segundo nível de nominação como fazendo referência ao carácter ‘ariano’ dos povos que aí viviam, que, sendo transmitido pelos Fenícios para o mundo mediterrânico, viria a ser plenamente reconhecido pelos Gregos.272 Deste modo a hermenêutica de Martins Sarmento faz uso de uma ‘puerilidade’273 para explicar como é que um país do Sol, nome que convinha perfeitamente à Cólquida

Uma vez admitindo que a descida de Ulisses ao Inferno reproduziria uma viagem histórica dos Fenícios entre a Inglaterra e a foz do Reno, não restava a Martins Sarmento outra hipótese senão a de incluir também neste conjunto de efabulações o Décimo Segundo Trabalho de Héracles, narrativa cuja identidade com a da Odisseia indiciava uma origem comum, e que com a narrativa do roubo do gado de Gerião constituiria uma variante equivalente às de Ulisses (Sarmento 1887a: 84). 272

O nome de Aetes é seguramente tão histórico, como o de Albiões, e este nome de origem árica, tinha uma

etimologia transparente para os Gregos. Aetes significa o ardente. Deste Aetes, o ardente, um personagem de proporções a lutar com os Argonautas, muitos deles filhos de deuses, fizeram os Gregos um filho do Sol, i.é., o Sol. (Sarmento 1887a: 85-6). A implicação desta metonímia não pára aqui: ‘Escrevemos Aetes, como alguns tradutores, para mais o aproximar do velho irlandês Aed, porque para nós os dois nomes são a mesma coisa. Ainda hoje no irlandês e línguas congéneres este nome tem o significado transparente de ardente. (…) Nas tradições câmbricas, o chefe da segunda colónia de Cymros, que veio povoar a Inglaterra, é filho de Aed’ (Sarmento 1887a: 85, nota 12). 273

A palavra é do próprio Martins Sarmento. Como é também a consideração que faz da inimputabilidade do

carácter ‘infantil’ dos mitógrafos gregos: ‘Nestas coisas eles [os mitógrafos gregos] tinham tanta imputação como as crianças’ (Sarmento 1887a: 87)

260

da ‘geografia homérica’ de proximidade, pode vir a ser transferido para uma região da Europa ocidental. Como se referiu anteriormente, a visão ‘metaparadigmática’ de Martins Sarmento, que congloba a hipótese de que as lendas gregas reproduzem as viagens fenícias que inauguram a navegação atlântica da Europa e da África, obriga a uma reavaliação e enquadramento de todos os elementos factuais que possam discrepar mais estridentemente no âmbito da sua teoria. Uma vez estabelecida a distinção entre as duas variantes alternativas da viagem dos Fenícios entre Inglaterra e a foz do Reno, Martins Sarmento pode já apresentar o fio ininterrupto das duas narrativas paralelas, de modo a poder identificar as entidades histórico-geográficas que lhes são correspondentes: Importa agora separar as estações que pertencem a cada variante, e descobrir como se operou o encadeamento de ambas. Quando ao primeiro ponto, não há a menor dificuldade: os factos de cada versão não foram baralhados, e basta dispô-los nas duas séries seguintes, para reconhecer esta verdade: Primeira variante: Ponto de partida – Eólia – Lestrigónia – Ea, ou ilha de Circe – Trajecto de Ea para o Inferno dos Cimérios – Volta a Ea. Segunda variante: Partida de Ea – Sereias – Cila e Caríbdis – Trinácia – Trajecto de Trinácia para a ilha dos Feácios – Volta a Ítaca. Sem o encadeamento das duas variantes, o desfecho da primeira seria certamente o mesmo que o da segunda, a volta a Ítaca [Sarmento 1887a: 88].

Na hermenêutica que Martins Sarmento leva a cabo da narrativa das viagens de Ulisses, é em relação à ilha de Circe, Ea, que a sua argumentação mais tem de incidir, uma vez que nela a acção decorre por duas vezes. É através do papel cumprido pela deusa Circe que o investigador supõe poder atingir a verdade histórica que a efabulação da personagem recobre. Tomando como factuais os pormenores com que a deusa informa Ulisses da viagem do regresso, o autor conclui que Circe, ‘se conhecia muito bem o caminho da sua ilha que levava ao país dos Cimérios, ignorava inteiramente o itinerário pelas Sereias, Cila e Caríbdis e Trinácia, ensinado por Tirésias’. A suspeitada equivalência da viagem de Ulisses com a dos Argonautas, permite rever na personagem de Circe alguns atributos da guia feminina destes últimos que, em ambos os casos, conhecem muito bem o caminho que liga o lugar de onde os marinheiros pretendem escapar e o lugar para onde finalmente fogem: os Feácios, no 261

caso dos Argonautas, os Cimérios no caso de Ulisses. A incoerência histórica residiria, assim, no episódio do regresso do país dos Cimérios a Ea, uma vez que no paradigma argonáutico, os marinheiros tomariam o caminho da estrada fluvial e por aí chegariam ao Mar Mediterrâneo, incoerência tanto mais notória porquanto a mesma Circe que desempenha o papel de primeira informadora parcimoniosa, representará o de segunda informadora minuciosa. De toda esta rede de contradições pretende Martins Sarmento retirar uma conclusão principal: as duas versões da personagem de Circe corresponderiam a duas situações historicamente distintas. Uma corresponderia à que detém Medeia na narrativa dos Argonautas; a outra, uma segunda personagem com um conhecimento detalhado da caminho das Sereias, consubstanciada na segunda Circe, em Tirésias ou Fineu.274 Como o caminho ensinado por estas personagens incluía uma passagem por um estreito que se situaria entre o ponto de partida e o ponto de chegada, este ‘Circeu’ teria obrigatoriamente de ser situado nas costas atlânticas antes que se atingisse o Pas-de-Calais. Com o intuito de determinar o lugar exacto da morada de Circe, Martins Sarmento contrapõe as duas versões principais da viagem dos Argonautas já referidas: a do Pseudo-Orfeu e a de Apolónio. Neste, no âmbito da ‘geografia de proximidade’ que a caracteriza, aquela estação deveria localizar-se nas costas da Itália, e é desconsiderada com o enquadramento de ‘longinquidade’ do investigador; a do Pseudo-Orfeu, embora desprezada pelos escoliastas e mitógrafos gregos e pela crítica contemporânea do autor, ganha um grande valor’, por demonstrar que a ‘Circe dos Argonautas habitava a poente da foz do Tartesso, portanto nas costas do sudoeste de Espanha’ (Sarmento 1887a: 93).275

274

‘Ambos eles são videntes, ambos cegos, ambos ensinam um roteiro, que tem por ponto forçado a passagem de

um estreito temeroso. Não é tarde para declarar que consideramos a Neciomancia, hoje ligada ao episódio de Tirésias, como uma adição posterior’ (Sarmento 1887a: 91, nota 18). 275

Apesar da dificuldade proceder à restituição da narrativa do Pseudo-Orfeu, ainda assim Martins Sarmento

considera que a parte correspondente ao itinerário entre o Mar do Norte e o Estreito de Gibraltar ‘é tão clara, como as outras são obscurantíssimas, e contém minuciosidades tão exactas, que não podem deixar de ser cópia de um roteiro verdadeiro’ (Sarmento 1887a: 93, nota 22).

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A localização de Circe nas imediações do país dos Cinetes, vê-se ainda corroborada por duas ordens de razões: por um lado, no documento, supostamente cartaginês, que corre sub voce no périplo de Avieno, é feita uma referência ao templo de uma deusa infernal, também a poente de Tartessos, não longe da cidade de Onoba; por outro lado, uma tradição fenícia, vulgarizada por Estrabão, dava conta de um oráculo associado às viagens de colonização da Península Ibérica para além das Colunas. Segundo esta tradição, os Tírios teriam efectuado três viagens ao sul da Península Ibérica, tendo-se estabelecido consecutivamente num ponto a nascente de Gades, nas Colunas, noutro a poente da mesma cidade e, finalmente, na própria cidade de Gades. Só no momento em que escolheram esta última localização, os oráculos teriam sido favoráveis.276 Para Martins Sarmento, também esta lenda é uma efabulação de elementos históricos levada a cabo pelos Gregos,277 o mesmo acontecendo também com a narrativa da viagem a poente de Gades, que seria afinal uma versão mais da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, ou das tentativas por que passaram antes de lá chegar. A ordem de Estrabão é uma ordem falseada, como todas as outras efabulações gregas, pelo facto de persistirem na concepção de que as Colunas da tradição tíria correspondem ao Estreito de Gibraltar. Para Martins Sarmento, a tradição de Estrabão refere-se realmente ao progressivo conhecimento da costa atlântica pelos marinheiros fenícios. No âmbito desta interpretação, a terceira viagem, que em Estrabão aparenta um retrocesso incompreensível, face às outras duas, e que estranhamente teria o beneplácito dos oráculos divinos, torna-se compreensível se se considerar as Colunas como sendo as do Mar do Norte, termo e objectivo mais importante dos seus mandantes. Nesta geografia restituída, a segunda viagem de Estrabão toma um sentido mais completo, como sendo o lugar em que se recolheram as informações que permitiram continuar a navegação ao 276

‘Sur la fondation de Gadéira, voice ce que racontent les Gaditans. Un oracle adressé aux Tyriens leur ordonna

d’envoyer des colonies aux Colonnes d’Hercule. Les hommes chargés de reconnaître les lieux atteignirent d’abord de détroit du Mont Calpé. (…). Après quelques temps, une nouvelle expédition fut envoyée, qui franchit le détroit et poussa jusqu’à quelque 1500 stades au-delà, où elle aborda à une île consacrée à Héraclès, à la hauteur de la ville d’Onoba en Ibérie. Croyant pouvoir identifier ce lieu aux Colonnes, les Tyriens y firent le sacrifice au dieu. (…). A la troisième expédition, Gadéira fut fondée là où leur voyage prit fin: le temple bâti à l’orient de l’île, la ville à l’occident’ (Estrabão [1969]: Liv. III, p. 86). 277

Com o paternalismo retórico usual em Martins Sarmento: ‘Estrabão não compreende uma palavra da curiosa

tradição que reproduz’ (Sarmento 1887a: 95).

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longo das costas atlânticas. O papel destes informadores intermédios é o que Martins Sarmento justamente atribui aos diversos informadores efabulados das narrativas gregas, os do paradigma de Fineu e Tirésias, paradigma no qual cabe igualmente a segunda Circe da viagem de Ulisses, estabelecendo, assim, definitivamente a localização do ‘Circeu’ no sudoeste da Península Ibérica: ‘foi em Onoba que os Fenícios encontraram quem os informasse exactamente sobre a posição de Ea e o caminho que tinham a seguir para lá chegar’ (Sarmento 1887a: 96). Pela fusão das identidades das Circes historicamente diversas, numa só personagem da narrativa lendária, os mitógrafos da viagem de Ulisses, com ‘a ideia fixa de dar a todas as aventuras uma unidade e uma sequência’, escondem a verdadeira localização do templo de Circe, e amalgamam a sua história com atributos que são característicos dos informadores do tipo de Medeia: Nas duas versões da viagem ao Mar do Norte, o expediente, adoptado para obter a sonhada unidade, consistiu em fundir a mágica habitadora de Ea, mencionada numa delas, historicamente Medeia, com a Circe da outra versão, historicamente a Circe dos Argonautas. O expediente parece grosseiro de mais, mas não o é talvez tanto como se afigura, se repararmos na probabilidade de que o mitógrafo, que põe em cena, a seu modo, a Medeia da velha legenda, lhe deu o nome de Circe (...). Assim em cada variante haveria uma deusa Circe, ocupando cada uma delas uma localidade própria e representando um papel distinto; mas os coordenadores da Odisseia, não podendo perceber esta distinção, fundiram-nas numa só [Sarmento 1887a: 97].

A hermenêutica de Martins Sarmento está assim em posição de localizar adequadamente os dois episódios que dizem respeito a Circe. Na terra da ‘primeira Circe’, a amante de Ulisses (par equivalente a Medeia e Jasão), habitam os informadores que providenciariam aos navegantes mediterrânicos os pormenores do trajecto até ao país dos Feácios | Cimérios; nela vê o investigador o povo com que estes marinheiros contactaram, já nas costas do Mar do Norte, após terem ultrapassado o estreito que lhes limitava a navegação, as Colunas de Hércules. Na ‘segunda Circe’, que conhece minuciosamente os pormenores da navegação do trajecto anterior às Colunas, vê Martins Sarmento os informadores do sul da Península Ibérica, os mesmos em cujas 264

imediações construíram um templo em que se venerava a inferna dea do périplo cartaginês; nela vê o autor algum povo do grémio ‘ligúrico’ do Ocidente, e, com muita probabilidade, os Tartéssios. Com esta restituição, Martins Sarmento pode então redesenhar o mapa de Ulisses, de modo a estabelecer a versão corrigida de duas variantes da uma viagem atlântica dos Fenícios ao Mar do Norte: As estações e principais episódios da primeira são: Ponto de partida – Eólia – Lestrigónia – Ea – Trajecto de Ea para os Cimérios –Volta. Da segunda: Ponto de partida – Circeu – Sereias – Cila e Caríbdis – Trinácia – Trajecto de Trinácia para os Feácios – Volta a Ítaca [Sarmento 1887a: 99].

Como havia feito em relação à ‘viagem africana’ de Ulisses, de que pretendeu demonstrar um íntimo paralelismo a uma viagem equivalente dos Argonautas e do Décimo Primeiro Trabalho de Hércules, também em relação a estas duas variantes da viagem de Ulisses, o investigador pretenderá estabelecer a geografia historicamente real que lhes subjaz, e que compara sistematicamente às viagens equivalentes dos Argonautas e de Hércules ao Mar do Norte, e, embora mais incompleta, o regresso que os marinheiros fenícios serão obrigados a efectuar pelas estradas fluviais que ligam aquele mar ao Mediterrâneo.

Um dos principais pontos de apoio da hermenêutica de Martins Sarmento é a distinção que faz dos elementos naturais descritos nas narrativas lendárias. Para o investigador, podem estes ser divididos em dois tipos fundamentais: os que dizem respeito a uma ‘fenomenologia do desconhecido’ e que, por isso mesmo, ficam duradouramente gravados na memória da viagem histórica – é o caso do episódio da estranha corrente que leva, sem a ajuda de vento, o barco de Ulisses até Ogígia –; e os que são inteiramente interpolações dos mitógrafos gregos, com o intuito de providenciar à narrativa uma continuidade e uma contiguidade que originalmente não possuía. Neste último caso, as tempestades que lançam a Argo no deserto líbico, ou as que impedem Ulisses de atingir Ítaca, na primeira vez que passa ao seu largo, não são descrições de verdadeiras alterações dos elementos, mas um ‘expediente necessário’, um ‘deus ex

265

machina’, para ligar as aventuras distintas do Mar do Norte e da costa ocidental de África. Este expediente liga a narrativa de Ulisses no momento em que, tendo já a sua cidade, Ítaca, à vista, o marinheiro é obrigado a recuar para Eólia, termo da sua viagem africana. Considerando Martins Sarmento que as narrativas lendárias dizem respeito a duas viagens distintas, levadas a cabo por diferentes personagens, vê ainda assim no emendamento de uma na outra a garantia que quer a viagem ‘africana’ quer a viagem ‘setentrional’ tiveram o mesmo ponto de partida: ‘uma Ítaca próxima de uma região marítima, onde Neptuno, vindo dos Etíopes, se encontrou com Ulisses’, i.e., Tartessos. Na diversidade de recepção do rei Éolo a Ulisses vê Martins Sarmento a diferente qualidade do vento do oeste, conforme um navegante deseja chegar ao sul da Península Ibérica, ou, pelo contrário, pretende abandoná-la.278 Na narrativa da viagem de Ulisses no sentido do Mar do Norte, o vento oeste seria contrário ao sentido da navegação e, por isso, a recepção na Eólia, símile do culto de Zéfiro, registado no périplo de Avieno, se manifestou em grande animosidade. A estação da Lestrigónia apresenta algumas singularidades que permitem a Martins Sarmento, de resto acompanhado por outros intérpretes da Odisseia, a considerar que ela se situaria a latitudes elevadas, nomeadamente a referência ao facto de ali serem muito curtas as noites. A narrativa referente ao episódio da Lestrigónia apresenta porém outros traços que permitem desenvolver o paralelismo costumado com a viagem dos Argonautas, e especificamente com a chegada ao reino de Aetes. Também Ulisses, para chegar ao país dos Lestrigónios, escolheu um porto apartado da cidade, prudência que lhe permitiria fugir com sucesso aos seus perseguidores. E também, como no Euxino, aquele porto ficava no interior de um mar apenas acessível por um estreito e, também ali, é a filha do rei que amavelmente guia os marinheiros exploradores até à corte em que serão maltratados e perseguidos.279 Como o era a pátria de Aetes, também a Lestrigónia será 278

‘ “Begone from our island with speed, thou vilest of al that live. In no wise may I help you or send upon his

way that man who is hated of the blessed gods” ’ (Homero [2004]: 349). 279

Embora na narrativa da viagem de Ulisses Aetes e os seus cortesãos venham a tomar a forma de seres

fabulosos e monstruosos: ‘“So for six days we sailed, night and day alike, and on the seventh day we came to the lofty citadel of Lamus, even to Telepylus of the Laestrygonians, where herdsmen calls to herdsmen as he drives in his

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para o autor uma referência a Inglaterra. Como porém a teoria interpretativa havia já deixado Ea para identificar com Inglaterra, esta referência de uma Inglaterra na

flock, and the other answers as he drives his forth. There a man who never slept could have earned a double wage, one by herding cattle, and one by pasturing white sheep; for the outgoings of the night and of the day are close together. When we had come thither into the goodly harbour, about which on both sides a sheer cliff runs continuously, and projecting headlands opposite to one another stretch out at the mouth, and the entrance is narrow, then all the rest steered their curved ships in, and the ships were moored within the hollow harbour close together; for therein no wave ever swelled, great or small, but all about was a bright calm. But I alone moored my black ship outside, there on the border of the land, making the cables fast to the rock. Then I climbed to a rugged height, a point of outlook, and there took my stand; from thence no works of oxen or of men appeared; smoke alone we saw springing up from the land. So then I sent forth some of my comrades to go and learn who the men were, who here ate bread upon the earth – two men I chose, and sent them with them a third as a herald. Now when they had gone ashore, they went along a smooth road by which wagons were wont to bring wood down to the city from the high mountains. And before the city they met a maiden drawing water, the godly daughter of Laestrygonian Antiphates, who had come down to the fair-flowing spring of Artacia, from whence they were wont to bear water to the town. So they came to her and spoke to her, and asked her who was king of this folk, and who they were of whom was lord. And she showed them forthwith the high-roofed house of her father. Now when they had entered the glorious house, they found there his wife, huge as the peak of a mountain and they aghast at her. At once she called from the place of the assembly the glorious Antiphates, her husband, and he devised for them woeful destruction. Straightway he seized one of my comrades and made ready his meal, but the other two sprang up and came in flight to the ships. Then he raised a cry throughout the city, and as they heard it the mighty Laestrygonians came thronging from all sides, a host past counting, not like men but like the Giants. They hurled at us from the cliffs with rocks huge as a man could lift, and at once there rose throughout the ships a dreadful din, alike from men that were dying and from ships that were being crushed. And spearing them like fishes they bore them home, a loathly meal. Now while they were slaying those within the deep harbour, I meanwhile drew my sharp sword from beside my thigh, and cut therewith the cables of my dark-prowed ship; and quickly calling to my comrades bade them fall to their oars, that we might escape from out our evil plight. And they all tossed the sea with their oar-blades in fear of death, and joyfully seaward, away from the beetling cliffs, my ship sped on; but all those other ships were lost together there”’ (Homer, The Odyssey, vol. I, p. 347). A referência a Apolónio é a seguinte: ‘On his finely wrought chariot Aietes was resplendent with the horses which Helios had given him; they ran like the blasts of the wind. In his left hand he raised up his circling shield, in the other a huge torch, and beside him his mighty spear, pointed forward. Apsyrtos held the chariot-reins in his hands. Already, however, the ship was cutting through the open sea in front of it, driven forward by the strength of the rowers and the current of the great river as it swept down to its mouth. In his grievous distress the king raised his arms to Helios and Zeus, and called them to witness the wrongs he had suffered. He shouted terrible threats against his whole people: if they did not bring back his daughter there and then, finding her either on land or still in the boat on the swell of the open sea, so that he could sate his anger which demanded revenge for all that had happened, they would take the full weight of his rage and distress on their heads and be taught a lesson. So spoke Aietes. On the same day the Colchians drew down their ships, placed the equipment on board, and on the same day they put out to sea. You would have said it was a huge family of birds whirring over the sea in flocks rather than a vast naval expedition.’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 104).

267

Lestrigónia implicaria uma repetição sem sentido na narrativa. Martins Sarmento, com o intuito de sacrificar a sua hipótese de uma narrativa da primeira viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, não hesita em identificar um fragmento de ‘uma terceira variante, aqui intercalado absurdamente, talvez em substituição de outro incidente, que foi sacrificado por causas hoje desconhecidas’ (Sarmento 1887a: 105).280 Reabilitando o episódio dos Cimérios ao domínio do concreto, este povo passa a ter na geografia de Martins Sarmento uma realidade mais tangível. São equivalentes aos Feácios da outra variante; do mesmo modo, os rios infernais que correm pela região em que habitam são rios concretos, e também o é o templo de Prosérpina ali identificado. Da região dos Cimérios | Feácios, Ulisses deveria regressar a casa pelas estradas fluviais do Reno e Ródano, parte que a Odisseia não regista, mas que Martins Sarmento, admite por equivalência com a narrativa dos Argonautas, muito embora a mitografia da Odisseia a transforme num regresso a Ea. A ilha Ea é, como já o era a sua homónima dos Argonautas, a Inglaterra, com a diferença de que tudo se passa no reino do sobrenatural:281 A primeira variante [da viagem de Ulisses ao Mar do Norte] descreve-nos pois uma viagem desde Tartesso à foz do Reno, mencionando-nos no sudoeste da Espanha a Eólia ou Zephyridos; no noroeste da península uma estação infelizmente substituída pela Lestrigónia; a ilha Ea, ou a Inglaterra, e finalmente o país dos Cimérios; e é superior a toda a contestação que o mitógrafo não só copiou estas estações do roteiro de uma Argonáutica

280

Repare-se no carácter destas causalidades implícitas e supostas, que se aproximam muito das hipóteses ad hoc

que Kuhn e, sobretudo, Lakatos identificam como sendo parte constituinte de um programa de investigação. Estas hipóteses são verdadeiras adições excrescentes da teoria, uma vez que não são produzidas com o mesmo tipo de exigência lógica daquelas que correspondem ao seu centro vital. São proposições marginais que cumprem o papel de deter provisoriamente o carácter perturbador de factos anómalos. Cf. Shapere (1964: 383-394). 281

‘A Ea dos Errores e a Ea dos Argonautas é uma e a mesma coisa: a Inglaterra. Sobre este ponto toda a dúvida

se torna impossível. É impossível também desconhecer que as fábulas ali acomodadas não sejam inspiradas pelas tradições históricas da Argonáutica. (...). Claro é que o mitógrafo transportará tudo isto para o mundo sobrenatural, como faz em todas as outras aventuras, e desta vez tudo será relacionado com o Inferno. (...). E no entanto, apesar das suas fantasias, o mitógrafo perde tão pouco de vista o seu guia histórico, que (...) o caminho ensinado por Circe a Ulisses, desde a sua ilha até o Inferno, é o trajecto da costa oriental da Inglaterra para o foz do Reno, descrito de um modo que não deixa nada a desejar.’ (Sarmento 1887a: 106-7).

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fenícia, mas que parodiou os factos que ela historiava [Sarmento 1887a: 108].

A segunda variante da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, que Martins Sarmento acredita poder restituir dos ‘errores’ de Ulisses, é mais rica em pormenores geográficos, e, por isso, mais adequada ao reconhecimento das estações e episódios que concretamente permitem a construção da geografia argonáutica respectiva. De Tartessos (o sempiterno ponto de partida destas viagens, tenham elas como destino África ou o Mar do Norte), Ulisses demandará a ilha de Circe, repetição forçada pelos mitógrafos mas desconsiderada por Martins Sarmento, que vê nela a fusão das duas Circes, a Circe-Medeia e a Circe-inferna dea. O ‘Circeu’ assim considerado seria, como já se viu, uma região perto de Onoba, onde os Fenícios colheram as informações que decisivamente contribuíram para o conhecimento do trajecto que iriam percorrer até chegar à Inglaterra, e onde, também, se prestava culto a uma ‘deusa infernal e marítima ao mesmo tempo’ (Sarmento 1887a: 109). O mar das Sereias é o primeiro grande obstáculo que se interpõe à navegação dos marinheiros fenícios desde que saem da Península Ibérica em direcção ao Mar do Norte (Trinácia). Segunda a geografia do mitógrafo, este mar atingir-se-ia antes de ter de enfrentar Cila e Caríbdis, os monstros que guardam a passagem de um estreito, em que Martins Sarmento vê o Pas-de-Calais. Munido do seu invariável processo hermenêutico, que passa por considerar todas as minúcias narrativas como pormenores de uma homologia completa entre a viagem histórica e a versão efabulada, o investigador recolhe informações que permitem com segurança localizar o mar das Sereias em parte determinada do Atlântico.282 Onde a versão sobrenatural da narrativa das viagens de Ulisses vê umas entidades fabulosas, em cuja ilha se amontoavam os restos dos naufrágios, que o seu carisma provocava, Martins Sarmento vê a alegoria duma relação dúplice que um marinheiro estabelece com uma costa que ao mesmo tempo o guia na navegação mas que esconde

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‘Como as fábulas homéricas encobrem sempre um facto histórico, vejamos se o significado íntimo dos

incidentes que compõem o episódio, pode orientar-nos acerca da posição geográfica destas Sereias do ocidente’ (Sarmento 1887a: 110). Sublinhados nossos.

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perigos que lhe podem custar a vida. Trata-se, portanto, da descrição de um litoral que não pode perder-se de vista, mas de que não pode a embarcação aproximar-se sem que o perigo de naufrágio não sobrevenha. Mais uma vez a hermenêutica do périplo de Avieno será fundamental para dilucidar o fundo histórico que se esconde nas narrativas lendárias. Segundo a geografia que o investigador propõe para o périplo cartaginês, apenas numa parte da costa atlântica os marinheiros abandonavam a navegação junto à costa para cortarem uma rota pelo mar alto. Entre o noroeste da Península Ibérica e o cabo ‘Oestrymnis’, a Bretanha, o périplo evitava acolher-se demasiado aos fundos do Golfo da Gasconha, facto de navegação em que Martins Sarmento vê mais do que uma eventual ‘poupança’ de singraduras: ‘certamente para evitarem os perigos daquele pérfido mar, tomavam a direito para o canal da Mancha’, e que não resistimos a citar na íntegra, apesar de muito longo, porque não existem muitas passagens da obra de Martins Sarmento em que a extensão da alegoria seja levada tanto a um extremo como esta: Não é este acto histórico que o mitógrafo dos Errores poetisa de um modo, que tem tanto de admirável como de fiel? Sigamos os velhos mareantes até à Corunha e imaginemo-los ali na hora decisiva de largar a navegação costa a costa, que os fascina na razão directa do pavor que lhes inspira a navegação do mar alto. O temerário expediente que vão tomar deve parecer-lhes, além de tudo, insensato, porque as águas do Golfo não podem estar mais tranquilas, nem murmurar mais docemente. É o canto das Sereias chamando-os para a costa. Os práticos conhecem porém a perfídia daqueles cantos, i.é., sabem com que rapidez as procelas se formam e rebentam naquele mar, agora tão calmo, mas que de um instante para o outro se pode tornar num sorvedouro de vítimas, por que suspiram as Sereias. O alvitre dos peritos é aceite; tal é porém a enormidade do sacrifício que fazem os nautas, ao pô-lo em prática, que o próprio capitão do navio, devendo dar o exemplo de coragem, exige que não obedeçam a qualquer manobra que ele ordene contra as indicações dos práticos, porque tais ordens só provarão que não sabe vencer os seus terrores, quando entra pela vasta solidão do Oceano, e que então, mais que nunca o atrai irresistivelmente a viagem ao longo da costa, em que tais terrores são a bem dizer desconhecidos [Sarmento 1887a: 111-2].

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No entanto, do ponto de vista estrito da análise da hermenêutica que Martins Sarmento propõe para a viagem de Ulisses, basta que consideremos as razões propriamente científicas que aduz em sua defesa para situar as Sereias no Golfo da Gasconha. Esta seria a única parte do itinerário entre a Península Ibérica e as Ilhas Britânicas em que se punha o problema a um marinheiro se deveria navegar junto da costa, se poderia fazê-lo pelo mar alto. Este é o principal argumento que o autor aduz em sua defesa para a localização do Mar das Sereias, cuja morte, literal na narrativa de Ulisses, significaria simbolicamente o abandono definitivo da rota costeira da Gasconha, causado pela determinação continuada de navegar directamente da Corunha para a Bretanha. O episódio de Cila e Caríbdis, nesta segunda variante da viagem ao Mar do Norte, que Martins Sarmento reconhece na narrativa dos errores de Ulisses, diz obviamente respeito à passagem do Pas-de-Calais, passagem essa que na versão da viagem de Ulisses é pintada como um episódio francamente aterrador.283 Aquele episódio tem o seu equivalente óbvio na passagem dos Argonautas pelo estreito do Mar de Mármara, tornando-se difícil de decidir, portanto, se a narrativa histórica fenícia registou esse acontecimento como tendo ocorrido em dificuldades, ou se, pelo contrário, a antecipação de um perigo eventual não correspondeu ao sucesso concreto da sua superação. Martins Sarmento não deixará de fazer referência ao facto de na narrativa dos Argonautas se afirmar que o neto de Aetes os acompanhava nesta travessia, deixando como hipótese histórica a possibilidade de os Fenícios terem sido guiados por pilotos locais, na primeira vez que ultrapassaram o Pas-de-Calais. No âmbito desta hipótese a má fama do estreito adviria de este ser o lugar de perigo aquando da perseguição pelos pseudo-Colquídios. O facto de na narrativa da Odisseia o estreito apenas se revestir de perigo, na viagem de vinda da Trinácia, é, para Martins Sarmento, a justa expressão deste facto histórico (Sarmento 1887a: 114). Logo que passa os terríveis rochedos de Cila e Caríbdis, Ulisses atinge finalmente a Trinácia. A imediata contiguidade das duas entidades geográficas não deixa por isso

283

‘ “But when we had left the island, I presently saw smoke and a great billow, and heard a boaming. Then

from the hand of my men in their terror the oars flew, and splashed one and all in the swirl (…)” ’ (Homero [2004]: p. 447).

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dúvidas a Martins Sarmento que aquela ilha só pode designar a Inglaterra. Nesta ilha reproduz o mitógrafo a lenda do roubo do gado sagrado, aqui de Hélio, de Gerião ou Crisaor nas versões várias do Trabalho de Hércules, e que terão um paralelo evidente com o roubo do Velo de Oiro por parte dos Argonautas. A ira de Hélio, face ao roubo do seu gado, traduz-se numa feroz vingança que é exercida através de uma tempestade que destroça a embarcação de Ulisses e o faz acostar à Feácia. Os excessos poéticos que Martins Sarmento atribui aos mitógrafos que construíram a narrativa das viagens de Ulisses quase fazem ocultar irreversivelmente os sucessos históricos que lhe deram origem. Ainda assim, o investigador pode reconhecer neste episódio de um Ulisses, náufrago solitário, agarrado a um pedaço de mastro que vê ao longe Cila e Caríbdis, uma versão antropomorfizada da fuga dos Argonautas, que se deram conta que o estreito por onde tinham penetrado o Euxino não lhes estava mais acessível, pela interposição dos seus inimigos. E, tal como os Argonautas, também Ulisses atinge finalmente a foz de um rio onde se pode abrigar.284 Incluindo na sua hermenêutica o usual ponto de vista da ‘fenomenologia da paisagem’, Martins Sarmento reconhecerá nos Feácios, povo que habitava um mar de nevoeiros, uma replicação dos Cimérios, povo designado na viagem de Ulisses ao país de Hades. E, como aí, a foz do rio a que o episódio dos Feácios se refere, localiza-a o autor na foz do Reno. O país dos Feácios é assim, na geografia histórica de Martins Sarmento, a última estação da viagem marítima, daqui tendo então início a viagem pelas estradas fluviais do Reno e Ródano. Já sabemos que, ao contrário da narrativa dos Argonautas, na Odisseia não existe o registo desta parte continental da viagem, uma vez que ela é substituída por um conveniente sono profundo do marinheiro, após o qual Ulisses se encontra já em Ítaca. Assim, na restituição proposta pelo investigador, este é o termo da narrativa da Odisseia.285

284

‘But when, as he swam, he came to the mouth of a flair-flowing river, where seemed to him the best place,

since it was smooth of stones (…)’ (Homero [2004]: 201-202). 285

‘Vê-se pois que os oferecimentos de Alcínoo, reduzidos ao seu justo valor, não são uma mera fantasia do

nosso mitógrafo; e pena foi que Ulisses adormecesse, logo que entrou no navio feácio e tão pesado fosse o seu sono, que só acordasse em Ítaca, sem saber como os seus misteriosos condutores haviam desaparecido; porque, se tal não

272

Porém, contém este episódio alguns elementos que demonstram a Martins Sarmento que é dos povos do bronze que a narrativa fala, ainda que de forma efabulada.286 Estes Feácios, tal como os insulares de Ea na Argonáutica, ‘conhecem todas as vias da terra e do mar’, e o investigador vê nestas afirmações equivalentes, não só um paralelismo evidente entre as duas narrativas, como a demonstração que elas se referem ao conhecimento íntimo que os povos do bronze, com quem os marinheiros mediterrânicos contactavam, detinham das rotas marítimas e fluviais da Europa ocidental e do Oceano Atlântico.287

acontece, ficávamos decerto sabendo que da Feácia até o Mediterrâneo o caminho foi o do Reno e Ródano.’ (Sarmento 1887a: 118). 286

Martins Sarmento sublinha muito especialmente o facto de entre os presentes recebidos por Ulisses se

incluírem vários objectos de bronze: ‘These [the Phaeacians] shall heartily shew him all honour, as if he were a god, and shall send him in a ship to his dear native land, after giving him stores of bronze and gold and raiment, more than Odysseus would ever have won himself from Troy, if he had returned unscathed with his due share of the spoil. (…) ’ (Homero [2004]: 178). 287

‘“Then shalt thou lie down, overcome by sleep, and they shall row thee over the calm sea until thou comest to

thy country and thy house, or to whatsoever place thou wilt, aye though it be even far beyond Euboea, which those of our people who saw it, when they carried fair-haired Rhadamanthus to visit Tityus, the son of Gaea, say is the furthest of the lands”’ (Homer, The Odyssey, vol. I, p. 255). ‘[I]n that spot Jason and all the other heroes recalled that Phineus had said that they would follow a different route on the way back from Aia, but no one had any idea what it was. Argos, however, responded to their needs: ‘Our destination was Orchomenos, by the route which that truthful prophet whom you recently encountered warned you to travel. For there is another way for ships, which the priests of the immortals who were born of Thebe, daughter of Triton, discovered. Not yet did all the constellations whirl around the heaven, not yet could enquirers learn of the sacred race of the Danaans. Only the Apidanean Arkadians existed, who are said to have lived before the moon, eating acorns in the mountains. At that time the Pelasgian land was not ruled over by the glorious descendants of Deukalion; Egypt, mother of the men of earlier times, was called Eeria, rich in crops, and Triton was the name of the broad-flowing river by which the whole of Eeria is watered – as heavy rain from Zeus never drenches it – and whose streams cause crops to shoot up in the fields. The story is that a man set out from there to travel through the whole of Europe and Asia, trusting in the might, strength, and boldness of his armies. In the course of his progress he founded numberless cities, some of which are still inhabited, and some not, for long ages have passed since then’. Aia at least remains intact even to this day, together with the descendants of those men whom his conqueror settled in Aia. Moreover, they preserve writings of their ancestors, pillars on which are shown all the paths and boundaries of the sea and the land for those who are going to travel in a circuit. There is a river, the remotest branch of the Ocean, broad and very deep and navigable by a merchant ship; men who have traced it a great distance call it the Istros. For a long space it cuts its path as a single river through a vast territory, for its sources bubble up far away in the Rhipaian mountains beyond the blast of Boreas, but when it reaches the boundaries of the Thracians and the Scythians, it splits in two: one stream empties here in the eastern sea; but behind it the other branch

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Associado ao episódio dos Feácios existe um elemento da narrativa da Odisseia a que Martins Sarmento atribui um significado histórico importante e que nos permite a nós revelar um pouco mais das características da sua psicologia de pesquisa. A escatologia é um elemento relativamente comum na metafísica da historiografia do investigador. Não é estranho ao romantismo da época, em termos mais gerais e revelando, estritamente na Arqueologia, alguma preferência pela ‘heurística da ruína’.288 No episódio dos Feácios esta heurística apresenta-se na interpretação que Martins Sarmento faz da transformação do navio em pedra, mantendo contudo a sua forma primitiva,289 na qual o investigador vê uma tradução propriamente poética de um facto histórico, o abandono de uma embarcação que não serve de nada para a segunda parte da viagem, a travessia continental da Europa pelas estradas fluviais; em suma, a mineralização da ‘divina Argo’: Tudo neste prodígio é simples invenção? Nenhuma dúvida que os Fenícios se escaparam do Mar do Norte pela navegação do Reno e Ródano, graças à coadjuvação dos Feácios. Esta navegação não podia ser feita na mesma embarcação, em que eles chegaram a Ea e depois à Feácia, mas em barcos apropriados à travessia daqueles dois rios. A famosa nau, a divina Argo, ficou decerto a apodrecer no porto dos Feácios. É a este facto mal compreendido que alude a fábula homérica? [Sarmento 1887a: 119].

Podemos ver finalmente, em resumo, quais os contornos da geografia restituída que Martins Sarmento propõe para as deambulações de Ulisses, no âmbito histórico da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte. A partir das informações da viagem dos Argonautas, que Martins Sarmento considera como tendo sido a fonte imediata da

flows through the deep gulf which rises up from the Trinakrian sea which lies along your land, if indeed is true that the Acheloos comes forth in your land’’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 104-5). 288

Na preferência que demonstra por paisagens e elementos escatológicos como centro das suas preocupações

estéticas, o romantismo na arqueologia incide a sua atenção heurística por elementos deste género que não teriam talvez a mesma visibilidade em paradigmas cuja fundamentação ou contexto metafísico fosse o naturalismo exuberante ou do progressismo evolutivo (Marsden 1984: 18). 289

‘Now when Poseidon, the earth-shaker, heard this he went his way to Scheria, where the Phaeacians dwell,

and there he waited. And she drew close to shore, the seafaring ship, speeding swiftly on her way. Then near her came the Earth-shaker and turned her to stone, and rooted her fast beneath by a blow of the flat of his hand, and then he was gone’. (Homer, The Odyssey, II, vv. 161-164, p. 13-15 da ed. utiliz.).

274

efabulação da Odisseia, tornou-se possível ao autor resgatar o sentido histórico desta viagem, num esforço hermenêutico de tal modo amplo que se tornaram necessárias três variantes da viagem ao Mar do Norte, de modo a poder incluir nesta geografia histórica restituída todas as particularidades presentes na geografia homérica. O excesso de variantes pode parecer demasiado a uma hermenêutica que se pretenda dotada de ‘elegância epistemológica’. A nosso ver, esse carácter excessivo é justamente o resultado do carácter de ‘ciência normal’ que se pode detectar no programa de pesquisa de Martins Sarmento. A determinação ‘paradigmática’ do autor leva-o a incluir todos os pormenores que a alegoria permite numa narrativa histórica de que não se afasta um milímetro que seja. Dela resulta um edifício teórico dotado de um grande número de ligações internas, que são as mais valorizadas pelo autor. Nesta formulação paradigmática da sua teoria, Martins Sarmento valoriza a adequabilidade alegórica das narrativas lendárias à verdade histórica, em detrimento das variações inter-narrativas, para ele nada relevantes e que por isso mesmo despreza. O positivismo associado a uma hermenêutica deste tipo é evidente. Todas as narrativas lendárias são versões mais ou menos efabuladas de uma narrativa original. De todas, a viagem dos Argonautas é a que mais nitidamente decalca os pormenores da viagem histórica dos Fenícios ao Atlântico e ao Mar do Norte, e assim as outras, as viagens de Ulisses e de Hércules, são consideradas deturpações progressivas da matriz ‘argonáutica’, razão pela qual a hermenêutica minuciosa desta última narrativa se erguerá como central no programa de pesquisa do autor: [C]erto é que as quatro legendas reflectem factos históricos que não podem deixar de pertencer à Argonáutica fenícia (…) quanto à parte geográfica (…) tão concordes em fazer seguir os seus heróis um roteiro deste Tartesso à foz do Reno, apontando os verdadeiros perigos desta navegação e descrevendo tão fielmente algumas das suas estações (…). Na decifração dos enigmas de Apolónio, (…) a cada passo se confirmará esta verdade [Sarmento 1887a: 120].

II. 2.3. Argonáutica O ponto de partida da viagem dos Argonautas é Iolcos, terra natal de Jasão, o planeador e proclamador do empreendimento entre todos os Gregos. Naturalmente, para 275

Martins Sarmento, esta localização seria já do contexto de aculturação que a empresa histórica haveria de sofrer no âmbito da mitografia grega, sendo em Tiro, que haveria de localizar-se a sua verdadeira origem. O primeiro destino da nau Argo seria Lemnos (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 11 e ss.).

De Lemnos, os Argonautas dirigiram-se à ilha Samotrácia e aí contactaram com o culto dos mistérios de Perséfone. Todas as referências a cultos pretensamente gregos ao longo da viagem da nau Argo, como já o referimos, serão para Martins Sarmento os pontos de apoio fundamentais para a localização de cultos ‘arianos’ entre os povos do Ocidente da Europa, com os quais os marinheiros de Mediterrâneo haveriam de entrar em contacto e vulgarizar e que a interpretatio grega permitira reconhecer nas suas funções e atributos originais.290

Figura 6 – O âmbito geográfico da Argonáutica de Apolónio Fonte: Os Argonautas (Sarmento 1887), passim, em confronto com os mapas de Hunter (1993). A cheio, o trajecto correspondente à viagem ‘europeia’ dos Argonautas; a pontilhado, a viagem ‘africana’.

Os Argonautas continuam a viagem, circundam a ilha de Imbros e internam-se no Mar de Mármara, atravessando o estreito de Dardanelos. Como já foi também referido anteriormente, a fenomenologia da descrição presente na lenda grega é um dos campos

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em que Martins Sarmento mais amplamente exerce a sua crítica. Neste âmbito, é singularmente relevante todo o tipo de elementos descritivos associados à passagem por estreitos, promontórios ou ancoragem em desembocaduras dos grandes rios. São eles os elementos que mais facilmente podem ser objecto do processo de ‘homologia’ entre as versões alternativas da geografia da Argonáutica e, assim, de uma transposição do cenário egeu e pôntico para uma ‘geografia da longinquidade’ no contexto da Europa ocidental, do Oceano Atlântico e do Mar do Norte. Como será de esperar o vértice fundamental desta ‘tradução cartográfica’ serão os estreitos de Dardanelos e Bósforo, entendidos como pontos de ligação entre o Mar Egeu e o Ponto, e os seus equivalentes ocidentais, Gibraltar e o Pas-de-Calais. Estes último elemento geográfico deterá grande importância no contexto da viagem argonáutica e, consequentemente, na teoria interpretativa de Martins Sarmento, por ser nele, na sua intrasponibilidade no momento do regresso, que se opera a transformação propriamente narrativa que obriga os Argonautas a procurar uma via alternativa, em que o autor reconhece a importância do conhecimento das vias fluviais do centro da Europa por parte dos povos litorais. É justamente por esta razão que Martins Sarmento dá tanta importância à informação, presente na lenda grega, de que o trânsito no Mar de Mármara estava sob a directa vigilância do rei Laomedonte de Tróia, impedindo os barcos gregos de livremente penetrarem no Ponto, que entende como a atribuição de uma realidade histórica a uma ficção geográfica. Os Argonautas, porém, conseguem penetrar tranquilamente o Mar de Mármara, e desembarcam na península de Árcton, na cidade em que decorria o casamento de Cízico, rei dos Dólios. Embora não seja nossa intenção acompanhar com excessivo pormenor todo o trajecto que a lenda grega possa pormenorizar, ainda assim, não deixaremos de notar que a estruturação da narrativa em redor de episódios de contactos dos marinheiros com reis amistosos, por um lado, e inimigos poderosos, por outro, que não raro, como no episódio da península de Árcton, configura, para Martins Sarmento, as relações díspares que no terreno histórico os marinheiros mediterrânicos iam

290

‘Tels sont les propos qu’ils échangent. Mais au moment où le soleil se couche, l’oeuvre des Achéens se

trouve achevée. Dans les barques alors ils tuent des boeufs et prennent leur repas. Des nefs son là, en nombre, qui de Lemnos leur apportent du vin’ (Homero [1972]: 21).

277

estabelecendo com os diversos povos com quem iam contactando, e que o exagero poético escondia sob aquela forma. Quando se dirigiam para o Bósforo para poderem atingir o Ponto, uma tempestade obriga a Argo a procurar abrigo, o que a levará a acostar de novo na costa oriental de Árcton, onde a descrição de novo introduz elementos de forte alteridade. A recorrência deste episódio, localizado já no interior do Mar de Mármara, antecipando, no sentido da viagem, a verdadeira passagem para o mar interior através do Bósforo, terá ajudado a insinuar no espírito de Martins Sarmento, a opinião de que poderia ter correspondência histórica nos contactos dos marinheiros mediterrânicos com os povos que dominavam a entrada do canal da Mancha, ou seja com os Estrímnidos, que, para o autor, dominavam as finisterras da Cornualha e da Bretanha francesa. A epopeia segue levando a Argo na direcção do Bósforo, até que aportam nas praias junto à desembocadura do rio Cio, nas costas da Mísia. Trata-se de um episódio mais, em que de novo se misturam elementos de alteridade bastante evidentes, mesmo do ponto de vista da ‘geografia edénica’, que com frequência alimenta este tipo de viagens a terras incógnitas. Este episódio tem também a importância de ser aquele em que Hércules abandona temporariamente a Argo, o que servirá de argumento a Martins Sarmento sobre a natureza intercalada das viagens de Hércules, enquanto representações das viagens ‘fundacionais’ que a migração ‘ariana’ teria proporcionado a todo o Ocidente da Europa, as quais, nas lendas gregas, aparecem invariavelmente ligadas à fundação de várias cidades e cultos por parte de Hércules. A viagem dos Argonautas seria o reconhecimento dessa mesma realidade etnográfica, e mesmo etnogénica, por parte da geografia fenícia que primeiramente com ela teria contactado.291 No contexto deste episódio, a lenda relativa ao desaparecimento de Hilas detém, além do mais, um significado especial para a teoria interpretativa do autor, uma vez que esta seria uma versão da história de Bormos, o jovem mariandino, no qual Martins Sarmento vê um equivalente de Bormânico, a divindade que, através da epigrafia, se sabia ter sido venerada na região de Vizela.

291

‘Au-dessus de Prusiade s’élève une montagne appelée Arganthonion: c’est là qu’on situe la légende d’Hylas,

l’un des compagnons d’Héraclès à bord de l’Argô, qui aurait débarqué à cet endroit pour aller chercher de l’eau et que les nymphes auraient enlevé’ (Estrabão [1969]: 112).

278

A Argo prossegue a sua viagem e aporta na ilha de Bebrícia, ainda no Mar da Mármara, onde o episódio da luta de um dos gregos com o rei daquela região nos ilustra mais um elemento de alteridade que entretece a narrativa. A vitória dos Gregos e o saque do palácio real de Âmico, ganha, na geografia homóloga de Martins Sarmento, o sabor de mais uma vitória diplomática dos marinheiros mediterrânicos nas relações que vão entabulando com os representantes das diversas colónias com quem se vão encontrando (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 36 e ss.).292 Do país do rei Âmico, os Argonautas atingem Salmidesso, na costa setentrional do Mar de Mármara, portanto na Trácia. Na figura de Fineu, rei cego de Salmidesso, estamos de novo em presença de um tipo de personagens que Martins Sarmento valoriza, no seio da sua interpretação homóloga das lendas gregas, o de informador que prodigaliza pormenores sobre os lugares longínquos para que se dirigem os Argonautas. Nestes informadores, como Fineu, Circe, Tirésias, etc., vê o autor a cadeia de informação que reunia os povos dos litorais da Europa ocidental numa só realidade civilizacional, e em cujas tradições se podia mesmo reconhecer o passado comum de emigração. O rigor do conhecimento que a lenda atribui por Fineu, causa do castigo dos deuses, será naturalmente a tradução de um povo que teria estabelecido relações preponderantes com os marinheiros mediterrânicos, transformando-se num dos mais credíveis informadores da geografia das terras longínquas do Mar do Norte.293 Não por acaso, o reino de Fineu é o lugar imediatamente anterior à passagem do Bósforo e é a ele que os Argonautas devem as informações mais pormenorizadas sobre a localização da Cólquida, o país do Velo de Ouro, e o destino final da viagem da Argo, no extremo

292

‘Au point du jour, nous arrivâmes dans le sinistre pays où Amycos régnait sur les insolents Bébryces (…);

pour tous les hôtes qui, parmi les peuples d’alentour, venaient à ses étables et à sa solide demeure, il avait institué comme épreuve de se mesurer à lui dans un pugilat sans merci’ (Argonautiques Orphiques, p. 121-122). 293

‘On the coast there dwelt Phineus, son of Agenor, who of all men had endured the most grievous sufferings

because of the power of prophecy which the son of Leto had once bestowed upon him. (…). Therefore Zeus sent a long old age upon him and took away the sweet light of his eyes. Nor did he allow Phineus to enjoy the innumerable god things which neighbours always brought to his house when they came to ask for oracles, but without warning the Harpies would ever swoop down through the clouds and with their claws snatch the food from his mouth and hands’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 40).

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de um mar que se situa agora ‘além das colunas de Hércules’, isto é, para além do mar mas, apesar de tudo, familiar aos marinheiros mediterrânicos.294 Como na lenda de Ulisses, também na dos Argonautas vemos a passagem de um estreito associado a grandes perigos. Na geografia interpretativa de Martins Sarmento este é um momento de grande transcendência histórica, porque representa o primeiro contacto dos povos do Mediterrâneo com o Mar do Norte, não se lhe afigurando por isso estranho que estes lugares, verdadeiramente ‘liminares’, sejam associados a uma retórica de perigo e de alteridade profunda. A fenomenologia da descrição, por isso mesmo, faz recurso a elementos de especial periculosidade, transformando a sua superação no desígnio da própria viagem. No caso dos Argonautas, essa transformação retórica da narrativa histórica é alegorizada no episódio das Simplégades e no perigo associado à sua travessia, perigo para o qual Fineu os havia justamente advertido.295 Apesar de aqueles rochedos poderem normalmente esmagar uma embarcação à sua passagem, permitiram com apenas alguns danos, a passagem da Argo que, já em pleno Ponto, vem a acostar na pequena ilha de Tínia. De Tínia, navegariam até à cidade de Mariandine, onde foram recebidos amistosamente por Licos, rei cuja animosidade em relação a Âmico, pode traduzir, no âmbito da homologia operada por Martins Sarmento, a normal perturbação que a presença dos marinheiros mediterrânicos vem trazer à comunidade dos povos do Mar do Norte, que até aí, gozavam de uma quase perfeita convivência. Este elemento de harmonia permite aceder a uma filosofia da história que no investigador é sintomática 294

‘[E]n un mot, les anciens mythes sont loin d’être d’accord entre eux’ (Diodoro [1851]: 305).

295

These oats fired their desire to rid him [Phineus] of the Harpies. Without delay the younger heroes prepared a

feast for the old man – it was to be the Harpies’ final prey. The Boreads stood nearby so that they could drive them away with their swords when they swooped down. At the very moment the old man touched the meal, the Harpies leapt down from the clouds without warning, like sudden storms or flashes of lightning, and attacked with a rush, screaming in their lust for food. The heroes cried out at the sight of them, but the Harpies devoured everything and with a cry flew off far away over the sea, leaving behind an intolerable stench. In pursuit of them raced the two sons of Boreas, their swords drawn. Zeus granted them unwearying strength, for without Zeus’ help they could not have followed after the Harpies who would always outstrip the blasts of the Zephyr on their journeys to and from Phineus (…) (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 42). ‘Puis, quittant la demeure de Phinée l’Agénoride, sur la vaste gouffre de la mer, nous arrivâmes auprès des roches Kyanées (…). Il n’existe nul moyen d’échapper à leur oeuvre de malheur; entraînées par les rapides rafales des vents, elles se heurtent en se précipitant à la racontre l’une de l’autre’ (Argonautiques Orphiques, p. 124).

280

de um profundo idealismo que, como se verá, subjaz a toda a sua etnogénese do Ocidente. Em parêntesis, refira-se que é neste lugar que o episódio de Ídmon permite a Martins Sarmento a identificação das mamoas como elemento material do culto dos mortos entre os arianos, de cuja evidência não duvida entre as expressões equivalentes dos monumentos que exuma em todo o Entre-Douro-e-Minho.296 De Mariandine, a Argo dirige-se na direcção do nascente, até aportar na cidade de Sinope, que a tradição escoliasta situaria na Paflagónia. Também aqui, como já havia acontecido no episódio de Mariandine, no qual o rei Licos ordena nada menos que ao seu próprio filho que sirva de guia aos viajantes, a Argo recolhe indígenas que passam a fazer parte da sua própria tripulação. De Sinope, os Argonautas passam ao largo de várias terras sem contudo nelas aportarem, mas em que uma em especial não poderia deixar de inflamar a imaginação geográfica de Martins Sarmento. No país dos Cálibes, intercalado entre o país das Amazonas e as regiões em que habitavam os Tibareanos e os Mossinecos, os seus habitantes dedicavam-se especialmente ao trabalho da metalurgia, com exclusão de qualquer outro, elemento duplamente significativo na teoria interpretativa do autor, que não poderia deixar de ver nele, por um lado a demonstração da existência de um conhecimento profundo da arte da metalurgia entre os povos do mar Atlântico, e, por outro, da importância que a metalurgia do bronze havia adquirido na economia da região, ao ponto de poder sustentar por si só uma comunidade inteira que assim podia prescindir das outras áreas económicas cujos recursos e produtos naturalmente haviam de adquirir pelos mecanismos próprios do intercâmbio.297 296

‘They had no more thought for sailing, but remained there distraught and prepared the funeral. They lamented

for three whole days, and on the fourth they buried him with lavish honour (…). Beside his tomb they slaughtered countless sheep as grave-offerings, in the manner appropriate for the dead. This man’s tomb rises in that land a little below the Acherousian headland; as a marker visible to men of later generations, it is crowned by a ship’s roller made from wild-olive and covered in abundant foliage’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 55). 297

‘These people neither plough with oxen nor cultivate any honey-sweet fruits; moreover they pasture no flocks

on dewy grazing-land. Rather they dig in the hard, iron-bearing earth to exchange the metal for what they need to live. The rising of every dawn brings them wearisome toil, as they labour in a murky and smoky blackness’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 59). ‘Si l’on avance un peu sous l’Ourse boréale et face à elle (…) le pays de Doias; tout près, il y la ville des Amazones (…) puis voici les Chalybes, les peuplades des Tibarènes et la nation des Ekécheires qui, mêlés aux Mossynes, habitent la plaine’ (Argonautiques Orphiques, p. 128). É de estranhar que Martins Sarmento não faça de uso da descrição de Xenofonte referida ao mesmo episódio, uma vez que

281

No termo da travessia que se tinha iniciado no país de Licos, dá-se início à narrativa mais específica que irá pôr em contacto os marinheiros mediterrânicos com os povos da Cólquida, ou, na tradução geográfica que é operada por Martins Sarmento, os povos do Mar do Norte, com os quais especificamente Tiro pretendia comercializar o estanho das Ilhas Britânicas. No âmbito da narrativa lendária, dá-se conta de que os Argonautas recolhem alguns náufragos dali originários, dando eles se início, igualmente, à parte mais personalizada da ‘estória’ de Jasão e Medeia. No contexto em que nos movemos, ela só assume importância pela razão, a que mais tarde nos referiremos, de nos parecer que a inculcação do carácter heróico destas narrativas está por trás da estruturação principal da deriva do desejo da psicologia da pesquisa de Martins Sarmento.298 A Argo começa finalmente a aproximar-se do objectivo da sua viagem e, após uma paragem na ilha de Filira, vislumbra à sua frente o perfil dominante das montanhas do Cáucaso e penetra na foz do rio Fásis. Para Martins Sarmento está também terminada a primeira parte da narrativa histórica que dá conta da primeira viagem dos marinheiros mediterrânicos ao Mar do Norte. Pela primeira vez na sua história, os Fenícios contactam directamente com os povos do Mar do Norte, os exportadores de estanho, enfim, os Albiões. A conquista do Velo de Ouro é, já o dissemos repetidamente, para Martins Sarmento, a forma efabulada entre os Gregos do estabelecimento do mercado do estanho directamente entre as suas fontes e o seu principal destino de mercado no Mediterrâneo oriental. Assim, os elementos da narrativa lendária dos Argonautas que

contém referências ‘antropológicas’ e ‘etnográficas’ que calham especialmente bem com a visão atlantista do investigador: ‘Ils [les Mossinèques] ont tous la peau blanche, homes et femmes. Les Grecs disaient que dans toute leur expédition ce furent les êtres les plus barbares qu’ils rencontrèrent, les plus éloignés des moeurs helléniques’ (Xenofonte [1949]: 65). A visão de Martins Sarmento não recebe, naturalmente, suporte arqueográfico que permita falar de uma prática metalúrgica generalizada no noroeste da Península Ibérica; de facto, mesmo no seio do noroeste parece claro que as ondas de inovação técnica chegaram diferenciadamente às diversas regiões, e que algumas delas só dela participam activamente em ambientes francamente coloniais (Álvarez González 1993). Este é porém um elemento marginal a este trabalho, e se fazemos a ele referência é sobretudo com a intenção de demonstrar o carácter essencializado que veremos determina a geografia imaginativa do passado em Martins Sarmento. 298

‘Suddenly an extraordinary storm broke, and the rain fell on the sea and the island and all the mainland

opposite where the insolent Mossynoikoi lived. In the dead of night all four sons of Phrixos, together with the strong plank, were thrown by the force of the waves on the coast of the island’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 61-62).

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irão ser valorizados pelo autor, na construção da sua ‘geografia da longinquidade’, serão todos aqueles de que mais facilmente se possam retirar elementos que suportem a visão das relações proto-coloniais estabelecidas entre os povos do Mediterrâneo e os do Mar do Norte. É neste contexto, e sob este ponto de vista, que teremos de considerar toda a interpretação que o investigador leva a cabo dos sucessos de Jasão e dos seus companheiros em Ea, ‘cidade do poderoso rei Aetes, que se estende, resplandecente, aos pés do campo de Circe’.299 Pelo que se disse no parágrafo anterior, não é muito importante determo-nos nos sucessos particulares da história que irá opor Jasão e os Argonautas à astúcia de Aetes, o poderoso rei da Cólquida e, muito menos, transportar para a alegoria todas as minúcias da aventura de Jasão e Medeia, embora tal não fosse impossível, se quiséssemos estender a homologia de Martins Sarmento a níveis que ele próprio entendeu não explicitar, nomeadamente ao papel do falocentrismo na estruturação das relações do tipo ‘colonial’. Para a intenção que aqui temos de descrever e interpretar a ‘geografia argonáutica’ de Martins Sarmento, basta pois que se destaquem apenas alguns elementos que, estando presentes na narrativa dos épicos gregos, permitem, como entende o investigador, descrever eventualmente algumas expressões positivas da narrativa histórica da primeira viagem dos povos do Mediterrâneo ao Mar do Norte. O primeiro desses sinais, a que já atrás se fez referência, é a estranheza explicitamente referida por Aetes de que a embarcação dos viajantes mediterrânicos tenha com tanta facilidade passado o estreito que fecha o mar interior em que se situa o seu reino. A esta referência, muitas vezes trazida para a frente das suas explicações, não podia Martins Sarmento deixar de ver o facto, também por nós já suficientemente referido, de que a navegação do estreito dava acesso ao Mar do Norte, e de que a chave de toda a navegação entre aquele e o Atlântico, estava nas mãos de povos ‘irmãos’ dos que habitavam as suas costas. Outro ponto a que Martins Sarmento dará um relevo evidente é ao facto de haver entre os habitantes de Ea, como já havia entre os informadores a que os marinheiros mediterrânicos foram recorrendo ao longo da viagem, uma oposição entre elementos dos povos visitados que tomam o partido dos 299

Perífrase de Graves (2004: 606).

283

Argonautas, enquanto outros se lhes opõem abertamente, quando não de uma forma vigorosamente hostil. Deste elemento retirará Martins Sarmento a natural dissensão que a proposta de estabelecimento de um comércio de longo alcance haveria de insinuar entre as franjas mais conservadores ou mais progressistas dos povos que dominavam, quer a exploração do recurso desejado, quer os primeiros elos da cadeia da sua comercialização. Um terceiro elemento de que Martins Sarmento retirará conclusões propriamente históricas, será o da violenta perseguição dos Colquídios aos Argonautas, por todo o Mar Negro, sucesso em que o investigador não deixará de reconhecer o eventual descalabro das negociações que tinham em vista o estabelecimento do comércio do estanho com os povos do Mar do Norte, e, justamente, com aquele povo que, de entre todos, mais directamente seria ameaçado, ou seja, os Albiões, ao qual seria atribuída igualmente a interdição da passagem no estreito por onde os marinheiros mediterrânicos haviam atingido o mar interior. Um último elemento completa o conjunto de informações históricas que o autor recolhe de todo o episódio da passagem dos Argonautas pela terra do Velo de Ouro. Ao sentirem-se aprisionados, estes são ajudados por informações de alguém de entre os naturais do Mar do Norte, que lhes apresentam um caminho alternativo, uma rede fluvial de navegação que podia levá-los de novo ao Mar Mediterrânico, sem ter de regressar pelo estreito que, entretanto, se tornara inavegável; esta via fluvial, de que os habitantes do Mar do Norte parecem deter um conhecimento tão minucioso, dará ao autor a convicção de que nas suas tradições está ainda presente a memória dos caminhos de migração que haviam trazido todos estes povos supostamente ‘arianos’ desde as suas origens asiáticas até o ocidente da Europa. É por esta razão que grande parte do esforço da sua hermenêutica é feito no sentido de reconhecer as estações e etapas do regresso da Argo ao Mar Mediterrâneo. O regresso da Argo, tal como é narrado e interpretado pelos autores e escoliastas da temática argonáutica, é, para Martins Sarmento, a efabulação de uma viagem dos marinheiros mediterrânicos através da estrada fluvial do Reno e do Ródano, que poria em contacto directo o Mar do Norte e o Mediterrâneo. Porém, se a viagem de ida não era de molde a criar muitas dúvidas no espíritos daqueles autores e escoliastas, já o mesmo não acontece com a viagem de regresso. A impossibilidade de fazer o caminho de regresso, percorrendo as mesmas etapas da viagem da ida, levou a que muitos dos 284

intérpretes da temática argonáutica viessem a propor versões alternativas do trajecto de regresso da Cólquida a Iolcos. A prodigalidade interpretativa, ainda entre os clássicos, tem, naturalmente, origem na actualização dos conhecimentos geográficos que a expansão grega e romana irá providenciar. Por essa razão o aprofundamento dos conhecimentos dos limites da oecumena pela geografia grega, alguns escoliastas, apercebendo-se da impossibilidade factual de todos os caminhos alternativos que a tradição consignava, no âmbito da apresentação da viagem dos Argonautas como uma realidade histórica que, decerto, nenhum historiador ou geógrafo podia, de ânimo leve, pôr em questão, admitem como verdadeira a versão que indicava um caminho de regresso em tudo idêntico ao de ida, isto é, pelo Bósforo-Dardanelos.300 A ela viria adicionar-se a hermenêutica geográfica da historiografia contemporânea de Martins Sarmento, nela incluindo a sua própria. Um ponto, porém, em que muitas das versões pareciam concordar, era o de que os Argonautas teriam deixado as costas da Colquídia, auxiliados por um vento que sopraria do quadrante ocidental, contradição manifesta no cenário da geografia do Ponto, e que Martins Sarmento, por isso mesmo, não deixará de utilizar em favor do seu próprio ponto de vista. Um dos relatos narraria a viagem do trajecto da Argo, como tendo subido o Fásis, rio em cuja desembocadura se situava a cidade de Aetes, atingindo o Mar Cáspio, daqui o Oceano Índico, de onde poderia regressar ao Mar Mediterrânico através do Lago Tríton.301 Num outro relato, porém, a embarcação dos Argonautas teria subido o Danúbio, percorrido o Savo, descido o Pó, em direcção ao Mar Adriático, onde, em virtude de ser constantemente castigado por violentas tempestades, vai singrando em redor da Itália, até atingir a Ea de Circe, na costa ocidental. Numa versão alternativa, a Argo, após subir o Danúbio, no que concorda com a narrativa anterior, alcança, do mesmo modo, a Ea de

300

‘Ce fut lui [Héraclès] qui vint ici jadis chercher les chevaux de Laomédon et, avec six nefs seulement et un

petit nombre d’hommes, fut ravager la ville d’Illion et vider d’hommes ses rues’ (Homero [1972]: 139). 301

‘Il tua les yeux-glauques par son adresse, le serpent dos-diapré, ô Arkésilas, et ravit, consentante, Médée, la

Tueuse de Pélias. Aux étendues de l’Océan ils se mêlèrent et au Flot Rouge et à la race des femmes lâmniennes tueuse d’hommes’ (Píndaro [1990]: 250 e ss.).

285

Circe, mas seguindo uma série de redemoinhos que poriam em contacto o Pó com o Ródano.302 Uma terceira versão admite que os Argonautas não teriam subido nem o Fásis nem o Danúbio, mas o Don, que seguiram até à sua nascente, de onde teriam podido ganhar um dos golfos a norte do Mar Báltico; esta versão coincide parcialmente com a mundividência geográfica de outros relatos que apresentavam o Danúbio e o Elba como as estradas fluviais pelas quais se poderia atingir, a norte, o Oceano exterior, já directamente no Mar do Norte, de onde se regressaria pelo Atlântico. Nestas versões, a Ilha de Circe situar-se-ia nas costas ocidentais da Europa, lugar obrigatório de passagem no caminho de regresso pelo poente da Europa, até ganhar de novo o Mediterrâneo, no estreito a sul da Península Ibérica. Escusado será dizer que muitos elementos desta versão, muitos dos quais pertencem à narrativa que Martins Sarmento apelida ‘de Pseudo-Orfeu’, serão recuperados para a viagem de ida, tal como é entendida na geografia sarmentiana.303 Em todas estas versões, existem vários elementos geográficos que, segundo Martins Sarmento, expõem a verdadeira natureza histórica do relato fenício que corre sob elas, exprimindo o esforço dos mitógrafos e escoliastas em adequar a um cenário mediterrânico particularidades que só podem compreender-se integralmente quando referidas ao Mar do Norte, às costas ocidentais e à estrada fluvial do centro da Europa. Um exemplo muito nítido seria a Ea de Circe, cuja localização as narrativas clássicas acabariam por duplicar na Campânia e na Ístria.304 302

‘From there the Argonauts entered the deep stream of the Rhodanos which joins the Eridanos; at the meeting

of the waters the torrent surges and roars. The river rises in the remotest recess of the earth, where are the gates and halls of Night; on leaving there, part of it thunders forth on the shores of Ocean, part again enters the Ionian sea, and another part issues through seven mouths into the vast gulf of the Sardinian sea’ (Apolónio de Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 113). 303

‘Beaucoup d’historiens, tant anciens que modernes (de ce nombre est Timée), prétendent que les Argonautes,

après avoir enlevé le toison d’or, apprirent qu’Aétès tenait l’entrée du Pont fermée par ses navires, et que cette circonstance fournit aux Argonautes l’occasion de faire une action étrange et mémorable: ils remontèrent jusq’aux sources du Tanaïs, tirèrent leur navire à terre, le traînèrent jusq’à un autre fleuve qui se jette dans l’Océan, et arrivèrent ainsi dans la mer; ayant la terre à la gauche, ils continuèrent leur navigation du nord au couchant, et, arrivés prés du détroit de Gadès, ils entrèrent dans la Méditerranée’ (Diodoro [1851]: 320). 304

‘From there they quickly passed over the swell of the Ausonian sea, their gaze fixed on the coasts of

Tyrrhenia. They reached the famous harbour of Aiaie and at once moored the ship’s ropes to the shore.’ (Apolónio de

286

A versão dominante do regresso dos Argonautas à Tessália será, contudo, aquela que privilegia o ‘caminho do Adriático-Ródano’. Desde a foz do Ródano, os Argonautas teriam então rumado para sul, ao longo da costa da Itália. Em algumas versões, tal como Ulisses, são obrigados a passar entre Cila e Caríbdis, o que remete para a passagem do estreito de Messina, antes que uma tempestade, alimentada por um forte vento norte, lhes faça cair a embarcação em pleno deserto da Líbia, num lugar, o Lago Tríton, em que previamente havia já estado Hércules. A astúcia dos marinheiros permite que tornem a ganhar o Mediterrâneo e que, após se terem aproximado de Creta, onde no entanto seriam impedidos de acostar, acabem por poder fundear na ilha de Anafe. Daí dirigem-se a Egina, que seria a última etapa antes de atingir o ponto de partida, Iolcos. Esta é, em traços largos, a viagem dos Argonautas, símile das de Ulisses e de Hércules, narrativas lendárias reproduzidas ao longo de toda a Antiguidade clássica, e que Martins Sarmento considera como testemunho efabulado das primeiras viagens dos Fenícios ao Mar do Norte. Não demos conta de todas as minúcias geográficas que elas encerram; nem o saberíamos fazer, nem isso corresponderia à hermenêutica de Martins Sarmento. Para este autor as narrativas lendárias dos Gregos não são uma alegoria perfeita das narrativas históricas a que supostamente dizem respeito. Por isso mesmo, abster-se-á de procurar em todos e em cada um dos elementos daquelas uma correspondência específica nestas últimas. A homologia entre os dois níveis da narrativa, o histórico e o lendário, é aceite no todo, e ela bastará a Martins Sarmento como mais um nível de ‘objectividade’, o da Mitologia, que, a seu ver, só ganha inteira capacidade heurística quando confrontado com os que recolhe igualmente da Linguística, da Arqueologia, da Etnografia, etc. A não ser suportado pela ‘coincidência cartográfica’ que aqueles outros níveis de objectividade lhe permitem, talvez o autor não propusesse tão desassombradamente a tese de que os Argonautas de Iolcos, a magna

Rodes, Jason and the Golden Fleece, p. 114). Em relação às ligações estabelecidas através das estradas fluviais da Europa, é proverbial a descrição que Heródoto faz do trajecto das oferendas com origem nos Hiperbóreos e destino na Grécia, e que representou, desde a sua publicação, em 1880, n’Os Lusitanos, uma das mais ‘expressionistas’ motivações metaparadigmáticas da geo-historiografia de Martins Sarmento: ‘But the persons who have by far the most to say on this subject are the Delians. They declare that certain offerings, packed in wheaten straw, were brought from the country of the Hyperboreans into Scythia (…) until they reached the Adriatic [and] finally to Delos.’ (Heródoto [1993]: 129).

287

assembleia dos heróis de toda a Grécia, são afinal os Fenícios de Tiro, e de que a demanda do Velo de Ouro não é mais do que a efabulação do início das relações comerciais com os povos detentores das principais minas de estanho. Vejamos agora, mais detidamente, qual a geografia que Martins Sarmento propõe das viagens dos Fenícios até ao Mar do Norte; quais as consequências geo-historiográficas que essa viagem terá na sua teoria interpretativa, nomeadamente pelo confronto com as interpretações alternativas dos investigadores seus contemporâneos; e ainda, qual a psicologia de pesquisa para que mais ou menos conscientemente ela apela, no contexto sociológico do Portugal da segunda metade do século dezanove.

Admitindo a hipótese de que a viagem dos Argonautas é a reprodução mais ou menos obscura da primeira viagem dos Fenícios ao Atlântico, e armado com as demonstrações que nesse sentido a hermenêutica podia recolher nas narrativas equivalentes das viagens de Ulisses e de Hércules, Martins Sarmento propõe-se, no âmbito do seu programa de pesquisa, proceder a uma restituição, tão integral quanto possível, da narrativa da viagem dos Argonautas, nomeadamente da versão mais completa e minuciosa, a de Apolónio de Rodes.305 O percurso dos Argonautas entre Iolcos e a entrada do Helesponto não é tão abundante em pormenores descritivos como o será a partir do momento em que a Argo atravessa o estreito de Dardanelos, resumindo-se ao episódio da ilha de Lemnos, de onde atingirão sucessivamente a ilha de Cízico e a foz do rio Cio. Após atravessarem o estreito ocorre contudo um episódio que será para Martins Sarmento extremamente significativo para a dilucidação da geografia concreta em que podem situar-se estes eventos. Ao sair de Cízico, a frota teria navegado com enorme velocidade, o que é transmitido pela alegoria da fúria de Hércules. Para Martins Sarmento esta alegoria esconderia uma realidade histórico-geográfica mais simples: referir-se-ia ao facto de os 305

‘Referimo-nos a Apolónio, por ser a sua obra que estudamos e por ela condensar todas as falsidades; mas é

sabido que o poeta não foi o inventor de tais falsificações (…)’ (Sarmento 1887a: 121). Ver, em outro lugar, o contexto de ‘regionalização teórica’ da hermenêutica sua contemporânea, marcado por um filo-helenismo acentuado, em que o autor tem necessariamente incluir a sua interpretação (último subcapítulo da última parte deste trabalho, ‘Escala e Identidade’).

288

marinheiros fenícios estarem a percorrer um mar que lhes era inteiramente familiar, o mesmo é dizer o Mediterrâneo. Nessa assumpção, a passagem do estreito entre a Península Ibérica e o norte de África não constituiria perigo algum e, de facto, veremos que os Argonautas, apesar dos receios que tinham, ultrapassarão o limite dos Dardanelos sem qualquer perturbação. A fusão da representação grega do estreito é que estaria na origem, justamente, de uma das múltiplas ‘rupturas’ narrativas por parte de Apolónio efectuadas sobre o original da argonáutica fenícia, e que seria a transposição para este lugar, as Colunas de Hércules dos Gregos, de referências que deveriam situar-se, narrativamente, nas Colunas de Hércules dos Fenícios. Porém, o mais significativo da narrativa de Apolónio, no Mar da Mármara, é a informação de que, na foz do rio Cio, Hércules seria abandonado pelos seus companheiros quando, tendo necessidade de ir a terra arranjar um substituto para o seu remo partido, dando início a uma aventura solitária que o levaria à execução do seu Décimo Primeiro Trabalho, a recolha dos pomos do Jardim de Hera, à guarda das Hespérides, após o que quase tornaria a encontrar-se com a Argo quando esta é lançada por sobre o deserto líbico. Martins Sarmento considera tal informação como reveladora do reconhecimento que os Fenícios teriam efectuado do Atlântico até ao norte de África. Para o investigador, portanto, esta ‘historieta pueril’ refere-se ao facto de que a foz do rio Cio teria sido o local em que as frotas vindas de Tiro podiam dividir-se num dos dois sentidos possíveis: ou para o norte de África, se o objectivo fosse o Atlântico a sul da Península Ibérica, ou para o Mar do Norte, pelas costas da Europa ocidental. Uma vez que lendas referentes a Hércules identificavam a foz do Tartessos como a origem das viagens do semi-deus, Martins Sarmento não hesita em fixar na foz do rio Cio a foz do Tartessos. Ao fixar este ponto intermédio da viagem dos Argonautas como ponto inicial das viagens atlânticas dos Fenícios, Martins Sarmento obrigava a recuperar para Iolcos uma origem prévia a esta localização em Tartessos. Para o autor, tal como Hércules iniciava as suas viagens em Tartessos, ainda que a sua pátria fosse dali muito distante, também os Fenícios considerariam dois pontos ‘iniciais’ das suas viagens de reconhecimento do Atlântico. Um, Tartessos, que corresponderia ao momento em que as suas frotas propriamente iniciavam o reconhecimento de um mar mais ou menos desconhecido, e onde teriam de decidir-se por uma das margens continentais do Oceano Atlântico; e 289

outra, a ‘verdadeira pátria’, que ficaria para lá do mar que navegavam com tanta tranquilidade que nem sentiriam necessidade de incluir na sua narrativa os sucessos que separavam a sua cidade de origem desta colónia distante, a partir da qual os perigos verdadeiramente começavam. Assim restituída a geografia argonáutica fenícia, somente em Tiro se poderia pensar como origem da primeira parte da viagem, sendo com ela que os mitógrafos gregos teriam feito corresponder a pátria de Hércules e de Jasão, conforme a integraram nas efabulações das viagens do semi-deus e dos Argonautas. Uma vez restituída a geografia original do Mediterrâneo ocidental, as primeiras estações podem ser identificadas com segurança: Para o fim especial do nosso trabalho, este exame é de nenhum interesse, desde que não contenda com a história do Ocidente, e por isso apenas nos limitaremos a pôr a questão – se o Helesponto não corresponderá na Argonáutica de Apolónio ao Estreito de Gibraltar, Cízico a Gades, a foz do Cio à foz do Tartesso, na convicção de que as estações anteriores a esta nenhuma importância podem ter para o nosso assunto [Sarmento 1887a: 130].

Os episódios associados a Cízico e Cio revelam, segundo Martins Sarmento, outras particularidades que permitem demonstrar a sua inclusão numa geografia fenícia. Por um lado, a narrativa de Apolónio refere explicitamente que os habitantes daqueles lugares não eram desconhecidos dos marinheiros. Apoiando-se na lenda vulgarizada por Estrabão, tal dever-se-ia, na opinião do autor, às viagens prévias de reconhecimento do mar imediatamente além do estreito que os Fenícios haviam promovido antes de se lançarem pela primeira vez no Atlântico aberto. Além destes indícios, o autor pôde ainda comparar a descrição que Apolónio faz de Cízico e encontrar semelhanças marcantes com a descrição que, séculos mais tarde, o périplo cartaginês, que corre sub voce no poema de Avieno, faz de Gades: Apolónio (Cízico)

Avieno (Gades)

Inside the Propontis there is a steep

Em seguida ergue-se o Monte dos

island sloping down into the sea; it is

Tartéssios, de espessos bosques. (…) A

joined to the rich grainfields of the

ilha encontra-se separada do continente

Phrygian mainland by a low isthmus

por um mar intermédio de cinco

over which the waves wash. The island

estádios. Do lado da fortaleza de Gades

290

lies above the mouth of the Aisepos and

em que dia se põe, fica a ilha

its shores offer harbours on both sides;

consagrada a Vénus Marinha, na qual

inhabitants call it Mountain of the

existe um templo da deusa, um santuário

Bears. (…).

subterrâneo e um oráculo.

The Thracian winds carried the Argo

Quando se vem desse monte, cujos

swiftly to the island and they put it to

bosques, como te disse, amedrontam,

the ‘Beautiful Harbour’. (…).

encontra-se espraiado e suave litoral de

(…)

areias, ao longo das quais os rios Besilo

In the morning some of the Argonauts

e Cilbo apressam os seus cursos. Depois

set off to climb the high peak of

para ocidente o cabo Sacro ergue os

Dindymon to view the sea-routes for

soberbos rochedos. (…). Em outro

themselves, while the other rowed the

tempo a Grécia chamou Herma a este

ship from its earlier mooring into the

lugar (…) um baluarte de terra que, de

‘Closed Harbour’. The route which

um e de outro lado, protege um lago

those on land followed is now called

interior. Outros (…) designam-no por

‘Jason’s Path’.

via de Hércules (…).

[Apolónio de Rodes, I, p. 25-6]

[Avieno, vv. 308-28, p. 26-7]

A razão por que apresentamos aqui as duas descrições referidas por Martins Sarmento, resulta do facto de elas serem um exemplo para o autor do modo como Apolónio refaz o cenário ‘egeu’ de uma geografia atlântica, ‘copiando minuciosidades topográficas da Argonáutica fenícia e adaptando-as a localidades da sua escolha’ (Sarmento 1887a: 132). As coincidências de Cízico repetem-se na região da desembocadura do rio Cio, embora aqui não sejam as minudências topográficas que induzem Martins Sarmento à pronta identificação da geografia gaditana no Mar da Mármara de Apolónio. O que chama a atenção do autor é o facto do narrador grego fazer referência, nas imediações de Cio, a um monte chamado Argantónio, que teria igualmente um nome equivalente na descrição de Avieno.306 À foz do Cio segue-se, na narrativa de Apolónio, a descrição do episódio que opõe os marinheiros da Argo ao povo do país da Bebrícia. Aqui, os Argonautas são mal

306

‘[T]he heroes reached the land of Kios near Mount Arganthoneion and the mouth of the Kios’ (Apolónio de

Rodes, I, p. 31). ‘Mas a ilha cinge-a por todos os lados com sua corrente o rio Tartesso, que do lago Ligustino flui por campos abertos. Não corre, porém, em leito simples nem sulca, em caudal único, o solo subjacente: na parte oriental introduz três bocas nos campos e banha com quatro bocas a parte meridional da cidade [de Gadir]. Ao pântano encosta-se o monte Argentário (…)’ (Avieno, vv. 284-92, p. 25). Segundo Martins Sarmento (Sarmento 1887a: 133, nota 11), este monte o mesmo a que Estrabão (Estrabão, Geografia, III, ii, 11, p. 56; e cf. nota 103 da edição de José Cardoso) chama Argiro ou Argífero.

291

recebidos pelos naturais da região. Martins Sarmento reconhece alguma verosimilhança histórica ao episódio, pretendendo ver nele a expressão de perturbações esporádicas que a relação preferencial com um determinado povo ‘tartéssico’ pudesse criar nas redes de poder locais. É por essa razão que Martins Sarmento interpreta este episódio em relação com o do rei Licos, em que o monarca viria a receber amavelmente os Argonautas, e que o investigador julga ‘de uma autoridade inconcussa’ (Sarmento 1887a: 134).307 A ligação que, no plano histórico, Martins Sarmento entende ser possível estabelecer entre o país de Licos e Bebrícia baseia-se nos elementos biográficos do próprio Licos. Segundo a Argonáutica, o rei anterior, de que Licos era filho e sucessor, teria recebido de Hércules serviços relevantes no tempo em que o semi-deus tinha por ali passado. Essa ajuda tinha consistido justamente em impedir uma invasão por parte dos vizinhos da Bebrícia; e seria em nome dessa memória de gratidão que Licos seria tão amável e receberia tão generosamente os Argonautas quando estes se recolheram ao porto do seu país.308 Completando as referências históricas da biografia de Licos com a tradição vulgarizada por Estrabão sobre as três viagens que os Tírios teriam efectuado, sob a orientação de um oráculo, aos países em redor do estreito de Gibraltar, Martins Sarmento reconhece na presença de Hércules entre os povos vizinhos de Licos a referência histórica da primeira presença dos marinheiros fenícios no sudoeste da Península Ibérica, e na dominação que o herói grego exerceria uma referência às vantagens que um determinado povo do grémio tartéssico teria retirado de uma relação comercial privilegiada com os mercadores de Tiro. Uma vez que, na referência às viagens dos Tírios, Estrabão afirmava que estes não tinham ultrapassado Onoba, é justamente nesta cidade que o investigador localizará o país de Licos. Um elemento narrativo que está presente na viagem de Ulisses e na dos Argonautas será identificado por Martins Sarmento como mais uma coincidência que virá a

307

E continua: ‘[O]s dois episódios [estão] tão estreitamente [ligados] entre si, que não podem ser separados sem

violência, força é aceitar a realidade histórica de ambos’. 308

‘He [Herakles] brought under my father’s sovereignty not only the Mysians but the Mygdones, who dwell in

the territory bordering on ours (…). Moreover the Paphlagonians who are descended from Pelops and are surrounded by the dark water of the Billaios likewise yielded to him. But since Herakles has lived far away, the Bebrikyans and the outrages of Amykos have robbed me of this territory (…)’ (Apolónio de Rodes: 54).

292

sustentar a sua tese. Na primeira daquelas narrativas, um dos marinheiros, Elpenor, morre na ilha de Circe, que o autor identifica com Erebea Palus, perto de Onoba; na segunda delas, no país de Licos, perto do rio Aqueronte, morre Ídmon, a quem, tal como ao seu equivalente da Odisseia, os seus companheiros prestam um culto funerário, enterrando os seus restos mortais sob uma mamoa. Esta coincidência será tão mais importante, aos olhos de Martins Sarmento, quanto, quer na narrativa das viagens de Ulisses, quer na dos Argonautas, é nestes dois lugares que se situa uma das fontes de informações mais importantes para a viagem que segue a partir dos pontos respectivos. Em Licos, o rei, amável e grato, pela ajuda que os marinheiros fenícios da primeira viagem de reconhecimento haviam providenciado ao seu antecessor, dispensa o seu próprio filho para servir de guia aos Argonautas, com a missão específica de serem ‘bem recebidos nos portos onde têm de descansar’ (Sarmento 1887a: 136).309 Estes portos, com quem o rei Licos tão intimamente se relacionava, são os portos da Lusitânia. Neste episódio Martins Sarmento identifica a expressão histórica de várias efabulações de adivinhos e oráculos, Fineu da Argonáutica, ou Tirésias e Circe da Odisseia, que nas versões efabuladas das epopeias gregas vão indicando o caminho aos heróis. Os Fenícios teriam então, segundo o ponto de vista do autor, concertado com algum povo do grémio tartéssico, decerto um que mais intimamente se relacionasse com as viagens atlânticas, a inclusão de guias e pilotos, para que os ajudassem a reconhecer e a navegar as costas atlânticas, até aí desconhecidas para eles, ao qual, por troca, garantiram a predominância das relações comerciais que viessem a estabelecer com aquelas regiões. É esta relação propriamente política que o autor identifica na oferta de Licos, e que lhe permite com algum rigor situar ambos os reinos de Licos e da Bebrícia no sudoeste da Península Ibérica:310 309

‘I shall send my son Daskylos to accompany all of you on your voyage, for with him on board you will enjoy

a hospitable welcome all along the coast as far as the very mouth of the Thermodon’ (Apolónio de Rodes: 54). 310

A juntar a estas duas ordens de coincidências, uma terceira torna ainda mais óbvia a identificação que Martins

Sarmento propõe entre o país de Licos, estação da viagem dos Argonautas, e a terra de Circe, ambas situáveis no sudoeste da Península Ibérica: a versão do Pseudo-Orfeu dá o nome de Lycæa Terra à região em que situa a morada da deusa Circe: ‘Le troisième jour, nous arrivâmes à la résidence de Circé, du côté de la terra Lycéenne et de ses demeures ceintes par la mer’ (Argonautiques Orphiques, p. 162). Convém, contudo, fazer menção das dúvidas que a crítica faz incidir sobre este nome que considera ‘terme suspect’ (Idem, notas ao índice remissivo).

293

Fácil é então localizar a Bebrícia e a Terra de Lyco. Se esta formava um pequeno reino na região de Onoba, aquela formava um segundo que vizinhava com ele pelo nascente e não distava muito de Cio-Tartesso (Sarmento 1887a: 137).

A partir da terra de Licos, a hermenêutica de Martins Sarmento distancia-se bastante da narrativa de Apolónio, de modo a manter a verosimilhança da originalidade histórica e geográfica da viagem dos marinheiros mediterrânicos. Será a este nível que a restituição do texto de Apolónio sofrerá uma maior recomposição por parte do investigador, devido à necessidade ordenar os elementos narrativos de acordo com as disposições hipotéticas da geografia atlântica. Para o fazer, Martins Sarmento não duvida em inverter a posição dos episódios narrados na epopeia grega e em atribuir a ordem narrativa de Apolónio à ‘ilusão’ que teria obrigado o poeta a situar a viagem do Argo no cenário do Ponto Euxino, associado a uma representação grega do perigo de passagem nas ‘Colunas’, i.e., num estreito associado a perigos de navegação, que, no entender de Martins Sarmento, não existiria na narrativa da argonáutica fenícia. Assim, o ponto central para compreender a releitura levada a cabo por Martins Sarmento desta parte da viagem dos Argonautas é, por um lado, a convicção de que Apolónio ‘força’ a inclusão num trajecto muito pequeno, o Mar da Mármara, de episódios que se desenrolariam por um trajecto muito mais longo, o que separava Tartessos da costa oriental da ilha da Inglaterra, criando-lhe dificuldades propriamente funcionais em incluir tantas estações e episódios num cenário tão reduzido.311 Esta seria a razão por que os episódios, que dizem respeito ainda a cenários anteriores à passagem das ‘Colunas’, terem de ser transpostos para depois do estreito. Por outro lado, e hermeneuticamente talvez mais importante, o investigador propõe que a causa mais

311

É por esta razão que Martins Sarmento explica que o número de estações referidas por Apolónio entre o

Bósforo e os Dardanelos seja tão abundante relativamente às identificadas entre este último estreito e o extremo oriental do Mar Negro, a Cólquida, destino final da viagem: ‘Basta notar o seguinte: Ficando o verdadeiro estreito (o Passo de Calais) já na ilha de Ea e a uma enorme distância do ponto de partida (Tartesso), desde que se localizou o ponto de partida em Cio e o estreito nos Dardanelos, as duas distâncias inverteram-se, quer dizer, agora do ponto de partida ao estreito há uma distância muito curta, do estreito à falsa Ea uma distância larguíssima’ (Sarmento 1887a: 137). Porém, tal proposição só ganha algum poder argumentativo se se restituírem as estações até ao episódio da ilha de Ares para uma posição anterior à passagem do estreito. Assim, vê-se facilmente que esta proposição de Martins Sarmento se baseia numa ‘tautologia hermenêutica’ evidente.

294

determinante do quase irreconhecimento da narrativa da viagem fenícia original se deve ao poeta grego, porque, no contexto da mundividência grega da oecumena, ele teria fatalmente de atribuir à passagem do estreito uma dificuldade transcendente, descrevendo-a com o recurso banal a monstros ou animosidade divina, comuns na mitografia. Finalmente, para dar coerência à narrativa assim constituída, ao investigador não restou outra solução senão amputar severamente o texto de Apolónio e restabelecer as novas ligações textuais que permitiram a explicitação da estrutura narrativa original. No contexto da restituição proposta por Martins Sarmento, Apolónio teria intercalado, entre os episódios do país da Bebrícia e do reino de Licos (situados por Martins Sarmento no sudoeste de Península Ibérica, já na costa atlântica, mas antes da foz do rio Ana), lugares que a narrativa afirmaria explicitamente como sendo ‘vizinhos’, ‘nada menos que o [episódio] de Fineu e o da passagem do estreito’ (Sarmento 1887a: 137).312 Já se adivinha qual a estratégia hermenêutica de que o investigador irá lançar mão para reorganizar esta parte da narrativa. Apolónio, ao transferir esta parte da argonáutica fenícia para o cenário do Egeu, Mármara e Mar Negro, tem (cartograficamente, diríamos) diante dos seus olhos a evidência da passagem do estreito do Bósforo, que se associa à referência, que não poderia deixar de reconhecer, na opinião de Martins Sarmento, da passagem por um estreito que antecedia a entrada no Mar do Norte. Martins Sarmento identifica duas razões principais para que a mitografia grega tivesse transferido para depois da passagem de um estreito o episódio relativo à terra do 312

A questão da vizinhança entre a Bebrícia e o reino de Licos será assim o ponto ‘material’ de apoio em que

Martins Sarmento levanta toda a sua argumentação acerca da ‘ruptura narrativa’ operada por Apolónio na argonáutica fenícia: ‘Por que não localizaram os nossos eruditos a Terra de Licos logo acima da Bebrícia, como o estava a exigir a relação de vizinhança entre os dois povos?’ (Sarmento 1887a: 138). Ainda assim, Martins Sarmento reconhece algum engenho na solução encontrada por Apolónio, que, ao situar a Bebrícia como última estação do Mar da Mármara, e a Terra de Licos como a primeira após os Dardanelos, permite que apesar de existir o necessário estreito entre ambas, elas possam ainda assim contactar pelo interior: ‘Uma só dificuldade poderia embaraçar os nossos eruditos na sua identificação, era, se a Mariandínia deixasse de vizinhar com a Bebrícia, visto que a legenda o declarava terminantemente em mais de uma parte. Lance-se, porém, uma vista de olhos a um mapa antigo desta parte da Ásia Menor, e ver-se-á como os Bebrices da Bítinia, nas costas da Propôntida, podiam vizinhar com os Mariandinos da costa do Euxino. Vizinhavam pelo sertão, embora para ir por mar de um país a outro fosse necessário fazer uma longa navegação, com ponto forçado pelos Dardanelos, como Apolónio supõe que fizeram os Argonautas’ (Sarmento 1887a: 140).

295

rei Licos, desligando-a assim da Bebrícia. Por um lado, porque aquele episódio referia explicitamente que Dásquilo, o filho do rei Licos, teria embarcado, por ordem do monarca, com os Argonautas, com a intenção de lhes servir de guia. A questão das personagens que entram e saem da embarcação dos Argonautas é central na hermenêutica de Martins Sarmento, porque nelas vê o investigador a referência histórica a guias tartéssicos e estrímnicos, que teriam conduzido os Fenícios pela rotas que estes ainda desconheciam. Apolónio, por razões que dependiam da geografia imaginativa dos Gregos, não podia admitir que um príncipe da Propôntida pudesse conhecer os segredos da navegação de um estreito de que a Argo seria, segundo a tradição – a mais importante e fundacional tradição dos Gregos –, a primeira a ultrapassar: Impossível conciliar esta prosaica notícia com as miraculosas tradições ligadas ao grande feito. Só um vidente com a sua dupla vista de profeta podia conhecer umas paragens, por onde nunca passara uma nau; só uma ‘nau divina’ podia tentar a aventura, etc. Quem podia pensar num principículo como Licos no meio daquelas gigantescas fantasias? Mas, não se lhe podendo recusar a sua qualidade de protector dos Argonautas na navegação para Ea, visto que lha negavam na maravilhosa navegação dos Dardanelos [sic, por Bósforo], não havia remédio senão conceder-lha na navegação dos Dardanelos por diante, aliás de pouca monta. Aqui está com certeza por que a Terra de Licos foi atirada para a costa do Euxino e a chegada dos Argonautas ao seu reino colocada depois da passagem do estreito [Sarmento 1887a: 139].313

A esta incapacidade, propriamente metafísica, que impediria Apolónio de admitir a passagem do estreito antes dos Argonautas, Martins Sarmento adiciona a vantagem que a localização do país de Licos na Mariandínia traria em termos narrativos.314 A identificação de elementos semelhantes presentes, quer na argonáutica fenícia, quer no cenário pôntico, em que Apolónio a pretende localizar, servirão para que o poeta ‘fixe’ a 313

. Esta ‘metafísica iniciática’ da Argo é naturalmente muito anterior a Apolónio, visto encontrar-se bem

explícita em passagens de Homero: ‘And thereby has no ship of men ever yet escaped that has come thither, but the planks of ships and bodies of men are whirled confusedly by the waves of the sea and the blasts of baneful fire’ (Homer, The Odyssey, XII, 64 e ss., vol. I, p. 437 da ed. por nós utilizada). 314

Que Martins Sarmento considera ser uma invariante do processo de efabulação geográfica por parte de

Apolónio, igualmente evidente nos episódios de Cízico | Gades e Cio | Tartesso.

296

narrativa. Neste processo, que funde as informações históricas originais com as que a etnografia grega veio a atribuir a esses sítios, têm um lugar privilegiado os elementos geográficos, como sucedeu no caso do estreito do Bósforo, cuja substituição em lugar do seu equivalente no Mar do Norte teria provocado uma tão deplorável confusão na narrativa. Ora a mitografia grega localizava na Mariandínia alguns elementos que poderiam, com facilidade, ser considerados símiles dos que a argonáutica fenícia identificava nas costas atlânticas da Europa.315 No essencial, contudo, o que podemos ver é que a estratégia hermenêutica de Martins Sarmento procede à usual inversão tautológica dos critérios de interpretação do poema de Apolónio. E, nesse contexto, a localização do país de Licos, depois da passagem do estreito, seria sempre um absurdo porque, sendo o mesmo considerado como o estreitamento à entrada do Mar do Norte, não se podia pensar que os Argonautas necessitassem de um guia, para os guiar numa viagem que, a ser assim, estava praticamente terminada. Na geografia de Martins Sarmento, na restituição que propõe para a suposta argonáutica fenícia, o episódio de Licos deveria portanto quase seguir-se imediatamente ao da Bebrícia, e a eles corresponderiam, respectivamente, duas regiões contíguas entre a foz do Guadalquivir e a foz do Guadiana, no sudoeste da Península Ibérica. Porém, na narrativa de Apolónio, estes dois episódios estão intercalados por outros quatro que Martins Sarmento admite terem sido ‘recortados’ de outra parte da narrativa original, para serem aqui enxertados, de modo a adequarem-se às exigências metafísicas e geográficas da mundividência grega.

Os episódios referidos seriam a profecia de Fineu, a passagem da nau Argo pelo estreito, Dipsaco e a ilha Tínia. No primeiro, os Argonautas contactariam com Fineu, personagem que reúne duas características que serão para Martins Sarmento deveras significativas. Por um lado, será ele quem providenciará aos Argonautas o conjunto de informações sobre o trajecto

315

‘A Terra de Licos não dispensava um Averno, uma lagoa infernal. Ora depois dos Dardanelos a região que

oferecia disso e com abundância era Mariandínia. Aí havia nada menos que um Orco, um Aqueronte, uma lagoa sinistra, onde morre o alter ego de Elpenor’ (Sarmento 1887a: 140).

297

que lhes falta ainda percorrer até ao destino da sua viagem, e vimos já que este tipo de elemento narrativo é, para Martins Sarmento, um sinal inconfundível de que a narrativa original se referiria neste ponto à existência de guias ou pilotos experimentados que teriam ajudado as primeiras navegações dos Fenícios no Atlântico. A única questão que subsiste é, portanto, uma vez que se assume o episódio fora do seu lugar original, saber a que parte da narrativa argonáutica fenícia ele poderia pertencer. A personagem de Fineu é descrita por Apolónio como estando, por castigo divino, sujeito a uma provação contínua: umas Hárpias, criaturas aladas repugnantes, mal lhe permitiam alimentar-se porque assim que o profeta dava início às suas refeições elas precipitavam-se sobre a mesa, roubando o que podiam e conspurcando o resto. Martins Sarmento, cujo espírito positivo o predispunha a interpretações alegóricas dos elementos narrativos, via nesta descrição uma referência velada equivalente às Sereias de Ulisses, símbolo das dificuldades de navegação de uma determinada parte do trajecto marítimo. Segundo a geografia restituída por Martins Sarmento, a viagem dos Argonautas deveria apenas contactar com as Sereias no golfo da Gasconha, lugar em que, na sua crítica à viagem de Ulisses, o investigador havia colocado o episódio, acentuando que o seu carácter sobrenatural e a sua transposição para outro lugar da narrativa quase tornassem irreconhecível essa identificação. Porém, olhando de perto para as características dessas Hárpias e descontando o exagero poético que sobre elas Apolónio teria exercido, era possível reconhecer duas características que as aproximavam infalivelmente. Por um lado, estas criaturas tinham um comportamento que uma ‘hermenêutica fenomenológica’ faria aproximar da descrição de uma tempestade no meio do mar, aparecendo ‘bruscamente, como súbitas procelas, fuzilando relâmpagos’, interpretação a que daria ainda mais credibilidade o facto de serem os ventos, os responsáveis pela sua aniquilação (Sarmento 1887a: 151).316 Tal como as Sereias fizeram a Ulisses, também as Hárpias deveriam aparecer aos Argonautas no decurso da sua viagem com o intuito de prejudicar o seu progresso, sob a

316

A passagem a que Martins Sarmento se refere é: ‘The Boreads stood nearby so that they could drive them

away with their swords when they [the Harpies] swooped down. (…). [T]he Harpies leapt down from the clouds without warning, like sudden storms or flashes of lightning (…)’ (Apolónio de Rodes: 42).

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forma de um perigo especificamente associado à navegação, e tal como aquelas, elas são subitamente feitas desaparecer assim que os marinheiros atingem a região em que elas habitam. Uma e outra destas passagens diria, afinal, respeito ao facto de, numa determinada estação do seu roteiro, os marinheiros fenícios terem decidido não incluir nos planos de viagem a passagem por um mar perigoso e traiçoeiro, mas, alternativamente, decidido passar para uma rota que o deixasse a uma distância considerável. Ora, para Martins Sarmento, apenas num dos tramos da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte teria sido possível uma escolha desse género – a viagem de Corunha até à Bretanha, que tanto se poderia fazer junto à costa do golfo da Gasconha, e assim passar pelos perigos simbolizados pelas Sereias | Hárpias, ou então pelo mar alto e assim escapar a elas definitivamente: O desespero e a morte das Sereias tem a mesmíssima significação que o desaparecimento das Hárpias. Nem estas desapareceram, nem aquelas morreram, senão para aquelas que, abandonando o caminho pelas paragens em que elas exerciam as suas ferocidades, nunca mais tiveram ocasião de se avistar [Sarmento 1887a: 151].

A influência de Apolónio, ao deslocar o episódio das Hárpias, isto é, da travessia do golfo da Gasconha, para o intercalar entre o episódio da Bebrícia e do país de Licos, poderia ainda assim ter sido detectado porque, ao fazê-lo, o poeta trouxe consigo a sua primitiva localização, de uma estação imediatamente anterior ao estreito, localização que se reconhece, quer na narrativa efabulada, quer na geografia da viagem atlântica.

Num segundo episódio, elemento absolutamente central da restituição feita por Martins Sarmento, Apolónio descreve a passagem da Argo pelo estreito de saída do mar de Mármara. A importância desta passagem, para o investigador, reside no facto de supostamente revelar na sua contradição interna a sobreposição dos níveis ‘histórico’ e ‘poético’ que lhe seria dado, ao mesmo tempo, pela narrativa da argonáutica fenícia e pela composição que, sobre ela, foi elaborada pela mitografia grega. A passagem, cujos pormenores são fundamentais para que se compreenda inteiramente a estratégia hermenêutica de Martins Sarmento, é a seguinte:

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When they had reached the narrow opening of the winding strait, tightly formed by harsh rocks on both sides, the swirling rush of water surged around the ship as it proceeded, and they voyaged in great fear, for the roar of the rocks crashing together was already a constant din in their ears and the sea-battered cliffs echoed with the noise. Then Euphemos took a position on the prow with the dove in his hand, and the others, taking their instructions from Tiphys son of Hagnias, rowed at a quiet pace in order that they might afterwards have the strength to force the boat through the rocks. As they rounded the last bend, they suddenly caught sight of the rocks opening up, and all their spirits ebbed away. Euphemos sent off the dove to race on its wings, and all of the Argonauts lifted their heads to watch. The bird flew between the rocks which came together again with a great crash; a huge body of spray was thrown up like a cloud, the sea gave a terrible roar, and all around the limitless sky resounded. As the sea surged around the harsh rocks, hollow sea caves boomed within, and the white foam from the thundering wave was hurled high above the cliffs. Then the current around it took hold of the ship. The rocks caught the end-feathers from the dove’s tail, but it escaped safe and the rowers gave a great shout. Tiphys himself screamed at them to row with all their might, for the rocks were opening up again. They rowed in trembling fear until the back-wave on its return washed them into the midst of the rocks. Them the most awful terror seized all of them, for unavoidable destruction hung over their heads. Beyond the rocks they could now see all around the broad expanse of the Pontos, but suddenly a huge, arching wave like a cheer mountain-peak reared up in front of them. When they saw it they lowered their heads and turned away, for it seemed certain to crash down and cover the whole ship; Tiphys, however, eased off on the ship which was struggling under the oars, and the brunt of the wave’s force rolled under the keel. It then seized the stern and dragged the ship far from the rocks, carrying it aloft on its surge. Euphemos went among all the companions shouting at them to put all their force into their oars, and they gave a cry as they beat the water. Whatever progress the rowers made, the ship was thrown back twice as far by the surge; as the heroes laboured, their oars bent like curved bows. Then suddenly a wave rushed upon them from the opposite direction, and like a

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runaway boulder the ship was tossed on the wild wave ever further through the hollow sea. The eddying current held her in the midst of the Clashing Rocks; on both sides the Rocks shook and thundered, and the timbers of the ship could not move. Then Athena took hold of a mighty cliff with her left hand, and with her right she shoved the ship between the rocks. Like a feathered arrow it shot through the air, and as the Rocks clashed violently together they broke off the tip of the stern-ornament. Athena leapt up to Olympus, after the safe escape of the crew, but the rocks were firmly locked together and rooted in one spot forever; for its was fated by the blessed gods that this would happen whenever any man had survived the voyage through them [Apolónio de Rodes, p. 49-50].

Para Martins Sarmento, esta descrição da passagem do Bósforo não pode pertencer à narrativa argonáutica fenícia original, por duas ordens de razões: em primeiro lugar, porque não seria admissível, de acordo com as informações que a própria narrativa dos Argonautas providencia, que os Fenícios tenham arriscado pilotar os seus barcos por um estreito em que nunca tinham navegado, sem a ajuda de pilotos locais experientes que os ajudassem. Como se verá, as inúmeras personagens que vão entrando e saindo da Argo ao longo da viagem são justamente a referência histórica a estes guias; em segundo lugar, e este tipo de argumentos Martins Sarmento considera-os usualmente de grande capacidade argumentativa, porque o próprio anti-clímax da narrativa de Apolónio aponta nesse sentido. Em segundo lugar, ao ler atentamente esta passagem, Martins Sarmento é de opinião que pode detectar-se uma nítida contradição entre a subtil expectativa de destruição dos primeiros versos, e o carácter prosaico da solução que é encontrada para que a embarcação atravesse sem dano o estreito. A razão da discrepância é, para o investigador, o resultado esperado da sobreposição de uma efabulação poética, com origem na mundividência grega, da responsabilidade de Apolónio, à crueza dos factos da narrativa histórica concreta da argonáutica fenícia, em que o autor anónimo admitiria que a passagem do estreito que abriu o Mar do Norte aos seus barcos se teria efectuado sem nenhuma dificuldade. Assim, Apolónio não podia deixar de incluir uma narrativa de clímax à passagem do estreito por parte dos Argonautas – a sua condição de grego nunca lhe permitira agir de outro modo; e, mais, teria de incluir este episódio, que 301

segundo a argonáutica fenícia ocorreria apenas no fim da viagem, para momentos bem anteriores, porque o único estreito que a topografia pôntica lhe poderia proporcionar antes do fim da viagem, era justamente o Bósforo. O episódio de Dipsaco, imediatamente seguindo o da ilha da Tínia, contém um elemento a que Martins Sarmento dá alguma importância, por ver nele a demonstração da localização no sudoeste da Península Ibérica de todos os episódios que Apolónio coloca já depois da passagem do estreito. [T]hey [the Argonauts] turned to the unremitting labour of rowing. Soon they passed by the swift stream of the river Rhebas and the peak of Kolone, and not long afterwards the Black Promontory, and after it the mouth of the Phyllis. There in former times Dipsakos received the son of Athamas in his house when he was fleeing on the ram from the city of Orchemenos. (…) As the Argonauts went past, they saw the shrine and the broad banks of the river (…) [Apolónio de Rodes: 51].

Martins Sarmento tem algumas dificuldades em adequar a topografia descrita nesta passagem com a região que pretende com ela associar na sua geografia restituída. Mas, como é usual na sua estratégia hermenêutica, despede essa dificuldade assumindo que os pontos que não servem à sua hipótese são adições poéticas dos mitógrafos gregos, na ânsia de adequar a narrativa grandiosa dos Argonautas à sua realidade geográfica.317 O que para Martins Sarmento é mais relevante nesta passagem é a referência à foz de um rio, que só pode situar-se entre Onoba, o país de Licos, e o cabo de S. Vicente, em que irá situar a ilha de Tínia, estação seguinte na viagem dos Argonautas. Ora um rio nestas condições, com a dimensão ali especificada, e a que se associa a existência de um templo ou de um santuário, leva Martins Sarmento a identificar, o Phyllis com o Anas, e o templo de Dipsaco com o Zéfiris do périplo fenício.318

317

‘As poucas, ou digamos mesmo, as pouquíssimas analogias entre o Dipsaco de Apolónio e o Zefíridos do

périplo fenício do século VI não nos detêm um momento; porque sendo o episódio muito insignificante e podendo por isso o nosso poeta desfigurá-lo, como faz muitas vezes, misturando-o com as legendas locais do Phyllis, sem denunciar a deturpação (…)’ (Sarmento 1887a: 147). 318

Já se vê que, a partir desta identificação, a circunstância de Frixo pertencer ao grémio tartéssico e vir a

desposar uma filha de um monarca do sul da Inglaterra, tem, para Martins Sarmento, todos os visos de uma verdade histórica, perfeitamente compatível com a migração ‘ligúrica’ que faria de todos estes povos familiares uns dos

302

No episódio associado à ilha de Tínia, o elemento que mais interessa a Martins Sarmento é a referência a que ali os Argonautas teriam assistido a um espectáculo que exerceu sobre eles uma forte impressão: At the time when the immortal sunlight has not yet appeared, but it is no longer quite dark and a faint gleam has pierced the night—the time which those waking call amphilyke—at that hour they entered the harbour of the deserted island of Thynias and stepped on to the land, completely worn out by their efforts. The son of Leto, travelling afar from Lykia to the countless race of the Hyperboreans, appeared to them. On both sides of his face golden curls like bunches of grapes waved as he proceeded; in his left hand he carried a silver bow, and his quiver was slung around his back from the shoulder. Under his feet the whole island shook and waves washed over the dry land. At the sight of him the Argonauts were struck helpless; no one dared to look directly into the god’s brilliant eyes, but they stood looking down at the ground, and he passed through the air far away out to sea. After a long silence Orpheus finally addressed the heroes as follows: ‘Come, let us call this the holy island of Apollo of the Dawn’ [Apolónio de Rodes: 51-2].

Deste episódio, retira Martins Sarmento os elementos que, segundo a sua opinião, favorecem a sua localização inequívoca no sudoeste da Península Ibérica. Em primeiro lugar porque o carácter sobrenatural da descrição do fenómeno que tanta impressão causa aos Argonautas encobre um encontro com um episódio natural associado ao Sol, sendo este, contudo, relativamente pouco usual para merecer um comentário tão alargado na narrativa. A seguir, que se poderia detectar uma contradição no movimento do astro, uma vez que, de acordo com os pontos de origem e destino da viagem de Apolo, o Sol estaria a efectuar um movimento de sul para norte (da Lícia para os Hiperbóreos). A contradição do movimento do Sol, remete-a Martins Sarmento para a costumada liberalidade com que Apolónio modificaria as condições iniciais da narrativa fenícia, embora, na cosmologia grega antiga, anterior ao reconhecimento do Oceano exterior, outros. No âmbito estrito da hermenêutica d’Os Argonautas esse papel caberá aos sucessivos guias que vão auxiliando os Fenícios na sua viagem ao Mar do Norte.

303

facto de que a geografia grega apenas haveria de tomar conhecimento pelas explorações fenícias, acreditava-se que a Terra ‘era uma superfície plana e o céu uma espécie de redoma que a cobria’, e assim, vendo ‘desaparecer o sol no poente e reaparecer no oriente, não achavam outro meio de explicar o fenómeno, senão supondo que o sol dava a volta pelo norte’ [Sarmento 1887a: 142].319 Para Martins Sarmento, os dois elementos em discussão, a irregularidade do seu movimento e o carácter ‘impressionista’ do fenómeno descrito apontariam para uma transposição, por parte de Apolónio, de um fenómeno solar que muito haveria de ter impressionado os marinheiros que a ele assistiram, ao ponto de se sentirem obrigados a aplacar os seus receios pela devoção à divindade que o representava. Dificilmente um nascer-do-sol numa ilha poderia constituir um fenómeno que pudesse impressionar marinheiros, sendo que muitos deles eram justamente também insulares. Porém, a acreditar que o episódio havia sido retirado de uma argonáutica fenícia, então, nesse caso, era possível pensar num fenómeno solar a que marinheiros mediterrânicos, antes de terem dobrado o estreito de Gibraltar, não poderiam nunca ter assistido – o ocaso do Sol: É de advertir que o espectáculo do pôr do sol no Oceano maravilhava realmente os que o contemplavam pela primeira vez, dando origem às mais fantásticas invenções. (…). [O] sol que os Argonautas contemplaram maravilhados foi o sol poente: a hora em que estiveram na ilha, imaginando-o em caminho para os Hiperbóreos, era o crepúsculo da tarde [Sarmento 1887a: 143-4].

O movimento do Sol perdia, assim, no contexto desta nova interpretação, a irregularidade que o caracterizaria para quem o pretendesse localizar nas costas do Mar Negro. Na costa atlântica do sudoeste da Península Ibérica, entre Tartessos, ou melhor entre as Colunas, e o promontório de S. Vicente, aquele movimento revelar-se-ia inteiramente correcto. Qualquer observador aí situado, veria o Sol desaparecer a ocidente, depois de efectuar uma viagem a sul, e podendo supor que continuaria para o 319

Mais tarde, quando o Oceano foi reconhecido empiricamente e incluído na cosmologia, o Sol ‘descia ao

oceano, porque então embarcava num navio misterioso e nele circuitava todo o norte até chegar ao oriente, onde ressurgia’, por exemplo, segundo Ferecides ‘emprestaria o seu navio a Hércules, quando ele fez a expedição a Erítia’ (Sarmento 1887a: 142).

304

país dos Hiperbóreos, a norte. Para lá do cabo referido, já a ausência forçada da vista de África, impediria que todos os elementos presentes na narrativa se cumprissem simultaneamente. Na tentativa de identificação da ilha Tínia no vasto tracto do sul da Península Ibérica, a oeste de Onoba, região em que identifica Licos, e cuja intercalação defende, Martins Sarmento acabará por identificar o cabo de S. Vicente, como o lugar que mais convém à narrativa do episódio de Apolo. Neste cabo, os geógrafos antigos, faziam não só referência a lendas associadas ao pôr-do-sol, como identificavam um culto a uma divindade crepuscular nocturna, que, para o investigador, seria equivalente à que, por necessidades narrativas, Apolónio identificava com uma divindade matinal.320

Restituída a posição original dos elementos da narrativa, tal como se encontrariam na argonáutica fenícia, ou seja, a exacta apresentação das estações e episódios desde Gades até ao cabo de S. Vicente, situando a terra de Licos ao seu lugar original, antes do início da narrativa de Fineu, Martins Sarmento pode já apresentar a geografia do sudoeste de Espanha que o cenário pôntico escondia. As estações que Apolónio nomeava desde Cízico | Gades até Tínia | S. Vicente, e postos pela ordem correcta em que deveriam estar, dizem afinal respeito a uma geografia do sul da Península Ibérica, lugares em que os Fenícios se prepararam, ainda em ambiente familiar, para a viagem verdadeiramente desconhecida que os esperava daí para a frente: Todas estas deturpações porém foram feitas tão superficialmente, por fortuna nossa, que com alguma paciência e graças aos subsídios de que dispomos, não é extremamente difícil apontá-las e corrigi-las. Como é da parte geográfica que tratamos agora exclusivamente, temos que desde o Estreito de Gibraltar até à ponta do Cabo de S. Vicente, a Argonáutica fenícia, como a reproduz Apolónio, mencionava: Gades; Tartesso; um pequeno reino entre

320

E onde a Argonáutica de Orfeu situava um templo em que se celebrava o rapto de Prosérpina, fábula em que

Martins Sarmento vê a alegoria do ocaso do Sol: ‘Le navire se mit aussitôt à courir sur le flot houleux et nul l’espérait plus réchapper de la mort, car c’était la douzième aurore qui se levait. (…) Lyncée, dont la vue portait loin, aperçut une île couverte d’une pinède et la vaste demeure de Déméter la Souveraine qu’une immense nuée ceint de sa couronne’ (Argonautiques Orphiques, p. 161). Sobre as lendas associadas ao cabo de S. Vicente, cf. Estrabão ([1969]: Liv. III, 24 ss.).

305

Tartesso e Onoba, a que o poeta dá o nome de Bebrícia; a Terra de Licos, outro pequeno reino na região de Onoba; um templo na foz do rio Anas; uma ilha na ponta do Cabo de S. Vicente [Sarmento 1887a: 148-9].

O trajecto da viagem dos Argonautas, que se estende entre a ilha de Tínia | S. Vicente, terminus post quem verdadeiramente se inicia o reconhecimento de um mar ignoto, o Atlântico, e a ilha de Ea | Inglaterra, possui, para Martins Sarmento, elementos descritivos de topografia e da mitologia suficientes para poder determinar com alguma segurança os pontos concretos que são referidos efabuladamente por Apolónio de Rodes. O investigador está ciente que esta ‘geografia da longinquidade’ o leva progressivamente

para

esferas

interpretativas

mais

distantes

das

de

outras

hermenêuticas.321 Nesta parte da viagem, um episódio é especialmente favorecido por Martins Sarmento – o dos filhos de Deimaco. Segundo a narrativa de Apolónio, a Argo, antes de atingir a estação da ilha de Ares, acostou junto à foz de um rio, cujo nome era ‘Halys’. Aqui viviam os filhos de Deimaco who had become separated from Herakles. When they saw the expedition of heroic men, they came to them and told them truly who they were; they did not wish to remain on that coast any longer, but they embarked on the Argo as soon as the Argestes blew [Apolónio de Rodes: 58].322

Que conclusões retira então Martins Sarmento desta suposta efabulação de Apolónio, que possam revelar algum pormenor da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte? Como já se referiu algumas linhas acima, a importância reside no papel que o

321

‘Da ilha da Tínia até à ilha Aretias nomeia Apolónio todos os rios, promontórios, etc., todos os povos que se

encontravam na costa do Euxino desde a Tiania do Ponto até à ilha Aretias, já não muito longe da Cólquida. Foi aqui principalmente que os eruditos exibiram a sua mal empregada ciência geográfica, e tão francamente a copiam dos périplos daquela costa, que em toda esta secção do roteiro nada se oferece de suspeito, a não ser o incidente dos filhos de Deimaco, saberemos logo por quê’ (Sarmento 1887a: 149-50). 322

O Argeste é um vento de noroeste, inadequado para o trânsito que Martins Sarmento supõe. Talvez por isso, e

ao contrário de outras passagens, não refere este pormenor. Porém, como já se fez referência, a estratégia ‘paradigmática’ do autor, no que diz respeito aos pontos de apoio concretos da geografia, está imersa num contexto de ‘visibilidade motivada’.

306

investigador atribui aos pilotos indígenas que os Fenícios haveriam forçosamente de engajar para os guiarem na sua primeira viagem por mares desconhecidos. A realidade histórica deste episódio, tem-na Martins Sarmento como certa por ser aparentemente ‘excrescente’ a uma narrativa puramente poética, uma vez que não chega verdadeiramente a tomar qualquer lugar relevante na acção principal da epopeia. A importância relativa do episódio teria necessariamente de pertencer ao original histórico da viagem dos Fenícios, e aí, sim, deveria ser de uma importância transcendental para que a sua memória tivesse sido perpetuada. 323 A esta circunstância juntar-se-ia um outro episódio, igualmente improvável e excrescente da narrativa propriamente épica, e que Martins Sarmento ‘recorta’ do lugar em que Apolónio a havia inserido, para o restituir ao seu suposto lugar original, o único compatível com a interpretação que o autor faz da passagem pelo rio Hilas. Teria sido também nas vizinhanças da foz deste mesmo rio que, na viagem de regresso, a Argo deixaria em terra o filho do rei Licos que havia entrado na embarcação dos Argonautas na viagem de ida.324 Para Martins Sarmento, porém, a viagem de regresso não se faz pelo mesmo caminho do de partida. Sendo assim, na sua opinião, é de presumir que estas duas passagens pela região da foz do rio Halys, que dizem respeito ao embarque dos filhos de Deimaco e ao desembarque do filho de Licos, se refiram a um mesmo episódio da 323

‘Nada mais insignificante à primeira vista que este incidente, porque nele apenas se conta que num certo

ponto da viagem, três filhos de um tal Deimaco Triceu se resolveram a acompanhar os Argonautas na sua expedição. Mas, não havendo sombra de razão para acreditar que Apolónio se pusesse a fantasiar uma coisa tão banal, força é admitir que ele não inventa, mas copia, e neste caso também mal se acredita que o facto original, a ser tão sem alcance como o faz o nosso poeta, tivesse a fortuna de se perpetuar’ (Sarmento 1887a: 153). 324

É de facto uma referência aparentemente fortuita, e que só a atenção analítica que, em Martins Sarmento, a

visibilidade do ‘paradigma prévio à teoria’ pode justificar ‘Out in the front of them a furrow of radiant light in the heavens marked the path they must take. They left Lykos’s son there and joyfully sailed across the sea with billowing sail, their eyes fixed on the mountains of the Paphlagonians. They did not go round past Karambis since both the breezes and the gleam of heavenly fire stayed with them until they reached the great stream of the Istros’ (Apollonius, Jason and the Golden Fleece, p. 105-6). É um caso muito claro de como, no contexto da construção de uma teoria, são por vezes os pequenos pormenores que não são directamente iluminados pelo paradigma dominante, vêm a brilhar com uma luz intensa pelo facto de serem escolhidos especificamente como ‘experiência crucial’ de um paradigma alternativo. O que pode dizer-se, sem dúvida, e em abono da teoria interpretativa de Martins Sarmento, é que toda esta parte da narrativa dos Argonautas seria a mesma se se procedesse à supressão pura e simples de parte da frase: ‘They left Lykos’s son there and joyfully sailed…’.

307

memória histórica da viagem dos Fenícios. Apolónio, por ter repetido as estações do Mar Negro, trajecto comum, na sua ‘geografia euxina’, das viagens de ida e de regresso, teria separado artificiosamente os dois episódios, dando-lhes, por isso mesmo, um carácter excrescente e quase incompreensível na sua narrativa.325 Restituída a narrativa do desembarque do filho de Licos à sua verdadeira posição histórica, tudo fica, na interpretação de Martins Sarmento, bem mais claro. Estando a região da foz do rio Halys, segundo a restituição feita pelo investigador, a montante da ilha de Ares, que supõe já na Bretanha, e especificamente no Canal da Mancha, a jusante da ilha de Tínia | S. Vicente, o autor vê nesta excrescência narrativa, quando considerada do ponto de vista de Apolónio, um facto da maior importância, se considerado do ponto de vista da viagem inaugural de marinheiros mediterrânicos num mar atlântico que em absoluto desconheciam – a substituição progressiva dos pilotos indígenas, que se iam substituindo uns aos outros, consoante as necessidades específicas da navegação o exigiam: Agora a singularidade de vermos estes homens [os filhos de Deimaco] resolverem-se a partilhar sem motivo algum os perigos de uns navegantes desconhecidos, ao mesmo tempo e no mesmo lugar em que o filho de Lyco, encarregado por seu pai de os proteger eficazmente, os deixa para voltar ao seu país, suscita naturalmente a dúvida se os três filhos de Deimaco não entraram para a nau, no momento em que sai o filho de Lyco, porque este obteve deles que continuassem do falso Halys por diante o papel que ele desempenhara até ali, porque os novos protectores dos Argonautas eram mais práticos que ele na navegação que vai seguir-se. Que navegação era essa? Impossível sabê-lo ao certo, porque é impossível saber que estação ou que rio Apolónio substituiu pelo Halys [Sarmento 1887a: 155].

Apesar da ‘modéstia epistemológica’ de que Martins Sarmento dá testemunho no final desta passagem, não temos dúvida em reconhecer no seu espírito qual a geografia imaginativa que, consciente ou inconscientemente, se desenha por trás desta sua

325

‘Fosse qual fosse a verdadeira estação substituída pelo Halys, ela não podia deixar de ficar para aquém do

verdadeiro estreito, o Passo de Calais, e é bem sabido que, por não poderem romper pelo estreito, é que os fugitivos se escaparam pelo Reno e Ródano. Os Argonautas não podiam pois passar a segunda vez pelo suposto Halys para aí deixarem o filho de Licos’ (Sarmento 1887a: 154).

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interpretação sobre o episódio do embarque dos filhos de Deimaco. Os guias, que a narrativa de Apolónio alegoriza nos filhos de Deimaco, íntimos de Hércules, não são mais do que um dos representantes dos povos da corrente de colónias dos Estrímnidos, os mesmos que viviam em íntima relação com os Lígures de Tartessos e os Albiões de Inglaterra, esse ‘povo intermédio’ que dominava como ninguém as rotas da travessia do mar alto entre a Corunha e a Bretanha: enfim, os antepassados dos Lusitanos. Feita esta identificação, a restituição a que Martins Sarmento se propõe esclarece-se naturalmente. Estes guias são os que antecedem a viagem das Sereias, alegoria da travessia do Golfo da Gasconha, ou Biscaia, em que a crítica do autor as havia situado. A razão por que o filho de Licos deve sair da embarcação dos Argonautas e dar lugar aos filhos de Deimaco tem afinal esta razão de ser muito natural, do ponto de vista de uma viagem no Atlântico: a substituição de um piloto, ou um guia, que mais bem conheceria os pormenores da viagem entre S. Vicente e a Corunha, embora detivesse a informação geral sobre a viagem até o seu termo (o filho de Licos, com outras variantes nas diversas narrativas épicas), por um outro, ou outros, a quem se entregaria a missão específica de levar as embarcações fenícias a ousarem cruzar a rota do mar alto. A estes guias, e a nenhuns outros, deveria então atribuir-se a informação sobre as Sereias, ordem narrativa original que Martins Sarmento vê fragmentada e arbitrariamente recomposta na narrativa de Fineu, personagem que tomaria assim conta de atributos históricos dos vários informadores que se sucedem na viagem:326 É de ver que com a deslocação e com a profunda deturpação do episódio das Hárpias, se os filhos de Deimaco, primitivamente estavam de algum modo ligado a elas, todos os laços ficaram cortados e o papel dos três peritos sem um fim determinado, insignificante em suma, como hoje nos aparece [Sarmento 1887a: 156].

326

‘Os leitores perceberam já aonde nós queremos chegar com estas observações. Não serão os filhos de

Deimaco os práticos que informaram os mareantes da perfídia das Sereias ou Hárpias, indicando-lhes o caminho por alto mar, que sabiam ser costume seguir, para evitar aqueles perigos? Claro que não damos a esta opinião senão o valor de uma hipótese; mas em investigações da natureza da nossa nada se pode desprezar. (…). A mesma ou igual sorte teve, como já vimos, o rei Licos, reduzido pelo fantástico Fineu a um personagem muito secundário’ (Sarmento 1887a: 156 e 156).

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Martins Sarmento não o diz claramente, mas este é um ‘tipping point’ da narrativa restituída da viagem dos Argonautas. Neste momento, a viagem dos Fenícios, a que inaugura a presença dos povos mediterrânicos no Oceano Atlântico, e que a efabulação dos poetas gregos quase torna irreconhecível, traz para o palco da História da Antiguidade, os povos quase desconhecidos da fachada ocidental da Península Ibérica. Pela primeira vez, e é impossível não se sentir essa tensão específica na escrita de Martins Sarmento, o território em que o autor exumava as provas de uma população antiga, sob a forma de cidades fortificadas e de monumentos sepulcrais, era referido, nas páginas da História, ainda que sob a forma velada da alegoria. Sem chegar nunca a dizê-lo, Martins Sarmento, quando se refere ao rio Halys, em cuja região os Fenícios recrutariam, a conselho dos guias que os acompanhavam desde Tartessos, os pilotos que lhes ensinariam o caminho da travessia directa entre a Corunha e o Canal da Mancha, é num rio da Lusitânia que pensa; talvez a foz do Ave, rio em cuja margem se ergue Sabroso, ou do Minho, rio cuja homonímia com os heróis da Grécia havia já induzido em pensamentos semelhantes muitos autores de tempos mais antigos.327

Após o episódio dos filhos de Deimaco surge, na narrativa de Apolónio, o da estação da ilha consagrada a Ares, muito sublinhadamente referido na restituição de Martins Sarmento. Tal como no episódio anteriormente referido, também a questão dos guias dos Fenícios é aqui central para o investigador. Se o filho de Licos representava o ou os pilotos que auxiliavam os Fenícios na primeira parte da viagem; se os filhos de Deimaco eram, sob a forma da alegoria, os experientes ‘práticos’ que podiam assegurar uma segura travessia por mar alto entre a Corunha e a Bretanha, então, surge-nos agora Argus, nada menos que o próprio neto de Aetes, o rei do mais importante povo da ilha da Grã-Bretanha, como o guia necessário na última etapa da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, aquela que continha a passagem mais temida pelos marinheiros 327

Dissemo-lo atrás e queremos repeti-lo. Nada, na narrativa de Martins Sarmento distingue, de que maneira for,

esta suposição que aqui fazemos. É um intuição que surge da leitura continuada da sua própria obra, mas que ele muito explicitamente não sanciona: ‘No entanto a verdade é que tudo isto não passa de uma hipótese; e que, mesmo sendo mais do que isso, fora perder tempo tratar de saber, com os dados que fornece Apolónio, que estação na costa ocidental da Espanha podia corresponder ao sua Halys’ (Sarmento 1887a: 156).

310

mediterrânicos – o estreito das Colunas. A costumada efabulação a que Apolónio, segundo a interpretação de Martins Sarmento, submete a narrativa histórica original da viagem dos marinheiros mediterrânicos, não é suficiente, segundo o investigador, para entenebrecer totalmente os atributos que pertencem originariamente à narrativa histórica. A ilha de Ares, localizada por Apolónio no litoral do Ponto Euxino, é para Martins Sarmento uma ilha das costas da Bretanha, já em pleno Canal da Mancha.328 Nas referências que Apolónio faz à ilha de Ares, muitas são, segundo Martins Sarmento, adições do poeta, baseadas nas informações etnográficas das regiões do Ponto Euxino, onde pretende ver o cenário das aventuras dos Argonautas. Porém, entre essas informações, existem alguns elementos que o autor acredita terem passado directamente da narrativa original para o poema de Apolónio, e que assim diriam respeito à ilha do Canal da Mancha e não à do Mar Negro, que a viria a substituir e herdar os seus atributos: tem a ver, sobretudo, com a informação de que nesta ilha existiria um santuário sem tecto, construído pelas Amazonas que, habitando no continente em frente da ilha, ‘vinham ali fazer as suas devoções e sacrifícios’ (Sarmento 1887a: 158). Esta descrição coincidiria com uma equivalente de Dionísio Periegeta referente a uma ilha das costas da Bretanha, célebre pelas festividades que nela se faziam por mulheres em honra uma divindade orgíaca. As tradições desta ilha, que a tradição erudita haveria de identificar com a ilha dos Namnetes, na foz do Líger, tinham, na opinião de Martins Sarmento, uma significativa coincidência com a descrita por Apolónio: ‘uma das suas costumeiras era deixar o templo do deus a descoberto, tirando-lhes as peças do tecto’.329

328

Embora, para Martins Sarmento, em ‘parte alguma, como aqui, é para lamentar processo usado por Apolónio

de misturar notícias de duas fontes diferentes (…)’ (Sarmento 1887a: 157). Não é muito claro se Martins Sarmento se refere às propriamente chamadas Ilhas do Canal, Guernsey e Jersey, ou se se poderia referir às Scilly ou até à Ilha de Wight, mais próxima da costa da Inglaterra. Para o caso aqui presente, porém, essa é uma minúcia que não interfere com o sentido global que o autor pretende dar à narrativa: o fundamental é que seja qual for a ilha em questão ela se situe antes das ‘Colunas de Hércules’, i.e., o Pas-de-Calais. 329

‘Posidonius affirme qu’il y a dans l’Océan une petite île (…) habitée par les femmes des Samnites possédées

de Dionysos et voûtées à apaiser ce dieu par des rites mystiques et par toutes cérémonies sacrées. Aucun homme ne met le pied sur cette île; en revanche, les femmes elles-mêmes traversent l’eau pour s’unir à leurs maris et s’en

311

Da equivalência das duas histórias, ainda que se queira ver nela a comunidade de origem do culto ali referido, não pode dilucidar-se se a ordem de aculturação foi num sentido se no outro. Porém, um segundo indício vai tornando mais segura a identificação da ilha britânica com o suposto original da narrativa fenícia como o lugar destas tradições. Este indício seria dado pela passagem da narrativa da viagem dos Argonautas, na qual se refere uma estranha ‘tempestade de penas’ por que os heróis tiveram de passar neste mesmo episódio, e na qual o autor vê a alegoria de uma tempestade violenta de neve ou granizo, pela qual só poderia passar uma embarcação que navegasse em latitudes próximas da zona frígida da Terra.330 Garantida, pela presença dos guias ‘ingleses’, alegorizados nos netos do rei Aetes, a passagem tranquila do Pas-de-Calais, cuja substituição, na efabulação do perigo da viagem ‘inaugural’ necessária no âmbito da mundividência grega de Apolónio, levou, segundo Martins Sarmento, à desorganização de toda a narrativa original da argonáutica fenícia, os marinheiros mediterrânicos atingem finalmente o termo da sua viagem de ida: o país dos Albiões, a origem do mercado do estanho, que no poema de Apolónio se descreve como um cais de embarcações, na foz de um rio, em cujas margens se ergue a cidade de Citaia:331 A tétrica pintura não passa de um produto de pura fantasia. A propósito da mesma passagem, mencionada nos Errores, e onde o estreito aparece ladeado

retournent ensuite. La coutume veut qu’une fois par an elles enlèvent le toit du temple et en refassent un le même jour, avant de coucher du soleil, chacune y apportant sa charge de matériel’ (Estrabão [1969]: Liv. IV, p. 163). 330

‘They passed the Mossynoikoi and spent the day rowing near the island of Ares which faced them, as the soft

breeze had dropped in the early half-light. Soon they saw darting through the air one of the birds of Ares which inhabited the island; it shook its wings at the ship’s path and shot a sharp feather at it. (…). On their heads they placed the bronze helmets with their terrible gleam and the scarlet crests which waved in the air. Every second man rowed while the others concealed the boat beneath their lances and shields. As when a man covers his roof with tiles, both as an ornament for his house and to keep out the rain, and each tile fits exactly beside the next one, so did they cover over the ship by fitting the shields together’ (Apollonius, Jason and the Golden Fleece, p. 60-1). ‘Estas penas eram da mesma espécie das que choviam na Cítia e nas quais Heródoto já via flocos de neve, se não eram uma “chuva de pedras”, como a da Heracleia’ (Sarmento 1887a: 159). 331

‘No trajecto de uma a outra nenhum alusão há, já se vê, aos perigos do Passo de Calais que os expedicionários

tinham de atravessar. Nós sabemos já onde Apolónio e a sua escola foi localizar o estreito verdadeiro, e quanto aos perigos da sua travessia, eles não podiam ser pintados com mais negras cores do que o fez o nosso poeta’ (Sarmento 1887a: 159-60).

312

nada menos que por Cila e Caríbde, já fizemos notar que os companheiros de Ulisses nem sequer desconfiaram de que iam navegando por entre aqueles dois monstros, e o mitógrafo ficou deste modo mais fiel à verdade, porque a verdade foi que os Fenícios atravessaram o Passo de Calais sem a menor contrariedade. Apolónio, sem o querer, dá-nos a explicação do facto: é que desde a ilha Aretias por diante a nau dos Argonautas foi confiada à ‘perícia’ de Argus, que devia estar cheio de conhecer os perigos do estreito e a maneira de os evitar.

Cumpria-se assim, na restituição de Martins Sarmento, a etapa correspondente ao terceiro guia. Os marinheiros mediterrânicos, aconselhados inicialmente por um guia ‘andaluz’, dobraram o limite do mar de Cádiz e internaram-se em pleno Atlântico, mar até aí por eles desconhecido; da foz de um rio da Lusitânia ocidental, um guia ‘lusitano-galego’ providenciaria que pudessem então singrar a rota do mar-alto, desde o NW da Península Ibérica até uma ilha do Canal da Mancha; finalmente, um guia ‘inglês’ providencia à embarcação dos Fenícios passar pelo estreito deste canal sem que algum mal lhes sobreviesse. O termo da viagem é Citaia, uma cidade que Apolónio refere como ficando no extremo oriental do Mar Negro, na Cólquida. Para Martins Sarmento, é na costa oriental da Inglaterra que há de procurar-se a sua equivalente histórica. A sua probidade epistemológica não lhe permite ir mais longe do que afirmar que o rio que em Apolónio toma o nome de Fásis não é outro senão o Tamisa.332 Mas quem o lê, compreende, que para Martins Sarmento, esta cidade, que ao redor do século doze dominava inteiramente o comércio do estanho, ao ponto de os mais poderosos mercadores do Mediterrâneo se aventurarem por todo o Atlântico com o intuito apenas de participar no lucro do seu comércio, é uma ‘Londres pré-histórica’, uma capital económica do ocidente antigo.

Entre o momento de chegada dos marinheiros mediterrânicos à foz do rio Fásis, até ao momento em que partem em fuga, perseguidos pelos navios dos Colquídios, a argonáutica de Apolónio inclui, no que constitui um livro inteiro do seu poema, o terceiro, toda a narrativa relativa à estadia dos Gregos na corte de Aetes, as desventuras

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e perfídias de Medeia e Calcíope, das quais se aproveita Jasão para tomar o Velo de Ouro. Escusado será dizer que esta narrativa tem um escasso interesse para a interpretação de Martins Sarmento, que vê nela apenas a efabulação dos contactos propriamente comerciais entre Fenícios e Albiões. Convém, no entanto, dizer que o investigador vê nesses sucessos o eco de situações historicamente vivenciadas, o que virá a configurar um dos momentos mais difíceis de interpretar da historiografia sarmentiana.333 Se a geografia apoloniana desvirtua, na interpretação de Martins Sarmento, a viagem dos Fenícios entre Tartessos, estreitando-a nos limites do Mar da Mármara e do Mar Negro, mais o irá fazer, segundo o investigador, na parte referente à viagem de regresso, da ilha de Ea até à foz do Ródano. Esta distorção será tão mais violenta, porquanto o poeta grego pretende incluir nela uma geografia ‘italiana’, associada às estações do Adriático. Para levar a cabo a restituição desta parte da argonáutica fenícia, e porque os cenários agora escolhidos respectivamente por Apolónio, o Adriático, e por Martins Sarmento, a foz do Reno, são em tudo incomensuráveis, leva a que o investigador opte por uma estratégia hermenêutica de redução ao absurdo das localizações do primeiro: Começaremos por expor os factos, como os achamos em Apolónio, e depois de averiguar que eles são tão absurdos no cenário que o poeta lhes imagina, quão simples e naturais no que é exigido pela nossa crítica, ao passo que formos descortinando a causa das suas aberrações, iremos vendo como a verdadeira geografia se restaura, a bem dizer, por si mesma (Sarmento 1887a: 163).

332

‘Descer a mais individuações seria entrar no terreno das hipóteses, de que, como o leitor tem visto, nos

havemos abstido o mais que podemos’ (Sarmento 1887a: 161). 333

A fusão entre os elementos efabulados e os supostos originais históricos de que supostamente dão conta, é

levada a cabo por Martins Sarmento a uma minúcia que deixa transparecer uma das componentes principais da sua ‘filosofia da história’. O papel que, por exemplo, é reservado às acções individuais das personagens como tendo um papel preponderante nos resultados práticos de uma viagem de carácter comercial, como a que aproximaria os interesses de Fenícios e Albiões, permite reconhecer na narrativa d’Os Argonautas de Martins Sarmento, quase uma expressão do ‘romance histórico’, que o Romantismo haveria de popularizar entre os historiadores e o público de meados do século dezanove, e a que Herculano daria um impulso inicial.

314

Os Argonautas são obrigados, por circunstâncias que se prendem com a intriga política entre os Albiões, a fugir do ancoradouro na foz do Tamisa aonde os guias ‘ingleses’ os haviam trazido no termo da primeira viagem. Com eles embarcam alguns elementos dos Albiões, e entre eles nada menos que a filha e os netos do rei. A narrativa de Martins Sarmento adensa-se bastante no que diz respeito a esta última parte da viagem dos Argonautas. O leitor fica com a sensação, que não existe tanto na primeira parte, de que os universos ficcional e histórico têm limites muito pouco precisos. Em todo o caso, é a um dos netos do rei Aetes que os Argonautas devem a informação de um ‘caminho continental’ que lhe permitiria passar do Mar do Norte para o Mediterrâneo, evitando assim ter de regressar pelo mesmo trajecto.334 Na narrativa apoloniana, os marinheiros da Argo atravessam todo o Mar Negro para fugir à frota dos seus perseguidores, até atingir a foz do Ister, rio que a mitografia e a erudição posteriores consideram ser o Danúbio. Na travessia do Mar Negro pelo mar-alto, que Martins Sarmento não hesita em considerar como impossível, dada a técnica de navegação grega dos tempos pré-homéricos, vê o autor a referência histórica da travessia do Mar do Norte desde a foz do Tamisa até à foz do Reno, exactamente o mesmo trajecto que havia já identificado para a viagem de Ulisses, entre Ea e o País dos Cimérios. Na foz do Ister, os Argonautas são encurralados pelos navios perseguidores. Na geografia fantástica de Apolónio, a frota de Aetes ter-se-ia dividido em duas, uma das quais persegue directamente a Argo pela foz do Ister, enquanto outra se dirige ao estreito do Bósforo, pelo Mar da Mármara e os Dardanelos, contorna a península grega até se internar pelo Adriático, esperando pela Argo que magicamente há-de surgir por um rio imaginário que, a partir do curso alto do Danúbio, os lançaria também naquele mesmo mar. A hermenêutica de Martins Sarmento restitui de uma forma muito simples a geografia histórica que se esconde sob a efabulação de descrição de Apolónio. Em primeiro lugar, não seria ao Danúbio que a geografia argonáutica se referiria, mas ao 334

Assim, por exemplo, em nenhum lugar é perfeitamente aclarado, se a presença de Medeia e dos netos de

Aetes na Argo, são apenas o símbolo de uma informação que é providenciada aos Fenícios sobre o ‘caminho continental’, se neles se alegoriza a presença de guias ou pilotos que os acompanhavam, ou se são alguns dos próprios elementos da família reinante dos Albiões que acompanham os Fenícios na sua viagem de regresso.

315

Reno, cuja desembocadura em vários braços, tal como a do Danúbio, facilmente se prestaria a confundir-se. Em segundo lugar, a divisão da frota dos Albiões em duas esquadras, percorrendo caminhos tão disparatadamente diversos, tem todo o sentido neste novo cenário, porque seria, para o autor, muito natural que uma frota em perseguição de uma outra, que se interna no delta de um rio, se divida para que uma das esquadras fique a guardar a saída inevitável do navio fugitivo para o mar, enquanto a outra percorre o delta em sua procura. Assim, para Martins Sarmento, a diversidade que Apolónio aponta para os trajectos das duas esquadras, resultantes da divisão da frota dos Albiões, ganha inteiro sentido se for translocada para a foz do Reno, rio que manifestamente se dividia em dois braços, entre os quais se desenhava uma ilha que ainda existia no tempo dos Romanos, a mesma ilha em que a narrativa de Apolónio situava o encontro de perseguidores e perseguidos: A Peuce de Apolónio converte-se então numa ilha, formada pela separação dos dois braços do Reno, chamada no tempo dos Romanos “Batavorum insula” (…). Todas estas notícias, por isso que contrariam o seu modo de ver [de Apolónio], não são coisas da sua lavra; são incontestavelmente copiadas da velha legenda; e temos então que pelas suas próprias revelações a ilha onde se deu o conflito dos Argonautas e de Absirto, nem foi a Peuce do Danúbio, nem uma ilha da Ístria, mas uma ilha habitada por uns Feácios do Mar do Norte, em suma a Feácia da Odisseia. A primeira Absírtide é pois a Feácia da Odisseia, a Batavia dos Romanos, e o nosso poeta, para se compor com os seus prejuízos, teve de a cindir em duas, a Peuce do Danúbio e uma ilha do Adriático, dispersando por ambas os incidentes do episódio [Sarmento 1887a: 171].

A narrativa de Apolónio faria ainda referência a uma segunda ilha, lugar em que o almirante dos Colquídios seria assassinado por Jasão, sob influência da astúcia de Medeia. Nela, o investigador parece ver a reprodução de um facto histórico, ainda que não fiquem muito claros todos os pormenores em que se desenvolve a alegoria. A ilha em que Absirto morre, a que Martins Sarmento chama ‘segunda Absírtide’, por oposição à anterior, que se situava entre os dois braços da desembocadura do Reno, era colocada pela geografia de Apolónio, igualmente no Adriático; na restituição levada a cabo pelo investigador, podia concluir-se, pelos elementos propriamente narrativos 316

que a ligavam à anterior, que ela estaria igualmente no perímetro do bloqueio que a frota dos perseguidores impunha aos perseguidos. Deveria, portanto, tratar-se de uma ilha situada igualmente na foz do Reno, mas em posição mais interior do que a primeira. Tendo perfeita noção de que a morfologia da foz do Reno é de uma grande instabilidade e de que o seu aspecto pode, num espaço de cerca de trinta séculos modificar-se inteiramente, ainda assim Martins Sarmento não resiste em fixar nos contornos do presente a geografia histórica do passado.335 Os elementos descritivos presentes em Apolónio, o facto da ilha ser deserta, de aí se consagrar a uma divindade infernal (alegoria presente no facto de Medeia ser uma sacerdotisa), a presença de uma ilha pútrida, atributos que o investigador reconhece nos elementos que a viagem de Ulisses identificava no País dos Cimérios, conduzem o autor igualmente a valorizar uma narrativa histórica de uma viagem fenícia ao Mar do Norte. A partir desta identificação, e numa estratégia de restituição na qual não é impossível reconhecer alguma circularidade interpretativa, uma tautologia, o autor admite que a geografia histórica que mais se adequa à ‘segunda Absírtide’ é um vasto tracto de terra que se estende na confluência ‘do Vahalis e do Mosa’ (Sarmento 1887a: 173). Uma terceira ilha encerra, na narrativa de Martins Sarmento, o episódio da perseguição e fuga dos Fenícios, nas imediações da foz do Reno. A ‘última das Eléctridas’ seria a ilha em que acostaram os Argonautas a sua embarcação, após terem sido capazes de furar o bloqueio que a frota dos Colquídios lhes impunha na foz de um rio, que a mitografia de Apolónio fazia situar no Adriático. Segundo esta mitogeografia, esta ilha antecedia o estreito pelo qual os marinheiros da Argo pretendiam atingir de novo o caminho de regresso. A geografia restituída de Martins Sarmento conjuga as duas ordens de informações para concluir que se está em presença de uma ilha que se encontra em posição mais longínqua em relação à foz do Reno, em direcção ao Pas-de-Calais. A sua interpretação recolhe, neste âmbito, dois argumentos importantes: por um lado, na foz do Pó, rio que os mitógrafos, escoliastas e eruditos posteriores identificam com o Erídano da lenda,

335

‘As bocas do Reno têm sofrido tais alterações que seria quase insensata a ideia de querer precisar uma

localidade tão mal determinada pelo nosso poeta’ (Sarmento 1887a: 172).

317

não existe qualquer ilha;336 por outro, o próprio Apolónio refere, no contexto deste episódio, que os Colquídios, quando em perseguição dos Argonautas, ‘estavam dispostos a procurar o inimigo por todo o Mar Satúrnio’, sendo que a evocação de Saturno ou Crono era utilizada na geografia da Antiguidade para designar o Mar do Norte (Sarmento 1887a: 174).337 No Mar do Norte, as ilhas que possam existir entre a foz do Reno e o estreito de Calais são apenas as que pertencem ao delta do rio. Por isso, Martins Sarmento não hesita em identificar a ‘última Eléctrida’ da lenda com a última das ilhas que os braços do rio desenham no litoral dos Países Baixos, derivando daí mais uma informação que respeita ao trajecto dos Fenícios. A única razão por que os Fenícios se dirigiriam de novo na direcção do estreito seria a convicção de que este podia afinal ter sido reaberto. Ao constatar que tal não sucedia foram obrigados a escolher o caminho fluvial do Reno e Ródano para regressar a casa. Neste momento apenas gostaríamos, como aconteceu nas releituras das interpretações que Martins Sarmento faz das restantes lendas gregas, com que suporta a sua argonáutica fenícia, de sublinhar a profunda translocação geográfica a que o autor submete a viagem ‘adriática’ dos Argonautas: E aqui está como de uma travessia da costa oriental da Inglaterra para a foz do Eridano, Reno, e das cenas passadas em duas ilhas da foz do Eridano e numa outra sobre o Mar do Norte, Apolónio ou a sua escola engenhou a mais que fantástica fuga dos Argonautas, rompendo, através do Euxino, da Cólquida para a foz do Danúbio, do Danúbio para o Adriático, até pararem nas imediações do seu Eridano, o Pó. Mas não podia ser de outro modo, 336

Martins Sarmento sublinha a contradição, fazendo uso da autoridade mesma de Estrabão: ‘La domination de

Diomède sur la Mer Adriatique est attestée par les îles de Diomède et par l’histoire des Dauniens et d’Argos Hippium. Nous n’en rapporterons ici ce qui éclaire notre description et nous laisserons de côté, comme il convient, la plus grande partie, qui consiste en mythes et en inventions telles que le récit de Phaéton et des filles du Soleil métamorphosées en peupliers noirs sur les bords de l’Éridan, lequel n’existe en aucun endroit de la terre, encore qu’on le dise voisin du Pô, et des pintades qui y vivraient, car il n’existe rien de pareil non plus dans ces lieux’ (Estrabão [1969]: Liv. V, p. 48-49). A localização da ilha ‘fantasma’ continua presente na geografia interpretativa da Argonáutica de Apolónio, como se pode ver nos mapas que acompanham comentários recentes à obra do poeta: e.g., Hunter (1993): ix-xxxi, e mapas anexos. 337

. ‘When the Colchians realized that their leader had been killed, they hastened to search for the Argo and the

Mynians over the whole area of the sea of Kronos (…)’ (Apolónio, Jason and the Golden Fleece, p. 110-1).

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desde que para os Gregos o ponto de partida era a Cólquida, o rio demandado pelos fugitivos era o Danúbio, e o Eridano, onde realmente se tinham passado as principais peripécias da perseguição e o seu desenlace, tinha sido identificado com o Pó. Mas não é manifesto que só unicamente por seguir passo a passo a narrativa histórica foi possível encadear esta aturada série de absurdos? [Sarmento 1887a: 175].

A partir desta identificação, toda a narrativa subsequente de Apolónio é reformulada segundo os princípios desta identificação e ganha um sentido renovado na restituição de Martins Sarmento. Referimo-nos às estações e episódios que se intercalam (para Martins Sarmento esta é a palavra apropriada) entre a fuga da ‘última das Eléctridas’ e a chegada à corte de Alcínoo. Segundo a narrativa de Apolónio, quando os Colquídios pretendem perseguir os Argonautas pelo Mar de Crono, uma divindade olímpica destroça a sua frota e frustra os seus intentos. No contexto, que já referimos, de uma concepção da narrativa que se aproxima bastante da do ‘romance histórico’, Martins Sarmento traduz esta locução poética de Apolónio como a alegoria de uma tempestade a que a argonáutica fenícia faria menção, por ter sido importante para a fuga com sucesso. Os Argonautas | Fenícios, constatando que a passagem do estreito lhes estava interdita, regressam à foz do Reno e entregam-se à boa vontade do monarca da região. Para o investigador, estes são, naturalmente, os Lígures que o périplo da Ora maritima ali identificava e que, mais tarde, seriam expulsos pelos Celtas, quando estes passaram da Escandinávia na direcção da Europa central. E é esta situação histórica que o autor acredita ser alegorizada na chegada dos marinheiros à corte de Alcínoo e Arete. Neste episódio, dois elementos narrativos são bem um exemplo de como o idealismo histórico de Martins Sarmento habita plenamente a sua historiografia. O modo como simples pormenores pessoais ou narrativos tomam lugares tão proeminentes na sua teoria mostra, de modo inequívoco, qual a filiação historiográfica do investigador. Por um lado, os perseguidores albiões, ao darem-se conta de que não podiam levar a bom termo a perseguição que moviam aos barcos fenícios, ‘não se atreveram a voltar à sua pátria, por medo da vingança de Aetes [e] domiciliaram-se por ali’. Também, Martins Sarmento não considera estranho, ao forçar a identificação dos Hilenses com os Feácios e com a corte de Alcínoo, que os aqueles ‘pouco favoráveis aos seus hóspedes, durante 319

a vida de Absirto, mudaram de tal a sorte, que “excogitavam com eles o caminho a seguir”’ (Sarmento 1887a: 176). Num e noutro caso são circunstâncias absolutamente paradoxais que autorizam a dinâmica de interpretação histórica. A historiografia de Martins Sarmento, sobretudo a que se revela nos episódios referentes à viagem dos Argonautas ao Mar do Norte, é de uma inteira e total antropomorfização, ou melhor, ‘heroicização’, em que as personagens, consideradas individualmente, e ao sabor dos seus caprichos e atitudes individuais, fornecem a explicação de eventos com a importância da do estabelecimento de uma rede comercial do estanho entre os Fenícios e os povos do Mar do Norte.338 No esforço de restituição integral das narrativas lendárias com a viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, Martins Sarmento sente a necessidade de incluir os registos narrativos de todas as viagens narradas por Apolónio em relação aos Argonautas numa única narrativa (e geografia) histórica, tal como já o tinha feito, de resto, com as lendas equivalentes das viagens de Hércules e de Ulisses. Assim, a passagem fantástica da Argo do turbilhão do Erídano (Pó) para as nascentes do Ródano, narrada por Apolónio, é, para Martins Sarmento, apenas mais um instrumento do tipo ‘deus ex machina’ para ligar duas narrativas que originalmente não eram sequenciais, mas coincidentes. Segundo a hermenêutica do investigador, nas lendas gregas conviveriam registos históricos da ‘primeira viagem dos Fenícios’ ao Atlântico, europeu e africano, com versões mais ou menos efabuladas dessa viagem. A

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A identificação original de Hilenses e Feácios pode reconhecer-se, segundo Martins Sarmento, no facto de ter

sido entre os primeiros que se delineou o plano de fuga que os segundos haveriam de pôr em prática. Para o investigador, a demonstração mais evidente de que a mitografia da escola de Apolónio separara artificiosamente é a necessidade de que o autor tem de duplicar, contando-o por duas vezes, uma em relação aos Hilenses, outra em relação aos Feácios, o castigo que os marinheiros de Aetes saberiam ser supliciados por este quando regressassem sem o triunfo da conquista da Argo. As passagens a que Martins Sarmento se refere são as seguintes: ‘When the Colchians realized that their leader had been killed, they hastened to search for the Argo and the Mynians over the whole area of the sea of Kronos, but Hera restrained them by terrible lightning flashes from the sky. In the end—for they had come to loathe the thought of living in the Kytaian land in their terror of Aietes’ cruel anger—they scattered far and wide to settle permanently’ (Apolónio, Jason and the Golden Fleece, p. 110-1); ‘When therefore the Colchians realized the futility of their request and Alkinoos ordered them either to respect his ordinances or to remove their ships far from his harbours and country, they pleaded with him to receive them as allies, since they were frightened of their king’s threats. For a long time they lived in the island among the people of Phaeacia’ (Apolónio, Jason and the Golden Fleece, p. 127).

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escola de Apolónio, ao pretender dar conta de todas as narrativas que a cultura grega foi acumulando sobre a viagem dos Argonautas, sentiu necessidade de apresentar todas as versões como sequenciais, precisando por isso de as ‘emendar’ com conectores textuais estritamente criados para o efeito; nestes se incluíam as tempestades, os sonhos ou as travessias fantásticas. Porém, o que mais tranquilizava a hermenêutica de Martins Sarmento era o facto de, ao apresentar, como sequenciais, narrativas que diziam respeito a uma mesma realidade histórica, a mitografia grega obrigatoriamente ter de repetir personagens, lugares e episódios, cuja identificação permitia uma restituição quase integral da geografia histórica original. A proposta de interpretação de Martins Sarmento para a geografia ‘tirrena’ da narrativa de Apolónio, baseia-se justamente numa estratégia hermenêutica deste tipo. Assim, o ‘ligador narrativo’ do turbilhão apresenta fantasticamente a Argo já em pleno Mediterrâneo, para dar origem a uma série de episódios que, para Martins Sarmento, são apenas mais uma versão viagem ao Mar do Norte: O leitor percebe sem dificuldade o motivo de toda esta embrulhada. Sucede com Apolónio, pouco mais ou menos o que vimos suceder com a Odisseia nas duas variantes sobre a viagem ao Mar do Norte. O roteiro que o poeta nos descreve desde o Circeu de Itália a Córcira é realmente o mesmo que nos descreveu desde a foz de Cio aos Feácios-Hilenses; e, se o nosso poeta não estivesse obcecado pelos prejuízos da geografia homérica, mas fizesse seguir aos seus heróis o verdadeiro roteiro da Odisseia, levá-los-ia, não a Córcira, mas à Feácia da foz do Reno. O duplicado dos itinerários passa despercebido até à última estação; porque o primeiro foi tão desnaturado com as identificações geográficas da Propôntida e do Euxino, que todas as suas analogias com o segundo desapareceram completamente; mas, aproximando a terra da Feácia-Córcira e os acontecimentos que se passam numa e noutra, os expedientes adoptados pelo nosso poeta, para ligar as duas séries de aventuras e dar-lhes um remate aceitável, ficam inteiramente a descoberto [Sarmento 1887a: 176-7].

O expediente a que especificamente Martins Sarmento se refere, no âmbito da conclusão da viagem dos Argonautas, é o que teria levado, na sua opinião, Apolónio a separar as narrativas dos Hilenses e dos Feácios. No primeiro destes episódios, a 321

narrativa é ‘cortada bruscamente’, para ser recuperada no cenário da Córcira. Os protectores que se adivinhavam serem os Hilenses, são afinal os Feácios da corte do rei Alcínoo, pela simples razão que uns e outros dizem respeito, na opinião do investigador, a uma mesma memória histórica dos Fenícios, na sua relação com os Lígures da foz do Reno. Martins Sarmento, pode, graças à denúncia deste expediente, reatar o fio narrativo original da argonáutica fenícia. Segundo a sua leitura da narrativa de Apolónio, os Fenícios teriam aproveitado a tempestade que havia destroçado a esquadra dos seus perseguidores para abandonar a ilha do delta do Reno mais próxima do estreito de Calais, a ‘última das Eléctridas’, e retornar à foz do Reno com o intuito de pedir a protecção aos governantes do povo que ali residia. Deste modo, todas as cenas que dizem respeito ao episódio dos Argonautas na residência de Alcínoo – especialmente a astúcia de Medeia –, considera-os o autor como uma descrição dos eventos históricos que opuseram os Fenícios aos Lígures da foz do Reno; a extensão que permite à alegoria não fica clara nas palavras do autor, mas parece poder inferir-se que não rejeita que as figuras de Medeia, Arete e Alcínoo possam de facto representar figuras históricas, pelo que, mais uma vez, temos oportunidade de ver como pode detectar-se em Martins Sarmento um ‘idealismo historiográfico de tipo heróico’.339 Os pormenores do episódio dos Argonautas na corte de Alcínoo, a lamentação de Medeia, a conivência de Arete e a magnânima decisão do monarca não são importantes. Apenas importa para a releitura que fazemos aqui da interpretação de Martins Sarmento, que por causa da decisão tomada por Alcínoo, os Argonautas ficam livres para poder seguir o caminho do Reno. A ser recuperada para o cenário da realidade histórica de que pretende dar conta, esta medida significa que os Fenícios foram protegidos pelos Lígures, face às ameaças dos povos da Inglaterra, os Albiões, sendo por eles

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A equivalência das personagens de Alcínoo e Arete com as da Odisseia, permite a Martins Sarmento, na usual

interpretação circular que faz das duas narrativas, localizar no Mar do Norte a acção que Apolónio situa à saída do Adriático, pois que na Odisseia foi essa a localização que, através de uma estratégia hermenêutica ‘fenomenológica’, atribui ao reino de Alcínoo: ‘Para prova de que estamos realmente na Feácia do Reno, na Feácia dos Errores, lembremos que a protectora de Medeia se chama Arete e seu marido Alcínoo, tal qual como na Odisseia’ (Sarmento 1887a: 179).

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aconselhados a utilizar uma rota fluvial que os poderia fazer chegar ao Mar Mediterrâneo. Esta equivalência de competências é de grande significado no contexto da teoria interpretativa de Martins Sarmento, no que diz respeito ao domínio das rotas de comercialização do estanho. O que o investigador conclui das informações ministradas pelo episódio da corte do rei Alcínoo é que, no momento em que os Fenícios entram em contacto com os povos do Mar do Norte, o espaço de comercialização do estanho estava dividido em duas grandes áreas de influência: uma, marítima, que os Albiões, dotados de uma esquadra poderosa, dominavam quase por si sós; e outra, continental, responsável pelo domínio das redes terrestres de difusão do estanho, cujo lugar chave seria a foz do Reno, que os Lígures deteriam em seu poder: No verdadeiro teatro dos sucessos tudo se explica sem esforço. Por possantes que sejam as forças da gente de Aetes [os Albiões], nada podem valer contra todo o povo dos Feácios [os Lígures] que as varreriam num instante das águas do seu rio. A gente de Aetes cede à força maior; e de certo modo se ririam da sentença de Alcínoo, se os protegidos deste se lembrassem de tentar ainda a saída pelo estreito. Mas nisso não se pensa já; o caminho é o do Reno e Ródano, o mesmo que noutro texto os Hilenses excogitavam com os estrangeiros. (…) Assim, se da travessia da Inglaterra para a foz do Reno e dos factos passados em duas ilhas deste rio e na Eléctrida sobre o Mar do Norte, Apolónio arranjou as coisas de modo que obriga os seus heróis a percorrer um itinerário, começando na Cólquida e acabando na foz do Pó, já vimos as razões porque, agora das últimas aventuras, passadas na foz do Reno, arranja-nos um itinerário não menos fantástico, começando na foz do Pó e vinda a acabar na Córcira, por não perceber que duplica uma viagem única e por se vítima das fantasias da “geografia homérica”. E no entanto é ele mesmo que nos vai denunciando as causas dos seus equívocos, e nos fornece elementos seguros para a restauração do verdadeiro itinerário, graças à fidelidade com que reproduz a velha legenda, mesmo quando a desorganiza (Sarmento 1887a: 181 e 182).

A narrativa de Apolónio que Martins Sarmento considera como representante da verdade histórica de uma viagem dos Fenícios ao Mar do Norte termina neste ponto, uma vez que a viagem à Líbia, que se inicia por uma tempestade que sobrevém quando 323

os marinheiros da Argo se aproximavam do destino da sua viagem, corresponde a uma interpolação, na opinião do crítico, da narrativa histórica original da viagem dos Fenícios à costa atlântica de África, como antes já se deu conta. II. 2.4. A narrativa restituída Uma vez reconhecida uma ‘voz narrativa’ fenícia sob alguns episódios das lendas gregas, Martins Sarmento está em condições de reconhecer quase integralmente os passos da ‘primeira viagem’ dos Fenícios ao Mar do Norte, as razões que a justificam, os episódios que a constituem, além de, ponto principal da sua hermenêutica, reconhecer os diversos povos indígenas, de filiação ligúrica, com que aqueles marinheiros mediterrânicos entraram em contacto. O mapa que a seguir apresentamos ilustra os pontos principais da geografia histórica assim restituída. Martins Sarmento considera lícito reconhecer, nas narrativas dos Argonautas e lendas congéneres, uma memória histórica, em que são narrados os factos concretos relacionados com uma viagem levada a cabo pelos Fenícios, com uma intenção muito específica de descobrir um caminho para uma certa ilha cuja fama era já corrente no Mediterrâneo, mas que se situava em lugares que nunca tinham sido antes atingidos pela navegação dos povos mediterrânicos. O que garantia celebridade a esta ilha era um ‘velocino de ouro’, em que Martins Sarmento vê a alegoria do estanho; a nomenclatura posterior de ‘Cassitérides’ dada às ilhas Britânicas, ou às penínsulas que a constituíam, seria, segundo o autor, mais uma indicação a demonstrá-lo.340 A importância do feito conseguido pelos Fenícios, o monopólio do comércio daquele produto, desde a origem até aos principais mercados do Mediterrâneo oriental e o carácter pioneiro da viagem que foi necessário fazer para o atingir, eram razões suficientes para que a tradição guardasse a memória do feito, que a invulgar dinâmica da cultura grega haveria de transformar na viagem fantástica da Argo, a ‘nau divina’, que com a ajuda dos deuses do Olimpo haveria de chegar onde nunca outra embarcação chegara anteriormente. A intenção dos Fenícios em atingir a terra da origem do estanho

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Segundo Martins Sarmento, a fama do estanho de Inglaterra teria sido recolhida pelos Fenícios na foz do

Ródano, justamente porque era aqui que o caminho fluvial do seu comércio contactava com o Mediterrâneo, e onde os Fenícios haviam estabelecido então colónias diversas (Sarmento 1887a: 186).

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poderia, para Martins Sarmento, identificar-se na tradição recolhida por Estrabão sobre as três viagens consecutivas que aqueles haviam feito ao Ocidente.

Figura 7 – A ‘geografia argonáutica’ restituída Segundo Martins Sarmento (1887), Os Argonautas, passim. A cheio, o trajecto correspondente à viagem ‘europeia’ dos Fenícios; a pontilhado, a viagem ‘africana’. A tracejado, a eventual viagem de regresso a Tiro, suposta por Martins Sarmento, mas não presente na ‘efabulação’ de Apolónio.

Na segunda expedição dos Fenícios ao Ocidente, Martins Sarmento identifica os primeiros contactos que estes povos iniciariam com os indígenas vizinhos de Tartessos e de Gades, com os quais se relacionariam ao ponto de serem eles que, no momento em que as embarcações fenícias definitivamente se dirigem à rota atlântica, providenciam os guias que lhes hão-de indicar o caminho. Estes, alegorizados no filho do rei Licos, serviriam de pilotos práticos e experimentados até ao momento em que uma dificuldade específica de navegação, a travessia por mar-alto, exigisse a presença de pilotos oriundos do noroeste da Península Ibérica. É a primeira fase da viagem da argonáutica fenícia, a que poderíamos chamar ‘tartéssica’, de acordo com a nacionalidade do guia que os acompanha, e que incluiria os episódios referentes às estações entre Tartessos e a foz do rio Halys, rio que Martins Sarmento situa inquestionavelmente na costa ocidental da Lusitânia.341 341

No conhecimento circunstanciado, por parte de Licos (ou do seu alter ego hermenêutico, Fineu), das

características do caminho até ao seu destino final Martins Sarmento vê a expressão não só da unidade civilizacional dos povos ligúricos ocidentais mas também a da existência de uma navegação atlântica pré-fenícia: ‘A tradição confessava tão francamente que a via marítima para o Mar do Norte já era frequentada antes dos Fenícios, que Fineu

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No país de Licos, em cuja amizade pelos Argonautas, Martins Sarmento vê o estabelecimento de relações diplomáticas que os indispõem contra outros povos vizinhos, alegorizados no episódio da Bebrícia, a argonáutica fenícia conservaria a memória da morte de alguns dos seus marinheiros, situação que tem a vantagem hermenêutica de permitir reconhecer um culto a divindades infernais situadas na sua região. Esta espécie de Averno, referido na Argonáutica, coincide, para o investigador, com a Erebea Palus referida no périplo de Avieno, espécie de comprovação posterior da perenidade de um mesmo culto na costa meridional da Espanha atlântica, que as viagens de Apolónio viriam a identificar com Circe. Ainda na costa atlântica meridional de Espanha ou, mais rigorosamente, no seu limite geográfico e passagem para a costa ocidental da Península Ibérica, puderam os marinheiros fenícios guardar a memória de um espectáculo que haveria verdadeiramente de os impressionar, o ocaso do Sol no grande Oceano. O carácter inesperado daquele fenómeno natural seria deturpado pelas lendas gregas que não podiam conhecer o cenário em que ele se dava, e transformado por Apolónio no episódio da ilha Tínia em que os marinheiros da Argo se impressionaram com a passagem do Apolo Matinal. Na mesma medida em que reconhece a transposição do tempo sideral, também Martins Sarmento estabelece que o templo ali referido haveria de situar-se nas proximidades do Cabo de S. Vicente, onde justamente as fontes clássicas faziam referências a umas divindades nocturnas, em cujo santuário não podia aceder-se depois que o Sol se escondesse. Assumindo que o episódio do Apolo Matinal se devesse localizar em S. Vicente, e de que a substituição dos guias ‘tartéssios’ pelos do NW da Península Ibérica

dirá aos Argonautas: “no caminho para Ea não vos hão de faltar informadores e guias”’ (Sarmento 1887a: 190, nota 8). A passagem de Apolónio aqui referida por Martins Sarmento é a seguinte: ‘Once you have safely passed the deadly rocks, my child, have confidence: god will guide you on a different route back from Aia, and there will be escorts enough on your way there’ (Apolónio, Jason and the Golden Fleece, p. 45-6). Não é nossa intenção discutir a validade histórico-arqueológica de uma navegação atlântica mantida entre a Península Ibérica, especialmente o Noroeste, e as Ilhas Britânicas; porém, não podemos deixar de fazer referência a que a crítica contemporânea não é contrária a reconhecer uma especialmente forte influência do ‘arco atlântico’ na organização do registo arqueológico ao longo de toda o primeiro milénio a.C.: ‘Cada una de estas regiones – la Escocia atlántica, Irlanda y Noroeste peninsular – contribuye a un amplio continuum cultural, pese a significativas divergencias locales, que se sitúa en marcado contraste a la tradición centro-europea (…)’ (Harding 1990: 16 apud González Ruibal 2003: 447).

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(‘estrímnico’?) deveria ter lugar nas proximidades da Corunha, ou pouco antes, toda a parte da narrativa entre estas duas estações ganha uma importância redobrada na hermenêutica de Martins Sarmento, por dizer respeito ao litoral do território em que as suas próprias actividades arqueológicas se localizavam. Martins Sarmento, porém, é em extremo cuidadoso em proceder a uma homologia minuciosa entre os eventos narrados na tradição argonáutica e o significado que eles poderiam deter nos cenários a que supunha que pertenciam: Notícias relativas às costas do ocidente da Espanha nenhuma nos ficou; ou, se sim, de tal sorte as desfiguraram os mitógrafos gregos com as suas deturpações, que o mesmo é que se as não conservassem [Sarmento 1887a: 191].

Na foz do rio Halys, a narrativa de Apolónio introduz o episódio do embarque dos filhos de Deimaco. Para Martins Sarmento este é o início da segunda fase da viagem dos Fenícios ao Mar do Norte, pois seria aqui que, de acordo com a ousada restituição proposta pelo investigador, os guias ‘tartéssicos’ abandonariam as embarcações fenícias, para dar lugar a uns pilotos mais experimentados com as singularidades da travessia entre a Península Ibérica e a Bretanha, e a que o próprio autor se sente tentado em dar a nacionalidade ‘estrímnica’.342 A esta travessia pertence o importante episódio das Sereias (deturpado, violentamente, segundo Martins Sarmento, na versão das Hárpias de Apolónio), alegoria dos encantos e perigos que, simultaneamente, poderia oferecer a navegação costeira pelo fundo do Golfo da Biscaia. No sudoeste da Bretanha, mais uma vez os marinheiros Fenícios recebem a ajuda preciosa de guias experimentados, quando, fugindo a um naufrágio, alguns marinheiros ‘albiões’ são recolhidos a bordo das embarcações dos primeiros. A terceira fase da viagem dos Fenícios inicia-se assim na ilha consagrada a Ares, lugar em que recolhem os náufragos, os guias ‘albiões’ que detêm a chave da navegação do perigoso estreito de Calais, responsáveis por que essa travessia se faça sem incidentes. 342

‘As estações nomeadas no périplo fenício do século

VI

(…) eram Achale, em frente da baía do Sado; baía do

Tejo; ilha Pelegia, pelas alturas de Aveiro; foz do Lima; ria de Arosa (Padrão); Corunha, perto do promontório Oestrymnis (Cabo de Ortegal)’; ‘Segundo o périplo (…) os Argonautas deviam encontrar na Corunha a população que deu ao Ortegal o nome de Oestrymnis, e que depois emigrou para a Inglaterra (…)’ (Sarmento 1887a: 192, notas 9 e 10).

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É neste episódio que podemos ver uma das mais evidentes incursões de Martins Sarmento num estilo historiográfico profundamente idealista, antropomórfico e ‘heroicizante’, que não hesita em fazer uso dos elementos ‘extraordinários’ da narrativa como expressões de verdade histórica: É aí que entra em cena um dos principais actores do movimentado drama, que converteu a história de uns mercadores fenícios numa das mais formidáveis tragédias conhecidas, e que muitos cuidam ter saído apenas da cabeça dos poetas gregos, quando eles não fizeram mais do que copiá-la da realidade histórica [Sarmento 1887a: 193].

Esta frase, na sua aparente simplicidade, encerra alguns dos equívocos historiográficos que mais profundamente habitam a obra científica de Martins Sarmento, ao não estabelecer limites precisos entre uma informação ‘documental’ que a crítica positiva necessariamente exigiria, e o carácter vibrante da narrativa do ‘romance histórico’ que, a muitos níveis, transparece na obra do autor. É a partir deste momento que a hermenêutica de Martins Sarmento se torna mais ambígua, quando, ao pretender dar conta da narrativa original que se pode aceder a partir do livro terceiro de Apolónio, inclui todas as manifestações estritamente pessoais, subjectivas, por vezes até isolando o estado de espírito das personagens ficcionais, neles reconhecendo o motor da dinâmica histórica: a família de Aetes substitui quase inteiramente os actores sociais do drama que supostamente pretende dar conta. Para que se tenha uma ideia do carácter ‘romanceado’ que a narrativa crítica de Martins Sarmento atinge nas passagens que dizem respeito à efabulação da narrativa histórica da parte final da viagem dos Argonautas, basta ler o capítulo

X

d’Os

Argonautas, de que não resistimos a trazer aqui um excerto, ainda que um pouco longo: Aetes replica violentamente que percebe muito bem toda aquela comédia, à sombra da qual o que se quer é arrancar-lhe a coroa e o reino; que, a não lho tolherem os deveres de hospitalidade, a resposta que ele daria desde já era aniquilá-los a todos. Os Fenícios objectam mansamente, se era crível que tivessem atravessado tão enorme vastidão de mares pelo capricho de conquistar um país que não podiam conservar. A objecção seria concludente, se a associação dos estrangeiros com os ambiciosos netos não irritasse em Aetes a suspeita de que não tinha nada a esperar de bom daquela gente. Acha

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porém que o mais prudente é dissimular e vigiar os acontecimentos; e despede os estrangeiros sem uma resposta definitiva, de certo com o pretexto de estudar as condições da proposta que lhe fizeram [Sarmento 1887a: 198].

O estilo repetir-se-á com outras personagens e tomará mesmo um tom masculinista inequívoco quando incluir as acções das personagens femininas no drama histórico, recuperando da narrativa ‘doméstica’ de Apolónio ingredientes que não hesitará em atribuir à esfera negocial dos dois povos, que se supõem em contactos de índole meramente comercial: Este alarde de inocência e lealdade coincide com um torvo mistério, que se tece dentro do palácio do rei. Calcíope, a mãe dos ambiciosos, que sem dúvida alguma tem colaborado nas suas anteriores tentativas de rebelião, pôde descobrir a parcialidade de Medeia pela causa dos seus filhos, desde que a viu ligada à sorte dos estrangeiros, um dos quais, o chefe da expedição – diz a legenda – soube despertar nela uma dessas paixões que tudo afrontam num temperamento ultra-exaltado, de que a filha de Aetes ficou o tipo. Calcíope explorou aquela paixão com uma astúcia não menos típica, e o certo é que Medeia se torna quase o único actor de um drama tenebroso, que Apolónio nos não descobre, porque o não compreende, e que baralha com umas cenas fantásticas, em que a verdade histórica fica completamente afogada [Sarmento 1887a: 199].

Como é óbvio pelas suas próprias palavras, neste o momento, o historiador Martins Sarmento já praticamente não existe. Em seu lugar habita um outro, talvez o jovem e impressionável leitor dos clássicos, ou então o autor das Poesias, a quem tão benevolamente, mas incisivamente, Camilo aconselhou a que usasse a cabeça mais do que o coração, e de quem obviamente o nosso autor renegou o conselho.343

343

Esta ‘indecidibilidade’ de Martins Sarmento tem uma expressão ao nível estrito da sua hermenêutica

‘positiva’. Por exemplo, a lenda de Faetonte, em que o filho do Sol precipita o carro de seu pai nas águas do Eridano, é contraditoriamente utilizado por Martins Sarmento em dois contextos de interpretação mitológica: uma vez considera-o uma simples alegoria de um fenómeno natural, o ocaso do Sol no mar: ‘A morte de Faetonte é inegavelmente o ocaso do sol (…)’ (Sarmento 1896d: 116)’; mas também o considera, em outro lugar, uma deturpação poética de um facto a que atribui uma realidade histórica inegável: ‘Pelo que se infere da lenda de Faetonte, o filho de Aetes pediu com tal instância ao pai para dirigir aquela empresa, que ele teve de ceder, suposto

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Descontado o ‘deslizamento lírico’ que o autor permite que ocorra à sua hermenêutica ‘positiva’ da sua interpretação da lenda dos Argonautas, alguns factos ficam para que se possa identificar as narrativas lendárias como expressões de uma ‘primeira viagem’ dos Fenícios ao Mar do Norte. Mas não é menos fecundo o que proíbe do que o que autoriza, pois se dos factos, assumidos como tradução de uma realidade histórica original, se pode hoje comparar os desenvolvimentos da crítica histórica que os venha a reconhecer como tais, da ficção se pode concluir, e não com menor pertinência, a topografia social no âmbito da qual o ensino e a leitura dos autores clássicos influenciava o carácter da sociologia da pesquisa e, especialmente, a mundividência argonáutica da psicologia da pesquisa fortemente filo-helenista entre os eruditos dos finais do século dezanove.

A restituição da suposta ‘geografia fenícia’ que Martins Sarmento opera sobre os textos das lendas gregas, Argonáutica, Odisseia e Heracleia, não se esgota, porém, na recuperação do cenário atlântico original que estaria presente nos documentos ‘fenícios’ a que os diversos efabuladores gregos teriam tido acesso. Para o investigador, tão ou mais importante que reconhecer a presença de observadores privilegiados (os Fenícios) no Ocidente da Europa, ao redor do século XII, é o objecto dessa mesma observação. Os Fenícios, a partir da ‘primeira viagem a Inglaterra’, recolhem elementos sobre os nomes, a localização e os cultos dos povos que habitariam os lugares por onde passavam, a partir dos quais o autor crê ser possível uma parcial reconstituição da história etnogénica do Ocidente e, também, o que mais lhe interessa, do território que viria a ser Portugal, e de cuja parte mais setentrional as ruínas por si exumadas (‘castros’ e ‘mamoas’, ‘antas’ e ‘antelas’) são a expressão concreta da reconstituição ‘histórico-literária’. Não será alheia às intenções de Martins Sarmento, uma reavaliação das condições ‘civilizacionais’ do Ocidente, no quadro fortemente orientalista que dominava a historiografia no seu tempo. Os centros polarizadores do Mediterrâneo oriental, nomeadamente os do Egeu, tendiam a desenhar no mapa da Europa um campo de

previsse que a inexperiência do moço o inabilitava para desempenhar uma tarefa tão melindrosa’ (Sarmento 1887a: 202).

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‘gradiente de civilização’ que, com o centro em Micenas, Tirinto ou Tróia, se desdobrava em periferias de crescente ‘barbarismo’, conforme se incrementa a distância àqueles centros. A Europa ocidental, neste contexto, seria necessariamente o limite extremo dessa qualidade ‘bárbara’, cujo protótipo Martins Sarmento justamente identifica na etnografia mítica produzida no contexto da cultura grega arcaica: [N]o entanto, a crermos a história rotineira, ainda nos tempos homéricos quem dominava naquela ilha [refere-se à Sicília] eram selvagens antropófagos da pior casta, os Cíclopes, Lestrigões, numa palavra. O que não seriam em vista disto os povos da extremidade da terra? (…). [Sarmento 1887a: 211-2].

Assim, tal como a História e, especialmente, a Arqueologia, do seu tempo haviam começado a desfazer a ideia de que sobre a Europa se pudesse desenhar uma ‘geografia da civilização’, que acompanhasse, enquanto conjunto de áreas culturais associadas, a temporalidade diferenciada da evolução da Humanidade,344 também Martins Sarmento pretende que o noroeste da Península Ibérica seja retirado de um possível quadro de inferioridade civilizacional que a situação excêntrica desta região em relação aos ‘centros de cultura’ orientais poderia implicar. De facto, o essencial da teoria etnogénica deste investigador passa justamente por afirmar a recíproca desta proposição: a eventual ‘superioridade civilizacional’ dos Lusitanos tem origem especificamente na ‘posição’ que o noroeste da Península Ibérica tem no conjunto da Europa, sendo justamente o seu carácter ‘excêntrico’ que lhe garantirá a ‘pureza da sua árvore genealógica’, sobretudo por ter ficado à margem da invasão dos povos do ‘ferro’, os Celtas, que teriam desorganizado a civilização do ‘bronze’, que se estendia por toda a Europa ocidental. O tempo e a atenção que Martins Sarmento dedica ao estudo da restituição atlântica da aventura dos Argonautas prende-se quase exclusivamente com este propósito de

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O exemplo de Chabas, referido por Martins Sarmento, é especialmente escolhido, no conjunto dos autores

que, pela mesma altura recolhiam os indícios da ‘Idade do Bronze’ por toda a Europa, por ser aqui justamente que as narrativas lendárias dos Gregos faziam habitar o povoamento de seres extraordinários e fabulosos. Martins Sarmento pretende assim defender que o limite real da navegação dos Gregos, as verdadeiras ‘colunas de Hércules’ para este povo era a Sicília, e que, por isso, todas as interpretações relativas à eventual presença de Gregos no NW da Península Ibérica não eram mais que tradições efabuladas que, iniciadas pelos próprios autores clássicos, foram recuperadas e ampliadas entre os autores humanistas e antiquaristas.

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recuperar a ‘superioridade civilizacional’ do Ocidente, nele incluído o extremo ocidente da Península Ibérica. A Argonáutica ‘fenícia’, isto é, o suposto ‘documento’ fenício desaparecido que narraria a viagem dos Tírios no Atlântico, mais do que uma restituição geográfica de um périplo de marinheiros, é a ‘autorização’ histórica da realidade etnogénica que o autor pretende demonstrar. A civilização que os Argonautas ‘fenícios’ descrevem no Ocidente da Europa é pois, para Martins Sarmento, a civilização da ‘Idade do Bronze’. Caracteriza-se por dominar inteiramente as técnicas de metalurgia, por apresentar evidência de um Olimpo organizado e um horizonte ideológico em que o culto dos mortos e das águas adquire especial importância. Ao contrário de todas as características com que o autor irá descrever a ‘barbárie céltica’ (ou, mais rigorosamente, ‘celto-germana’), a civilização que a autoridade da voz narrativa fenícia da Argonáutica, cuidadosamente restituída, reconhece e descreve no Ocidente da Europa, especialmente em Inglaterra e no sudoeste da Península Ibérica, é a de povos detentores de uma civilização ‘luminosa’, com importantes atributos ideológicos e técnicos. De entre os atributos técnicos que emprestariam a esta civilização ‘ariana’ do Ocidente uma especial qualidade superior encontrava-se a sua grande capacidade marinheira, característica que irá permitir ao investigador sustentar um dos pontos mais importantes de suporte da sua teoria histórica. A ‘marinha respeitável’ de Aetes (que o autor identifica com um régulo dos Albiões), descrita apologeticamente na Argonáutica, faz frente à dos próprios Fenícios e esta comparação superlativa tem tanto mais importância quanto a marinha destes últimos representava, na cronologia que aqui é considerada, a mais apetrechada do Mediterrâneo oriental e aquela a que a História da Antiguidade atribuía as mais notáveis conquistas e descobertas. Martins Sarmento, quando restitui, não só a geografia, mas a história de uma suposta ‘Argonáutica fenícia’, nela incluindo a descrição da frota de Absirto como sendo a reprodução exacta da marinha de um povo da Idade do Bronze do sudeste da Inglaterra está, porém, a fazer mais do que a nobilitar as técnicas de navegação ocidentais quando comparadas com as do Mediterrâneo oriental: está também, e, a nosso ver, principalmente, a recuperar a possibilidade de restituir, a partir da sua própria interpretação do episódio das Hárpias | Sereias, a relação íntima entre todos os povos ‘irmãos’ que se distribuíam por todo o ‘arco atlântico’, durante a Idade do Bronze. O 332

autor interliga decisivamente as técnicas de navegação com as técnicas de metalurgia, porque assim pode afirmar que as populações do Ocidente da Europa detinham já a técnica da metalurgia do bronze antes da chegada de povos do Mediterrâneo oriental, e que devido à necessidade de fazer circular o estanho, matéria-prima indispensável para a produção do bronze, todas as colónias litorais desse povo se mantinham em contacto íntimo, intimidade da qual não estavam excluídas movimentações de grandes contingentes de populações.345 Martins Sarmento leva, porém, a intimidade entre todos estes povos do Ocidente da Idade do Bronze para além da familiaridade das colónias do litoral. Tal como o episódio argonáutico da esquadrilha de Absirto é recuperado ‘historicamente’ para o interior da ‘Argonáutica fenícia’, como expressão da marinha dos Albiões, também o conhecimento geográfico de Argus sobre os caminhos fluviais da Europa central é recuperado ‘geograficamente’ como expressão do processo histórico de formação das colónias de um mesmo povo da Idade do Bronze ao longo das margens dos principais rios da Europa central, o Reno, o Ródano e o Danúbio.346 As estradas fluviais do centro da Europa e o caminho marítimo do Atlântico, quando restituídos pela hermenêutica sarmentiana, ganham um sentido geográfico determinado. A familiaridade de todos estes povos, a proeminência da ilha dos Albiões e da sua marinha são, para Martins Sarmento, a prova inequívoca da dominação, entre todos, do povo que detinha as mais importante jazidas de estanho. O encontro destes povos ‘arianos’ do Ocidente com a História faz-se justamente em razão deste simples facto económico. Ao organizar um comércio de larga escala em todo o Ocidente, os Albiões não só necessitaram dominar as duas modalidades de transporte e distribuição do estanho, o mar e os grandes rios, como se encontram, na foz do Ródano, com o universo 345

A possibilidade de migração marítima do povo ‘ariano’ do Ocidente entre as várias regiões do litoral é

mesmo o principal mecanismo etnogénico de que a teoria histórica de Martins Sarmento fará uso. Neste contexto, como veremos, a Lusitânia (nomeadamente a região compreendida entre o Tejo e o mar Cantábrico) é sobretudo um ‘palco’ em que migrações, retrocessos demográficos, ermamentos (a ‘vacua gleba posterior à invasão das serpentes’) e repovoamento têm lugar, sempre por parte de povos da mesma estirpe civilizacional. 346

‘Tudo isto são coisas pouco menos de intuitivas, desde que se admite a autenticidade da Argonáutica fenícia;

mas esta exuberância de vida, que temos de imaginar percorrendo as grandes artérias do Reno, do Ródano e ainda do Danúbio, pressupõe a existência de numerosas populações que a tornavam possível, e sobre este ponto não nos dão as nossas legendas as notícias circunstanciadas que tanto nos importava conhecer’ (Sarmento 1887a: 213).

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semita, até aí alheio, dando origem ao desenvolvimento de uma política dos povos do Mediterrâneo oriental em demandarem a origem desse mesmo comércio.

No contexto da historiografia contemporânea de Martins Sarmento, a identificação de um povo de civilização ‘ariana’ povoando, no fim da Idade do Bronze, as margens das principais estradas fluviais da Europa e também as Ilhas Britânicas e a parte ocidental da Península Ibérica não podia ser levada a cabo sem dificuldades. Iberos (‘Bascos’), Lígures, Celtas, ‘povo dos construtores de dólmens’ e Hiperbóreos eram apenas alguns dos candidatos a preencher a geo-cronologia referida. A área de extensão de cada um deles, as fronteiras entre eles, o lugar de origem das suas migrações (e muito especialmente, o seu lugar na ‘cascata schleicheriana’), a atribuição a cada um, quer dos vestígios arqueológicos que se exumavam, quer das referências históricas que lhes são feitas entre os clássicos, e até a restituição do seu tipo físico e da sua linguagem, tudo eram factores de polémica interpretativa no momento em que Martins Sarmento apresenta os seus próprios argumentos. A atribuição de um nome ao povo ‘ariano’ do Ocidente por parte de Martins Sarmento é uma das expressões mais evidentes da problemática associada à ‘nominação’, a que fizemos referência na introdução teórica a este trabalho. Com efeito, como veremos, uma ‘nominação de uma geografia’ é sempre dialecticamente relacionada com uma, explícita ou implícita, ‘geografia da nominação’. A partir de um momento em que uma determinada realidade geográfica passa a ser ‘fixada’ em nomes que dialogicamente convivem nas diversas geografias imaginárias disponíveis, toda uma série de obrigações e interditos surgem, sem que o autor que as criou possa a partir daí comandar a sua própria evolução. Este facto é muito particularmente evidente na geo-historiografia de Martins Sarmento, no momento em que o autor se determina a identificar o povo ‘ariano’ do Ocidente com os Lígures. O nome ‘Lígures’, com que Martins Sarmento designa todo o conjunto dos povos da Idade do Bronze da Europa ocidental, não se confunde, no seio da sua teoria (sê-lo-ão no interior das críticas de um seu especial adversário, Adolfo Coelho) com os Lígures ‘históricos’, i.e., os habitantes da Ligúria do Mediterrâneo. Também neste caso a responsabilidade histórica da difusão de um nome, associada a todo o Ocidente, se 334

prende com a geografia fenícia de que os Gregos se haviam de servir para as primeiras designações geográficas das várias partes da ecúmena. Fiel ao expediente hermenêutico que utilizara na interpretação da Argonáutica e da Ora maritima, também em relação às expressões mais antigas da geografia corográfica entre os Gregos Martins Sarmento restitui aos Fenícios a paternidade das informações veiculadas. O fragmento atribuído a Hesíodo, autor a quem a crítica contemporânea do autor não duvidava em atribuir uma antiguidade quase tão venerável como a de Homero, em que este designa os povos que vizinham com os Gregos, e entre eles designa os Lígures a ocidente, servirá para o autor de argumento inicial da existência de uma unidade civilizacional em todo o Ocidente da Europa.347 Tem alguma importância historiográfica tentar determinar se Martins Sarmento considera este nome como um ‘endónimo’ ou um ‘exónimo’, i.e., se o nome ‘Lígures’ era de facto o nome que alguns destes povos atribuíam a si próprios, ou se, pelo contrário, era a denominação com que os Fenícios os designavam e que, de acordo com a sua teoria hermenêutica (tradução ‘grega’ de documentos originais ‘fenícios’ desaparecidos), a geografia grega posteriormente fixaria. A solução defendida por Martins Sarmento é, convenientemente, um híbrido das duas. Se, por um lado, parece querer admitir, a partir, por exemplo, do carácter ‘ariano’ dos nomes pessoais associados aos Lígures do Báltico, como Faetonte e Cicno da foz do Erídano, ou da pervivência da morfologia do nome a tradição oral indígena das Ilhas Britânicas (os Lloegrwys), por outro, assume abertamente que o nome de Lígures teria sido dado pela ‘geografia fenícia’ a diversos povos do Ocidente, por estes, os Fenícios, reconhecerem noutros povos características comuns com os primeiros povos ligúricos com que contactaram. Ora os únicos que perpetuaram historicamente esse nome na geografia antiga foram os Lígures do Mediterrâneo. No contexto estrito da hermenêutica da Argonáutica de Apolónio, Martins Sarmento não hesita em validar historicamente a existência de nomes ‘arianos’ ali presentes como expressão concreta da situação histórica correspondente. Dentro da hermenêutica que 347

É manifesto que o valor etnográfico desta última secção é o mesmo que o das outras duas e significa apenas,

não uma absoluta étnica entre todos os povos do Ocidente, mas que, na época em que tal classificação veio a lume, quem se distinguia no Ocidente pela sua maior civilização e pela área em que a sustentava, era uma grande massa de populações tão semelhantes entre si, que podiam ser designadas por um nome comum [s.n.] (Sarmento 1887a: 214).

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exerce sobre o texto de Apolónio, a questão da ‘profundidade’ histórica dos nomes ‘arianos’ é um dos campos em que podemos ver o autor fazer um uso mais evidente do que Lakatos apelida de ‘hipótese ad hoc’, como salvaguarda da consistência final da teoria. O investigador procede a uma selecção cuidadosa (mas cujo critério casuístico impele a interpretação para uma diminuição de ‘elegância epistemológica’) dos nomes ali presentes de modo a poder inferir o carácter ‘ariano’ dos nomes de pessoas, lugares e divindades. Não se trata apenas de promover uma interpretatio das figuras divinas como a Circe dos ‘Lígures’ do sudoeste da Península Ibérica, referidos por Tucídides, ou da ilha consagrada a Ares no Mar da Mancha, que o autor aproxima dos seus equivalentes de Roma e Grécia; são os próprios nomes das personagens de Apolónio, tais como Licos, Frixo, Aetes, Faetonte ou Erídano, que garantem ao investigador a existência concreta de uma realidade ‘ariana’, que a Argonáutica ‘fenícia’ directamente transporta para as descrições posteriores dos Gregos. Contudo, fica pouco claro por que razão o investigador prescinde de alguns dos nomes da Propôntida e do Euxino, que atribui à efabulação de Apolónio, ao mesmo tempo que recolhe aqueles que estão associados às regiões em que admite habitarem povos ‘ligúricos’. É possível reconhecer que alguma ambiguidade habita a teoria histórica de Martins Sarmento neste ponto, muito embora o autor não possa evitá-la porque dela deriva parte da argumentação necessária à caracterização unitária dos povos do Ocidente, especialmente no contexto de crítica histórica da geografia fenícia da Argonáutica: Mas, porque a denominação de Lígures? Os primeiros Lígures com que os Fenícios estiveram em contacto, foram os da Sicília e da Itália, porque não sofre dúvida que o primitivo étnico dos Sículos e de muitas populações italiotas foi o de Lígures. É pois de crer que fosse com ele que os Fenícios designassem ao princípio os povos áricos com que conviveram nesta parte do Mediterrâneo, e de crer é também, quando vemos tal denominação aplicada a todos os povos do Ocidente, ela fosse uma ampliação, motivada pela semelhança que com os Lígures do Mediterrâneo iam oferecendo as populações que eles descobriam nas suas viagens [Sarmento 1887a: 214].

A propriedade deste argumento é tão mais notável, no contexto da teoria de Martins Sarmento, quanto, se por um lado, a considera inaceitável enquanto argumento utilizado por parte de alguns dos seus adversários que viam nos Lígures de Hesíodo uma simples 336

‘ampliação’ de um conhecimento localizado da geografia grega mais antiga, cujo limite de conhecimento directo dos povos do Ocidente não ultrapassava a Itália, por outro, o próprio autor a utiliza para diminuir a possibilidade de uma idêntica operação efectuada sobre o texto de Éforo, de que o próprio Apolónio faria eco na sua Argonáutica.348

Não é por acaso que Martins Sarmento atribui às personagens concretas da Argonáutica de Apolónio uma qualidade histórica que transcende a sua simples função de personagem de uma narrativa ficcional. A maior parte delas cumpre um papel específico como fonte de autoridade ‘positiva’ da história da etnogénese do Ocidente. Num paralelo que nos parece muito claro com a história das ‘grandes personagens’ que a historiografia do seu tempo fazia no contexto dos períodos propriamente históricos (i.e., através de documentos), Martins Sarmento exerce a hermenêutica das lendas gregas no sentido de dotar a história ‘ligúrica’ do Ocidente de personagens reais, historicamente concretos, num período, a Idade do Bronze, que, na Europa ocidental era a este respeito, inteiramente muda, e cuja restituição se podia fazer unicamente através das objectividades proporcionadas por outras disciplinas históricas, como a Linguística, a Antropologia ou a Arqueologia. A urgência com que o autor recolhe, da Heracleia, da Argonáutica e da Odisseia, os relatos das personagens ficcionais, é afinal uma estratégia

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O fragmento de Éforo correspondente apresenta uma geografia muito semelhante à de Hesíodo, com a

diferença de substituir os Lígures deste autor pelos Celtas, como povo vizinhando os Gregos pelo lado ocidental: ‘Del cuarto libro de la Historia de Éforo: “Los indios habitan la zona del levante y próxima a la salida del sol; los etíopes ocupan la que da al Noto y Mediodía; los celtas la del Céfiro y el Poniente; y los escitas la del Bóreas y que da hacia las Osas”’ (Testimonia Hispaniae Antiquae, vol. II-A, p. 455). Uma interpretação ‘ampliadora’, como a que Martins Sarmento admite na geografia de Hesíodo, permitiria inferir uma ‘unidade civilizacional’ céltica dos povos do Ocidente. É por isso mesmo que Martins Sarmento se apressa a insistir no argumento cronológico providenciado pela sua hermenêutica da Ora maritima, que pretende ver nesta substituição o eco da invasão pelos Celtas das regiões da Europa central que estremavam definitivamente os Gregos dos povos do extremo Ocidente: ‘Os Celtas substituem agora os Lígures, porque a ruidosa conquista céltica do séc. VII os deixara quase na sombra [s.n.]. Apolónio, como se vê (…) adopta na sua Argonáutica a geografia seguida por Éforo, cometendo um tão palpável anacronismo, que o primeiro documento antigo que menciona os Celtas é o périplo fenício do séc. VI, e entre os Gregos a obra perdida de Hecateu de Mileto, posterior ao périplo. No tempo dos Argonautas os Celtas erravam, ninguém sabe por onde’ (Sarmento 1887a: 213, nota 3).

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especificamente dirigida no sentido de recuar o limite entre a Pré-história e a História propriamente dita do território.349 É no contexto da restituição ‘documental’ das personagens das lendas gregas que se compreende melhor a avaliação que Martins Sarmento promove da figura de Argus, neto de Aetes, guia dos Argonautas na navegação final até à Cólquida. Esta é uma personagem central para podermos caracterizar o processo hermenêutico de Martins Sarmento. De facto, se, por um lado, exibe as características de representação de uma situação histórica impessoal – concentra, na sua individualidade, os guias ‘albiões’ que os Fenícios teriam tido necessidade de trazer para as suas embarcações, com o intuito de navegar na parte final da sua viagem e muito especialmente de passar o estreito da Morínia, e a memória das tradições dos povos do Mar do Norte sobre a origem longínqua e a migração que os teria trazido a Inglaterra –, ela é também, por outro lado, uma personagem dotada de uma individualidade muito concreta, uma personagem real dos acontecimentos históricos que os Fenícios teriam vivenciado e guardado da sua primeira viagem ao Mar do Norte e, muito especialmente, do trajecto ‘fluvial’ da fuga dos marinheiros de Tiro através de toda a Europa central: Desde a foz do Reno até às suas fontes, o País dos Lagos, Apolónio nada nos diz, mas em compensação conservou-nos uma notícia verdadeiramente inapreciável. Aqui está como Argus fundamenta os seus conhecimentos geográficos acerca do curso do Reno, Danúbio e Ródano e dos mares que se podiam procurar pela navegação de cada um [Sarmento 1887a: 215-6].

A narrativa de Argus, a memória antiga que ela supostamente contém, é um dos elementos das lendas gregas de que Martins Sarmento pretende recolher a demonstração da antiguidade de povoamento ‘ariano’ no ocidente da Europa. De facto, ao translocar a acção dos Argonautas para o Atlântico, e em especial para o Mar do Norte, Martins Sarmento re-contextualiza inteiramente as informações que ali são atribuídas a um suposto povo do Euxino, atribuindo-lhes um sentido etnogénico inteiramente inovador. 349

Esta estratégia de Martins Sarmento não se resume à hermenêutica das lendas gregas, mas inclui igualmente a

interpretação que promove do texto da Ora maritima. Em qualquer um destes casos, o investigador recupera para o interior da crítica histórica, textos que a historiografia sua contemporânea, parte dela, em todo o caso, claramente recusava poder ser considerada como documental. Com este exercício hermenêutico, Martins Sarmento estava, de facto, a recuar quase por um milénio a cronologia das fontes históricas sobre o ocidente da Península Ibérica.

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O investigador também não deixará de recolher informações etnográficas correlativas, que lhe permitem fixar a memória etnogénica da personagem de Argus com os movimentos de povos que a migração indo-europeia havia efectuado através da Europa central, e de que as lendas de Gales e Irlanda seriam uma expressão ainda pervivente na cultura popular do Ocidente. A personagem de Argus informa os Argonautas de que em tempos muito recuados, ‘ainda a raça de Deucalião não tinha vindo ao mundo e na Grécia apenas habitavam os Árcades Apidanos, quando um quidam’, liderando uma movimentação de povos, percorreria a Europa e a Ásia, fundando um número elevado de colónias. A cidade do próprio Argus, Ea, pertenceria a este conjunto de colónias e a memória do feito estaria perpetuada em ‘cipos escritos, onde estavam designadas todas as vias da terra e do mar’ (Sarmento 1887a: 216). É a este nível que a interpretação de Martins Sarmento uma vez mais entra em frontal colisão com a regionalização teórica quer da tradição, quer da ‘ciência normal’ do seu tempo. De facto, para Apolónio, e para alguma da crítica contemporânea de Martins Sarmento, o comandante de tal expedição é um egípcio, sendo egípcia também a última colónia de Ea, conforme é apresentada pelo próprio Heródoto. A escolha interpretativa de Martins Sarmento tem, por isso mesmo, implicações maiores do que a simples transferência da movimentação dos povos que fundam Ea do Cáucaso para a Europa ocidental: representa em si mesma a afrontação do modelo de difusão civilizacional com o centro no ‘crescente fértil’, e especialmente do papel determinante do Egipto. Restituindo a geografia original da ‘argonáutica fenícia’, que Apolónio teria desfigurado de modo a poder identificar a Ea com uma cidade da margem oriental do Euxino, Martins Sarmento pode então atribuir um significado inteiramente diferente à memória histórica contida na narrativa de Argus: a movimentação de povos teria tido, do mesmo modo, origem na Ásia e as colónias a que deu origem estender-se-iam por toda a Europa central, ao longo dos rios principais, o Danúbio, até ao País dos Lagos, bifurcando-se, a partir daí, nos ramos do Ródano, para sul e interior da futura Gália, e do Reno, para norte, para o Báltico e as ilhas Britânicas (onde tomaram o nome de Albiões), lugares a partir dos quais vieram, posteriormente, a atingir, por via marítima, a margem ocidental da Península Ibérica. 339

O facto de Argus fazer uma referência específica a Deucalião, permitirá a Martins Sarmento estabelecer os limite cronológicos dessa grande movimentação de povos para momentos anteriores ao século dezasseis a.C., especificidade importante que o autor podia interligar com a cronologia que Tucídides apresentava para a presença de ‘Lígures’ no sudoeste da Península Ibérica (ou assim interpretado por Martins Sarmento), expulsando os Sicanos para a ilha da Sicília. Com estes dois elementos cronológicos relacionados, o investigador estabelece a ordem temporal da própria difusão dos povos ‘arianos’, desde o seu início até às margens mais distante da sua influência. Também neste passo a hermenêutica de Martins Sarmento adquire aquela ambiguidade que, em termos de ‘valorização paradigmática’, a põe ao alcance da crítica da comunidade científica do seu tempo: de facto, se a referência a Deucalião pertence ao universo cultural dos Gregos, não se entenderia que estivesse presente na memória de um habitante de uma colónia ‘ariana’ do Ocidente; poderia Apolónio, é um facto, traduzir uma referência cronológica presente na ‘argonáutica fenícia’ através de um equivalente grego, porém, a proverbial ausência de comentários por parte de Martins Sarmento em relação à compactação de elementos de proveniência dispersa nas mesmas proposições torna quase impossível reconstituir o seu próprio pensamento neste ponto. Porém, o tipo de consideração que vemos o autor fazer em relação a situações semelhantes, leva-nos a pensar que Deucalião seja, para o investigador, um personagem historicamente concreto, cujo nome teria sido, por isso, perpetuado em dois lugares distintos da Europa: na Grécia, tal como se encontra no Marmor Parium, e na tradição oral de uma colónia de Lígures, no extremo ocidental da Europa, que os Fenícios teriam recolhido e fixado num documento a que Apolónio teria tido acesso e reproduzido. O ponto mais importante deste momento hermenêutico de Martins Sarmento é, porém, o de permitir identificar a narrativa de Argus com a ‘grande marcha dos Árias’ que a historiografia de meados do século dezanove vinha a defender com cada vez maior número de provas em todos os níveis de objectividade das diversas disciplinas históricas: Resulta de tudo isto que a Argonáutica fenícia nos conservou, e a Argonáutica de Apolónio copiou, o testemunho autêntico dessa famosa migração árica que os sábios modernos têm inferido por meio de deduções engenhosas, e que há cerca de trinta séculos foi narrada aos Fenícios por um

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insular da Inglaterra, com a especificação do seu itinerário e a data aproximada daquele acontecimento [Sarmento 1887a: 217].

A transformação, por parte do investigador, de uma colónia egípcia do Euxino numa colónia ‘ariana’ do ocidente da Europa acompanha, afinal, o movimento da historiografia sua contemporânea que, através da identificação do substrato linguístico indo-europeu, vinha reclamando para os ‘arianos’ uma proeminência civilizacional que os séculos anteriores em muitas circunstâncias atribuíam aos povos semitas do levante do Mediterrâneo e do norte de África e que, na historiografia portuguesa, havia tido a sua expressão mais importante no mito da fundação de Setúbal por uma personagem bíblica (Túbal), que, baseando-se na simples consonância de nomes, não se esgota nela: de facto, não pode compreender-se este tipo de ‘geografia de nominação’ sem se compreender o tipo de autoridade historiográfica que a narrativa bíblica e a teologia natural associada detinham nesta época. Eis o grande ‘tropo hermenêutico’ da historiografia de Martins Sarmento associado à interpretação dos Argonautas. A narrativa de Argus é uma ‘vivificação’ literária, ‘histórica’, do conjunto de elementos providenciados por níveis de objectividade complementares, fornecidos pelas diversas disciplinas científicas, de uma indiscutível e formidável movimentação de povos que, com origem na Ásia indo-iraniana, se havia feito representar em vestígios linguísticos, arqueológicos, antropológicos, etc. Da fusão de todos este níveis de objectividade científica parcelar, permite-se Martins Sarmento construir uma visão de conjunto da natureza, geografia e cronologia dessa mesma difusão. É sobretudo no que diz respeito à segunda destas expressões, a geográfica, que a narrativa da Argonáutica de Apolónio ganha uma especial importância no contexto da teoria interpretativa de Martins Sarmento sobre a etnogénese do Ocidente da Europa, e de que a hermenêutica da Ora maritima de Avieno é, de algum modo, o preenchimento subsequente a uma escala superior. A geografia dessa difusão assenta, assim, no trânsito pelos principais rios que cruzam a interligam toda a Europa. Dela resulta um sem número de colónias ‘da mesma família’ dos Albiões’ que, pontilhando todo este trajecto, iam preenchendo todo o Ocidente de povos ‘todos eles arianos’, todos, portanto, ‘com berço na Ásia’ [Sarmento 1887a: 217-8]. 341

A partir desta identificação essencializada das origens, Martins Sarmento pode já reconstruir a genealogia de todos os povos da Europa, designando os ramos principais, nomear as gavinhas menores desses ramos, enxertando nela o povo dos Lusitanos e, por natural direito sucessório que a história a seu ver demonstra, os próprios Portugueses, pelo menos os do norte de Portugal. São três os rumos principais que a difusão ariana desenhou na Europa ocidental, a cada um correspondendo uma das grandes vias fluviais que nela se ramificam e interligam todas as suas regiões. O ramo do Danúbio consiste no tronco principal que irá alimentar toda a difusão ocidental, sendo interessante que Martins Sarmento desconsidere em absoluto a possibilidade de alguma desta difusão geográfica dos ‘arianos’ para o Ocidente poder ser feita pelo Mediterrâneo. Esta é uma difusão de carácter marcadamente continental, ainda que através da navegação das principais vias fluviais, que só adquire um carácter marcadamente marítimo quando, a partir do Báltico, os ‘Lígures’ do Mar do Norte vêm a ganhar sucessivamente as Ilhas Britânicas, as finisterras do Atlântico e a Espanha até ao limite do rio Xucar, daí passando, tal como os seus vizinhos italiotas, para o norte de África. Este ramo do Danúbio é, naturalmente, o que alimenta em primeiro lugar a Grécia arcaica, sendo por esta razão que Martins Sarmento atribui aos Gregos, dentro do quadro geral de familiaridade essencializada de todos os povos ‘arianos’, uma diferenciação maior quando comparada com os Lígures ocidentais. Este ponto detém alguma importância ao nível da estruturação propriamente ideológica da teoria histórica do autor, na medida em que, a nosso ver, a grandeza de Grécia arcaica, ‘micénica’, é vista sempre a partir do lugar de observação privilegiado da Grécia clássica e, sobretudo, da narrativa fundacional da ‘guerra de Tróia’, à qual Schliemann havia dado uma inegável consistência arqueológica.350 O ramo do Danúbio, após se cindir, logo no início do seu movimento para oeste, para dar origem aos Gregos351, atinge a região central da Europa, em redor do Bosque

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Martins Sarmento, dentro do quadro geral da geografia idealista (profundamente ritteriana) que habita a sua

obra, em que o espaço não detém características propriamente suas que interfiram na evolução cultural ou social dos povos que nele se situam, atribuirá por isso a evolução especial da Grécia ‘à posição privilegiada que ocupa no Egeu’, argumento da mesma ordem daqueloutro com que justifica a pureza genealógica dos Lusitanos. 351

Gregos e, presume-se, todos os povos que se dispõem ao longo do Danúbio. Martins Sarmento não apresenta

na sua obra grandes referências a estes povos que habitariam o espaço do Danúbio, talvez por duas razões: por um

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Hercínio e o ‘País dos Lagos’. Esta região é absolutamente fulcral na concepção geográfica da teoria histórica de Martins Sarmento, pela simples razão de nela convergirem as nascentes dos três rios, o Danúbio, o Reno e o Ródano, que permitem pôr em contacto as regiões mais distantes da Europa central. Aqui tem origem um dos ramos ‘arianos’ do Ocidente, o que virá a ser responsável pela colonização da península itálica pelos povos a que justamente se chamaria ‘italiotas’ e nos quais o autor incluiria diversos nomes étnicos, tais como os Sículos, Úmbrios ou Latinos, os últimos com a importância acrescida de virem a ser os antecessores dos Romanos, segunda grande fonte de ‘orgulho ligúrico’ após os Gregos.352 A atenção que Martins Sarmento dedica a todos estes povos da cronologia ‘italiota’ original tem origem na necessidade que o investigador tem de os apresentar não só com uma filiação ‘ariana’ comum a todos eles, mas também de fixar um sentido inequívoco da sua movimentação que daria origem à localização determinada pelas diversas fontes clássicas posteriores. A etnogenia ‘arcaica’ da Idade do Bronze a que Martins Sarmento se dedica prioritariamente encerra uma dinâmica geográfica de que não existem ainda fontes propriamente históricas que as possam corroborar; neste contexto são de primordial importância as informações de lado, porque esta viria a ser a região que, a seu ver, seria ‘desorganizada’ pela invasão dos ‘Celto-germanos’, e em que, portanto os vestígios propriamente ‘arianos’ foram diluídos pela ‘aluvião celta’; por outro lado, porque são, de algum modo, desnecessários à concepção geográfica geral da sua teoria histórica, cuja componente mais proeminente é a comparação directa, sem intermediários, entre os ‘Lígures’ do Ocidente e os Gregos. Contudo, não deixa de referir que os caminhos da migração ‘ariana’ foram sendo trilhados por vagas sucessivas ao longo do tempo, de que ‘os Trácios seriam a guarda avançada’. 352

Neste momento, Martins Sarmento tem o cuidado de inserir a sua própria concepção geográfica da história da

migração ariana no contexto ‘responsável’ da geo-historiografia sua contemporânea. De facto, Arbois de Jubainville admitia que algumas das estações do Danúbio eram antecessoras directas dos povos que viriam a colonizar a Itália, nomeadamente os Úmbrios. Porém tal concordância é apenas ilusória, e remete para uma distinção geo-historiográfica fundamental de que Martins Sarmento não conseguirá nunca libertar-se, e da qual surgirão os principais ressentimentos do investigador português em relação ao ‘eminente sábio celtista’, e na qual Adolfo Coelho representa um papel nada insignificante. Arbois de Jubainville, de facto, está longe de considerar os diversos povos geograficamente ‘itálicos’ todos como etnologicamente ‘italiotas’: ‘Não vemos que o ilustre sábio justifique esta distinção e muito menos a camaradagem dos Ombrio-Latinos e Celtas, que, salvo o devido respeito, chega a espantar-nos. Para nós Ombrio-Latinos, Lígures, Sículos são membros de uma mesma família, em tudo diferente da céltica, trazidos à Europa pela mesma migração e descendo à Itália pelo mesmo caminho, embora acreditemos que a colonização da Itália por esta gente se fizesse por emissões sucessivas, como aliás é natural’ (Sarmento 1887a: 218, nota 10). Note-se também, como, em conformidade com o que afirmamos em nota anterior, a via mediterrânica fica excluída dos caminhos de difusão ‘ariana’ na Europa ocidental.

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‘segunda ordem’ providenciadas por essas mesmas fontes clássicas em relação aos povos nelas nomeadas: na respectiva alocação de cada um deles às grandes ‘famílias etnogénicas’ disponíveis na crítica geo-historiográfica reside, por isso, a natureza de recepção das teorias respectivas.353 Nesta classificação etnogénica, ganha especial importância a filiação dos Lígures do Mediterrâneo, uma vez que a escolha deste nome para designar todos os povos ‘arianos’ do Ocidente representará, no seio da teoria de Martins Sarmento, tanto uma fonte de analogias e fecundas manobras interpretativas de que o seu trabalho propriamente se alimenta, como, também, um viveiro de problemas que em última análise tenderão a ganhar um papel preponderante do seu próprio descrédito.354 353

Cremos que é por esta mesma razão que vemos Martins Sarmento a respigar estas informações ‘de segunda

ordem’ presentes nas fontes clássicas em relação a alguns dos povos italiotas. Entre eles, os Úmbrios, ‘povo tão antigo na Itália como os Latinos’, são apresentados especificamente pelo investigador com o intuito de fixar o sentido da difusão ‘ariana’ na península itálica, indo assim ao encontro da sua concepção geográfica ‘orientalista-danubiana’, por um lado, e da filiação conjunta de todos os italiotas numa mesma corrente etnogénica: ‘Os Ombrios (…) eram chamados ‘veteres galli’, o que mostra que eles tinham descido da Gália’. Esta proposição está em consonância com alguma da mais importante regionalização teórica contemporânea de Martins Sarmento (por exemplo, Thierry: ‘Ces vieux Gaulois, suivant les auteurs dont nous parlons, étaient les ancêtres du peuple des Ombres qui habitait, comme on sait, au temps de la puissance des Romains, les deux revers de l’Apennin, entre le Picenum et l’Étrurie ; et le fait était donné comme positif’); o que é distinto é a interpretação etnogénica que é levada a cabo por cada um destes autores, partindo do mesmo facto: o que permite a Amédée Thierry ‘celtizar’ a Itália para tempos anteriores às primeiras invasões célticas consignadas nas fontes históricas, irá servir a Martins Sarmento como argumento principal da ‘arianização’ dos povos da região que veio a tomar o nome da Gália, e cuja importância será manifesta no momento em que o investigador apresentar a tese do substrato ‘ligúrico’ dos Gauleses de César, no contexto geral da problemática do ‘celtismo da Lusitânia’. É a este contexto regional da sua teoria que pertence também a identificação entre os Arvernos de uma tradição que os fazia ‘parentes dos Latinos’ : ‘Os Arvernos diziam-se parentes dos Latinos, o que prova que uns e outros tinham vizinhado em remotos tempos, sendo tão improvável que fossem os Arvernos que subissem da Itália para a Gália, quão provável que os Latinos, como os Ombrios, descessem da Gália para a Itália’ (Sarmento 1887a: 218-9). A importância dos Arvernos enquanto povo ‘ligúrico’ ver-se-á ainda acrescida da identificação que Broca viria a fazer do ‘tipo físico celta’ da população francesa com os habitantes seus contemporâneos da mesma região (note-se que para Martins Sarmento, o tipo físico a que Broca chama ‘celta’ é o mesmo a que ele chama ‘lígure’). 354

Martins Sarmento apresenta algumas hesitações quanto às relações e filiações etnogénicas entre os Lígures

históricos, i.e., os do Mediterrâneo, e o conjunto dos ‘Lígures’ entendidos como os povos ‘arianos’ da Europa ocidental. A natureza hesitante desta relação é especialmente visível nas comparações etnográficas directas que faz, por exemplo na obra Os Lusitanos entre os Lígures do Mediterrâneo e Lusitanos descritos nas fontes clássicas, de onde retira uma caracterização ‘especificamente’ ligúrica dos povos do norte da Espanha. este carácter ‘especial’ da comparação vai sendo progressivamente abandonado ao longo da obra, especialmente depois de Jubainville ter

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O que fica porém claro ao nível da regionalização teórica da tese de Martins Sarmento em relação à ‘arianização’ da península itálica é que esta difusão tem origem nos povos que do Danúbio atingem a região a norte dos Alpes, e que, através do vale do Ródano, se internam em Itália em vagas sucessivas que, empurrando alguns dos povos mais antigos no sentido do sul, vem a ser responsável pela chegada dos Sículos à Sicília e até de povos da mesma família ‘ligúrica’ ao norte de África, defronte daquela ilha. A identidade entre os povos do ramo do Ródano e do Reno é fundamental no sentido de dar uma dupla identidade aos povos do ocidente, associada aos Lígures do Mediterrâneo e dos Latinos: os primeiros, porque são a origem da sinédoque que irá permitir aos Fenícios atribuir o nome de ‘lígure’ a todas as manifestações arianas do Ocidente, e, por outro lado, porque o arianismo dos Latinos é absolutamente obrigatório como referente da mesma filiação do povo que deles descende, os Romanos. Não admira assim que possamos detectar em Martins Sarmento o propósito específico de fazer aproximar as cronologias de difusão do Reno e do Ródano e de detectar na esfera ideológicas inter-relações que só a comunidade de origem pode justificar: Uma coincidência que não pode deixar de ser notada com cuidado: se a chegada dos Albiões à sua ilha pode datar-se aproximadamente do século XVI a.C., pelos documentos egípcios, sabemos que os árias da corrente do sul já no século XV tinham ocupado a Sicília. Recordemos que o culto de Circe, vulgarizado entre os Italiotas, foram encontrá-lo os Fenícios no sudoeste da Espanha e na Inglaterra. Depois disto não se estranhará decerto que acreditemos piamente que à migração árica do Reno e do

considerado impossível admitir alguma filiação próxima entre os vestígios das línguas ‘neo-célticas’ e a língua lígure (cf. Guerra 1999). Então, a partir desse momento, os Lígures do Mediterrâneo tendem a ser considerados por Martins Sarmento como apenas um elemento etnogénico mais da expressão do ‘arianismo’ ocidental. O facto de Martins Sarmento propor a nominação de ‘Lígures’ como nome colectivo para o conjunto de todos os povos ‘arianos’ do Ocidente exigia ‘postularmente’ que não pudesse duvidar-se que os Lígures do Mediterrâneo fossem ‘arianos’. É justamente a este nível que Martins Sarmento inclui a sua teoria histórica no confronto já instalada ao nível da regionalização teórica da geo-historiografia do seu tempo: a Jubainville, que admitia distinguir os Lígures dos Latinos (e já se vê a importância que este facto poderia ter na tese de Martins Sarmento), opõe o investigador português a tese da filiação directa dos Latinos nos Lígures feita por Celesia. Porém, dada a nacionalidade ligúrica deste último investigador, já se vê que são muitas e complexas as questões propriamente geopolíticas que devem ser tidas em conta no momento de compreender todas as dimensões de estruturação da regionalização teórica da geo-historiografia do seu tempo.

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Ródano, e que demos como um facto positivo e que há pouco aventurámos como uma simples hipótese, a saber, que os Fenícios ampliaram aos povos que foram descobrindo nas suas navegações a denominação de Lígures, e isto porque aqueles povos tinham com estes as mais íntimas afinidades. Não se estranhará também que acreditemos com a mesma fé, que foi a expedição ao Mar do Norte, pondo os Fenícios em contacto com os povos do litoral europeu desde o sudoeste de Espanha até à foz do Reno, depois com os povos ribeirinhos do Reno até o País dos Lagos, finalmente com as colónias que bordavam as margens do Ródano, que os autorizou à classificação etnográfica respectiva ao Ocidente [Sarmento 1887a: 219-20].355

Se parte da movimentação de povos associada à ‘grande migração ariana’ tomou, após ter chegado ao País dos Lagos, o curso do Ródano e, a partir dele, colonizou toda a Gália do Sul e a Itália, uma outra parte, ‘o ramo do Reno’ subiu este rio e pontuou de colónias ‘ligúricas’ as suas margens. Atingindo a foz desse rio, estendeu-se a todo o

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Com a cronologia de Deucalião, que Martins Sarmento limita também ao século

XVI,

e a de Tucídides em

relação à expulsão dos Sicanos da Península pela invasão dos ‘Lígures’, Martins Sarmento começa a desenhar um quadro temporal em que se poderiam ter dado as fases iniciais de difusão ariana no ocidente da Europa. No termo do século XV, já as características essenciais da difusão ‘ariana’ no Ocidente da Europa estão grosso modo estabilizadas, sendo este lapso enorme de tempo que decorre entre esta data e o início da movimentação invasora dos povos célticos, o momento em que toda a Europa veria florescer uma civilização uniforme, nos temas decorativos, na construção de monumentos, ou na esfera ideológica. A este último respeito, é de sublinhar a importância que Martins Sarmento dá ao facto de Circe ser uma deusa ‘itálica’. É que esta figura divina, pelo seu carácter arcaico, escapa ao fenómeno mais tardio de tradução romana do olimpo dos Gregos, e abre a porta à argumentação sarmentiana de que a difusão do seu culto no Ocidente se teria feito em tempos anteriores à chegada da fase imperial dos Romanos. Claro está que, para a regionalização teórica associada à distribuição do culto de Circe deter uma validade argumentativa significativa, exigir-se-á que a fixação dos pontos do seu culto no mapa da Europa ocidental decorra de uma hermenêutica consensual dos documentos utilizados, especialmente a Ora maritima e as lendas gregas de Ulisses, Jasão e Hércules, o que, como vemos, não é um ponto garantido da teoria de Martins Sarmento. Martins Sarmento utiliza nesta sua proposição de fundo algumas palavras que remetem para o carácter íntimo da sua própria psicologia de pesquisa e da relação entre ela e a sociologia associada à estruturação da comunidade científica em que se pretende concluir: acreditar ‘piamente’ e com ‘a mesma fé’ parecem-nos ser mais do que simples recursos estilísticos: são também uma estratégia específica de devolver à prática científica uma dimensão ‘dogmática’ que é exigida previamente para se poder confrontar os dados a uma nova luz: são inúmeras as referências deste género ao longo da obra de Martins Sarmento, e todas elas remetem para a dificuldade propriamente metaparadigmática que o autor sentiu em fazer passar as suas proposições científicas. Esta prevalência do paradigma face à teoria é justamente uma dos elementos mais destacados por Kuhn na análise que faz das características psicológicas e sociológicas associadas à produção do conhecimento científico.

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Mar do Norte, incluindo as ilhas Britânicas. Partindo do ponto central de divergência do território ‘hercínico’ na Europa central, a ‘vaga ariana’ toma para si o curso completo dos dois rios que, quase tocando nas suas nascentes, põem em contacto o Mar do Norte e o Mar da Sicília, os extremos da viagem fluvial que Martins Sarmento admite atribuir aos Argonautas. Teria sido por este caminho que a notícia da qualidade do estanho das Ilhas Britânicas teria atingido o Mediterrâneo e estimulado o interesse comercial dos Fenícios; seria igualmente por este trajecto que os mesmos Fenícios, face à suposta intransigência dos Albiões em deixá-los cruzar o Passo da Morínia, teriam regressado da ‘primeira viagem ao Mar do Norte’. Para lá do carácter desassombrado da interpretação ‘literária’ de Martins Sarmento, existe porém um ponto associado à sua leitura da familiaridade dos povos da Idade do Bronze que não é insignificante na regionalização teórica da Proto-História do seu tempo. A relativa uniformidade de objectos de bronze por toda a Europa, associada à predominância teórica do difusionismo, havia levado a comunidade científica a tentar determinar um centro primordial (e uma ‘civilização’ associada, desde logo) de difusão das técnicas metalúrgicas respectivas. Um facto propriamente ‘geopolítico’ emerge ainda da regionalização teórica que Martins Sarmento associa à sua interpretação da origem, difusão e natureza da metalurgia do bronze na Europa ocidental. A ilha da Grã-Bretanha vem, por este intermédio, a adquirir uma importância fundamental na estruturação da economia de toda a Europa ocidental, que lhe é garantida, não apenas pela sua condição de detentora de recursos importantes, o estanho mas, também, de características propriamente civilizacionais que ultrapassam o papel a que normalmente poderia estar votada uma região periférica explorada. A segunda das duas características é atribuída por Martins Sarmento a esta região, unicamente pela transferência para a Inglaterra dos atributos ‘civilizados’ dos ‘Colquídios’ do Mar do Norte, numa composição indecisa e idealizada entre uma geografia histórica e uma lendária. A ilha dos Albiões, perdida nas extremidades do mar e da terra, torna-se deste modo um dos focos mais vitais do mundo ligúrico, e depois disto nem surpreende que a poderosa marinha de Aetes, nem a ciência geográfica de Argus e dos Feácios, conhecendo os caminhos do mar e da terra que sabemos, e de que deviam estar bem instruídos, já pela tradição dos seus

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antepassados, já pelas largas relações comerciais dos seus respectivos países com as populações mais distantes [Sarmento 1887a: 221].

A superioridade ‘civilizacional’ dos Albiões de Aetes não está, é claro, isenta de consequências importantes para a teoria etnogénica de Martins Sarmento em relação aos Lusitanos. Dela o autor irá eventualmente retirar parte da argumentação que sustentará a superioridade electiva dos povos da Península Ibérica, a partir das ‘relações comerciais’ que estes estabeleciam com a orbe ‘ligúrica’ de que eram o centro vitalizador. Uma das direcções principais em que se desenhava a extensão comercial dos povos ‘ligúricos’ das Ilhas Britânicas era, significativamente, a Península Ibérica, especialmente os ‘povos do Sudoeste da Espanha’ com cujas ‘famílias de régulos estavam enlaçados por casamentos’ [Sarmento 1887a: 221]. Esta referência de Martins Sarmento às ligações de parentesco entre os ‘Lígures’ britânicos e os ‘Lígures’ hispânicos (especificamente os tartéssicos) revela algo mais do que a costumada plana geral de civilização ligúrica com que o autor pretende subsumir todas as manifestações etnogénicas do Ocidente. Ela consiste, também, numa manifestação específica do tipo de fundamentação metaparadigmática das estratégias hermenêuticas do investigador, no que diz respeito ao aproveitamento etnogénico das referências literais personalizadas das narrativas lendárias gregas, das biografias das suas personagens mais importantes. A prova da relação do parentesco busca-a o autor na referência à personagem argonáutica de Frixo, que, na restituição geográfica levada a cabo por Martins Sarmento, sendo originário da região do Golfo de Cádiz, veio a unir-se com Calcíope, princesa de Ea, equivalida a Inglaterra. A força demonstrativa do parentesco que a personagem de Frixo propõe na nova ordem geográfica é apenas uma contribuição elementar para a substanciação completa da etnogénese ‘ligúrica’ com que Martins Sarmento pretende dotar o Ocidente e que virá a constituir o essencial da sua teoria etnogénica da Europa: Por este modo desde a ilha dos Albiões até o sudoeste de Espanha vai-se formando uma cadeia de colónias marítimas, muito semelhantes às do Reno e do Ródano, e imagina-se se a descoberta do estanho as não interessaria vivamente e não daria causa a um movimento comercial, idêntico ao que notamos para o interior da Europa [Sarmento 1887a: 221-2].

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Esta frase sintetiza alguns dos mais conspícuos elementos da teoria ‘ocidentalista’ de Martins Sarmento, e que são, como procuraremos demonstrar na parte seguinte deste trabalho o ‘espelho’ de uma ideologia liberal e burguesa que virá justamente a caracterizar, no tempo do autor, as mesmas regiões europeias que o autor consigna à ‘liguridade’. Por agora é suficiente que se designe esta mesma geografia na sua enunciação narrativa da obra d’Os Argonautas, como ‘escala regional’ de explicitação dessa mesma prefiguração ideológica.

Ao estabelecer o primado ‘ligúrico’ da sua ‘teoria argonáutica’, Martins Sarmento convoca uma identidade de civilização e de história entre o Ocidente e as manifestações da História da Antiguidade dotadas de maior prestígio, nomeadamente Grécia e Roma. Explicar o modo como essa esfera civilizacional ‘ariana’ se manteve nas regiões ocidentais da Europa, e compatibilizá-la com as fontes escritas clássicas que anunciam a sua conquista pelos ‘Celtas’ será, justamente, uma das mais insistentes estratégias heurísticas de Martins Sarmento, e de entre todas a que deterá maior capacidade de ‘crispação’ científica com a comunidade científica do seu tempo. A questão central que anima a sua produção científica, quer na hermenêutica da narrativa argonáutica, quer nas interpretações associadas das diversas ‘objectividades científicas’ permitidas pelas diversas ciências ‘auxiliares da História’ será a de demonstrar, não apenas a filiação ‘ligúrica’ (‘ariana’) dos povos ocidentais da Europa, mas a perenidade da sua civilização sob a difusão e dominação ‘celto-germana’ desses territórios, entre as datas que balizam as suas primeiras aparições até à derrocada final do Império romano. No contexto da longue durée proposta para a etnogénese ‘ligúrica’ do Ocidente, Martins Sarmento esforçar-se-á por fazer ‘acolchetar’ os mapas das diversas cronologias, esforçando-se por dar preferencialmente visibilidade a todos os atributos posteriores como pervivências ou distorções dos elementos históricos da argonáutica restituída. Também neste sentido, a ‘geografia argonáutica’ é matricial, porque dela depende a organização interpretativa das fontes subsequentes. Nos parâmetros de uma restituição assim definida, actuando retrospectivamente, a questão principal a que o investigador deve responder seria sem dúvida, a de saber 349

[o]nde estão nos tempos históricos esses dominadores do Ocidente. Na Itália, os seus representantes são sobejamente conhecidos e um deles, o latino, soube com o seu génio e a sua tenacidade lutar com todos os desastres e chegar a ser o primeiro povo do mundo; mas os Lígures da faixa ocidental da Europa, sobretudo esses Albiões no nascente da Inglaterra, que tanto deram que fazer aos Fenícios, esses famosos marinheiros feácios da foz do Reno, todas as populações que da foz do Reno se estendiam até o País dos Lagos, exibindo uma actividade própria de todos os povos novos – que é feito de tudo isto? [Sarmento 1887a: 224].

Da resposta que Martins Sarmento irá dar a esta pergunta, poderemos nós reconhecer não apenas a sua proposta (polémica) do ‘passado do lugar’ mas, também, criticamente recolher os indícios seguros da regionalização teórica e topografia social que comandam aquela mesma restituição, em suma, designar em todas as suas componentes o ‘lugar do passado’ em Martins Sarmento. Esta composição obedece a diversos níveis de estruturação social, cultural e até psicológica, e da sua caracterização detida tratará a parte seguinte deste trabalho. Por agora, bastará que se enunciem as principais etapas da constituição ‘sarmentiana’ da pervivência ‘lígure’ no noroeste da Península Ibérica, como um episódio têmporo-espacial singular da oposição bélica, ‘racial’ e ‘civilizacional’ entre o mundo ‘ligúrico’ e ‘celto-germânico’, termos que são, para Martins Sarmento, absolutamente antitéticos.

A dinâmica histórica do Ocidente europeu nos tempos proto-históricos será apresentada por Martins Sarmento fazendo-se acompanhar por algumas ideias-força que em conjunto prodigalizam a pervivência genealógica do ‘escuso’ noroeste da Península Ibérica como representante legítimo de um passado e de uma civilização verdadeiramente ‘europeus’. Essas ideias-força podem resumir-se em algumas palavras, deixando para mais tarde a sua caracterização específica e o modo como contribuem e reflectem a organização metaparadigmática da ciência histórica do seu autor e o papel central que a narrativa argonáutica nela vem a deter. 1) Em primeiro lugar, torna-se necessário salvaguardar a origem ‘ariana’ destes povos do Ocidente, de modo a que a criação ex-nihilo da arianidade ocidental possa constituir o pano-de-fundo necessário à sua própria perpetuação. Neste contexto, 350

Martins Sarmento esforçar-se-á por recolher a demonstração ‘original’ dessa criação civilizacional do Ocidente. Ora em nenhum outro lugar esta informação pode ser mais fidedigna, seguindo as regras de validação hermenêutica do autor, do que nos testemunhos dos próprios povos ‘arianos’ que se difundiram pelo Ocidente, a saber, os habitantes de Gales e da Irlanda. Será na tradição folclórica destes povos, especialmente nas Tríadas câmbricas, que o autor irá buscar o primeiro dos grandes argumentos da sua ordem interpretativa. As razões por que o faz são evidentes: a tradição oral de Gales, fixada em texto, detinha entre os folcloristas uma antiguidade venerável (apenas comparável à que a língua basca detinha entre os linguistas) que era reconhecida por todos os intervenientes da comunidade científica contemporânea de Martins Sarmento, embora, é certo, a ela se atribuísse uma origem geográfica e histórica distinta da que irá defender Martins Sarmento. Mas o valor específico desta tradição era respeitado por todos, e será por isso especialmente eleito por Martins Sarmento como o primeiro pilar da sua construção teórica – é que todos eram unânimes em reconhecer que os textos das Tríadas revelavam o mundo insular britânico anterior às invasões dos povos ‘continentais’, entre os quais os Belgas adquiriram notoriedade por serem referidos nas fontes clássicas (especialmente César) como habitando quer o norte da Europa continental quer o sul da Inglaterra. Martins Sarmento usará desta antiguidade incontestada do ‘povito de Gales’ para nela firmar uma cronologia ainda mais antiga, remetendo-o para a condição de ‘exemplar ligúrico’ dos povos que a geografia argonáutica reconhecia a habitar todo o território das Ilhas Britânicas e ainda toda a Europa continental. Mais uma vez podemos ver a importância matricial da narrativa argonáutica na estruturação da teoria etnogénica sarmentiana. De facto, as informações presentes nas Tríadas câmbricas serão especialmente valorizadas por se adequarem intimamente a uma das personagens d’Os Argonautas de Apolónio: o neto de Aetes, guia dos marinheiros mediterrânicos, que estes haviam recolhido de um naufrágio quando se aproximavam de Ea: Como se sabe, há ainda hoje na Inglaterra um povo que se vangloria de ser o primeiro ocupante daquela ilha e de ter conservado através de todas as revoluções a sua individualidade própria, a história do seu passado e até a sua língua primitiva. Este povo é o câmbrico (…). O primeiro [período da

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sua etnografia] compreende os Cymros puros, como eles se nominam, e que vieram colonizar a Inglaterra por mais de uma vez. A primeira colónia foi conduzida por Hu e veio do país de Af, onde hoje é Constantinopla (…). O seu caminho foi pois o do Danúbio e do Reno, como inferem justamente os comentadores. Dir-se-ia a cópia da tradição de Argus [Sarmento 1887a: 229-30].356

Está enunciada, deste modo, a ‘origem ligúrica’ da civilização de Aetes, e de todo o Ocidente, bem como convenientemente assegurada a ligação covalente entre o passado tradicional projectado pelas lendas câmbricas e a distorção grecocêntrica das diversas lendas ‘errantes’ do mundo helénico, Hércules, Jasão e Ulisses, que podem, a partir deste momento epistemológico provocado, ser apropriadas pelo Ocidente, como tendo ocorrido no litoral atlântico e como sendo levadas a cabo pelos marinheiros de Tiro.

2) Um segundo elemento estruturante é apresentado por Martins Sarmento com a intenção conjugada de dotar a sua teoria etnogénica da Europa de uma ‘arianidade’ pervivente e associada a uma das problemáticas mais discutidas na comunidade científica sua contemporânea: o problema do druidismo e da filiação étnica do povo dos Gauleses: No entanto a identidade do druidismo da Céltica e da Silúria, a identidade das línguas, são coisas incontestáveis, e seguramente nem os Sílures do poente da Inglaterra vieram copiar o druidismo e a língua da Céltica, nem às avessas. Mas, a solução destes enigmas não se mete, a bem dizer, pelos olhos dentro? Antes da conquista céltica a Gália central era habitada por povos em tudo semelhantes aos Sílures. Esses povos não desapareceram com a 356

A ênfase é nossa. Martins Sarmento, além de reconhecer nos Cymros os ‘povoadores’ das Ilhas Britânicas, vê

nas personagens triádicas subsequentes o espelho fidedigno da dinâmica histórica que se lhe seguiu. Assim, onde as lendas câmbricas designam um povo invasor (os Galedin) que, com o beneplácito dos povoadores originais, se instalam na ilha da Inglaterra, vê o investigador uma referência velada à fuga dos Lígures do Báltico, acossados pelas armas célticas; o facto de serem provenientes da mesma esfera civilizacional, no contexto da mentalidade histórica maniqueísta de Martins Sarmento, explicaria bem a pacífica convivência entre ambos. Mais tarde, uma terceira invasão assola a ilha da Inglaterra: os invasores (os Corânios) são já chamados de ‘usurpadores’, revelando assim que não são reconhecidos pelos indígenas, e deles se tornam os principais inimigos, sobretudo porque tomam o partido dos sucessivos dominadores da ilha, os Romanos e os Saxões. Trata-se, o nosso autor não tem dúvidas, de uma referência aos Celtas.

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dominação bárbara. (…). Mas a que se reduziu então a influência dos Celtas conquistadores? A questão está já resolvida pelo snr. Bertrand nestas poucas palavras: os conquistadores acharam-se em face do druidismo, como mais tarde os Francos em face do catolicismo. Quer dizer, uns e outros perfilharam a civilização dos vencidos. Incapazes de governar uma sociedade muito mais culta que a deles, e não querendo, ou não podendo destruí-la, contentaram-se com as regalias que lhes dava a sua posição de dominadores (…). [Sarmento 1887a: 232, 233, 234]

Esta frase reúne alguns dos principais elementos da fundamentação teórica e conformação ideológica do trabalho de Martins Sarmento no que diz respeito à problemática do druidismo e da filiação étnica e histórica dos Gauleses. A importância deste povo, em termos da regionalização teórica, dominante em meados do século dezanove, era tão mais sentida quanto os Gauleses eram apresentados pela fratria ‘celtista’ como sendo a matriz étnica da formação da França. Sendo este país um dos principais ‘produtores’ de ciência histórica de escala europeia, facilmente se verá a dificuldade que Martins Sarmento naturalmente irá sentir no momento de apresentar uma teoria contrária àquela que detinha o favor dos nomes mais sonantes do seu tempo. O modo como Martins Sarmento se move no recinto da problemática ‘céltica’ indicia as diversas esferas ‘paradigmáticas’ que são em si convocadas. O principal intuito do investigador é o de proceder ao ‘desligamento’ do druidismo e dos Celtas, e, indirectamente, à ‘desceltização’ das línguas neo-célticas, para assim poder plenamente integrar a ‘língua lusitana’ (a que as exumações a que procedia de diversas epígrafes davam testemunho material) no universo da ‘arianidade global’ europeia. A estratégia hermenêutica que vai ser levada a cabo por Martins Sarmento será – como teremos ocasião de acompanhar detidamente em momento posterior deste trabalho, quando nos referirmos ao papel dos Belgae na geo-historiografia do investigador – fundamentalmente a de tentar demonstrar que os povos ‘silúricos’, i.e., aqueles que a historiografia romana, sobretudo as fontes de César e Tácito, situam na face ocidental da ilha da Grã-Bretanha, e cuja luta feroz pela independência viria a ser o tema central de um dos livros do segundo daqueles historiadores romanos, são afinal da mesma estirpe dos Gauleses e dos Lusitanos. Este povo, habitando a moderna Gales, com paralelos culturais estabelecidos entre os habitantes da Irlanda e Cornualha, são os 353

‘célticos’ da historiografia posterior, obrigados a recuar em razão das movimentações dos povos saxónicos no termo da dominação romana. Porém, para Martins Sarmento, é justamente esta filiação que deve ser contrariada à luz da hermenêutica dos textos clássicos e do testemunho da Arqueologia. Estes povos que o Romano teria conhecido nas montanhas de Gales, chefiados pelos seus druídas, indómitos e orgulhosos, face às investidas das legiões, seriam afinal os legítimos representantes, não dos ‘Celtas’, mas dos povos que anteriormente a eles habitariam as duas ilhas britânicas. É esta a razão propriamente geo-historiográfica que leva o investigador a sentir a necessidade de apresentar os ‘Sílures’ como povos ‘lígures’, considerando-os simultaneamente como descendentes dos migrantes do Reno e antepassados dos viajantes que se difundiram no Noroeste da Península Ibérica. São, em suma, o vínculo necessário de parentesco da Lusitânia com os longínquos Árias. Como facilmente se adivinha, esta estratégia hermenêutica de interpretação dos textos de César e Tácito encontrará condições de recepção muitíssimo dificultadas, tendo em conta a tradição historiográfica do celtismo e especificamente a formulação geopolítica em que este se apresenta entre a comunidade científica contemporânea de Martins Sarmento. Existe, porém, uma outra razão que pode ajudar a compreender a razão por que Martins Sarmento sente necessidade de recuperar o druidismo ‘sílure’ e, por arrasto, o gaulês, para a esfera da ‘arianidade original’, recusando a sua filiação na esfera cultural dos Celtas. É que, como veremos, toda a força metaparadigmática da teoria etnogénica dos Lusitanos proposta pelo autor passa pela afirmação da pervivência da esfera da espiritualidade como sendo a única instância do mundo pré-histórico a sobreviver entre o ‘povo português’ do seu próprio tempo. O mundo das tradições e da religiosidade popular, de cujo fundo pagão o autor não duvida, é, por assim dizer, a trave mestra que garante a intemporalidade do ‘mundo ariano’ no território que vem a ser Portugal, e aquela que resiste à sucessão de episódios de dominação política e cruzamentos étnicos em que consiste a história do território. Face a uma evidência histórica de miscigenação étnica e fecundação multicultural com que contribuem os diversos povos que vêm à Península Ibérica, Martins Sarmento sente a necessidade de essencializar as origens e pô-las ao abrigo do carácter multiforme dessa mesma história. É neste contexto de idealização do Geist português que o passado ‘druida’ da religiosidade popular recolhe a 354

sua própria justificação, que é, no fundo, a de filiar directamente a essência de um povo no universo da civilização europeia de que o helenismo é a origem e matriz.

3) Na primeira parte deste trabalho, quando apresentamos as diversas modalidades e expressões da afirmação de um ‘ponto de vista geográfico’ na história do conhecimento e da ciência, fizemos referência à teoria ‘abjectivista’ de Kristeva, no contexto mais geral da crítica feminista harawayana da Modernidade enquanto projecto científico. É justamente em relação com esta ordem conceptual que devemos tentar compreender a posição de Martins Sarmento no que diz respeito à oposição estrutural por ele estabelecida entre ‘Lígures’ e ‘Celtas’, bem como a virulência com que o investigador dotará as suas opiniões e polémicas em redor da ‘questão do celtismo’. Em Os Argonautas, o autor deixa bem claro qual é a sua opinião sobre os Celtas, e sobre a sua influência civilizacional na etnogénese da Europa: Os Celtas não podiam deixar vestígios da sua civilização porque não tinham civilização nenhuma; o seu império não podia deixar de ser efémero, pois se, na Gália central, onde ele melhor deveria radicar-se (…), os conquistadores apenas se distinguem como uma casta guerreira, alheia ao governo do país, o que há a esperar dessas turmas que vêm embrenhar-se para o sul, isoladas umas das outras, e fixando-se aqui e ali ao acaso, e entre populações relativamente muito mais cultas que elas? E, se nestas condições a sua influência moral sobre os povos do sul é nula, como não pode deixar de ser, antropologicamente os seus resultados não podem ser muito sensíveis. É conhecida a lei, segundo a qual uma raça exótica vai degenerando e acaba por quase desaparecer ao fim de algumas gerações, quando vem viver e cruzar-se com uma raça indígena, que constitui sempre a grande maioria da população. (…). Em conclusão – nós admitimos (…) que a antiga etnografia do Ocidente tem apenas dois factores dignos de ser tomados em consideração – os homens do norte e os homens do sul, que disputaram sempre e disputam ainda o predomínio desta parte da terra. [Sarmento 1887a: 238, 239, 240. A ênfase é nossa].357

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Deve dizer-se que a opinião de Martins Sarmento sobre a degenerescências das raças tem uma longa tradição

no Ocidente, antecede o tempo do autor e continua largamente para além dele, se é que não podemos reconhecê-lo

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Três ordens de argumentos parecem-nos susceptíveis de ser apresentadas em redor da ‘questão do celtismo’ na obra de Martins Sarmento, desde o modo como aparecem enunciadas no seu opus magnum, que são Os Argonautas, e que servirão de pistas de desenvolvimento para os momentos de maior detenção interpretativa deste trabalho. Por um lado, a questão do ‘império celta’. Esta questão prende-se desde logo com a visão ‘heróica’ que a Arqueologia difusionista detinha do passado que estudava, e que consistia, basicamente, em atribuir às realidade da Pré-História atributos e qualidades do século dos seus intérpretes. Ora, o século dezanove é, quase por definição, a ‘era dos impérios’ na Europa, sejam os que se desenhavam dentro dos seus próprios territórios, quer os que a Europa laboriosamente ia construindo nos territórios dos outros continentes. Sendo assim, não admira que as referências históricas e vestígios arqueológicos do passado fossem subsumidos em duas ou três grandes esferas civilizacionais, ‘Lígures’, ‘Celtas’, ‘Germanos’, etc., cuja vinculação com as realidades da geopolítica oitocentista dotava de um inevitável ‘presentismo’. Martins Sarmento não é a este respeito diferente, pelo que, quando o vemos a invectivar directamente os partidários do ‘império céltico’ não é tanto pelo respeito pela afirmação da historicidade ‘local’, mas pela afirmação recíproca de uma outra zonação imperial, mais vasta, o suficiente para que nela se integrem as duas margens da bacia do Mediterrâneo.

ainda robusto nos tempos actuais. Existem, ao longo da segunda metade do século dezanove e inícios do século vinte, um palco privilegiado de afirmação deste tipo de ciência racialista (e racista) que corresponde a uma especial associação de uma epistemologia evolucionista (iniciada com Darwin) e uma situação política de confrontação entre os exércitos e colonos europeus e os povos indígenas do resto do mundo. Nesse contexto, o problema da ‘degenerescência da raça’ tomou particular acuidade, sobretudo quando se supunha estar praticamente vedado ao ‘homem branco’ a aclimatação às regiões tropicais (Felkin 1886, 1891 e 1892; Hunt 1853), sendo estas, em termos de discurso científico desse tempo, descritas em termos claramente ‘moralistas’ (e.g.: Eijkman 1924; Price 1939); como se compreende facilmente, a arqueologia dos territórios africanos será um lugar especialmente apto a tornar visível esta ordem epistemológica (Fagan 1981: 42-43). O que é, contudo, ainda mais curioso, é que, no contexto progressivamente racialista da ciência dos inícios do século vinte, o carácter ‘moral’ dos fenómenos científicos é trazido para dentro de disciplinas que à primeira vista poderiam parecer insuspeitas de poder gerar esse tipo de linguagem ambígua: veja-se, por exemplo, o modo como A. Miller (1933: 2) traz para o interior da climatologia formulações verdadeiramente ‘morais’ da ‘economia do clima’: ‘Psychologically, each climate tend to have its own mentality, innate to his inhabitants (…)’; cf. tb. Trewartha (1926: 472 e ss.); a esta ‘economia moral do clima’ não escaparam também os grandes exploradores, tanto mais que dela recolhiam o carácter diferencial da sua própria responsabilidade e superioridade inter pares: ‘[W]ith proper moral conduct (…) the European will be able to thrive in a hot climate as in any other climate under the sun (…)’ (Stanley 1885: II, 294)

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É no contexto de associação íntima da esfera cultural de Celtas e Germanos, levada a cabo por Martins Sarmento, que nós podemos ver, afinal, o essencial da sua teoria oposicionista e abjectvista do Passado (e, necessariamente, do Presente). Aquela associação íntima entre os povos da ‘barbárie’ não é senão o espelho de reflexão necessário à afirmação essencializada da ‘civilização ariana’ de que forçadamente obrigará os Lusitanos a participar. Lançadas as sementes de uma oposição estrutural no Passado, a história da Europa consistirá assim numa desenvolução esperada de dois princípios antagónicos de civilização, o ‘sul’ e o ‘norte’ – que será replicada sucessivamente como o ‘Lígure’ e o ‘Celta’, antes da ordem romana, o ‘Latino’ e o ‘Germano’ ao longo daquela, o ‘Espanhol’ e o ‘Holandês’ no século dezassete, o ‘Inglês e Alemão’ e o ‘Português’ no contexto colonial do século dezanove. Duas forças históricas em confronto, sempre imiscíveis, que a ordem narrativa da história concreta da Europa apresenta como a decadência progressiva do Mediterrânico face ao Nórdico, decadência face à qual apenas a força imaginária das ‘geografias do passado’ se pode contrapor, já que no presente a luta está perdida.

Tínhamos pretendido, neste momento do trabalho, designar as características essenciais de um opus magnum de Martins Sarmento – Os Argonautas – e enunciar as pistas de desenvolvimento do momento seguinte, mais interpretativo, para que ela destacadamente parece apontar. Uma interpretação mais completa pertence agora a uma esfera alargada da consulta do todo da obra do autor, que é o que nos propomos fazer na parte do trabalho que a esta se segue. Os elementos que ficaram apenas esboçadas nesta ‘ur-geografia argonáutica’ de Martins Sarmento serão complementados pela análise minuciosa dos seus restantes trabalhos e pela sua integração no contexto social e académico em que o autor se integra ou pretende integrar. Os níveis de análise que acompanharão esta segunda ordem de interpretação da historiografia de Martins Sarmento estão integrados, todos eles, numa preocupação comum de estabelecer as condições de associação íntima entre o produto científico da sua teoria etnogénica e a condição existencial da sua própria biografia, científica e ‘política’, esta última no sentido mais amplo do termo. Em suma, tentaremos enunciar os contornos de uma teoria das condições de formação subjectiva da identidade 357

científica e as diversas escalas em que na nossa opinião ela parece operar em Martins Sarmento. II. 3. Escala e identidade Uma teoria científica consiste, como qualquer outro produto de uma prática social, numa ‘convocação’ de